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segunda-feira, 16 de maio de 2022

TORRE TERMINAL


 

Apesar de censurado pela FNAC no ano de 2014 - como o tempo passa - eis que a colombiana Vestigio editou agora o Terminal Tower de Manuel João Neto e André Coelho, com uma "portada" linda! De resto, em 2019 esta editora já nos tinha feito a versão castelhana do W.C. de Marriette Tosel - originalmente publicada pela nossa defunta editora irmã MMMNNNRRRG.

Gracias!

Released in 2015, Terminal Tower by Manuel João Neto e André Coelho just came out in Columbia by Vestigio, a cool publisher that already published W.C. by Marriette Tosel (of our dead sister label MMMNNNRRRG) in the past. What's the next title to publish in Colombia?

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

20ccc15mnrg


cartaz de Joana Pires sobre desenho de André Lemos

Amamos Espanha!
É um país que sempre soube tratar a Chili Com Carne e a MMMNNNRRRG como deve ser! Tanto que vamos comemorar lá os 20 anos de existência da Chili e (mais uma vez) os 15 anos da MNRG!!!

              desde
  20ccc   1995
  15mnrg 2000

é uma exposição de material gráfico das duas "editoras" que curiosamente comemoram aniversários "redondos" e simbólicos em 2015, na Biblioteca Pública Casa de las Conchas em Salamanca, Espanha, de 11 de Setembro a 12 de Outubro, integrado no Encuentro de Editores Inclasificables as editoras estarão presentes nos dias 18, 19 e 20 de Setembro nas pessoas de Marcos Farrajota, Joana Pires e Tiago Baptista.




A Chili Com Carne é uma organização de jovens artistas sem fins lucrativos cujo funcionamento assenta na cooperação livre e espontânea dos seus associados. Desde a sua fundação em 1995 que temos promovido e desenvolvido as mais diversas realizações no campo das artes, que se têm concretizado, entre outros aspectos, na organização de diversas exposições e publicações. Temos entendido como sendo prioritária uma linha de actuação que privilegie a independência do autor, entendida como liberdade e autonomia de critérios do produtor de objectos artísticos, acentuando a diversidade de formas e conteúdos que caracterizam a expressão artística e cultural contemporânea. Desde 2000 que trabalhamos sobretudo na área da edição de literatura, BD, ilustração, ensaios e música.



A MMMNNNRRRG é um projecto editorial dedicado a “art brut comix” criado em 2000 por Marcos Farrajota e dirigido com Joana Pires desde 2010. “Art Brut comix” significa para nós, autores de BD marginais, visionários, artistas que não se conseguem meter em caixinhas com rótulos. É por isso que publicamos autores de todo o planeta como Janus, Mike Diana, Pepedelrey, André Lemos, Christopher Webster, Max Tilmann, Igor Hofbauer, João Maio Pinto, Tommi Musturi, Neuro, Aaron $hunga, Grupo Empíreo, Alexander Brener & Barbara Schurz, Marriette Tosel, Olivier Schrauwen e Anton Kannemeyer. A MNRG já trabalhou com várias instituições como a escola Ar.Co ou o MUSAC (Espanha); recebeu um prémio em 2010 do concurso TITAN com Já não há maçãs no Paraíso de Max Tilmann; em 2011 os cinco autores portugueses que publicou estavam representados na exposição Tinta nos Nervos no Museu-Colecção Berardo; Caminhando Com Samuel de Tommi Musturi foi seleccionado no livro 1001 Comics You Must Read Before You Die, a critical history of comic books, manga and graphic novels por Paul Gravett; e em 2014 W.C. de Marriette Tosel foi escolhido para um concurso promovido pela Society of Illustrators. Desde 2010 que por volta da meia-noite que esta besta visual transforma-se num “unDJ”, o que significa um DJ sem qualidades e profissionalismo que apresenta as misturas mais improváveis, cuja maior glória foi ter “tocado” no festival Jazz in Agosto de 2012 sabe-se lá porquê…

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20 CCC
     15 MNRG 


Es una exposición de material gráfico de dos “editoriales” que conmemoran aniversarios “redondos” y simbólicos en 2015.

 La Asociación Chili Com Carne (CCC) es una organización de jóvenes artistas sin fines lucrativos cuyo funcionamiento se asienta en la cooperación libre y espontánea de sus socios. Desde su fundación en 1995 ha promovido exposiciones y publicaciones entre otras actividades culturales entendiendo como prioritaria la independencia del autor, así como la libertad y autonomía de criterios del productor de contenidos artísticos para favorecer la diversidad y riqueza de la escena artística contemporánea. Desde el año 2000 estamos trabajando en el ámbito de la edición manteniendo los siguientes principios: 

1. Editar el trabajo de los asociados de forma colectiva o monográfica a través de libros y zines, ya sean literatura, cómics, ilustraciones y ensayos en las siguientes coleciones: a) Colección CCC, dedicada a la fragmentación: poesía, (anti) novela (Rafael Dionísio, Nuno Rebocho), dibujo (João Cabaço, André Ruivo), novela gráfica (Francisco Sousa Lobo, André Coelho, Nunksy), etc… b) LowCCCost, colección de libros dedicados a los viajes en sus formas más variadas: una gira punk-con-libros de CCC por Europa, los 6 meses de David Campos en una ONG en Guinea-Bissau, las experiencias de la emigración contemporánea de los portugueses o la gentrificación en Mouraria (Lisboa) – de la mano de José Smith Vargas... c) Mesinha de Cabeceira, revista de cómics creada en 1992 con 26 números publicados que cambian continuamente de formato y concepto, en la que se han publicado trabajos de la mayor parte de los autores portugueses contemporáneos así como vários internacionales como Mike Diana (EUA), Dice Industries (ale), Claudio Parentela (it), Tommi Musturi (fin), Aleksandar Opacic (ser), Fábio Zimbres (br),... d) Mercantología, colección de reediciones de material del mundo perdido de los zines con trabajos de Marcos Farrajota, Lucas Almeida, Afonso Ferreira, João Fazenda, Jorge Coelho... 
e) THISCOvery CCChannel, colección “Ocultural” de ensayos, entrevistas e ficción con colaboraciones de Hakim Bey, Critical Art Ensemble, Aesthetic Meat Front, Boyd Rice, Rui Eduardo Paes...

2. Apoyar otros proyectos editoriales de los asociados en la promoción y distribución: El Pep (cómics série B / proyecto de Pepedelrey), Imprensa Canalha (graphzines y libros ilustrados dirigido por José Feitor), MMMNNNRRG (Art Brut comix dirigido por Marcos Farrajota), Opuntia Books (libros de autor dirigido por André Lemos), Plana Press (ilustración),… 

3. Promover la ética y modo DIY (hazlo tu mismo) a través del blog chilicomcarne.blogspot.com, así como co-organizando eventos como Feira Laica (2004-12), Samizdata Club (2005-07), Pequeno é bom (2010), F.E.I.A. (2010-…) y co-editando en colaboración con Thisco, El Pep, Festival Crack (Roma), The Inspector Cheese Adventures (André Ruivo), You Are Not Stealing Records (netlabel), Faca Monstro (música electrónica), SWR (Barroselas Metal Fest), Festival de Treviso (Itália), Kus (Estónia), Stripburger (Eslovénia), Wormgod (Suécia), Clube do Inferno (colectivo de artistas)… 

4. Organizar un concurso de cómics para autores portugueses, "Pilla 500 pavos y haz con cómic!" con dos vencedores hasta el momento: Francisco Sousa Lobo y José Smith Vargas, que aparecerán en breve. 

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MMMNNNRRRG

 Proyecto editorial dedicado a los “art brut comix” creado en el año 2000 por Marcos Farrajota y dirigido junto con Joana Pires desde 2010. Para nosotros “Art Brut comix” son los trabajos de autores de comic marginales, visionários, artistas que no consiguen permanecer dentro de viñetas con rótulos. Este es el motivo por el que publicamos autores de todo o planeta: Portugal, EEUU, Inglaterra, Croácia, Finlandia, Sérvia, Rumanía, Rusia, África del Sur o Bélgica… con nombres como Janus, Mike Diana, Pepedelrey, André Lemos, Christopher Webster, Max Tilmann, Igor Hofbauer, João Maio Pinto, Tommi Musturi, Neuro, Aaron $hunga, Grupo Empíreo, Alexander Brener & Barbara Schurz, Marriette Tosel, Olivier Schrauwen e Anton Kannemeyer. 

El proyecto MMMMNNNRRRG trabajó con varias instituciones como la escuela Ar.Co o MUSAC (León, España); ha recibido el premio en 2010 del concurso TITAN con la obra “Já não há maçãs no Paraíso” de Max Tilmann (Tiago Manuel); en 2011 los cinco autores portugueses que publicaron en MNRG estaban representados en la exposición Tinta nos Nervos en el Museu-Colecção Berardo: Janus, André Lemos, Pepedelrey, João Maio Pinto e Tiago Manuel; “Caminhando Com Samuel” de Tommi Musturi fue seleccionado en el libro 1001 Comics You Must Read Before You Die, a critical history of comic books, manga and graphic novels de Paul Gravett; en 2014 W.C. de Marriette Tosel (Tiago Manuel) fue seleccionado para un concurso promovido por la Society of Illustrators. 

Desde 2010 esta bestia visual se transforma después de media noche en “unDJ”, lo que implica aparecer como un DJ sin aptitudes ni profesionalidad que programa las mezclas más improbables y cuya mayor gloria es haber “tocado” en el festival Jazz in Agosto de 2012 a saber porqué...

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Co.Mix (relatório 2025 das independências)


Foi bonito de se ver. O governo PSD fez merda com as Bolsas de Criação Literária, nomeadamente com as de BD e Ilustração para a Infância. Ao contrário do que aconteceu quando em o PSD deu cabo delas em 2003, desta vez houve uma reação da parte dos vários agentes da cena. Foi escrita uma carta aberta à Ministra da Cultura com centenas de assinaturas de autores, artistas, editores, formadores, curadores, jornalistas e quejandos, o que nitidamente fez o Governo mudar de atitude, voltando
atrás, remexendo tudo para ficar mais ou menos igual, desorientando as instituições subalternas (DGLAB) e ainda poupou uns cobres - uma vez que as bolsas em 2025 não foram atribuídas devido às referidas trapalhadas. Esta gente da política sabe que a Cultura é importante para o "show off" do capital simbólico, não haja ilusões sobre isso, talvez em 2003 não sabiam disso embora tenha visto uma vez o "Cherne" numa premiere do Manoel de Oliveira no CCB, sabe-se lá porquê... 

Curioso foi quem não assinou a tal carta: Catarina Valente - directora do maior certame de BD no país sendo que maior não quer dizer melhor - e Luís Louro que comemorou 40 anos de carreira, tendo sido este ano galardoado com várias medalhinhas do aparelho - é um autor perfeito para o sistema, especialmente de Direita, que quer espectáculo e inconsciência política. Realço um facto para não diabolizar os direitinhas em exclusivo, afinal a "gerigonça de Esquerda" não mexeu uma palha para que Fernando Relvas não morresse na miséria... 

É claro que o Louro nunca se sujeitou às Bolsas porque exige unhas que ele não tem, tudo bem, desculpa-se o idiotita, agora a Directora da BD Amadora estar ausente só mostra que, ou é uma menina bem comportada ou é ignorante - ou as duas coisas, porque não? Ambas personalidades gostam de se distanciar da maralha, armados em aristocratas da treta e são bons exemplos das contradições da BD portuguesa. Louro vende pouco mais do que qualquer outro autor português de BD (ou até menos se pensarmos que a Chili Com Carne tem reeditado vários títulos nos últimos anos) e a BD Amadora desde a saída de seu director Nelson Dona tem piorado na programação e no relacionamento com os actores da cena da BD. Apesar disso, ambos sabem usar os seus passados históricos para alavancar facilmente os seus nomes neste meio em que falta referência, reflexão e crítica. Ambos estão cada vez mais distantes do que se escreve nos jornais - como foi a capa do Ílpsilon / Público de 26 de Setembro - ou na TV - programa Pessoas que Desenham a Liberdade (RTP 2) de António Jorge Gonçalves que entrevistou vários artistas gráficos como José Feitor, Ana Margarida Matos, Ana Biscaia, João Fazenda, Amanda Baeza,... - ou do que se mostra em eventos como o WC/BD (que acabou este ano), Story Tellers, Flexágono (Festival Fólio, Óbidos) ou a Miragem que foi sem dúvida o evento do ano em relação à BD!

Comecemos por aí, a Miragem foi mais do que um mero mercado de edições independentes - que aliás proliferam pelo país: Autónoma (Almada), FLIFA, Raia, Parangona (Lisboa), Feira da Alegria, Mercado do Contra, Perímetro (Porto), Festival de BD e Fanzines de Alpiarça, Feira do Livro de Arte (Coimbra) e FLOP (Açores). Teve workshops, conversas incisivas (invés das punheteiras que acontecem nos festivais de BD), apresentou espetáculos que misturavam desenho e música - sem ser aquelas xaropadas dos "concertos desenhados" -, e apresentou a exposição Ponto Ponto Ponto que ultrapassava a mera prancha na parede. Durante dois dias de Maio, sob a batuta do colectivo A Goteira, na Biblioteca de Marvila, a civilização reapareceu na BD portuguesa. Uma ilusão, claro, antes e depois, a merda foi omnipresente.

Ainda assim o Festival de Beja recebeu Ana Margarida Matos e Amanda Baeza (finalmente!), a Tinta nos Nervos teve exposições de Miguel Rocha, Diniz Conefrey, Alexandre Piçarra e Beatriz Brajal - estes dois últimos no âmbito dos concursos Toma lá 500 paus e faz uma BD! de 2024 e 2025 respectivamente. A Bedeteca do Porto organizou a colectiva Próximos Capítulos com trabalhos de Carlos Pinheiro, Daniel Silvestre, Marco Mendes, Nuno Sousa e Sofia Neto.

Foi um ano pobre na internacionalização mas Ana Margarida Matos, Hetamoé e Ivo Puiupo participaram na antologia letã š! e Mao fez um mini kuš!. Matos e Bruno Borges participaram na revista eslovena Stripburger - aliás, o Bruno já faz parte da casa! O livro Andrómeda do Zé Burnay teve uma edição em Espanha pela Mondo Cane e o Mangusto de Joana Mosi voltou ao Canadá mas agora em língua inglesa - o livro originalmente apareceu primeiro lá em francês e em 2023. Também as participações em eventos internacionais foram mais reduzidos mas a Chili Com Carne esteve no Crack (salvo seja) em Roma e Viñetas desde o Atlântico n'A Corunha, Francisco Sousa Lobo na Feira do Livro de Leipzig, Burnay no Graf (Barcelona), Gonçalo Duarte, André Pereira e Bia Kosta no Autobán (A Corunha) e Ana Margarida esteve por Bruxelas na BD Comic Strip e na residência do Camões (salvo seja). Pedro Moura também foi ao Texas num projecto universitário com a š!, que ajudou a coordenar.

O contrário também é verdade. Tirando a presença do espanhol Miguel Ángel Martin na LouriBD e do grego-belga Ilan Manouach na Casa do Comum, não houve mais ninguém estrangeiro interessante para nos visitar, a não ser versões baratas da Marjane Satrapi e outros sucedâneos que se publicam neste mercado sem rasgo e amorfo que até já enjoa de tanto livro do Junji Ito. Finalmente publicou-se o Alack Sinner de Muñoz & Sampayo - se ignoramos o jornal Lobo Mau em... 1979 - pela Devir, que reeditou também o Silêncio de Didier Còmes (1942-2013) outra vez a preto e branco e é assim que deve ser impresso! Na colecção 25 Imagens a Levoir e o Público assaltaram à descarada as bolsas dos leitores, apesar dos bons nomes dos participantes: Tardi, Thomas Ott, Nina Bunjevac e Joe Pinelli - lembram-se quando a Polvo era boa em... 2002? Sobra Flash Point de Imai Irata, uma parceria da Chili Com Carne e Sendai, um autor japonês com teor político, como tal, desconhecido e desafiante. Ficámos à espera do HP de Guido Buzzelli (1927-92) com argumento de Alexis Kostandi, pela Escorpião Azul, anunciado em Março mas que só sairá agora em Janeiro de 2026.

Dentro do atrasos na Chili somos culpados de não cumprir as datas redondas, a reedição da comemoração dos dez anos da edição original da Plana Press (e finalmente em português) de Propaganda de Joana Estrela não foi em 2024 mas este ano. Tal como reedição de Mr. Burroughs de David Soares e Pedro Nora não foi feita este ano - para comemorar os 25 anos da edição original da Círculo de Abuso - mas sairá em 2026. A nível de reedições ainda de assinalar a colecção da série Pós-Tugal de Diogo Barros, em formato zine auto-editado - e aproveitando a deixa, houve uma nova página da série n'A Batalha : Jornal de Expressão Anarquista.

Soares regressou com desenhos de Sónia Oliveira com o livro Atrahasis, pela Kingpin,tal como a revista Umbra (OK boomer!), o projecto Magma Bruta com How to kiss a crying man da ex-jugoslava residente no Canadá Andrea Laukic, o "Gato Mariano" aos zines (para comemorar 10 anos de existência), Filipe Felizardo com o Bestiário dos Rios e Sim Mau com o zine Super Mum. Continuou a colecção O Filme da Minha Vida, o jornal Carne Para Canhão, os zines Mesinha de Cabeceira e Olho do Cu e títulos vários de Gonçalo Duarte e Samir Karimo. Começou o zine Enfarta-Brutos sob batuta de Tetrateles. Não sendo BD, é de se referir sempre as gráficas Imprensa Canalha, Noturno Azul e Opuntia Books. Destaques para as edições de autor de Pats - especialmente o título Sortido - e claro o Rei da BD Rudolfo da Silva que fez uma obra-prima intitulada Fusão Dimensional na sua Palpable Press, e que trata da gunaficação da realidade. É o livro do ano!!! É por isso que este "post" abre com a imagem da capa do Fusão, dah!

Giro foi falar com a Pats na Autónoma, em que no seu mini-zine Eye-volution publica uma BD-ensaio sobre o seu estilo gráfico. Estava sem óculos quando estava a comprar o zine e vi algures numa vinheta referências aos grandes monstros da BOA BD: Julie Doucet, Robert Crumb, Lynda Barry, Jim Woodring, e... 

- Espera não estou a ver bem este, quem é este?

- Rory Hayes...

- O quê? [além de começar a ficar pitosga também começo a ficar surdo ou não perceber inglês, cóf cóf cóf]

- Rory Hayes!

- Ah!!!!!! Mas... isto são tudo excelentes referências!! Como conheces esta gente toda? Os teus pais tinham uma boa "bedeteca" em casa?

- Não, descobri na 'net...

- A sério!? Parabéns! Tiveste uma sorte no teu algoritmo!!!

"Sorte"! Num país em que as editoras não publicam livros de referência - ou se publicam é vómito absoluto como se viu com os livros da Escorpião e Polvo deste ano (sobre a carreira do Louro, as leituras e escritas inócuas do evangelista Pedro Cleto e algo sobre da série Astérix relacionado com Portugal, WTF!?) - alguém conseguir "sair da linha" e encontrar os verdadeiros e grandes artistas que também raramente se publicam cá é mesmo um "random" do caneco! Esta autora não ter ficado nas "mangacadas" ou nos "comics" dos fachos gringos, é mesmo algo de agradecer à entidade divina da "Sorte"! Resta saber o que Pats irá fazer com este maná de informação de futuro, se conseguirá alguma vez algo poderoso e original. O Sortido, colectânea de comix curtos, aponta já para aí. Que ela invista mais e melhor em 2026 é tudo o que lhe peço!

Fechando aqui a secção da referência: a Agenda Cultural do Porto deu tempo de antena ao Rudolfo e Goteira num especial BD (melhor que o paspalho do Gross na Agenda de Lisboa em 2021), reeditou-se o meu texto-metade-de-livro Punk Comix com actualizações e foi feita uma mostra no Festival de Alpiarça, editou-se também um texto da minha intervenção sobre BD do BIG de 2023 no catálogo deste ano (que espero a quem o ler lhe ajude a encontrar novos caminhos na BD), Mosi foi entrevistada no sítio em linha inglês Broken Frontier, publicam-se textos e resenhas no jornal Carne Para Canhão, continua o trabalho de recuperação da imprensa underground nacional no blogue My Nation Underground e por fim houve umas entrevistas em linha com Rodolfo Mariano (por causa d'O Filme da Minha Vida) e Diniz Conefrey por causa da exposição retrospectiva na BD Amadora, curada por António Jorge Gonçalves, na Galeria Artur Bual. Foi o ano Conefrey sem dúvida, ainda se acrescenta mais duas exposições, uma Lisboa na já referida Tinta nos Nervos e outra na Bedeteca do Porto, ambas no âmbito do seu último livro Estância do Sino Coberto, pela Quarto de Jade. Uma verdadeira comemoração de carreira que não merece medalhas histéricas mas serenidade artística.

Por fim, os que desapareceram em 2025. Logo em Janeiro faleceu Arlindo Fagundes, figura mais conhecida pela olaria ou pela ilustração, no entanto foi dos poucos autores portugueses a publicar um livro de BD nos anos 80 e talvez o único a abordar temas contemporâneos ou sobre a realidade portuguesa em formato de livro - claro que havia mais autores, como Relvas, com estes temas mas eram publicados nos jornais (que se deitam fora depois da leitura) ou nos fanzines (difíceis de encontrar). Era um Comunista convicto, não teve direito a condecorações, embora a Biblioteca Municipal de Alcântara tenha feito uma boa exposição retrospectiva da sua obra, entre Maio e Junho. Faleceram autores de peso como norte-americano Jules Feiffer - que mudou a escrita da BD - e egípcio-francês Édika - um badalhoco de peso. Menos conhecido e mais gráfico que narrativo, também faleceu o francês Y5/P5 que influenciou a malta d'A Vaca que veio do Espaço nos anos 80 quando passou por Lisboa. Longe da BD mas que puserem os seus dedos uma vez ou outra nela, morreu o realizador David Lynch e o pintor Eduardo Batarda, cujos respectivos cão raivoso e "pinguim cego" ainda são monumentos por tratar. O jazzman e amigo Sei Miguel também nos deixou. Não fez BD mas algumas imagens que queriam ser isso, publicadas em 2017 pelo Homem do Saco / Marmita Gigante, sobretudo mostrou que gostar de BD é saber ser exigente e crítico, coisa que os agentes que trabalham na cena não o são...

Que 2026 seja melhor! Bom Ano Novo!

Marcos Farrajota

 

desenho de Pats in Eye-volution

sexta-feira, 25 de maio de 2007

The Beginning is the End is the Beginning

Duas revistas de bd espanholas... uma acaba a outra (re)começa, é a vida!

Quem não conhecia Nosotros Somos Los Muertos (NSLM) deveria ter vergonha para começar e agora bem pode esquecer porque ela acabou com o número 15 (Sens Entido + Inrevés; Abr'07) justamente este ano que ganhou o prémio de Melhor Revista no Festival de Barcelona. Dirigida por Max e Pere Joan, teve várias fases desde que apareceu em 1993 como zine fotocopiado com uma bd de Max. A bd reflectia a sua frustração em relação à guerra nos balcãs e acabou por servir de catalizador para o seu regresso à bd.
Depois passou a antologia tendo mudando algumas vezes de formato, ora parecendo a Lapin (ou a última série da Quadrado) ora num formato respeitador e grande de revista. Mudou de editoras várias vezes. Publicou o melhor que havia de novas tendências internacionais da bd e ilustração numa altura que ninguém queria saber de Chris Ware ou de Keko em Espanha.
Os tempos mudaram, em Espanha voltou-se a respirar bd - ex.: edita-se quase toda a bd do mundo, o Estado reconheceu a sua importância atribuíndo um Prémio Nacional e até já há promessas electorais de museus e mais prémios a caminho! Os seus editores acharam que já era tempo de acabar: missão cumprida. 70 e tal autores despedem-se da revista com umas colaborações mais viradas para a ilustração do que para a bd deixando um trago fraco para uma despedida deste calibre. Pena! [3,9]

Já BD Banda iniciou-se num novo número um (BD Banda; Abr'07) porque parte para uma segunda série. Foi fanzine, agora é revista, continua escrito em galego...
Tem um formato de comic-book, 64 páginas a cores e quer-se um projecto comercial. E consegue porque parece um catálogo sacado às editoras francesas Delcourt ou Dargaud tal é o nível profissional e capacidade mimética dos seus autores. Aliás, Espanha tem essa tradição e capacidade de trabalho há imenso tempo, desde os anos 60/70 que fizeram bd para os EUA (revistas de terror) ou nos 90 nos comics de super-heróis.
Aqui é aventura e humor nos géneros policiais, steam-punk, humor e cruzamentos de géneros. Quase todas as bd's esquecem-se depois de se ler excepto a de Jorge Garcia com David Rubin - em parte pelo virtuosismo e dinâmica do desenhador. Completa-se a edição com um artigo sobre Franquin (grande autor é certo mas escolha tão interessante como ver o caixote-wc dos gatos) e uma entrevista a Miguelanxo Prado. Não é má a revista mas não me impressionou. Pena! [3]

quinta-feira, 14 de maio de 2026

O livro "todo público" da Chili Com Carne: "Bottoms Up" de Rodolfo Mariano - Vencedor dos 500 Paus 2020 / Na It's a Book



Bottoms Up 

de


- obra vencedora do concurso interno Toma Lá 500 Paus e Faz uma BD! de 2020 - 


64p. a cores 18x24,5cm 
500 exemplares


à venda na nossa loja em linha e na BdMania, Kingpin, It's a Book, Linha de Sombra, Matéria Prima, Mundo Fantasma, Snob, Tigre de Papel, Tinta nos Nervos, Utopia, Fábrica Features, Vida Portuguesa, Universal Tongue e ZDB.


Sinopse: Depois de uma longa viagem, o Simão chega finalmente à grande cidade cheio de sonhos e motivação para vencer na sua nova vida. Apesar do transtorno de ansiedade generalizada e introversão natural de que padece, o Simão depressa conquista o coração de alguns amigos e amigas que o vão acompanhar numa aventura improvável de desfechos imprevisíveis.







Historial:

Lançado oficialmente e virtualmente na Tinta nos Nervos, 31 de Outubro 2020 com conversa com Pedro Moura
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Exposição Horror Vacui no espaço/ciclo WC/BD, em Lisboa, durante o mês de Fevereiro 2024
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E para quem não percebeu o objecto:







FEEDBACK

o livro do Rodolfo Mariano só têm um problema, um gajo fica a pedir por mais, não me importava nada que tivesse 600 páginas.
David Campos (via email)
 
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Obra seleccionada na Bedeteca Ideal

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Entrevista no H-alt entretanto publicado em livro de tiragem de 30 exemplares (!) Outras perspectivas (Ass. Tentáculo; 2023)

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Não é bem uma fábula do género rato do campo / rato da cidade, à La Fontaine que Rodolfo Mariano, (...) nos apresenta neste intrigante (...) Chegado da aldeia, transportado por um atrelado cigano ou circense puxado por uma espécie de muflões de aspecto satânico, o rato Simão apeia-se no limiar da grande cidade. Por bagagem, uma mochila sem fundo acomoda um velho mapa, meias de cada nação entre uma parafernália de objectos úteis e inúteis, e ainda um livro mágico sobre “naves especiais”. Dirigindo-se à cidade, procura a chave que possibilite a libertação de um amigo, prisioneiro do Inquisidor-Mor. Uma mélroa de nome Cassandra ou o fantasma da raposa vegetariana Annalisa, contracenam com Simão, no meio de bandidos, carrascos, guardas, comerciantes e mortos-vivos que povoam uma urbe que poderia vir descrita num livro de Tolkien. Caso invulgar nos quadradinhos nacionais, o estilo de Rodolfo Mariano já foi comparado com o do australiano Simon Hanselmann; o francês Lewis Trondheim é também um nome que aqui nos parece ecoar. Elogio da amizade e denúncia do poder (...) Mariano tem uma apetência pelo imaginário fantástico pulp, que utiliza para falar de coisas sérias, e o antroporfismo revela-se uma esplêndida opção.

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(...) onde se reconhecem a obra de Tolkien, Dungeons and Dragons, a mitologia grega, Rimbaud ou Fernando Pessoa. Mariano recolhe todas essas referências e foca-se na construção da sua história, acompanhando a chegada à grande cidade de um rato, Simão (...) A cidade mudará Simão, porque é isso que os espaços fazem quando nos deslocamos por eles (...)
Sara Figueiredo Costa in Splaft!

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Art 101 or the world's worst comic

The Jonkers
This is (not) a magazine; 2007

As revistas "artsy-fartsy" também sabem se divertir. Por exemplo, a italiana This is (not) a magazine criou uma extensão da sua antologia Who I think I Am como um mini-comic que se meteram a distribuir gratuitamente pelo globo fora - assim mesmo, aleatóriamente... tanto que chegou cá a Portugal via Matéria Prima.
É um livrinho A7 muito bem impresso cheio de desenhos feitos como se fossem de "leigos", daqueles que podemos encontrar por detrás da porta da WC público ou num caderno de um puto qualquer do básico ou do secundário que curte "trash". De bd nada têm - sem querer ser conservador - tirando um imaginário de desenho naif de quem quer desenhar uma bd comercial qualquer, e uma paginação que se pretende narrativa / com separação de vinhetas.
Não deixa de ser uma boa prenda (gratis) para quem for à loja de Lisboa...  a do Porto não sei se também tem esta publicação - e para quem não sabe a Matéria Prima está nestas duas cidades, na Rua da Rosa (Bairro Alto) e no Artes e Partes (Porto).

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Saudades do Tremor #4

montes de teenagers açorianos com ganas pró desenho, turminha cheia de personalidade!!!

o mesmo não se pode dizer da rata mini

Take it or Leave it invadiu até o w.c. do Arco 8  










numa hora, tiraram tudo das paredes, sucesso de vernissage-finissage!!!

a melhor banda do Tremor!!!

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Pretty Good Year


2019 was a Pretty Good Year for Chili Com Carne collective. 
We're fighting against all Portuguese garbage market and winning international recognition!
Here they go:

1) José Smith Vargas long awaited graphic novel about Lisbon gentrification had one chapter published in the important Italian Internazionale magazine - a special issue about Lisbon. Published full color it discuss about Martim Moniz plaza, built on public shame & corruption!

2) Short story A Day by Mariana Pita is the first Portuguese comix ever published in the Very Important Fantagraphics Books - taken from Outside with the cuties (co-published with O Panda Gordo, in 2017), it was published in their "zeitgeisted" magazine Now #6!!

3) Canadian TRIP anthology made a special Portuguese issue (number 10) that included brand new comix by some of our best artists, that is: Gonçalo Duarte, Francisco Sousa Lobo, Cátia Serrão, Mariana Pita, Tiago Baptista, Hétamoé, Daniel Lima, Bruno Borges and Xavier Almeida. Cover was done by José Feitor and an introduction text was written by Sara Figueiredo Costa. DGLAB gave support for this fat book!

4) Graphic Novel The Care of Birds by Francisco Sousa Lobo was finally published in Spain by Reservoir Books (Penguin Random House) after such good critic reviews by the likes such as Paul Gravett. Synopsis: "Peter Hickey is to paedophiles what birdwatchers are to hunters". Peter Hickey dixit. What is meant by this oblique statement is the crux of this graphic novel. Peter Hickey is a godless catholic perv. Peter hickey has a saint syndrome.

5 + 6) ПИКАЧОК: Истории из жизни. Козырь means Musclechoo - Side Story File 001 - Trump Card in Russian! Bloody fucking Rambo and Pikachu mash-up creation by Rudolfo saw Cyrillic second life with a regular edition and one special edition! How the hell this happens!? Crazy Comfed crew done it! Eat shit, Bob!

Also The Care of Birds will be published in France by Rackham and we're dealing with Kassumai by David Campos - about his Guinea Bissau NGO experience - for Poland. AND, our sister-label-soon-to-die MMMNNNRRRG will have W.C. by Marriette Tosel in Colombia. But all this will be in 2020! We'll have to wait!!

Thank you to all that help us to make this possible, you know who you are!

terça-feira, 23 de julho de 2024

WC Pato até 27 Julho


 


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Venha descobrir o tesouro escondido na Folha da Sala com 40 Ladrões!
**Para divulgação imediata**
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Mantendo sua identidade em segredo, 40 Ladrões utiliza materiais efémeros para criar narrativas subversivas e visuais impactantes. O sue trabalho questiona a cultura de consumo e do desperdício, transformando o lixo em luxo - vulgo "Arte", para quem ainda sabe o que é isso em 2024. Com um prazer em desafiar os limites dos direitos autorais, 40 Ladrões convida o público a refletir sobre a autoria e a originalidade na era moderna. 

É desconhecido se 40 Ladrões é um único autor ou um coletivo, adicionando uma camada extra de fascínio à sua obra, num mundo onde já não mistérios. "Dele" sabe-se que participou num número da revista Pentângulo (da Ar.Co., logo, podemos deduzir que foi um aluno/a ou aluno/as desta escola - não se preocupe, nós pensamos por si), na edição portuguesa do Le Monde Diplomatique, n'A Batalha - Jornal de Expressão Anarquista, no jornal Carne para Canhão e no zine Mesinha de Cabeceira que compilou, em 2022, vários trabalhos seus sob o título Smash the Control Images. Também se encontram até 20 de Setembro, BDs sobre a verdade e mentira, no Parque Silva Porto, em Benfica, expostas em formato QR code, no âmbito do projecto Storytellers.

Esta Folha de Sala tem o prazer de anunciar a exposição de 40 Ladrões, entidade anónima que está a revolucionar a banda desenhada underground da mesma forma como a IA nos provoca ao infringir direitos autorais. As diferenças são que 40 Ladrões tem consciência humana, consciência política de "copyleft" e usa as suas mãozinhas em tesouras, x-actos e cola para des/re/construir os dejectos inDUSTriais do "mainstream".

O espírito de W.S. Burroughs (1914-97), dentro dos servidores refrigerados pelas águas límpidas do Ártico, ri-se!


**Para divulgação imediata**
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[texto gerado por IA e MF]
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quinta-feira, 12 de setembro de 2024

Rentrée bédé!

Setembro é o grande regresso às actividades culturais - como se sabe os festivais de verão são life-style e não de música!

Começou a semana passada logo com a grande Mariana Pita no WC / BD onde se poderá ver originais das suas bandas desenhadas na colectânea Lá fora com os fofinhos.


E HOJE no Museu Nacional de História Natural e da Ciência vai inaugurar provavelmente a exposição de BD mais importante deste ano, não percam!!!

cartaz de Martin López Lam

Deep Time é uma exposição que reúne 14 artistas ibéricos convidados a explorar, através da banda desenhada, o conceito de “tempo profundo”—a passagem do tempo registada nas camadas geológicas. As marcas da transformação química e biológica do nosso planeta possuem uma poética que é familiar à banda desenhada, onde a justaposição de elementos produz uma sequência cronológica. Deep Time responde à urgência de integrar a escala humana na geológica, num momento em que já alterámos profundamente os sistemas terrestres.

Artistas: Amanda Baeza / Ana Maçã / André Pereira / Begoña García-Alén / Bruno Borges / Cátia Serrão / Daniel Lima / Hetamoé / Irkus / Mao / Martín López Lam / Ricardo Paião Oliveira / Roberto Massó / Rudolfo 

Curadoria: Ana Matilde Sousa e Hugo Almeida

sábado, 28 de dezembro de 2013

Os Melhores do ano!


Apesar do Inferno não ser da Chili Com Carne nem de 2013 (saiu em 2012 na última Feira Laica e com uma bela exposição na Mundo Fantasma) ainda assim agradecemos ao destaque dado no Expresso para o nosso Desenhador Defunto e ao novo-e-ainda-por-anunciar W.C. (também pela MMMNNNRRRG).

terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

Relatório 2023 sobre zines e edição independente

Comecemos por um pequeno acto de coragem, uma singela mas acutilante BD digital de Tiago da Bernarda com o seu habitual Gato Mariano e Bruninho (és o maior!) publicado seu instagram sobre a guerra em Gaza - aliás, um outro Bruno até explica que o desenho ainda é arma contra a estupidez e controlo digital - uma vez que a falta de coragem grassa pelo mundo, com medo de perder a sua continha de rede social.




Os últimos anos do mercado de BD em Portugal tem sido um avalanche de mediocridade porque a BD - ops! perdão, a "novela gráfica" - está na moda. Lá fora o mesmo acontece, claro mas há muito mais oferta (e melhor), até porque foi uma construção de várias forças e de décadas de trabalho que permitiu que agora a BD seja omnipresente em qualquer "nicho de mercado" e que tenha oferta para "todos os gostos".

Cá não foi assim nem os resultados serão os mesmo. As editoras profissionais generalistas são absolutamente ignorantes nesta área, publicam as cenouras que os agentes literários internacionais lhes abanam: adaptações literárias em primeiro plano, seguida de biografias ou adaptações históricas, e por fim, "Manga" da sexta divisão e feito por ocidentais medíocres... aliás, tudo o que foi referido, tirando uma excepção ao outra, é perfeitamente medíocre! De realçar, apesar de ser um livro menor na sua carreira, O Segredo da Força Sobre-Humana de Alison Bechdel, graficamente pouco atraente e com algumas piadas parvinhas que estragam o peso autobiográfico da obra, não deixa de ser interessante ver a Relógio D'Água a sair do seu próprio catálogo imundo de adaptações literárias que criou ao começar a publicar "novelas gráficas".

Os editores especializados, tem conhecimento e "savoir-faire" mas o seu mau-gosto e pensamento reacionário, fez que ignorassem artistas que rotulavam de "alternativos" - ou pior ainda: basta ser "artista", que é palavra feia no meio bedófilo! - e que ficaram grandes nos últimos anos, ou seja, agora custam mais caro de quando eram "alternativos" e menos acessíveis como pessoas para criar relações entre autor e editor. É óbvio que se for a primeira vez que se publica um livro da Julie Doucet ou do Adrian Tomine, custará vendê-los ao público português que não os conhece - isto deveria estar entre aspas, pois há muita gente que conhece estes autores porque compram edições noutras línguas! Será mais fácil editar um Tardi - e foi das poucas coisas de jeito que saíram no ano passado, falo de Elise e os novos Partisans, com Dominique Grange, pela Ala dos Livros - do que o Yvan Alagbé. Isto apesar de todos os autores aqui referidos terem passado por Portugal, em presença física e com exposições de grandes festivais de BD... Também é fácil à Devir publicar Junji Ito, Naoki Urasawa ou Taiyo Matsumoto, quando até os putos da província tem t-shirts deles ou já viram os Animes na 'net, do que publicar os irmãos Tsuge. Gostamos destes autores, claro, mas falta audácia.

É neste caldo de inconsistência que se circula, por cá. Mas há mais inconsistências, mesmo no meio "alternativo"...


Internacional

A Chili Com Carne esteve no Festival de Angoulême, Autobán (A Corunha) e Fexti (Badajoz). A Magma Bruta no Graf de Barcelona e a Oficina Arara no Novo Doba (Belgrado). Parece que todos  se baldaram ao Crack (Roma), talvez porque vieram de lá doentes em 2022?

Franciso Sousa Lobo participou na revista finlandesa Kuti e na letã Kuš!, nesta última também entrou o Ivo Puiupo. Na colecção mini kuš! dessa mesma editora, saíram os livrinhos de Ana Margarida Matos e João Fazenda. Pela Eslovénia, comemorando os 30 anos da revista Stripburger, participaram Bruno Borges e Filipe Abranches na antologia Dirty Thirty. Matos e Sofia Neto entraram no fanzine espanhol Soñario e Ana Maçã no dreamzine #2, ambos do projecto ElMonstruoDeColoresNoTieneBoca. Amanda Baeza voltou em forma internacional estando na antologia suiça «autre chose» com a "creme de la creme" da BD mundial e ainda no fanzine Amorcito da Galiza. Foi de lá também que veio o álbum Zeca Afonso – A balada do desterro, com texto da galega Teresa Moure e desenhos da portuguesa Maria João Worm. O livro foi publicado pela Acentral Folque, da Galiza, e a Tradisom, de Portugal, assim sim vale a pena fazer projectos internacionais. AngueSângue de Daniel Lima teve edição em português pela Chili Com Carne e em inglês pela Kuš!. Lima também viu a sua página do Le Monde Diplomatique - edição alemã - de 2018 compilada em Die große Salatschüssel des Lebens, pela Reprodukt, ou seja outra antologia "creme de la creme", diga-se de passagem! Borges continua com a Abolição do Trabalho, de Bob Black, a conquistar mundo, desta vez nos EUA pela Floating World. 

Nesta mesma editora que começou publicar a obra do primeiro grande artista de BD, o italiano Guido Buzzelli (1927-92) e Domingos Isabelinho entregou um texto introdutório para o primeiro volume. Não foi o único português a fazer trabalho de referência, Leonardo de Sá que investigou a passagem por Portugal do autor francês de BD "collabo" André Daix (1901-76) no livro Dans l’Ombre du Professeur Nimbus por Antoine Sausverd, pela P.L.G.


Visita ao zoo

Com programações cada vez mais fracas, os festivais de BD não tem trazido artistas estrangeiros que possa referir aqui, só o habitual putedo bedófilo, ficando as excepções (que confirmam a regra) para as espanholas Anabel Colazo (em Beja) e Mayte Alvarado (Amadora). Tem sido a Tinta nos Nervos a arriscar, como aliás, já é uma verdade há 3 anos, tendo trazido para exposições o finlandês Marko Turunen e o bom gringo Christopher Sperandio. De referir a passagem do editor da Floating World, Jason Levian também por lá, para apresentar o livro do Borges acima referido.

De resto, os nómadas em Lisboa tornou-se num fenómeno que não pode ser ignorado. Vários são os autores que passam por cá, ora ficam uns tempitos em residências artísticas, por exemplo, como o suíço Yves Hänggi que fez duas exposições em Lisboa, ora assentam os arraias e até começam por publicar livros como a irlandesa Rayne Booth ou o turco Utku Yavaşça que está a desenhar uma divertida BD num fanzine de "expats" (é assim que se escreve?) chamado Ble$$ed. Alguns já cá estão cá há anos e são gajos grandes como o francês Hervé di Rosa que teve uma exposição no MAAT com uma confusa data de final de exposição. O romeno Nicolae Negura, também residente há anos por Lisboa, participou no projecto Histórias de 89 no obscuro Instituto Cultural Romeno em Lisboa. E não esquecendo ainda o cromo norte-americano Flynn Kinney que meteu cenas tugas nos "melhores do ano" do fanzine Bubbles. Obrigado!


Eventos

Acontecimentos houve muitos, o habitual mercado de edições independentes que cada vez são mais feiras de cartazes - e infelizmente o antídoto que era o M.A.L. não sobreviveu para 2023. Trata-se de uma verdadeira gentrificação das publicações. Quando este tipo de eventos apareceu em Portugal, chamavam-se "Feiras de Fanzines" nos finais dos anos 90, ao longo da primeira década do novo milénio, devido à democratização dos meios de produção ligados à impressão, acrescentou-se "edição independente" de forma a entrar livros de autor, livros de artista, micro-edições e livros com distribuição restrita. Nos últimos 10 anos parece que os eventos de "edição independente" são uma feira de Carcavelos com imagens chatas e redundantes, onde pessoas (clientes) vão comprar serigrafias e afins para decorar os seus A.L. ou salas amarelas ou cozinhas azuis, sei lá... Houve a Raia, Parangona (Lisboa), Alegria, Perímetro (Porto) e Autónoma (duas edições em Cacilhas no abandonado Ponto de Encontro, justamente onde apareceu das primeiras "Feiras de Fanzines"!). Em Alpiarça fez-se um simpático Festival de BD e Fanzines. A Chili participou em mais umas feiras de outros temas: Feia (Música), Livro Anarquista, Livro de Arte (em Coimbra, imaginem isso!), Festival Rescaldo e Matiné Fetra. De realçar, pela negativa e como primeiras manifestações de "zinewashing" a "rip-off" Stolen Goods em que na sua própria sede, a organização pedia 75 euros por mesa aos seus participantes -  tendo uma série de estrangeiros caído na esparrela (e alguns portugueses); e a Direita monga cabotina da Junta de Freguesia de Arroios organizou a segunda FLIFA em que participaram VIPS de merda e um bosta de um facho.

Continuou a instalação Story Tellers no Parque Silva Porto (Benfica, Lisboa) com quatro conteúdos diferentes tal como as estações do ano e apareceu o ciclo Ilustraboom WC/BD na antiga casa de banho pública do Jardim Camilo Castelo Branco (Lisboa) com exposições mensais, das quais destacam-se as da Joana Mosi e Zé Burnay por trabalharam sobre o espaço e não terem colocado apenas pranchas nas paredes. Em Óbidos continua a mostra anual Flexágono, no festival In-Fólio, organizado por Pedro Moura. Em Torres Novas, na Biblioteca Municipal, fez-me uma exposição sobre os 50 anos do fanzine Impulso, seja lá o que isso tenha sido. Na Biblioteca Nacional, ainda a recuperar os atrasos do covid, comemora-se os 100 anos do ABCzinho (1921). Mais importante é a recuperação de trabalhos de Artur Varela (1937-2017) numa exposição na ZDB. Houve exposições da Rosa Baptista (aka Rroze Selavy) para inaugurar a Casa do Comum no Bairro Alto (que inclui livraria e onde foram feitas as feiras anarquista e Parangona) e este escriba teve uma expo-guerrilha em Guimarães, Ganza Metal, graças à malta da Magma Bruta, onde foram recuperadas peças do Zalão de Danda Besenhada (2000) e do Mistério da Cultura (2007).

O mais importante de 2023 e onde o futuro se constrói foi Memórias Artificiais do Rei da BD portuguesa, Rudolfo, que mostrou originais de BD, tocou música e mostrou o seu videojogo (que mete BD) num armazém no Porto, em Junho, um dia antes da Feira da Alegria. Que alguém tenha olhos na majestade!


Publicações finalmente!

Não! Cada vez existe menos fanzines ou zines, não sei se é da crise que se vive, individualismo do neo-liberalismo que se vive ou apenas falta de tempo mas quase não se encontram projectos e artistas novos. Quase deixa de fazer sentido escrever este relatório. Só se justifica porque há sempre projectos independentes com qualidade para relembrar os mais incautos. Este ano a maior surpresa foi o caso da Associação de Estudantes da Faculdade de Belas-Artes do Porto que fizeram o Coisas feias em Belas Artes, um fanzine em formato A5 catita com montes de BDs politizadas sobre a degradação do ensino superior em Portugal mas também sobre a tomada de consciência de como a cultura e o associativismo são importantes – prova dada pela qualidade da organização da Associação ao produzir a Feira da Alegria! Destaque especial para o autor Pedro Evangelho.

Na continuidade de projectos eis que houve mais volumes do Bomba Zine, O Filme da Minha Vida, Bancar0ta, Fosso (José Feitor), Mesinha de Cabeceira, Olho do cu, Opuntia Books (desenho) e Umbra. A Chili Com Carne, Magma Bruta e Sendai continuam de boa saúde a publicar o melhor da BD "artística".

Regressou o divertido fanzine É fartar vilanagem, tal como os artistas João Carola, André Coelho, Dois Vês e Rafael Gouveia voltaram às lides da auto-edição. O mesmo para o colectivo MASSACRE que logo no início do ano com um livro de algum investimento, falo do The End of Madoka Machina de André Pereira.

Os destaques vão para os projectos fora de comum, tudo da Chili e associados, modéstia à parte: Where's the ground? da banda Rock Unsafe Space Garden, pela Discos de Platão, em que a música,  a BD (de Alexandra Saldanha) e os espetáculos ao vivo parecem unos num caleidoscópio psicadélico. O jornal Carne para Canhão da Chili, só com um número ainda, que pretende chegar a públicos mais alargados por ser gratuito, inspirado noutros projectos passados como o finlandês Kuti. E o grande Vale dos Vencidos, obra de 11 anos de trabalho de José Smith Vargas, um "tour de force", com alguns laivos inéditos de composição editorial do livro mas sobretudo um marco histórico na BD portuguesa, pela complexidade narrativa e a temática das destruições das cidades que tanto nos aflige.


Referências

Depois das palhaçadas d'A SHeITa do ano passado, que apesar disso, ainda são úteis q.b., para pelo menos cartografar a BD portuguesa deste milénio, 2023 foi deserto outra vez nesta área. Apareceu uma simples brochura de Bibliografia de Banda Desenhada de Ficção especulativa Portuguesa por Marco Fraga da Silva, editada pela Associação Tentáculo. A Tinta da China para redimir dos desastres ecológicos do passado (Melo & su muchacho) reeditou os Cartoons de João Abel Manta. A Arte do Autor publicou mais uma BD sobre a vida de Edgar P. Jacobs, numa eterna bedófilia feita por uns gajos franco-belgas que nobody gives a shit! A revista sobre ilustração Aguça sacou o número três e apesar de ainda não ter visto nem lido, só os nomes aguçam o apetite: Amanda Baeza, João Sobral, Mariana Pita, Sara Boiça e Sofia Neto. E a mais "boring art magazine ever" Umbigo teve uma frikice qualquer que metia o acervo da Bedeteca Nacional [sic] da Amadora a ser discutido pelo Tiago Baptista num artigo. O que vale é que o Baptista é sólido...

Vencedor do ano, o blogue My Nation Underground do nosso associado "Erradiador" que todos os dias coloca um "post" (ou mais que um) de um fanzine da sua colecção - essencialmente de BD - criando um puzle e compendio deste tipo de publicações. Quem for de ano a ano poderá ter uma imagem mais nítida do que foi ou é a cena dos zines (e edição independente) em Portugal. Como diziam os outros: clap clap clap!


Tristezas não pagam dívidas

2023 foi um retrocesso civilizacional, não só pelas guerras, por exemplo, mas também pelo tratamento xenófobo que a Câmara Municipal da Amadora infligiu à artista luso-chilena Amanda Baeza, que não mereceu celebrar o 25 de Abril com a instituição. Tal mereceu boicote de um certo público ao Festival de BD, embora, não havia nada para esse público ir lá ver - tirando a exposição do Smith Vargas, claro.

De referir ainda a triste morte aos 60 anos do norte-americano Joe Matt, um caso in extremis de como o uso da autobiografia pode secar a vida de um artista. Matt era tão viciado em pornografia, tal como era tão pornográfico na forma como deitava para fora a sua vida nas BDs autobiográficas, sob o título de Peepshow. O seu falecimento deveu-se à falta de dinheiro para tratar da sua saúde.

Quem não é anarquista que tire as conclusões que quiser sobre estes dois casos...