terça-feira, 28 de maio de 2013

Danças macabras


Na sua visita laica a Portugal, o holandês Marcel Ruijters, arranjou-me um belo livro desdobrável intitulado Totentanz (Les Branquignoles; 2012). Impresso em serigrafia com uma tinta branca sobre cartolina vermelha trata-se uma BD de uma imagem por página em que Marcel explora o seu universo medieval-cómico com esqueletos gaiteiros e freiras armadas em mártires mas que gostam mesmo é de pecar! Já deve estar esgotado mas nunca se sabe, procurem! E já têm o Inferno ao menos?


Os Tonto enviaram coisas incriveis ainda antes de virem à Laica - e que serão comentadas na segunda parte do artigo "comix remix". Entre elas o mini-comix Natural Black (Kabinett; 2011) de Simon Hauble que lembra na figura feminina o traço dos Hernandez Bros, e nos ambientes negros da floresta o Charles Burns ou o João Maio Pinto... Tal poderia deixar pouco espaço para Hauble na sua própria BD caso esta não fosse uma BD de quem colabora no processo fragmentário e de "remistura" dos Tonto. Parece que havia montes de desenhos com temáticas idênticas e o autor misturou tudo para dar sequências mas na realidade não sabemos, só podemos desconfiar. Ah, o azulejo da fotografia acima não é meu...


Do Brasil, saiu Bukkake (Cachalote; 2012) de Pedro Franz, autor que tanto surpreendeu com Promessas de amor (...). Se tivesse a infelicidade de viver na Europa o trabalho já teria problemas de acusações judiciais de pedófilia (como Miguel Angel Martin teve em Itália) dado ao teor visual da obra que mete crianças a ritualizarem satanismos com sexo (claro, só assim que se pode captar energia mágica) e acabar em ejaculação digno de uma mangueira de um carro de bombeiros - ok, perceberam o "bukkake", certo? O papel lilás do livro lembra as procissões católicas e talvez isso tape a polémica que obra poderia gerar...

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Graphzines

12 páginas circulares é o que faz o Fanzine do Sol (2012?) de Rafael Ayres, sem assinatura, título ou seja o que for... É mais um objecto artístico que outra coisa caso não tivesse reproduzido em fotocopia lazer. Também não está numerado e custou uns 0,5 cêntimos o que lhe tira, felizmente, o estatuto de livro de artista - essa coisa elistista que não interessa a ninguém. O que se passa aqui? Celebração freak do Sol? Caos criativo juvenil? Who cares! É bem fixe este grafzine!


The Freak Sons de João Guapo é justamente o contrário do "Sol", é mais lunar nas suas (também) 12 páginas A5. É uma publicação gratuita com o objectivo de promover o trabalho de Guapo, ilustrador e autor de BD. Alguns desenhos são interessantes outros não acho o mesmo, para dizer que são bastantes feios, ops, já disse... Coisa limpinha e beta!


A Plana Press é capaz de ser a editora com o melhor Design de sempre em Portugal, dá vontade de comprar todos os livros deles mesmo que o conteúdo (infelizmente) na maior parte das vezes seja um bocado "plano" - como acontece com este Vumbi (2013) de Rita Carvalho. A sinopse fala de um "mapa narrativo" que denuncia o horrível colonialismo belga no Congo nas mãos do criminoso Rei Leopoldo II mas quando tiramos o "mapa" apenas temos dois (três) retratos com texto e outras imagens à volta e uma folha volante com texto. A simplicidade das imagens e da estrutura gráfica parece apenas um exercício gráfico que nem se quer têm excessos ou violência para perturbar - isto se acharmos que uma fila de mulheres negras escravas ligadas com coleiras ou um rapaz com a mão direita cortada como castigo corporal sejam "pouco violentos"!!! Mas sobretudo o que confunde mais é porque se faz uma edição luxuosa sobre um tema político, quer dizer, cada um gasta o seu dinheiro como bem quiser mas ao criar um produto "deluxe" sobre a miséria dos outros, entra-se num paradoxo dificil de resolver e que me leva a alinhar com o cinismo de um amigo meu que diz que os temas sociais e políticos estão na moda. Ora também é verdade que não estamos perante um panfleto ou um cartaz de rua então estamos perante o quê? O pouco trabalho que é mostrado não ajuda a chegar a nenhuma conclusão.

Zoobótica (Dona Zarzanga; 2012) de Andreia Rechena parece um portfólio de desenhos dedicados a bicharada com elementos electrónicos a sairem ou a fazerem parte do seus corpos - é bicharada ciborgue, no fundo... Porreiro mas sabe a pouco nas suas simples 16 páginas A4, como muitas das produções da Rechena, falta-lhe ambição de fazer mais - e consequência inevitável, melhor. O que é pena pelo tempo que se perde. Toca lá a desenhar mais, caramba!

Já o Martin Lòpez Lam com o seu No todo lo que brilla es oro : dibujos 2009-2011 (Ediciones Valientes; 2012) mete um cagalhão na capa mas toda a gente baba com o seus podereosos desenhos do interior. Ou o Martin é parvo ou então é esta a diferença entre os portugueses e os espanhóis - embora Lam seja peruano! - os primeiros fazem meia-dúzia de coisas e acham-se os melhores do mundo, os outros fazem muitas e grandes coisas e acham-se uma merda! Vá-se lá perceber porquê... Usa também serigrafia para intervir nas páginas. Bela edição sem dúvida!

 E para acabar - e em grande - Trude Rabbit (Forte Pressa; 2012) de Bambi Kramer é uma experiência extravagante com as nove folhas soltas e dobradas em duas partes. Ao abrir todas as folhas podemos juntá-las e fazer um painel de seis metros de animalário que sofre estranhas e arrepiantes metamorfoses. 
Houve inteligência na forma como se editou este conjunto de desenhos, seja na disposição gráfica ao longo das folhas seja pelo objecto. Excelente trabalho da italiana Forte Pressa que começa agora a fugir à simples antologias do Festival Crack.

Bestiário na Atual 2117 (25/5/13)


Sim, sim: Atual sem "c" porque é suplemento do Expresso, que é a favor da javardeira do Acordo Ortográfico... Muchas gracias Sr. Morales!

domingo, 26 de maio de 2013

Ontem jantei marisco antes do concerto Punk, hoje almocei pita shuarma a ler o Mein Kampf

Endless Night

Ed. de autor; 2010

Graças ao Lodaçal Comix recuperei o "link" com Aaron $hunga, autor de BD que descobri na 'net há uns bons anos e que depois desapareceu levando consigo a impressionante BD Vacuum Horror / Aspiração Horrífica.
Em Dezembro de 2011 consegui editá-la pela MMMNNNRRRG e enquanto ia preparando o livro, fiz algumas trocas de livros com o autor e ele enviou esta antologia. São BDs curtas de recorte autobiográfico onde nos abre as portas para uma galeria de punks, losers, hipsters, "arteists" e outras criaturas urbanas desesperantes. O tom negro dos contos afasta-o das comparações à superfície de Daniel Clowes e Adrian Tomine mas também por causa do "mash-up" temático que faz de surrealismo e de escatologia. O trabalho de Aaron parece simplificado mas os discursos e relações fragmentadas das personagens são o retrato social completo deste milénio no mundo ocidental.
Ah! Para quem possa estar confuso entretanto: "shunga" em japonês significa "pornografia", e o autor como sabe que nos EUA ninguém é capaz de se lembrar de um apelido "tão pouco americano" como Kaneshiro passou a usar $hunga para ser mais fácil... Repararam na ironia do $, certo?

Temos um exemplar para venda deste livro - prioridade para sócios CCC. Contactar via ccc@chilicomcarne.com

sábado, 25 de maio de 2013

Contos Sérios e outras estórias #2, 3

Fev'12/Abr'13

De Coimbra apareceu um zine de contos com um design impecável e aspectro gráfico exemplar. Os textos que pupulam por aqui entram na vertente "non-sense" e surrealista "light" - a lembrar Boris Vian, o que pode ser bom para quem gostar de Vian, não é o meu caso embora adore os policiais xungas do "traduzido" Vernon Sullivan!
Formato A5 e fotocopiado como manda a regra zinista, os seus editores devem-se divertir à grande a fazer isto matando o tédio da "cidade do conhecimento" (pffff!) e até convidam ilustradores locais, como o "nosso" Manuel Pereira ou o Eduardo Pécurto, para animar a coisa. Fixe!

contosserios.wordpress.com

(imagem do zine retirada por infrigir copyright de um autor anglo-saxónico paranóico)

segunda-feira, 20 de maio de 2013

exposição do livro Kassumai no Festival internacional de BD de Beja


e em Beja já se começa a preparar o festival ...  deixo-vos aqui um dos painéis realizados para  a exposição do livro Kassumai da minha autoria.

Mutate & Survive 2013



O livro já esgotou mas fica aqui e agora a hipótese de o ver / ler online gratuitamente através da plataforma issuu - pela conta da MMMNNNRRRG. Foram corrigidos dois erros de paginação nas BD's de António José Lopes e Ranjith Perera. Agradecimentos ao Adriano da Porta 12 que nos rccuperou os ficheiros da tecnologia de Design de 2001 e corrigiu estes pequenos enganos.

Descartes X



Ghuna X (Marvellous Tone; 2011)

E ao quarto álbum chegou o vinil. Depois de Rokspace (CD), Patine (online) e A Grande Explosão (CD-R e online), Ghuna X chega a um LP (em vinil, boy!) homónimo que têm mais ligações ao último registo devido ao seu estranho fascínio pelos sintetizadores siderais dos "Cosmonautas-músicos" manhosos dos anos 70 e 80. Se eram manhosos há 30 anos, continuam a ser nos dias de hoje mesmo que se ponha carradas de Electrónica, Hip Hop e Dub de qualidade por cima.
Sendo um dos objectos fonográficos mais bonitos alguma vez feito em Portugal merece desde logo a nossa atenção graças à sua bela capa serigrafada e à grande rodela de vinil transparente! Se calhar, merece mais a nossa atenção por ser um disco disfuncional, que promete algo que nunca oferece. O seu possível roteiro de dança é sempre desviado. Os breakbeats brekam demais. Os sintetizadores vintage-foleiros interrompem-nos o bom-gosto. O dubstep não stepa nem duba como esperamos. No fundo é um disco sintonizado ao Universo porque como sabemos ele não funciona bem. As manias mecanicistas que o Universo é divino, perfeito e matemático são uma treta - ver as teorias das Borboletas, Entropia e Caos a provarem justamente o contrário. Na verdade, basta imaginar isto, depois de milénios de angústia existêncial, de luta contra o Capitalismo, a Opressão e a salvar baleias, imaginem isto, sim, imaginem isto: chega prái um meteorito à Terra e arrebenta com isto tudo! Um bocado "injusto" não é? Que se lixe o Descartes, viva o Ghuna X!
Não me entra este disco, desconfio que seja daqueles discos que só se vou perceber a sua importância daqui a 30 anos, não querendo dizer isto que o Jean Michel Jarre será melhor 60 anos depois...

domingo, 19 de maio de 2013

Playground

Berliac
Ed. Valientes; 2013

O argentino Berliac escreveu e desenhou um impressionante ensaio sobre BD em que fazendo uma espécie de "making of" do filme Sombras (de 1959) do realizador John Cassavetes (1929-1989) acaba por criar um manifesto pessoal sobre o que é Banda Desenhada.

Esta relação não é óbvia porque Berliac não pretende fazer nenhuma espécie de ligação técnica entre Cinema e BD por motivos visuais ou narrativos. Justamente por Sombras ser considerado um filme seminal para aquilo que passou a conhecer por "cinema independente". A sua forma de produção, filmagem e direcção de actores foi tão inversa ao sistema do "actor's studio" e de Hollywood, que permite relacionar, depois de mais de 50 anos após a sua realização, as suas questões artísticas e de produção para um ensaio sobre... BD.

O livro que temos aqui é um livro de BD tal como Berliac acha o que é BD, desenvolvendo um discurso que só pode ser vinculado à publicação do próprio livro. Usa não só "imagens e textos" com ar de acabados (para consumo público) como ainda notas do autor durante o seu processo de criação - incluindo também uma pequena conversa no Facebook com o brasileiro Pedro Franz. Eis um livro refrescante e importante para qualquer criador independente, seja de BD seja de outro médium.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Futuro RIP


E foi esta a última paragem da exposição do Futuro Primitivo...
no Festival Ugra Press / S.Paulo / Brasil

quinta-feira, 16 de maio de 2013

comentários nada aborrecidos ao Boring Europa

On 2011/04/04, at 11:06, eduarda wrote:
Olá sou aquela cota que ontem comprou o "boring europa". Eu também tenho uma ford transit e também já fiz aos mil kilometros por dia. Bem empregues dez euros, estou a degustar o livro, é muito bom! Acho que me vai inspirar para (re)começar os meus diários. Com outro espírito :)

From: David Campos, Sent: Fri, 8 Apr 2011 19:56:02 +0100:
MUITO BOM, 'tá uma boa mescla e 'tá bastante perceptivel, (deve ter dado um trabalhâo compilar aquilo), para além disso foi muito importante examinar minuciosamente pois nunca tinha visto um livro de viagens assim... e até já me deu muitas ideias novas para o meu livro estão todos de parabéns!!! acabei por ficar com a sensação de ter viajado convosco eheheh.

On 2011/04/21, at 18:10, ricardo martins wrote:
tenho lido o livro enquanto estou em viagem (o que é algo so por si interessantissimo). [o Ricardo está em tour com os I Had Plans]
Como é fazemos melhor este ano? ou é só meninos?=P

On 2011/05/13, at 15:32, Tiago Cavaco wrote:
o Boring Europe em poucos dias e gostei! É uma micro-odisseia panque com aquele leve sabor de derrota que o turismo implica. A única nota realmente negativa é aquele e-mail final okupa tão inoportuno quanto ridículo (esses teus amigos comunistas só conseguem despertar ternura).

From: ana maria Sent: Thu, 19 May 2011 12:23:45:
gostei do boring, n achei boring (achei mais boring umas ilustrações, aquela cos caracois mas está bem feita etc.) e algumas minhas tb, gostei de ver a dif entre cada forma de contar. ehpá isso sim. deu para ver muitos ovos debaixo dos braços ^^

On 2011/05/23, at 14:22, Afonso Cortez-Pinto wrote:
entretanto ja li o boring, nada boring, pelo contrario. confesso que inicialmente me tenha sentido um bocado enganado pois esperava um diario de bordo. esperava ver/ler aquela tensão de quem passa dias fechados numa carrinha e só vê estrada à frente, manchas de gordura de kebabs e comida de bomba de gasolina, mau ambiente entre os intervenientes, etc. enfim, um pouco mais de caos ou pressão que se calhar, se tivesse sido feito na altura, tinha captado.
mas não. é de facto, como diz no título um (bom) "guia de espaços independentes" de uma europa de 2010, não turística, com todos os seus artefactos alternativos. e, mesmo tendo sido concebido posteriormente, capta realmente, e bem, os momentos e os espaços, dos churros às lojas.
independentemente do desenhos (há alguns registos que francamente não gosto ou não me dizem nada) tenho que dizer que os cadáveres funcionam bastante bem, os desenhos na bíblia são talvez talvez os meus preferidos (e inspiradores para quem como eu não sabe o que fazer a um monte de livros que estão por aqui em caixotes) e achei genial o apontamento sóbrio que são as plantas arquitectónica dos espaços que de certa forma tomam a rédea do guia (para o bem e para o mal)
acho que foi dos livros que mais gostei de ler da chili, ou até do que tenho lido ultimamente, muito por causa do seu caracter de documento, que como sabes, é uma coisa que me interessa ultimamente. parabéns.


On 2012/03/26, at 18:20, Mario Pereira wrote:
Cinco desenhadores e um músico da associação Chili com Carne traçam uma linha no mapa que começando e acabando em Lisboa, demora quinze dias a unir oito cidades europeias. O modelo adoptado é em tudo semelhante ao de tournée do circuito musical europeu de bandas não-mainstream. Os desenhadores e músico transportam-se numa carrinha encontrando-se com outros desenhadores e promotores em espaços culturais e artísticos independentes. Aqui realizam eventos em que mostram e vendem as suas produções em simultâneo com actuações musicais. O livro é constituído pelo registo em banda desenhada e ilustração realizado pelos cinco desenhadores e pelos desenhadores com quem se vão encontrando na viagem, abordando entre outros temas o percurso e as suas vicissitudes, características das diversas cidades e países da europa por onde passam, autores locais, técnicas e modos de edição, diferentes visões e opiniões… O foco principal incidirá na cultura independente e alternativa subjacente aos espaços onde decorrem os eventos, a sua organização e ambiente. Há ainda tempo no epílogo para reflectir sucintamente sobre projectos culturais semelhantes em Lisboa. Formalmente estamos perante um livro de viagem feito por muitas cabeças e mãos (e olhos, ouvidos, etc.), em que uma narrativa pode começar a ser feita por um/a autor/a e ser acabada por outro/a, entre outras combinações mais complexas, inclusive o experimentalismo puro de comic jams/cadáveres esquisitos entre desenhadores portugueses e desenhadores locais. Isto sem descurar preocupações de rigor, evidentes na paginação, mapas, informação sobre quilometragens, custos e horas de viagem dos trajectos, calendário, plantas dos edifícios, balanços finais das contas...  Acaba por produzir-se uma elevada quantidade de informação, que é digerida num alternar constante mas enriquecedor de estilos, técnicas e narrativas, num ritmo que acaba por ser nada-boring, mantendo o leitor agarrado até ao fim da viagem.

Wed, 6 Feb 2013 20:49:03 +0000, Boris (dUASsEMIcOLCHEIASiNVERTIDAS):
grande trabalho, a ideia está excelente e as misturas dos diferentes traços dá-lhe um granda power.. onda quase sci-fi! ainda não acabei mas estou mesmo a gostar, identifico-me bastante com o tour mode!

filipe SWR inc.: quinta-feira, 16 de maio de 2013 20:36:
fiquei a aprender que existem okupas ricos e pobres.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Parte de todo esto


Martín Lòpez Lam
De Ponent; 2013

As pessoas são burras, estúpidas, egoístas, complicadinhas, fodidas da carola seja em Lisboa, ou no Porto, em Barcelona ou Valência, Lima (no Perú) ou Ponte de Lima já agora. Este é um livro sobre isto. Quer dizer, não é... é sobre pessoas, as suas relações com outras e o meio que as rodeiam. Se calhar nem é isso, na realidade é uma forma do autor falar sobre a sua relação com o seu país-natal, o Peru - Martin emigrou para Espanha, para a cidade de Valência, há uma década e tal.
Talvez as suas histórias em Lima poderiam ser as mesmas que se fossem em Lisboa - as pessoas são as mesmas em todo o lado, a diferença é que em Lima de vez enquando explodiam bombas implantadas pela Sendero Luminosa, uma organização terrorista de teor marxista que operou no Perú entre a década de 80 e 2000. Não havendo feridos dessas bombas nem se querendo um retrato jornalístico ou antropológico, é a forma como se vive e como se conta que faz a diferença, dentro de uma tradição de raiz latina-americana na BD onde vamos encontrar os irmãos Hernandez e o mestre José Muñoz. Martin apesar de novinho e só com este livro já se meteu ao lado destes! Só lhe falta a fama e respeito que os outros têm! Como é possível?
O livro é pesadão com as suas 200 e tal páginas cheias de tinta da china à pincelada - a lembrar o registo gráfico do belga Joe G. Pinelli - num tamanho de álbum que deverá meter inveja a muito francês tosco. O livrão junta várias BDs - algumas ensaiadas no seu zine Kovra - que são fragmentos autobiográficos e auto-ficções de Martin na sua juventude nos anos 90 no Peru. O texto é tão pesado como o livro porque não obedece à regra comercial da BD do pouco texto mais imagem tão em voga nos dias de hoje mas também não escreve para ser redundante - o texto não repete a imagem. O teor literário desta obra pode ser encontrado em outros autores de BD que também partilham a autobiografia como Eddie Campbell (o seu trabalho com Alec), Fabrice Neaud e o referido Pinelli ou a auto-ficção como Adrian Tomine nos bons velhos tempos do Optic Nerve. Não se sabe onde está o Martin nas várias personagens que aparecem nas BDs, não sabemos se ele é tão cínico nas suas opiniões pessoais - tudo diria que sim a julgar pela sua participação no Boring Europa - ou se é tão tarado pelo sexo oposto (idem idem aspas aspas) como se vê e lê com as personagens do livro.
A beleza do livro é como todos os pensamentos dessas personagens, alter-egos de Martin, vão criando um sentido e uma resposta final sobre o que Martin pensa sobre o seu passado. Se ele alguma vez o Martin voltar a Portugal para alguma feira de edição independente (esteve duas vezes na extinta Laica) não lhe perguntem pelo Peru mas comprem-lhe este livro, sff.

Este é para mim já um dos livros de BD de 2013. E não é à toa que é um livro que serve para várias interpretações. O próprio autor já tratou até disso publicando o Dote de poto a tres (Ed. Valientes; 2013) descrito como um «zine improvisado e realizado a partir de desenhos e vinhetas da BD "Parte de todo esto", do mesmo autor junto a outras imagens encontradas».
Trata-se de um "comix-remix" sofisticado de reaproveitamento de imagens com um texto completamente novo. As estruturas narrativas de Parte de todo esto não influenciam em nada este novo trabalho, o uso é exclusico sobre o(s) desenho(s) para contar algo diferente, tanto que a "literatura" de Martin prevalece sem ter-se de vergar à figuração humana para avançar o texto. Obra independente do "livrão", não é preciso o grandalhão para "perceber" este. Genial!

domingo, 12 de maio de 2013

Entrevista de Filipe Quaresma a Rafael Dionísio, na Rádio Stress

é o REP! e nós vamos estar lá!!!



RUI EDUARDO PAES
Entrevista ao vivo
12 de Maio
21h45

Cinema City Classic Alvalade
(Lisboa - Avenida de Roma, 100)

Sobre jazz, improvisação, o novo livro prestes a ser publicado, ‘A’ Maiúsculo com Círculo à Volta, e o último, Bestiário Ilustríssimo

Por PEDRO TAVARES (RUA DE BAIXO / LE COOL LISBOA), com transmissão em directo pela RÁDIO ZERO. Posterior publicação nas revistas online RUA DE BAIXO, LE COOL LISBOA e JAZZ.PT. Reportagem vídeo de JOÃO COIMBRA (CINEKLEIST). Concerto com LUÍS VICENTE (trompete), IURI ANDRADE (saxofone alto), BRUNO PARRINHA (clarinetes soprano e alto), PAULO GALÃO (clarinete baixo), LUÍS LOPES (guitarra eléctrica), MIGUEL MIRA (violoncelo) e JOÃO LENCASTRE (bateria)

vai estar lá uma mesa com os nossos livros!

www.ruadebaixo.com
lisboa.lecool.com
www.radiozero.pt
www.jazz.pt

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Toing Toing Toing Toing Toing Toing



Parque : The Earworm Versions (Shhpuma / Clean Feed; 2013)
Zul Zelub : Ultimaton (Plancton; 2012)

O disco de Parque é o registo áudio de três performances na Culturgest em 2008 ligadas às instalações de Ricardo Jacinto, autor que se divide entre a música e a escultura. O que ouvimos aqui é electroacústica formada de restos mortais de Jazz partilhados com as tais instalações de Jacinto - que são vidros suspensos. Os vários músicos interagem / improvisam com os sons gerados pelos vidros, o que pode soar a algo mais extravagante do que realmente é. De forma generalizada, e sobretudo devido ao texto recitado em Os, esta música desorienta-nos como se tivessemos sido despejados para o Solaris de Andrei Tarkovsky.
A Plancton tem um ritmo demorado e espaçado no tempo mas cada vez que edita um CD há razões de celebração e curiosidade, uma vez que esta editora tem feito um excelente trabalho de reedição de música electrónica experimental portuguesa. Desta vez o projecto contemplado à recuperação é Zul Zelub -já aqui comentado. Não tenho nada a acrescentar ao comentário, excepto que sendo este disco de estúdio, o som está mais apurado e é também mais agressivo os ruídos concretos e electrónicos de Jonas Runa... No disco da Clean Feed, era o piano de Jorge Lima Barreto que tinha protagonismo, aqui menos. Um disco mais duro este...

Merci ao AOZ pelo disco de Zul Zelub, que tem uma fotografia sua do Barreto.

sábado, 4 de maio de 2013

Serigrafias Bestiário Ilustríssimo na Porta 12 (Sintra)


Estas serigrafias estão à venda na loja em linha da Chili Com Carne mas o melhor é vê-las "ao vivo", por isso para quem não aproveitou as recentes mostras da Charlotte Moorman na Livraria Sá da Costa ou as de Elliott Sharp, Nobuyasu Furuya, Rafael Toral e Sei Miguel na Matéria Prima de Lisboa para comemorar o Record Store Day; podem ir à derradeira exposição que inaugura no dia 4 de Maio, às 17h, na Porta 12, em Sintra.
Para quem (ainda) não sabe estas serigrafias são relativas às ilustrações, de autoria de Joana Pires, para o livro Bestiário Ilustríssimo de Rui Eduardo Paes. Fotos da produção aqui.


quinta-feira, 2 de maio de 2013

ccc @ MEA 2 + Edita + Edita Lx


Este fim-de-semana invadimos Espanha pela capital (imagem) e pelo sul - o sul, o ataque será dirigido pelo General Rafael Dionísio, na capital será pelo Comandante Rui Silva.
Depois de perdermos a batalha (os espanhóis são mais que as mães!) voltamos a Lisboa nos dias 10 e 11 de Maio, para lamber as feridas.
Só não colocamos os cartazes da Edita (Punta Umbria e Lisboa) porque são uma valente merda...