quinta-feira, 19 de julho de 2007

quarta-feira, 18 de julho de 2007

autores da CCC por todo o lado! POR TODO O LADO!!!


Eles andam por todo o lado!!! É o André Lemos que têm uma bruta de uma exposição PêssegoPráSemana (Porto), é uma série de autores que se encontram nos "restos mortais da 7ª Feira Laica", ou seja, na exposição "Tropa Macaca" na Bedeteca de Lisboa, e ainda para breve "O Mistério da Cultura", outra colectiva com trabalhos de André Lemos, Edgar Raposo, Joana Figueiredo, João Fazenda, Marcos Farrajota, Pedro Brito, Pedro Zamith entre outros na galeria WORK&SHOP: Parte I entre 21 de Julho e 16 de Agosto e Parte II entre 18 de Agosto e 13 de Setembro.
Marcos Farrajota participou com uma ilustração na revista Umbigo - cujo processo "técnico" pode ser visto aqui. Um exemplar da revista encontra-se à venda exclusivamente para os sócios da CCC com 20% de desconto.

terça-feira, 17 de julho de 2007

Zines meltdown

Este mês apareceu nas bancas um número da revista inglesa Computer Arts Projects que tal muitas revistas consegue ser simplória no tratamento sobre o assunto dos zines e do underground. E pior, tem o atrevimento de explicar como se fazem fanzines!? Como!? Pois é, como se fazem páginas em digital com o aspecto DIY dos zines. Não deixa de ser ridículo enquanto idea porque só se aprende como se faz um fanzine... fazendo. O que é sugerido é apenas um exercício entre outros mil que podiam ser executados para uma página ficar com um aspecto "imperfeito", isto é, com poucos recursos e/ou à mão.
No resto da revista vamos encontrar artigos "light" sobre a importância dos movimentos Hippie, Punk e Anti-globalização na cultura e no Design, sobre os "anarquitectos" Space Hijackers, o autor de bd Gilbert Shelton (dos Freak Brothers) e os ilustradores Ralph Steadman (ilustrador do "Fear and Loathing in Las Vegas" do fabuloso Hunter S. Thompson) e Raymond Pettibon (conhecido pelas capas de discos dos Black Flag e dos Sonic Youth). Nada que não se possa aprender na 'net mas suponho que os "nerds" não tenham tempo ou pachorra para isso. Tudo bem, se calhar estou a ficar demasiado purista para apreciar que estranhos venham e falem de zines. Ainda assim, não deixa de ser engraçado que uma revista de "nerds" seja capaz de oferecer um zine "manuscrito" do que por exemplo alguns zines como o Underworld que quer ter ar conservador. Marado! Mas creio que é o que diz a revista, mais tarde ou mais cedo, o "underground" acaba por vir ao de cima e muda as estéticas comerciais existentes - aconteceu com o Cubismo, a arte psicadélica do Rock, o Punk, o Grunge, etc... O que é pena é que aquilo que é mais bonito, a atitude DIY, não venha NUNCA ao de cima e continuamos todos os dias a sermos bombardeados com produtos em que só se muda o... template. Vade retro!

E então qual é a diferença da CAP com Whatcha Mean, What's a Zine? Tha art of making zines and mini-comics (Graphia Books; 2006) de Esther Pearl Watson e Mark Todd (os dois Funchicken)?
Simples, embora este livro seja para maiores de 12 anos e seja mucho americano, ou seja, quase que desmancha todo o prazer de fazer um zine por ser tão meticuloso e ético, é um livro que é feito por pessoas que são editores / autores de zines. O livro é todo "feito" à mão (desenhos, texto... também há texto dactilografado, o que na era digital já se considerado "manual") por pessoas como John Porcellino, Ron Regé Jr., Paperrad, Anders Nielsen, entre outros grandes cromos do mundo zinista norte-americano. E todos eles conseguem ser sinceros e utilitários em relação aos zines: os temas e conteúdos, o correio, impressão (fotocópia, serigrafia, outros métodos), formatos e agrafos, etc... todo o mundo dos zines é desmistificado com estilo. Deixa pouca margem de liberdade para descobrir como se faz (até porque neste mundo o "como se faz" deveria / é demasiado relativo) mas este livro é sintomático do nosso mundo, afinal de contas, o que nos dias de hoje é desconhecido?
Talvez os zines sejam já publicações mortas, umas publicações fotocopiadas, artesanato da era da informação que existiram nos anos 70 e 90 do século passado. Vou beber um copo à pala disso!

segunda-feira, 16 de julho de 2007

Novidades de duas visitas italianas

Estiveram cá com um ano de diferença, dois autores italianos e também editores...
O ano passado esteve cá o Gianluca Costantini com uma exposição na Bedeteca de Lisboa dedicada ao seu trabalho mais recente, as "bd's políticas", uma série que são mais ilustrações propriamente que bd's em que relatam acontecimentos políticos contemporâneos, sobretudo assassínios e agressões a jornalistas ou a cívis. À poucos dias enviou Political Comics : El indio #1 (Ed. de autor; Jun'07?), um zine de 25 exemplares apenas. Bem impresso, assinado e numerado, e o mais importante, em inglês para podermos entender melhor o trabalho. Provavelmente este zine surgiu da necessidade do autor em materializar os seus desenhos numa língua acessível. Os "Political Comics" já tem sido publicados em livro mas só em Itália e em italiano.

Alberto Corradi esteve na 7ª Feira Laica e dirige uma das mais importantes editoras "indies" italianas, a Black Velvet, que dispoe em catálogo vários autores europeus e norte-americanos conhecidos. Quanto ao "produto nacional" uma das maiores apostas passa por Massimo Semerano: os comic-bboks Rosa di Strada (3 volumes; 2000-2002) e a antologia Dr. Cifra Horror Show(2003). O primeiro título deveria ser uma tetralogia mas parece que estão previstos mais 2 volumes para os próximos tempos. O segundo reúne as bd's do personagem Dr. Cifra. Semerano é um virtuoso e ele que me perdoe mas não percebi nada do que se passa nas suas bd's - o meu italiano é duvidoso como é claro. Rosa (...) é uma história urbana bizarra com uma conspiração à mistura- bizarria é o prato forte deste autor a julgar pela série que desenvolvia com Francesca Ghermandi (ela desenhava) na Zero Zero. o Dr. Cifra é humor negro - em que mais uma vez o meu italiano falha para perceber tudo. A esquizofrenia italiana é bem saliente neste volume em que o estilo gráfico ora salta por quase um Jim Starlin (autor de comics cósmicos da Marvel nos anos 70) ora para umas macacadas mais Free.

Apesar de ser "caporedattore" da Black Velvet, Corradi também é autor de bd (como deveriam saber foi publicado em Portugal na antologia Mutate & Survive) e este é o seu primeiro livro, Regno di silenzio (Nicola Pesce; 2007), cujo título deixa adivinhar o que irá conter nas suas páginas: bd's mudas (sem palavras). Trata-se de uma antologia de várias bd's curtas que em comum tem a presença da Morte nas suas estórias cheias de esqueletos e caveiras estilizadas, e que se não fosse por umas estanhas cópulas entre esqueletos até podia ser um livro para todas as idades. A edição é presenteada por retratos de Corradi desenhados por Marco Corona em jeito de prefácio e posfácio.

Regno di Silenzio está à venda no site da CCC a 7€ / desconto de 20% para sócios.

Leitinho quente com Vodka

Roman Maeder é um dos editores do zine Milk+Wodka. Suiço que tem vivido por Berlim, esteve no mês passado em Lisboa para fechar a exposição na Bedeteca e visitar a Feira Laica. E trouxe música, muita música... em formato CD-R auto-editado como os Die Surf Angels (2005), banda Surf'n'Lounge de 7 elementos em que Roman faz as "bad guitar". Não havendo ponta de genialidade é no entanto uma banda instrumental que se ouve bem saltando do Surf energético e diurno para ambientes soturnos jazzísticos. Há uma boa presença de metais e não faltam versões de clássicos Surf mas há também de temas dos finlandeses Aavikko e das japonesas Shonen Knife. Mucho nice!
Continumos em contagem decrescente de elementos dos projectos musicais do Herr Maeden e encontramos Los Tres Lulus (200_) que são mesmo três (podiam não ser...) e que tocam Rock Naíf - o Roman canta, toca bateria e orgão. Rock Níf querendo significar que há um manancial de influências executadas com pica em gravações manhosas pelo mundo fora (Alemanha, Irlanda, Suiça, Eslovénia) que sem pudor versionam Ramones (I wanna be your boyfriend, Somebody put something in my drink), Cramps (Strychnine) misturado com clássicos Blues (Boom boom de John Lee Hooker), Latino (Porque te vas de José Luis Perales), Pop/Jazz (Blue Velvet de Bernie Wayne e Lee Morris) entre temas originais bastantes divertidos como Public Bath, um tema que glorifica as casas de banho públicas, uma risota!
A seguir a dupla Larry & Lena com On the sunny side of the street (2002) mais virado para um "Folk Urbano" (seja lá o que isso quer dizer) em que as versões ficam adulteradas como o whisky rasca, ou seja, nota-se a diferença mas bate na mesma: La garota de Ipanema de Stan Getz ganhou um "L" latino (Roman e a companheira não sabiam distingir lá muito bem o português do castelhano), Pornostar é uma adulteração de Moviestar dos Stereototal, "All I want to do..." é na realidade "You and your sister" com o título errado - Lembram-se? Era a única música que se aproveita dos This Mortal Coil, uma pérola cantada pela Kim Deal e Tanya Donelly; On the sunny side (...) é dos Pogues, claro, tocado com orgão de feirinha catita. É curto e simpático.
Por fim, a solo Roman transforma-se em "cowboy kitsch", o Larry Bang Bang, que tem como cartão de apresentação o Greatest hits (200_) - também tem um belo e verdadeiro cartão de apresentação em serigrafia (imagem) mas isso já é outra história... Este disco parece ser quase sempre gravado ao vivo, muitas vezes com conversas herméticas germânicas (para quem não percebe alemão, portanto), os temas são standards do Country e do Folk (Lee Hazelwood, J. Burns, Cash, Dylan,...) e o som é manhoso. Tudo bem, isto é para ser Country Trash como o Roman o define.

quinta-feira, 12 de julho de 2007

Em todo o lado mesmo!!!

«Oi Marcos,
vê lá o que eu descobri, numa feira de fanzines e edições independentes em Copenhaga... o SuperFight II espreita!! André»











«hehehhehehe ... não tenho minima ideia como poderá ter ido lá parar... qual o site que descobriste isto? M»

«Foi neste site, que é uma loja, galeria e acervo de zines www.telefontilchefen.dk e através da Smittekilde. ciau»

Coice de Mula #8

J. Tavares & J. Henriques; 2007

O JORNAL voltou! As maísculas não são exagero... desta vez para "despoluir", tema muito em voga nos dias de hoje pelas pessoas que poluiram sem consciência e que agora se encontram muito preocupadas com a merda que fizeram. A poluição e as questões ambientais há muito que foram retratas pelos anarquistas, libertários e ecologistas - como poderá ser provado nos números anteriores deste jornal para quem ainda tivesse dúvidas. Este número em particular dá enfase ao tema da poluição, sempre com uma visão inteligente sobre o assunto - sem utopias ou visões dogmáticas, o que acho muito importante para comunicar com as pessoas e não com "os de sempre". Não estamos perante eco-fascistas como o Penti Linkola, antes pelo contrário a humanidade continua a ser sacra nestas páginas.
O suplemento de futebol está poderoso, em especial o artigo sobre a ligação perigosa do Desporto com o Estado. Outros bons artigos: sobre a agricultura industrial, a questão dos incêndios, "Democracia e Propaganda"... De resto, o estilo hiper-realista do Frank Cinatra tem uma presença maior no jornal com as suas ilustrações e bd's.

5

jornal_coide_de_mula@hotmail.com

quarta-feira, 4 de julho de 2007

Ups! Estou enfraskado de tempo para falar do Tornado...

Pois acontece um tipo não é uma Hidra nem monstro mitológico para escrever todo o material que recebe / troca / compra...
Começamos pelo graphzine Cirque intraveineuse de André Lemos editado este ano (apesar da ficha ficha referir a 2006) pela editora francesa Francis Laporte. Todo feito em serigrafia segue a tradição da exploração gráfica de Lemos com esta técnica de impressão, que teve como estreia em 2002 com o Super Fight II (MMMNNNRRRG). Fazendo um jogo de duas cores, o amarelo e o azul, ora há impressão a azul sobre papel amarelo ora o contrário. Há uma grossa parte de publicação de ilustrações feitas de recorte de papel de lustro, uma faceta menos conhecida deste autor. Dos 35 exemplares que sairam da máquina eu duvido que haja algum para venda mas tentem a vossa sorte...

Continuando com caos, este caso com textos, desenhos, fotografias e bd's, temos o terceiro número do zine da Guarda, Ups! (Aquilo Teatro; Jul'06). Com menos páginas mas mais "free" do que o número anterior mostra alguns desenhos interessantes mas parece faltar um bocado de substância ao longo da publicação - gostaria de explicar melhormas estou cheio de pressa. Gosto especialmente da capa. Um dos editores, o João Louro, participou no Chili Bean (o zine dos 10 anos da Chili Com Carne).

A Piggy voltou aos zines durante a Laica em Oeiras e saiu O Enfrascado (ed. de autor; Abr'07) zine de ilustração que é fechado num... frasco! Desenhos sobre o mundo do trabalho precário e Portugal (o que quer dizer a mesma coisa, certo?) só é pena as fotocópias serem tão más, será que foram tiradas lá no Call Center? 3,9 [piggyonaise@hotmail.com]

Por fim, ontem o Estrompa deu-me o último número do Shock (Bonecos Rebeldes; Abr'07) com várias bd's incompreensíveis e toscas do seu personagem pastiche (ao Torpedo 1936) Tornado. O Estrompa já tem mais de 60 anos e ainda faz zines com estilo underground tosco e malcriado - só por isso tem piada porque em relação às histórias elas tem piorado. Interessante é a participação de José Lopes (que tem publicado em alguns zines editados do Geraldes Lino e lançou um malogrado DVD documentários sobre fanzines) de uma bd (policial, tema comum ao zine) com o seu estilo clean. É bom ver que ainda há movimento por aí! [à venda no alfarrabista Vilela nas Escadinhas do Duque, Lisboa]

...gracias Jucifer pela foto do Enfraskado que entretanto tem uma "segunda edição" com fotocópias decentes, sim senhora!

domingo, 1 de julho de 2007

Não há regras sem excepções

Tal como este país se queixa permanentemente de atrasos sobre a Arte, também acho que haja um exagero tipicamente latino relativamente a essas queixas, especialmente quando aparecem “coisas” como os Opuntia Books, perfeitamente sintonizados com a cultura contemporânea.

Desde Janeiro de 2006 que o ilustrador André Lemos começou a lançar edições que publicam desenhos seus ou de outros autores. Essas edições monográficas são feitas de tiragens limitadas entre os 50 a 100 exemplares – sem reedições, especulando a raridade dos mesmos. Cada exemplar é numerado com um carimbo e muitas vezes também são assinados pelo autor. O formato é o A5 e as capas são impressas em cartolina, muitas vezes em serigrafia. Por fim, as edições são embaladas em sacos plásticos para proteger algumas surpresas que costumam saltar do interior - folhas volantes, fotografias... Falta dizer que a impressão é feita a fotocópia a lazer garantido uma qualidade de reprodução, simulacro de uma impressão profissional.

Dos títulos até agora editados, dois são de autoria de Lemos: Even gravediggers read Playboy (Jan’06) e Family Portraits (Mar’07). No primeiro caso, é reproduzido uma selecção de desenhos do autor, no segundo, é uma série temática - um desfile de famílias toscas. Não porque elas sejam toscas per se mas porque a maioria das criações de Lemos tem um ar bruto, resultado do tratamento gráfico condimentado com traços musculados e negros; e, os desenhos são acompanhados por frases irónicas. Aliás, basta constatar pelo primeiro título a capacidade de Lemos para criar frases idiossincrásicas. A primeira edição é impressa sobre papel azul de 25 linhas – um pormenor sádico da burocracia portuguesa – e o segundo título inclui uma fotografia “vintage”. O primeiro título encontra-se esgotado, fechando desde já o seu ciclo de vida pública – embora quem o quiser consultar poderá encontrar um exemplar na Bedeteca de Lisboa, provavelmente a única instituição pública com um bom acervo de fanzines.

E por falar em fanzines, creio que tem havido confusão em designar os Opuntias como fanzines. Geralmente têm sido divulgados como tal (incluiu-me na lista de culpados) porque em parte em Portugal (agora sim, uma queixa) há alguma falta de denominações para alguns objectos urbanos. O próprio “fanzine” tem sido divulgado para qualquer edição com as seguintes características formais: publicações amadoras e não remuneradas que tratam de um assunto - daí a contracção das palavras: “fan” e “magazine” -, edições fotocopiadas de tiragem reduzida (100 exemplares máximo) e de distribuição ainda mais restrita (amigos e redes de contactos). É verdade que os primeiros fanzines, nos anos 30, que versavam sobre ficção científica, e nos anos 60 de música. Mas «desde os anos 70, que o “fã” tem sido abandonado do "fanzine". O aparecimento da estética “Do It Yourself” do movimento Punk aliado ao acesso às fotocopiadoras, fez com que as pessoas começassem a tratar de assuntos mais pessoais e que não poderiam ser associados à ideia de ser “fã” de seja o que for» 1, ou seja, os editores / autores não quiseram ser meros admiradores da cultura comercial e passaram a querer ser produtores de uma outra cultura, a sua, seja ela qual for. Os Opuntia teriam todas as características para serem zines, por manter as características físicas (tiragem e formato) e as de conteúdo pessoal ou artístico. Então porque se chamam de “Books” e não “Zines”? É que apesar dos fanzines ou zines serem aperiódicos (saem quando podem, dependendo do tempo e economia do seu editor) tem uma numeração como se fossem uma revista. Os Opuntias também saem quando o editor pode e também tem uma numeração poderá ser contraposto, no entanto, a numeração surge como uma colecção de volumes independentes tal como numa colecção de livros de uma editora profissional. O que são os Opuntia Books?

Mesmo sabendo que nem sempre as definições funcionam e que no mundo pós-moderno em que vivemos com avanços tecnológicos que por pouco são quase em tempo real (um exagero, eu sei), o que era certo há 5 anos poderá não ser hoje ou nos próximos 5 minutos. Eu diria que são “livros de autor” impressos na tecnologia barata da sua época tal como noutras alturas aconteceu com outros movimentos artísticos ou criativos: Dada, Futurismo, Surrealismo, Beatnik, Situacionismo, Fluxus, Punk, Rrriot Girl. Daí que não teria dúvidas que os Opuntia pertencem à cartografia de projectos gráficos radicais que misturam Art Brut, neo-psicadelismo, porno-hard-gore, iconoclastia ao ritmo Breakcore, estéticas kitsch do Punk ou do Metal, bichos fofos-freeform onde vamos encontrar (apesar das diferenças de estatuto) editoras como Le Dernier Cri (França), MMMNNNRRRG (Portugal), Boing Being (Finlândia), Francis Laporte (França), Smittkilde (Dinamarca), Bongoût (Alemanha) e Stratégie Alimentaire (França) – onde inclusive Lemos já participou em antologias ou livros a solo.

Na realidade o termo certo dos Opuntia são “chapbooks” mas não podemos usar a tradução da palavra para português porque significa "folhetos de cordel" - «literatura (…), persistente desde o século XVII, fora dos circuitos tradicionais do livro ou, melhor dizendo, paralelo a estes; (…) antecessor do livro de bolso, pela facilidade da sua circulação». 2 Em inglês, tem essa origem antiga - os folhetos eram vendidos por “Chapmen” (vendedores ambulantes) - mas foi rejuvenescida pela literatura marginal dos Beatniks que editavam em pequeno formato e baixo custo de produção. Não vale a pena queixarmos de não termos tido “beatniks” em Portugal, nos anos 50, a tristeza de Salazar era a cultura oficial mas reparem: 50 anos depois temos os Opuntias Beatniks, digo, Books! Rewind!

Raio Verde (Mar’06) é uma selecção de desenhos de Bruno Borges, num estilo gráfico que reduz os objectos ou pessoas a linhas essenciais que retratam fantasias infantis (um militar, animais, um mago). No interior há ainda uma separata com uma bd de quatro páginas que regista uma conversa de café do tipo «só estou bem onde não estou» em castelhano entre um tipo e um urso; e um envelope com desenhos soltos.

Animália (Jun’06) de Frederico é uma colecção de 30 desenhos de dinossáurios com mandíbulas ameaçadoras, feitos por este autor de 4 anos de idade. Um autocolante colado no plástico avisa: «pode ser usado como livro de colorir» por outras crianças - ou adultos, cada um sabe de si.

Suicide Reporté (Mar’07) e Life is life (Set’07) de Sylvain Gérand e Mehdi Hercberg, respectivamente. Sylvain é conhecido pelo seu trabalho de editor: o zine mutante L’Horreur est Humaine (que ganhou o prémio de Fanzine no Festival de BD de Angoulême), e actualmente as Editions Humeurs. Sylvain é sobretudo um virtuoso Pop mas ao serviço do “choque”. Um exemplo do seu trabalho pode ser visto nesta página - a criança com ar terminal que diz “Não tens um ‘naite, ó idiota?!”, ao seu lado, alguém desmaia numa típica convenção de cartoon. Um estilo Reader’s Digest mas com a mensagem “estragada”. Alguns desenhos parecem exercícios de estilo, com uma enorme capacidade de criar texturas complexas. Hercberg é simétrico a Gérand, as imagens que cria num estilo “ratty” (devedor a Gary Panter) de figuras humanas em permanente derrame. Apesar da decadência física, as personagens tem um carisma por parecerem simpáticos patetas. Grind-Cutie Pie? Hum…

Sítios: opuntia-syndrome.blogspot.com, opuntia-books.blogspot.com, chilicomcarne.com.


1 In Cascais Submerso (Chili Com Carne; Set’07)
2 Da mostra documental “Folhetos de Cordel e outros da colecção de Arnaldo Saraiva”, que esteve patente na Biblioteca Nacional este ano.

Texto publicado na Umbigo