A apresentar mensagens correspondentes à consulta nazi ordenadas por relevância. Ordenar por data Mostrar todas as mensagens
A apresentar mensagens correspondentes à consulta nazi ordenadas por relevância. Ordenar por data Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 28 de março de 2007

europagraphics i

Nazi Knife #2 (Jonas Delaborde; 2006)
La Racle (Tetedemort; 2006)
S'ouvre la panse (Tetedemort; 2007) de Blanquet

Na França e europa da francofonia, o efeito Le Dernier Cri tem sido devastador, ao ponto de actualmente haver cada vez mais "graphzines" de arte degenerada e a serigrafia ter sido recuperada. Nazi Knife é fotocopiado em papeis de várias cores e tem colaborações de CF, Dennis Tyfus, Jelle Crama (estes dois últimos conhecidos do zine flamengo Rotkop), Sebastien Joly, Hendrik Hegray, Rory Hayes e Antoine Marquis em que muitas vezes os estilos gráficos se confundem (a maior parte dos trabalhos não estão assinados) porque há uma similiaridade dos temas nas suas paisagens de sci-fi monstruosas - quase a lembrar o barroco Druillet - e bonecos naífs. A complementar, algumas fotos quase-shock: alguém vestido de raposa de peluche em pose pin-up com uma bandeira nazi por detrás, blackexplotation e uma porca caucasiana amarrada em versão ritual S/M. C'est la vie... [3,8]
Tetedemort pelos vistos é um atelier de serigrafia que faz não só cartazes mas também livros, zines e desdobráveis usando esta técnica de impressão. E são os desdobráveis de que escrevo, o primeiro colectivo com trabalhos de Playmoo, Rica, Harald, e338, Blanquet, Angryblue, David Witt, Ad e Jimbo Valentine of Amalgam Unlimited entre outros numa estética zinista a relembrar o efeito da fotocopiadora nos gloriosos tempos antes das fotocopiadoras lazer e digitalizações. Oferece ainda uns autocolantes e um crachá [3,6]. O segundo é a solo de Blanquet, um dos autores mais influentes da bd alternativa dos anos 90, com o seu trabalho mais recente cada vez mais detalhado e escatológico [4,4].

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Nazi Knife #4, 5

Jonas Delaborde; 200_?

Da fotocópia à antologia impressa (livro) parece ser este o caminho cada vez mais normal de algumas publicações como o caso do Nazi Knife que é um zine francês mas que reúne todos os "gráficos Noise" do planeta - e a analogia não é tosca porque muitos tocam em bandas Noise: John Olson e Alivia Zivich (Graveyards), C.F., James Ferraro e Spencer Clark (Skaters), Heath Moerland (Sick Llama), Andy Bolus (Evil Moisture), Nate Young (Demons), Dom Fernow (Prurient), Mat Brinkman, os polémicos Mike Diana e Stu Mead, Leif Goldberg... Fazendo deste zine uma "bíblia" de todo o movimento "undergráfico" e essêncial para quem gosta de desenho.

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Frankenstein, or the 8 Bit Prometheus : micro-literature, hyper-mashup, Sonic Belligeranza records 17th anniversary @ DATACIDE

!

1818: first edition of Mary Shelley's Frankenstein


2018: many horrific applications of technology (social network for example with their push to have people volunteering their time and creativity for their IT business purpose, they are represented in the book by @maryshelley.fr, not to mention the applications of technology like breakcore and the other musical sub-style, or the society of spectacle created monster Bally Corgan).





Frankenstein, or the 8 Bit Prometheus
micro-literature, hyper-mashup, Sonic Belligeranza records 17th anniversary 
by 
Riccardo Balli


Volume +06 of THISCOvery CCChannel collection published by Chili Com Carne and Thisco140p. b/w with illustrations and photographs. Full color cover. IN ENGLISH. Cover art, illustrations & design by RudolfoSupported of IPDJOh Cristo webradioRokko's AdventureTasca Mastai and  Distroed

buy @ Chili Com Carne online storeGalleria Più (Bologna), Tasca Mastai (Lisboa), Linha de Sombra (Lisboa), Tigre de Papel (Lisboa), Praxis (Berlin), Megastore by Largo (Lisboa), Artes & Letras (Lisboa), Livraria do Simão (Escadinhas de S. Cristóvão, Lisboa), MOB (Lisboa), Glam-O-Rama (Lisboa), Black Mamba (Porto), Le Bal des Ardents (Lyon), Matéria Prima (Porto), Bertrand (Portugal), Bivar (Lisboa), 4 / Quarti (Bologna), Utopia (Porto), Senhora Presidenta (Porto), LAC (Lagos), FNAC (Portugal), Radical Bookstore (Vienna), Anarchistische Buchhandlung (Vienna), Chick Lit (Vienna), Stuwerbuch (Vienna), Housman (London), Toolbox (Paris), Freedom Press (London), Soziealistischer Plattenbau (Hamburg), Quimby's (Chicago), XYZ (Lisboa), Tortuga / Disgraça (Lisbon) and Just Indie Comics (Italy).

Released on 6th April 2018 @ Rauchhaus, Berlin ... mention at Bandcamp article about Extratone genre ... Portuguese release @ Tasca Mastai, Lisbon 12th July, 20h; and DJ set party @ Lounge, 23h ...  Low-resolution séance @ Galeria Municipal do Porto, 13th July under the influence of the exhibition O Ontem morreu hoje, o hoje morre amanhã ... presentations @ Lauter Lärm (Wien) om 2sd August & Echo Buecher (Berlin) on 26th September 2018 ... registered in Neural magazine archive (wow!) ... presentation @ Buchandhung Stuwerviertel (Vienna), 18th January 2019 ... presentation @ Rosa Parks (Chiuppano), 6th April 2019 ... article at Zweikommasieben
 ... 
|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!||!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!||!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!||!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|


After having whistled quite a number of 8-bit versions of famous pop songs, and delighted his ears with chip-tune covers of black metal and classical music, Riccardo Balli thought it was about time to extend micro-music aesthetics to literature, and remix Mary Shelley's classic accordingly. 


Through some sort of low-resolution séance, the author evoked the spirit of corpse reviver Giovanni Aldini (1762-1834), credited for having inspired The Modern Prometheus. Aldini tells a compressed version of the original Frankenstein, exposing its language to retro-gaming jargon and simplifying the plot as if it were an arcade game.


The aforementioned 18th-century electrifier was the nephew of eminent Bolognese scientist Luigi Galvani. Also from MIDIevil Bologna is DJ Balli's electronic music label Sonic Belligeranza, whose 17 years of existence (2000-2017) this volume celebrates with 17 texts that explore the multitude of contradictory sounds constituting the corpse of this Sonic Frankenstein.


Send him an impulse from your Game-Boy! BLEEEEEEEEEEEP! 



|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!||!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!||!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!||!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|
ATTENTION The file "A forward to further experiments from MIDIevil Bologna" is corrupted. Remember to read page 16 between 20 and 21 to recover the original text meaning
|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!||!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!||!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!||!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|



DJ Balli (1972) is a DJ/ producer, and founder of the label Sonic BelligeranzaA true fundamentalist of Breakcore since year zero of this non-genre of music, as the style was getting more and more codified, he progressively tried to personify its attitude and even bring it outside of audio realms. Hence following the motto of M(C)ary Shell8Bit "Every cacophony is possible, infect the Underground!", the creation in his lab a la Bolognese of Sound Monsters such as skateboard-noise, gangsta-opera and his infamous poetry readings pretending to be Billy Corgan from The Smashing Pumpkins. Riccardo Balli is also active as a writer: Anche Tu Astronauta (1998), Apocalypso Disco (2013), Frankenstein Goes to Holocaust (2016), all in Italian, this is his first full-length book in English.

|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!||!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!||!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!||!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|!|

FEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEDBACK 

Introduzido por um ressuscitado Giovanni Aldini - através da galvinização provocada pela corrente eléctrica de nove cartuchos de Game Boy dispostos em hexagrama -, este «remix literário de baixa qualidade» é mais uma alquimia de Ricardo Balli (...) Este livro é uma bizarra justaposição do Frankenstein de Mary Shelley com a cultura gamer (as planícies geladas do Pólo Norte são substituídas pelas da Cool, Cool Mountain do Super Mario 64, homens são bots, amigos e irmãos passam a Game Boys) e outros elementos da cultura pop (...) Aqui, o monstro de Frankenstein é uma incompleta remistura musical, que jura vingança contra o criador, toda a humanidade e as convenções musicais repressivas e autocráticas que desprezam o seu chiar emancipado e rejeitam a criação de um remix tão grotesco quanto ele. 
Além deste excêntrico exercício, Balli escreve sobre subculturas e subgéneros musicais que surgiram no final do século passado: revisitando a conotação neo-nazi do gabber e purificando-o da apatia do 4/4, atira-se às possibilidades revolucionárias do breakcore e do hiper-mashup dentro da alienação tardo-capitalista; procede à mistura definitiva entre skaters, situacionistas e accionistas vienenses; sugere que o horizonte tecnológico é a reunião do humano com o resto da fauna, numa simbiose sónica já tentada por Caninus ou Run the Jewels; revela que o grande cisma deste nosso confuso tempo é a violenta divisão entre aqueles que consideram ou negam que o splittercore é um subgénero autónomo do speedcore.
Balli é (...) o derradeiro farsante durante a speedrun final, o Grande Apropriador, um artesão do ofício profano do colagismo, que troça da autenticidade do autor, rouba-lhe a voz e utiliza-a para proveito de todos. Apresenta-nos à nova arte do social: aquela que liberta um Prometeu ultra-moderno, alimentado por um discurso aparentemente demente, mas que, no fim de contas, apenas apresenta a obsolescência da sisudez à colectividade, ao mesmo tempo que cose a manta de retalhos de uma modernidade esgotada. 
Russo in A Batalha

The relevance of this book is not just the content, but also the way it is reflexively reworked with a plagiarist and demystifying attitude. (...) A second layer in the book’s composition is the core literary metaphor that supports the patchwork put together by the author (i.e. the creative elaboration of the novel Frankenstein) (...), the idea of a new living entity made up by parts coming from other dead bodies is a perfect metaphor to give expression to the culture of plagiarism and plunderphonics. To do this, Balli’s writing exercise consists of re-writing Shelley’s original text infusing in it musical references coming from those same music electronic genres performed by Balli as a musician (including styles like 8-bit music, gabber and grindcore), with the further addition of other interventions. In these excerpts we read about Mary Shelley (called Squirting Mary) and Lord Byron(anism) engaged in an MCing contest where all participants “should attempt to create the most horrific sonic monster of music history” (...) After much effort, the monster finally comes to life in the shape of a mash-up generated in Shelley’s “bedroom studio” with a Gameboy, where the modified machine starts producing “most scary sounds: remixes of neo-melodic Neapolitan singers in a porno-grindcore style!” (...). As the readers can tell from these examples, demystification is a relevant ingredient of the book, as the author does not attempt to sacralise the art of plagiarism, instead insisting on a relentless endeavour to reframe plagiarism in a sarcastic way, explicitly linked with the situationist tradition. This demystification is particularly evident in the third type of content in the book, represented by a set of Dadaist passages where, for example, famous bands’ names are distorted in irreverent ways with mash-up techniques; some also accompanied by humorous visuals, including a photo of (...) "Lionel Nietzsche’s” album “Is it Truth you are looking for?”. Probably the most situationist section of the book is where the author recalls the history of his alter ego, Bally Corgan—inspired by Billy Corgan from the Smashing Pumpkins (who the author physically resembles)—an alter ego actually used by DJ Balli along the years in both his recordings and live acts. Above all, this last example helps to understand the actual continuity between the situationist spirit of the book and Balli’s whole artistic career. 
 Unfortunately available to an Italian-speaking readership only, the book succeeds in offering an original, meta-discursive and demystifying contribution on plunderphonic culture, not just for the content it offers, but also for its ability to intertwine multiple discursive layers, producing an experiment that is finally able—like Frankenstein’s efforts—to give birth to a weird and bizarre textual monster.
Dance Cult about the Italian (and different) version of this book - academics are always late...

I've enjoyed Balli's Frankenstein book so far - that guy is a total lunatic, which I appreciate.
Heikki Rönkkö (by email)

The 'Frankenstein' book was an incredibly detailed work, well researched and written - the only negative for me was that I didn't know enough about a lot of the subject matter to be able to fully immerse myself in it. I appreciated it hugely, however, because of the obvious enthusiasm with which it was written and the in-depth knowledge of the writer about his subject, his passion. In one sense it was like reading a fanzine of old, with personal writings, reviews, interviews etc. - as a fanzine writer myself it certainly struck a chord with me.
pStan (Pumf) by email

In reviewing Frankenstein, Or The 8-Bit Prometheus, Reynolds warned his readers of the danger that Balli might become the messiah of the enemies of realism. “Here at last was a self-proclaimed advocate of anti-writing: explicitly anti-realist and by implication anti-reality as well. Here was a writer ready to declare that words were meaningless and that all communication between human beings was impossible. Reynolds conceded that Balli presented a valid personal vision, but “the peril arises when it is held up for general emulation as the gateway to writing or music of the future, that bleak new world from which the humanist heresies of faith in logic and belief in man will forever be banished.’ Balli was moving away from realism, with “characters and events [that] have traceable roots in life” – from the writing of Paul Virilio, Stewart Home, Bill Drummond, Mark Manning, Lester Bangs, Brecht and Sartre.

quarta-feira, 13 de março de 2019

manual prático de uso da CCC (4/6) : bibliodiversidade

ilustração original de Jucifer (2009)
Quando escrevemos que os nossos livros têm qualidade para serem oferecidos a amig@s normais, namorad@s anormais, a elementos da família disfuncional e outros animais racionais no "post" anterior não estávamos a brincar! É que a Associação Chili Com Carne tem tanto interesse pela Banda Desenhada como um cão pelo Reagan - esse porco nazi foi cremado ou ainda há ossadas?

Apesar de termos uma apetência para a ilustração, desenho e BD, a Chili Com Carne NÃO É uma editora de BD! Gostamos tanto dela como gostamos de música ou literatura, e gostamos ainda mais de cruzar estas diferentes áreas entre si - porque pensam que nos chamamos de Chili Com Carne?

Por isso se procura temas africanos podem encontrar no nosso catálogo (e da MMMNNNRRRG) os romances de Nuno Rebocho e de Rafael Dionísio ou o livro de BD de David Campos! Se for música temos o Rui Eduardo Paes, se for cinema temos a Ondina Pires, viagens a colecção LowCCCost, desenho o André Ruivo, autobiografia o Marcos Farrajota, reportagem o grande Aleksandar Zograf, ficção o Afonso Ferreira, auto-ficção o Francisco Sousa Lobo, humor o Loverboy, erótica o Grupo Empíreo, arte e cultura temos as antologias Antibothis, Subsídios... Sim temos isso tudo com vários cruzamentos possíveis!

Querem livros pequenos? Conhecem o Paris Morreu (em formato A6)? Livros grandes? Que tal AcontorcionistA : Calendário (A3)? Capa dura? Malus... Disco em vinil? Çuta Kebab & Party (10")...  DVD? 15th SWR (c/ uma BD-reportagem incluída)!!! Serigrafias? Por favor...
E para o irmão de 5 anos? Ele vai tripar com o Caminhando com Samuel!
E para a sogra de 76 anos? Ela vai tripar com o Caminhando com Samuel!
E a prima gótica drogada? Neuro-Trip...
E assim para aprender inglês? Destruição, Desenhador Defunto,... Livros de BD em inglês com legendas em português. Aprende-se mais a ler algo que se gosta do que a seguir a cartilha, não?
E livros premiados porque eu só ofereço Qualidade aos meus amigos? (Que pedante!) Olha tens o Já não há maçãs no Paraíso (TITAN 2009) ou o Revisão: Bandas Desenhadas dos anos 70 (Festival da Amadora 2016)...
E malta famosa há? Sim, já editamos o Mike Diana, João Fazenda, João Maio Pinto, Pedro Brito, Ondina Pires (dos Pop Dell'Arte, The Great Lesbian Show), Nuno Rebocho, Tommi Musturi, Marte, Igor Hofbauer, Fernando Ribeiro (Moonspell), Jarboe (Swans), Aleksandar Zograf, André Lemos, Pedro Zamith, Rui Eduardo Paes, Vadge Moore, Jorge Coelho,...
E novos autores? (Que chato) Montes deles pá!!! E alguns começam a dar nas vistas: Rudolfo, Zé Burnay, André Coelho, Amanda Baeza,...

Há alguma coisa que vocês não tenham? Sim!!! Só não temos livros de culinária, auto-ajuda e de gatinhos... mas estamos a pensar em fazer isso mas à nossa maneira, claro!

Se a Chili Com Carne não for a melhor forma de comprar as melhores prendas aos preços mais baixos (se for associado, claro) então é que a TUA timidez esqueceu-se que não precisas de ter uma relação fria com o sistema automático da loja online mas podes fazer perguntas-imediatamente-respondidas pelo e-mail da CCC para saber mais sobre as nossas edições. Também podes frequentar eventos em que participamos (ver a coluna à direita no blogue intitulada de CCCalendário) para ver in loco o que editamos.

Não temos nenhum interesse, ao contrário das editoras comerciais, de vender "gato por lebre". É verdade que os nossos livros todos eles são muito diferentes entre si porque trabalhamos com ARTISTAS e não com robots, putas ou fantasmas. A diversidade de estilos e a oferta artística poderá criar alguma confusão aos leitores que muitas vezes querem "mais do mesmo" MAS connosco não funciona assim, pedimos desculpas pelo incómodo...

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

(...) o Marcos Farrajota, que me ajuda muito (e que é o punk mais generoso e mais carinhoso que eu já conheci) (...)

cartaz em Lisboa que apareceu na mesma altura do Corta-E-Cola / Punk Comix

Já perdi a conta dos documentários sobre o Punk português que foram feitos nos últimos anos. Agora foi mais um feito pela RTP e Antena 3 - Uma espécie de Punk - que é o melhor de todos apenas porque além de ser o mais curto (consegue dizer o mesmo que outros em menos tempo!) tem mais qualidade de produção e melhores imagens de arquivo. De resto, é o mesmo chorrilho de banalidades já escritas e conhecidas que vão de 1978 até 1990.

Passar dos 90 é que já têm todos medo!

Agradecem-me no final dos créditos e ao Afonso Cortez - talvez porque viram no(s) nosso(s) livro(s) A Verdade. Mas pouco adiantou, o Punk para esta malta, que anda a snifar o cuzinho do Punk para fazer guito, é só a "Música". Ora, a música é o que menos interessa, até porque 99% dela era e é uma valente merda.

Aqui vai um excerto do meu Punk Comix para ver se chegamos a algum lado: o punk tornou-se num movimento ligado à Anti-Globalização/Capitalismo, à defesa dos direitos animais, ao veganismo, femininismo e anti-racismo como relata Craig O’Hara em The Philosophy of PunkAté, um académico da BD conseguiu perceber que: Acima de tudo, fica a ideia de que a maior herança do punk é a cultura do do-it-yourself, aliando-se então uma das tendências mais marcantes da banda desenhada moderna portuguesa, a da emergência e formidável produção de fanzines, a essa prática particular que ocorreu de forma tão dramática e especial no punk.

Mais do que isto ou é esquecido ou parece que se quer apagar de forma intencional.

Falar sobre os Punks que levaram porrada nas manifestações contra a McDonald ou contra as Touradas, isso já não serve para as narrativas bacocas destes documentários ou nas discussões que se possam ter sobre este movimento. Ignora-se que são os Punks que "okupam" as casas que o Estado ou os especuladores imobiliários que deixam ao abandono ou que lutam na rua contra a escumalha Nazi!

Pensar ou divulgar isto, parece proibitivo! Agora, passado estes anos todos, em que essa luta foi esquecida, ser Punk já é fixe desde que se esqueça as dores de quem combateu por algo que acreditava, algo correcto e para o bem da sociedade que ela própria ignora e despreza. Qual é que foi o intelectual ou artista dos últimos anos que levou na boca da polícia? Qual deles reclamou à séria da sua editora que o explora ou que explora outros? Não me lembro de ninguém, só de banalidades populistas como os feminismos à Capicua e aquela perua que queria transportes públicos só para mulheres - uma tia que nunca andou de autocarro, obviamente. Será por isso que não leio Peixotos, Tavares e quejandos? Hum...

Até dizer em público que se é Punk é porreiro. O título deste "post" é sacado de uma entrevista da autora de BD Cecília Silveira na Blimunda. A Cecília é amiga e sei que ela disse isto de uma forma coloquial e simpática numa conversa relaxada mas de repente é isto que sinto sobre "ser ou não ser punk". Tudo a gente é ou foi ou pode ser... Nada contra, a Liberdade do Punk permite-o, ao contrário que dizem os guardiões do "verdadeiro punk" - sabe-se lá se ainda existem ou que estejam preocupados com tal em 2017, no máximo acho que são coleccionadores de artefactos...

Sim, queria ser punk quando era "teenager", ter ar de galo de combate e meter nojo a toda sociedade que é mesmo nojenta. Redundante talvez, a crista veio tarde e durou pouco tempo. Ficaram outros valores que não foi na Universidade ou noutro lado "normal" que me ensinaram. Foram as "distros",  fanzines, as editoras e as pessoas dos meios underground que me mostraram como se pode fazer coisas com ética e sem cedências. Ser "punk" neste milénio é aderir às causas que O'Hara refere ou então se preferirem nem é preciso ser "nada" para se aderir a estas ideias porque elas são boas, simples, desejadas e virtuosas mas... mas... mas... Quando os cronistas-punheta do Público escreveram sobre os ataques a autocarros de turistas em Barcelona pelos moradores afirmando que estas praticaram actos de terrorismo (como se um morador fosse um bombista!), como contra-argumentou e muito bem o blogue L'Obéissance est morteDurante décadas, os ecologistas defenderam um modelo agrícola livre de pesticidas. Claro que foram acusados de “radicalismo” já que os pesticidas, desde que “adequados às normas impostas pelas entidades reguladoras”, eram considerados indispensáveis às boas práticas de uma “agricultura moderna” que se impunha nos países desenvolvidos e que promovera a substituição progressiva da figura retrógrada do agricultor por aquela hodierna do empresário agrícola (...). No entanto, em 2013, um estudo demonstrava que 92% dos cursos de água franceses estavam contaminados por pesticidas, devido às práticas da agricultura intensiva, apenas escapando à contaminação generalizada algumas zonas montanhosas e outras onde ainda predomina uma agricultura pouco intensiva, pouco consumidora de herbicidas, os maiores culpados da contaminação. (...) Também acusados de “extremistas” têm sido aqueles que, principalmente em França, se têm rebelado nas ruas contra a invasão publicitária do espaço público. Estes “radicais” têm limpado paredes inteiras do metro do marketing que enche o campo visual das nossas cidades, questionando assim a hegemonia (ideológica) que os industriais detêm hoje sobre o nosso quotidiano. Basicamente, defendem que a penetração da publicidade em todas as esferas da existência condiciona os nossos comportamentos e reduz a nossa liberdade, pelo que há que atacar esse monopólio da imagem que goza de toda a legalidade democrática. Será o seu ponto de vista insensato e perigoso para a comunidade? Ou, inversamente, não estará uma vez mais o extremismo precisamente do lado que os “radicais” combatem?

Quando se escreve, desenha, edita e publica-se o que se quer, tal não é divulgado nos "meios sociais" - quem inventou esta expressão caricata? Pior é quando estes "meios sociais" mais tarde ou mais cedo limpam as Culturas de milhares de pessoas - olhem o livro do Queercore na Time Out. Assim sendo, só se pode ser mesmo é "punk", quer se queira quer não. como tal só se pode mandá-los para o caralho!

Poderia-se "dar alvíssaras pelo agradecimento no documentário" mas eu prefiro é dar-lhes masé pissas pelo agradecimento porque não contribui em nada directamente para estar nos créditos. Não estive em contacto com ninguém da Antena 3 / RTP, não forneci nenhuma informação ou material para merecer lá o agradecimento. Serão remorsos de terem seguido o guião da parte do livro do Afonso Cortez? Porque são "punks" e agradecem por tudo e por nada!? Se não me tivessem dito que estava nos créditos não teria visto se quer o programa porque não vejo TV nem nenhum media tradicional. Mudem ou morram!

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Se o mundo é uma sanita então Portugal é o quê?


Não me lembro onde vi a primeira vez o fanzine Psicóse Infantil... Talvez tenha sido no vácuo existencial das "sessões" no Clube Português de Banda Desenhada em 1990 ou em 1991. Foi alguém (o Fazenda? o Brito? o Lino?) que me emprestou dizendo que ele era "a minha cara". E era! Se calhar por causa dele que, em 1992, comecei com o Pedro Brito & cia, o Mesinha de Cabeceira para quebrar a monotonia dos outros fanzines dos anos 90 - eram das coisas mais quadradas e chatas que havia. Acho, modéstia à parte, que o Mesinha foi essa excepção juntamente com A Mosca (4 números, 1994-97) e pouco mais. E este Psicóse... Enfim,  que é como quem diz, ninguém soube deles e duvido que alguém tenha percebido que houve um segundo número (duplo, por isso três números, ena!), excepto o Geraldes Lino, claro, um mega-coleccionador de fanzines de BD.

Este Verão saiu o livro do Punk e apareceram logo gajos a mandarem vir que faltava nele isto ou aquilo (uau!). Um deles foi o Fernando Gonçalves (que conhecia porque teve uma loja de BD em Faro, a quase-extinta Ghoul Gear) mas ao menos ofereceu-me estes dois (três) números. Zeus! É verdade! Mea culpa! Como poderei ter esquecido disto!? (Simples, nunca tive um exemplar meu e passaram-se mais de 25 anos!). Que chapada do passado! Ya! Lembrava-me das páginas do primeiro número, dos desenhos à Gotlib e sobretudo das colagens de filmes Gore. Eis a tipologia daquela época: três marmanjos punk-metaleiros na secundária que curtiam BD e música, e pelos vistos filmes e política (citam Hegel!), fazem um fanzine A4 a preto e branco não tendo pejo em mandar bocas à merda grossa que foi o Cavaco, a "taveirada" das Amoreiras e a skinaria nazi - lá 'tá ela sempre presente na BD como refiro no livro do Punk Comix!! Depois do segundo (terceiro!) número acabam. Nunca mais fizeram nada, pelo menos em BD. Traíram a humanidade. Moral da história: Nada é raro em Portugal porque passados 26 anos encontrei este fanzine que só tinha lido uma vez na vida. Se fizermos uma reedição do livro do Punk, sim ele será incluído! Como ignorar esta beleza?

No meio disto tudo, a Chili Com Carne recebeu um estagiário que fez o que lhe apeteceu - calma, havia umas regras básicas e pedagogia! Incluo neste "post" o Cursed Tales do Marco Gomes, um rapaz de Leiria, por ele ser "metaleiro" e como tal pode servir para fazer uma comparação das diferenças de  produção de zines nos 90 por malta da mesma simpatia do Som Eterno (oh oh oh). É um ping-pong sem fim e talvez desnecessário porque pura e simplesmente as coisas mudaram mas embiquei em compará-los! O Marco é um rapaz simpático (todos os metaleiros o são!), íntegro e empenhado mas tem consigo os tiques de uma geração que me fazem comichão. Será "generation gap" ou o pedaço de "nostalgia" que o Psicóse trouxe que obrigam a escrever estas linhas? Tentarei não ser um velho reaccionário...

O livrinho reúne três BDs executadas por Gomes, com todo o suor de quem quer mesmo apostar nesta área criativa. Tem defeitos por causa da incontornável binómio imaturidade e aprendizagem. O esforço e trabalho que concedeu foi dando frutos e melhorias constantes nas BDs - e ok, vá, também a minha orientação ao longo do processo do estágio ajudou. Logo aí, faz-me alguma confusão saber que um zine é feito num ambiente escolar. Tudo bem se for como reacção à própria rotina fascista da escola, sem professores a controlar, olha que porra! Mas sendo os motivos de estudo do Marco a BD e a edição, Cursed é mais livro de autor que um fanzine canalha. Se calhar a discussão acaba aqui ou pelo menos devo deixar de referir Cursed como fanzine. Um fanzine tem de ser como o Psicóse, ou seja, de forma espontânea com energia a disparar para todo lado. Um zine tem de ser feito fora da hora de expediente senão fica manso. Tudo o que Gomes fez para o seu livro foi calculado, com uma expectativa profissional e objectivos técnicos a cumprir.

As diferenças entre os dois objectos são ainda maiores porque os primeiros eram um grupo de amigos e Gomes está sozinho, talvez não por opção porque vive numa cidade pequena que não deve ter tantos cromos da BD para se juntarem para fazer uma publicação porcalhona. O Psicóse eram fotocopias mal-paridas e baratinhas enquanto que o Cursed é de um rigor gráfico bestial, bem impresso quase "deluxe". Os "psicóticos" odiavam o poder e eram mal-criados, Gomes nunca desafia o poder e ensaia o terror como tema, o que é um beco sem saída em 2017. O "Terror'17" é o Trump ou Pedrógão Grande e não clichés simbólicos de Morte e Loucura à la Edgar A. Poe. Aliás, Trump e acólitos conseguem juntar num só corpo estas duas ideias - Morte e Loucura.

Loucura era sem dúvida a plataforma dos "psico-boys" enquanto que em Gomes é tudo estilizado e nada alucinante, apesar de a querer glorificar, inutilmente em fracasso tirando talvez The Family Man, curiosamente a primeira BD a ser criada, a mais curta e a mais escatológica. Hum... Acho que os miúdos de agora são mais controlados e/ou auto-controlados. Se calhar não se pode esperar as mesmas explosões de antigamente. O controlo nº1 é logo a merda dos smartphones que os pais oferecem para saber onde andam, daí ao "chip-GPS" enfiado no corpo, já deve faltar pouco. Controlo nº2 é o massacre e pressão que tem para serem "alguém", de preferência com sucesso e fama. Pais psicopatas - sim, estes é que são os doentes e não os metaleiros dos anos 90 - metem-nos a aprender piano ou aguarela ou as duas coisas logo aos 6 anos já a pensar que vão ter grandes artistas e génios na família. Nos ensinos básicos o próprio sistema já estudam economia para que os seus valores maiores sejam o Dinheiro e Dinheiro apenas. A razia máxima deve ser o pré-universitário e universitário em que pouco se pensa nem se deixa reflectir, é Bolonha para despachar canudos para alimentar o Capitalismo. E já agora, pelo que assisti durante o KISMIF, os mestrados e doutoramentos não são mais do que um mercado como o da produção infinita de cabeças de Pez.

O cenário é dantesco, em que todos querem sair profissionais em algo quando acabam a universidade para irem para o mundo do trabalho. Não é assim, meus caros, pouco adianta sair diplomado em BD ou em 3D quando não se leu um bom grego clássico ou um francês humanista ou um austríaco bem bem bem deprimido e assado. Ou um livro sobre Anarquia ou sobre o esclavagismo português ou... o que quiserem. Sem a ajuda do camarada livro, um gajo muito mais fiel que o colega de carteira, não há crescimento nem filosofia de vida. Nem boa arte...

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Suecas em cuecas

Quando a revista sueca Det Grymma Svärdet (Lystring; 2013) decidiu fazer o número 16 em formato k7, ou seja, com música, o humor negro seco sueco manteve-se como marca registrada da publicação, só mudou a forma de o expor. Pelos vistos veio ao de cima a ideia de gozar com as compilações Noise dos White House e a sua editora Susan Lawly, que se dedicavam à "música extrema" (Noise) produzida em África, na Rússia e por mulheres. Música extrema da Suécia poderia ser o quê? Que tal gaijas a fazerem noise e afins? E invés de ter as "pin-ups de bonecas partidas" do Trevor Brown que tal ter antes gajos nesse mesmo fetichismo médico? E mais umas fotos de homens de boxeurs e perucas parvas?
A k7 de plástico vermelho é metida numa caixa a lembrar as de cartuchos de jogos de computador e dá nas vistas, especialmente pela provocação gráfica. Passado 20 anos desde essas compilações pela Susan Lawly, realmente a nossa cultura evoluiu e diversificou as suas propostas estéticas... A música da k7 é mais experimental do que Noise, mais electrónica - que nos dias de hoje podemos encontrar em Portugal com a grande Jejuno, por exemplo - sendo as faixas com mais presença as de Miriam Kaukosalo (vozes processadas) e Yo Ameba (Noise na linha de Pan sonic).

No número anterior também havia uma k7, Summercamp 2013, a acompanhar a revista editada em modo normal (formato livro), dedicada a Lisa Carver / Suckdog. Colectânea de vários músicos, não-músicos, artistas e "pranksters" (pelos vistos os "snobs" de Estocolmo prestam-se a isso) a celebraram aquela que será das poucas mulheres que praticou cultura de choque antes desta ficar institucionalizada ao ponto de até se conseguir eleger um presidente dos EUA como o "trompas"... Lisa fez (punk?)rock perigoso, ao ponto da Courtney Love parecer uma corista virgem de igreja. Também é sabido que levou nas trombas do porco nazi do Boyd Rice e talvez tenha dado nas trombas no javardo do Costes... Não que fantasie com nada disto.
A k7 junta temas de ou dedicadas a Carver, tipo Pop indie feminino frágil com sabor agridoce a violência doméstica ao gajo a contar piadas porcas em sueco com risos enlatados. Não convence para ir aprender a língua de Pär Lagerkvist, no entanto parece que todos devem ter-se divertido neste projecto e isso é transmitido mesmo para os não-suecos.

O não-gaja-mas-doido-o-suficiente-para-assinar-como-tal Melanie is Demented lançou em Outubro o seu novo álbum, We split up searching for you. Lançar é quem diz porque falamos de ficheiros em linha para o Spotify - e sim esta coisa ao lado é a "capa"...
O que distingue dos outros discos anteriores é que é mais "poppy" e "fácil" ao mesmo tempo que é mais intimista. Segundo o músico, em troca de e-mails pessoais, disse-me que as tournês que tem feito incluindo a nossa Ibérica, impressionaram-no (não sei como ao certo) mas que isso justifica as músicas novas terem sido compostas para serem mais fáceis de tocar ao vivo. São realmente menos "estúdio", topa-se desde a primeira audição...
Simplicidade não significa parvoíce e MiD continua a ser um génio Pop/Rock capaz de "earworms" que não nos irritam ao contrário das putas da Rádio Comercial, por exemplo. Mago que tritura tudo do que foi feito nos espectros Rock, Electro e Hip Hop, MiD cria o seu melodrama sonoro muito próprio, tal como uns Blur ou David Bowie. Tanto que o que se pode dizer de A psychiatrist why? Raggamuffin de/para alienados? Espero que chegue ao Top 10 em qualquer lado...

Já agora e porque se falou de putas, eis uma música para as Três Grandes Putas que alinharam em dar prémios à Disney:

quinta-feira, 2 de junho de 2016

š! #23


Esta antologia báltica faz números especiais temáticos a torto e a direito, de desportos à matemática venha o Diabo e escolha - até já fez um especial Portugal / Desassossego, lembram-se?
O número 23 sub-intitula-se "Redrawing Stories from the past" e participam apenas cinco artistas, a saber Paula Bulling (da Alemanha), o sérvio Vuk Paibrik (que já visitou Lisboa e participou no Boring Europa), a letã Martinš Zutis, o alemão Max Batinger e a polaca Zosia Dzierzawska. Ou seja, longe do maralhal que costuma ser habitual numa edição normal.
O tema também é sério, são histórias de sobreviventes ao Holocausto Nazi, o que obrigou aos artistas de terem um trabalho de investigação uma vez que tiveram de retratar história verdadeiras. A única história que é consanguínea a um autor é a de Paibrik que relata as histórias dos seus avós que se conheceram no campo de trabalho de Johanniskirchen em Munique, sendo que a narração é feita de memórias, anedotas e fotografias promovidas no seio familiar.
Este número quebra o monopólio da forma como o Holocausto tem sido retratado em BD por Maus de Art Spiegelman (defendido como qualquer outro monopólio económico, diga-se) ao mostrar outras narrativas, outras formas estéticas e sobretudo outros relatos menos óbvios como a dos argelinos franceses de Paula Bulling. A edição é complementada com um texto do alemão Ole Frahm que tem estudado sobre este assunto, o Holocausto e a BD.
Muito recomendável a leitura!

terça-feira, 16 de junho de 2015

La pasión del hijo apático

Héctor Arnau Salvador + Ruca Bourbon (il.)
Ed. de Autor, 2015

Eis o livro de poesia mais brutal que tive a oportunidade de ter nas mãos! Alerta, está redigido em castelhano e admito que parte da minha excitação é por causa das colagens do "nosso" Dr. Urânio.
O design é de Rui Silva (que tem um trabalho exemplar em editoras como a Orfeu Negro) que faz deste livro um mimo gráfico, vencendo o estereótipo que um livro de poesia tem de ser sóbrio, sombrio e com ar de enconado. E se La pasíon (...) tiver estereótipos então serão aqueles que achamos nos espanhóis como exuberantes, empinados e sangue a ferver - contraponto aos portugueses xoninhas, deprimidos e cheios de saudades do Salazar.
O imaginário apocalíptico de Dr. Urânio assenta como uma luva nestes poemas cheios de voz - para quem já assistiu alguma performance do autor sentirá realmente a sua voz física a invadir-nos a leitura. Que força! Do amor pelos amigos, engates e à família, o Hector ainda esmaga o estado nazi de Israel. Não é qualquer um... Quando é que este gajo vem recitar a Lisboa?

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Façam apostas!

Merda! Gostei do disco dos Facção Opposta, o Lendas Urbanas (Dunkel; 2013)!!! Juro que não queria porque o disco tem tudo o que menos gosto desde há muitos anos: directo, revivalista, skins e futebol. A sério, malta sem imaginação a querer ser algo que já não podem ser nem nunca poderiam ser, ou seja, elementos de uma subcultura criada na xungaria da Inglaterra nos finais dos anos 70 - man, nem houve Revolução Industrial em Portugal! Assumem-se Skins apolíticos sendo meramente reaccionários, nada contra. Não são racistas ainda que usem imaginário e letras com laivos nacionalistas que irritam mas como se calhar é para enganar e converter os Skins Nazis até passa. Algumas letras são sobre a bola e hooliganismo ou sobre malta proletária mas que se calhar até gastam uma milena para ter as marcas certas de roupa para o curtir este non-stop de síndroma Peter Pan que todas as subculturas da Humanidade sofrem desde que a web.2 passou a ser parte da nossa vida. Seja como for este será dos melhores projectos de Punk em Portugal nos dias que correm pois há aqui força masculina e letras contudentes - a maior parte delas acho de dificil identificação burguesa mas outras como Esquema é universal q.b. Claro que é estranho ouvir músicas sobre uma tradição urbana importada quando se quer fazer hinos à cultura portuguesa num disco editado no Brasil mas na pós-modernidade tudo se engole e tudo se perdoa. A nível instrumental 'tá bem tocado dentro do cânone Oi! mas há pequenas situações inesperadas como umas cordas em Celtiberos ou pífaros no História do 12. Para quem gosta dos brasileiros Garotos Podres (lembrei-me deles porque estão em digressão por Portugal esta semana) este é o disco! E caramba até ao o artwork impressiona de estar tão bem feito e telúrico ao ponto que se eu fosse um jovem Nazi cagava-me todo!

E por falar em boas edições de Punk 'tuga (coisa rara!) destacava o Split-EP lançado o ano passado pela Zerowork e Raging Planet dos Albert Fish e Grito! que tem uma capa super-porreira (quem é que fez a ilustração? não há créditos quando as cenas são boas!?). A mesma anuncia que vamos encontrar um encontro entre Skins e Punks com o cliché todo ao de cima - vendo as fotografias das bandas o que menos temos é moicanos e suspensários. As tribos urbanas em 2000 é todo um mundo Cosplay... A música dos Grito! é também um Oi! com pronúncia do Norte - um orgulho bairrista que só se encontrava ainda há alguns anos na cultura Hip Hop (a excelente e saudosa Matarroa ou o Rey por exemplo). Albert Fish é Albert Fish, Hardcore de sing-a-long escorreito que já não precisa de apresentações, só não sei se os temas são inéditos ou são de registo anteriores que nunca sairam em vinil (é verdade o pessoal desculpa-se com esta!). Quem desenhou a capa carago?

E ainda em vinil temos reedição dos únicos temas gravados dos Grito Final, ou seja Ser Soldado e Bairro da fome, temas que sairam em 1986 originalmente na compilação Divergências (da mítica Ama Romanta). Esta edição (pirata?) pela Teia Edições é deste ano e usa um estilo minimalista gráfico para apresentar uma banda da segunda vaga punk portuguesa. Podia ser um grafismo para uma banda Dark da altura do que para punks... Um erro de "casting"? Ao ponto de ser um design muito mais bonito que a música que ouvimos que é um Punk mais ou menos a abrir a lembrar bandas dessa altura como os Vómito. Talvez porque o som seja rançoso de "vintage" que o design envoque justamente esses outros tempos quando havia ainda esse nojo que era o serviço militar obrigatório e mal se sabia que ia haver o Cavaquistão I e II.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Milhões de Pilas

Correu bem melhor do que se estava à espera... ou então, não! O público do Milhões de Festa não é o mesmo público-escumalha da Zambujeira ou o público-pseudo-alternativo dos outros festivais grandes de Rock. E compraram montes de livros, zines e discos,... A aposta foi ganha, se calhar nem havia uma aposta para fazer!

Chegamos na Sexta-Feira e ainda vimos esse monstro dançante Otto Von Schirach que compensou tudo antes e depois do festival. Quem não o conhece e dança a música deste tipo é parvo e merece morrer!!! Ainda houve nessa noite bandas revivalistas para todos os gostos sendo o melhor momento no meio disso o encontro em palco das duas bandas míticas lá da terra de Barcelos, os La La La Resonance (ex-membros dos The Astonishing Urbana Fall, uma das poucas boas coisas que aconteceram em Portugal nos anos 90) e os Black Bombaim. Foi uma espécie de "jam ensaiado" intergeracional porreiro que ao menos não soava a mofo ou a retro. Otto arrasou e não haverá mais nada de memorável dessa noite.

No Sábado à tarde, montamos as mesas perto do palco Taina, gerido pela Dedos Biónicos, e obtivemos um excelente contacto com o público. Um público que era pendular entre o Taina e o palco da Piscina - que não visitamos porque não podiamos deixar o posto,  perdendo assim o grande "ex-libris" do Milhões e pior ainda, os Surya Exp Duo. A música no Taina pareceu a mais coerente do Festival porque focava em Rock e em Rock apenas, algum mais prá esquerda do cérebro outro mais convencional. Por exemplo, foi fixe ver que os Quartet of Woath são bons ao vivo apesar de serem insuportavelmente limpinhos em disco.

Barcelos pareceu ser uma cidade simpático e realmente o Milhões merece o estatuto do festival mais "cool" do país. O nível de stress é zero mesmo quando nos recintos estamos cercados por seguranças com pinta de militares frustrados - eles queriam era estar a defender-nos de Espanha ou de Marrocos (ou da Alemanha Nazi-Kapital) mas não... têm de ficar ali a aturar malta e a ouvir a batucada voodoo dos HHY & The Macumbas! Pobres diabos!

Por falar nisso, esta banda do Porto foi o melhor que aconteceu na programação mal enjorcada de Sábado, em que o pior de tudo foi a quebra total que um tal Dam Mantle trouxe. Man! Ibiza às 22h? Enganei-me no festival? Onde estão as gajas de saltos-altos bêbadas prontas para serem violadas por gajos de camisas brancas de alças? Vai haver "racing" daqui um bocado? Fuck!!! Que enorme monte de esterco! Felizmente houve EyeHateGod nessa noite, os seminais Sludgers! Embora, novamente essa noite tenha sido um suplício para passá-la, incluíndo a banda do camarada João Maio Pinto, baixista nos Loosers - banda que mais uma vez mudou de estilo e forma e tudo mais. Além do nosso querido ilustrador, parece que fazem parte da banda uma figurinha negra mítica qualquer (falaram-me que esteve metido com os Funkadelic?) e o Fernando Cunha dos Relfins e Desistência (?). Tudo chato nessa noite, sabe-se lá porquê... Acho que foi mesmo falta de tomates para colocar os nacionais Macumbas a tocarem à noite e não às 20h com quase ninguém no recinto. Os Macumbas estavam bem oleados, com pica para bater em congas e afins e teriam dado boas alucinações a quem já estivesse nos estados narco-qualquer-coisa habituais nesta vida de festivais de verão. Teriamos tido fantásticos pesadelos com os tipos se tivesse acabado a noite com as batucadas e Dub deste colectivo de simpáticos "weirdos".

Por causa de nulidades como Octa Push tivemos de beber imenso para ir prá tenda para encontrar um Domingo cinzento, chuvoso, que insistia no mau-tempo e que não nos deixou montar a banca porque, como bem sabem, livros e água não combinam em nada. E com isto nem livros nem Jibóia Experience que prometia ser algo nessa noite. Voltamos para casa, a pensar que Deus ficou chateado com os EyeHateGod...


O mercado de edições independentes que organizamos até teve novidades editoriais. O primeiro e simultaneamente era lançado na inauguração da excelente exposição Lixo Futuro, é o Musclechoo, vol. 1 (Ruru Comix; 2013) do Rudolfo. Quem se lembra do primeiro número desta coisa? E porque não é o número dois? Deve ser cena de putos... E é mesmo, a personagem é um misto teenage-wet-dream de Rambo e Picatchu - quem adulto gostaria de ver os dois num só? Diversão pura de javardar com a cultura Pop, Muschechoo é feito em cima do joelho embora a lambideza de Rudolfo comece a aparecer a meio deste novo volume. Excelente produção esta edição! E adivinhem porque chamei este "post" de "milhões de pilas"? Só lendo!  Encomendem antes que esgote!


E se o Rudolfo estava no Porto, apareceu-nos o Artur Escarlate com dois mini-zines seus, o Portátil / Volátil (cheio de vaginas) e o Segredo (cheio de... pilas!)... Porquê? Não faço mínima ideia, e tenho "mix fellings" sobre isto... Por um lado desenhos de orgãos genitais parece nos dias de hoje um tema tão chocante ou importante como desenhar elefantes ou ganchos de cabelos mas sobretudo é que sabe a pouco, duas ou três páginas A4 dobradas a fazerem A6, presas com elásticos fazem os zines. Truque engenhoso que nos obriga a abrir cada folha para descobrir cartazes pouco interessantes. Aliás, graficamente, os zines são podres (sujos) a dar uma ar amador de virgem embora Escarlate (é o verdadeiro nome do autor?) dê a entender que é um garanhão da tinta, a julgar pelos seus sítios em linha. O resultado é xoninhas com ou sem xoxotas. Porquê? (porquê? tudo)

 Por fim é de referir a K7 - desculpem, split-k7!!! - de Cangarra e dUASsEMIcOLCHEIASiNVERTIDAS. Edição deste ano pela A Giant Fern, apesar de estar anunciado a um ano prá Feira Laica, só agora saiu em Julho. São 15 minutos para cada lado, para cada uma destas duas bandas mais activas do Noise Rock português. É curioso que são duas bandas bastante diferentes, em parte por causa do seu número de elementos. Os 2sci são mutantes, acho que só há dois elementos que estão "sempre lá" (nos milhares de concertos e nos registos áudio) mas nesta k7 aparecem com mais cinco músicos. A banda toda ela é nervosinha e volátil, quase nipónica e perto da demência, ao contrário de Cangarra que é um duo estável e racional, guitarra e bateria (a cargo do nosso Ricardo Martins) que preferem um psicadélico paisagistico cheio de detalhes para descobrir. Duas bandas, uma prá orgia, outra prá nicotina pós-coito, pelos vistos. Ah! o "artwork" da K7 foi feito pelo Ricardo e pela Margarida Borges, e impresso em risografia, a impressão que molha os designers dos dias de hoje com menos de 30 anos...

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Xavier Löwenthal, Ilan Manouach : "Metakatz" (5éme Couche; 2013)


A 15 de Março de 2012, o livro Katz foi destruído (ver vídeo aqui) para espanto de muitos que pensavam que o Bücherverbrennung (queima de livros no regime Nazi) era coisa do passado. O livro não foi queimado (já lá vamos) mas triturado por uma empresa belga especializada em destruição de documentos.

O livro foi considerado uma contrafacção de Maus, obra de Art Spiegelman que até foi publicada em Portugal, sabe-se lá como, em dois volumes há muito esgotados e nunca reeditados. Para quem não sabe o que é o Maus: Obra baseada na biografia do pai do autor, que sobreviveu ao inferno dos campos de concentração Nazis. Tem como contexto o genocídio dos Judeus levado a cabo pelos Nazis, durante a 2.ª Guerra Mundial. Art Spiegelman, um dos principais nomes da BD “underground” norte-americana e, durante anos editor de capas da “The New Yorker”, escolheu a BD para contar a tragédia vivida pelos seus pais e aproveita o cariz biográfico da obra para abordar também alguns aspectos do seu relacionamento com os pais. Trata-se de uma das mais importantes obras da história da BD de sempre.
Em Maus, os Judeus são retratados por ratos e os nazis por gatos, para representar um "jogo do gato e do rato" (o jogo biológico e o da tradição "cartoonesca") e como analogia à propaganda antisemita que Hitler criou. Como refere Nicolas Verstappen (p. 141) Spiegelman consegue uma poderosa iconografia com a personificação dos ratos, as cabeças são meros triângulos (a lembrar os símbolos dos campos de concentração?) sem boca - como uma vítima que não pode falar. A discussão desta opção de Art já vêm de longe, Harvey Pekar em 1986, quando saiu o primeiro volume de Maus já o tinha referido na revista The Comics Journal, que as representações teriomórficas prolongavam a cultura de preconceito étnico. Questão que Katz, produzido pelo grego Ilan Manouach, iria levantar outra vez ao substituir todas as cabeças dos vários animais por cabeças de gato.
Katz pretendia reler Maus perguntando se o segundo não prolonga a cultura da vitimização - ainda por cima criada pelos próprios oprimidos - mas acabou por perguntar muito mais do que isso ao ser destruído. Daí que se encontra no livro a primeira parte do meu texto Comix Remix (traduzido em francês pela Joana Baguenier) e vários outros intervenientes, alguns dos meios académicos (estudiosos sobre as questões autorais ou sobre BD como o "nosso" Pedro Moura), autores de BD (Fabrice Neaud e Lewis Trondheim, os mais conhecidos), em que quase todos colocam em dúvida o velho regime do "copyright", "direito de autor" e "propriedade intelectual" que há muito se tornou uma coisa corrupta, absurda e bloqueadora do avanço das Artes, cultura e ciência (registar sementes, anyone?).

Quase ao mesmo tempo, que saiu o Meta Maus (livro sobre Maus) saí este Meta Katz, tal como Katz tinha saído no Festival de BD de Angoulême 2012, ano em que Spiegelman foi Presidente do evento. Soa a assédio artístico mas visto que Katz teve o destino que teve, só assim é que se pode manter uma chama acesa (ops, péssima escolha de palavras!!!) sobre o que Katz trouxe à praça pública - incluindo o que acontece com os papeis destruídos, vendidos à China e levados em contentores cheios de bicharada.

Mas afinal Katz era mesmo uma contrafacção de Maus? A editora belga 5éme Couche, responsável pela edição, teve de aceitar esta acusação feita pela Flammarion (detentora dos direitos de Maus em francês) porque sendo uma editora independente não teria recursos financeiros para continuar a defender Katz como uma obra de direito artístico próprio. Assim da tiragem de 800 exemplares, cerca de 600 foram legalmente triturados - e mais tarde queimados pelos membros da 5éme Couche como forma de protesto público e artístico, num acto à la Cage falhado e registado no vinil 7" que acompanha o Metakatz. Foi ainda pedido que o ficheiro digital fosse apagado o que só prova que a Flammarion é uma editora de velhinhos que não sabem que os ficheiros digitais são das coisas mais fáceis de se "reproduzir por aí"... enfim!

Quem se interessa por estas coisas de direitos de autor deve conhecer a história dos U2 versus os Negativland nos anos 90 e descobre a ironia inacreditável, ou deveria dizer apenas, de como a história se repete... Quando os Negativland foram processados pela Island, editora dos U2, estes últimos que são considerados como os "defensores do pobrezinhos" (relembro nas campanhas altruístas do badamerdas do Bono Vox!) nada fizeram para impedir que os pequenos Negativland fossem esmagados com processos judiciais... Não poderiam ter negociado com a Island para terem calma com os "engraçadinhos"? Vinte e dois anos depois, Art Spiegelman esteve caladinho como um rato (sim, um rato!) quando a grande Flammarion esmagou os pequenos 5éme Couche! Só por isto, Spiegelman merece ser assediado e apontado o dedo, desta vez não por neo-nazis ou revisionistas e outros paranóicos das conspirações judaicas (já agora, quer Xavier quer Ilan têm ascendência judaica para quem os tentou colocar de acusar de anti-semitas) mas pela sua própria classe profissional: autores de BD, ilustradores, artistas, músicos, etc... que sempre que fizerem uma obra que pegue em excertos doutra terão velhos dinossauros à coca para lhes espancar.

O mais estranho, é que Spiegelman já "roubou" muitos autores no passado e ainda recentemente no álbum In The Shadows of No Towers, como bem observa Pierre-Yes Lador, que lhe faz um percurso de "citações" desde o início de carreira com as ilustrações da Topps Bubble Gum, passando pelo álbum Breakdowns até às antologias Raw e Little Lit que editou nos anos 80 e 90. Mas isso já pouco importa para quem já passou para o outro lado da barricada.

Se Spiegelman é uma figura importante na BD, não o é como autor seminal de certeza (a autobiografia tem Pekar como figura paternal) mas por ser alguém que deu mais voz pública à BD de autor / à BD autobiográfica / à BD sobre memória e a de reportagem quando Maus ganhou o prémio Pulitzer em 1992. Ou dita de outra forma, foi a única vez que uma BD ganhou este importante prémio mediático. Depois de Katz sofre um abalo na sua imagem quanto a mim porque não podendo eu fazer uma leitura proposta pelo livro destruído passei a ter uma outra leitura que passa pela perspectiva histórica da própria BD em que Maus se verga. Se antes podíamos falar de antes de Maus e depois de Maus na realidade Maus já não é nada! Maus ao assumir-se como uma BD que usa o imaginário antigo e tradicional da cultura comercial da BD, ou seja, gatinhos e ratinhos (e já agora, de porquinhos e de cãezinhos) passa a pertencer a esse mundo ignóbil que é a História da BD, que amontoa os seus momentos "históricos" exclusivamente em aspectos mercantis, índices de popularidade e lutas jurídicas, e não por apreciações culturais ou discussões artísticas. Se Maus é tão importante porque é que ela foi buscar as suas ideias gráficas à BD do "antigo regime"?

É difícil ter respeito pela História da BD, mesmo que se possa ficar deslumbrado pelas visões fantásticas de Winsor McCay ou George Herriman, pelas suas técnicas ou pela sua perícia artesanal de trabalho gráfico mas a verdade é que a BD sempre foi um produto "todo público" e que se colou ao "infanto-juvenil" muito facilmente na dobra do século XX, tendo que esperar os libertários anos 60 para produzir finalmente obras "adultas". Face a isto, há realmente muito pouco para admirar ao nível de conteúdo literário - e mesmo a questão visual ou plástica também é bastante discutível - em 100 anos de História oficial celebrada pela treta dos 100 anos feitos em 1996 ao adoptarem o "Yellow Kid" como ponto de comemoração. Maus vêm desta tradição das figurações antropomórficas e teriomóficas para crianças e jovens, rebaixando-se perante o passado do médium, coisa que não havemos de encontrar em Pekar, ou em Buzzelli ou Breccia que se estavam bem nas tintas prá "bonecada". Talvez Ilan e Xavier não se aperceberam disso quando davam entrevistas, na altura de Katz, em que respondiam anonimamente usando nomes de gatos famosos da BD como Grominet (Sylvester), Garfield, Fritz the cat, Tom  (do Tom & Jerry) e Waldo... Uma brincadeira iconoclasta que na realidade levanta toda esta questão da História da BD feita exclusivamente de eventos da BD inDÚSTrial.

Em 2086 talvez haja alguém que coloque Maus como um ponto de referência para História da BD mas estarão enganados, agora podemos ver que foi uma histeria mediática e popular, que passado quase 30 anos adoptou ficar ao lado dos Vencedores da História - que são aqueles que a escrevem, como bem sabemos. Art está ao lado das corporações como a DC Comics, Disney ou da Marvel que humilharam centenas de criadores durante um século inteiro. Se depois dos Sex Pistols, como refere Greil Marcus, deixou de fazer sentido escrever mais canções Pop de Amor entre rapaz e rapariga, depois de Katz é impossível ler uma BD que meta animalitos a pinarem ou a snifarem Zyklon B, sem deixar de sentir que estamos a ser enganados...

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Morto Kids!

Eu tinha avisado os putos para não fazerem em Julho - há anos que tentávamos que a "Laica de Verão" fosse antes uma "Laica de Primavera" (para finais de Maio) mas devido aos compromissos com os sítios onde fazíamos nunca tal foi possível... O resultado estava aí: um calor desgraçado que afastou o público. Nesse aspecto a Feira Morta foi má...

Mas pouco importa isso!!! O evento estava bem organizado e sobretudo conseguiu reunir os autores e editores para mostrarem as suas novidades. Por isso, o Pedro e Maria (ambos da Cafetra Records e cabeças organizadoras da Morta) estão de parabéns porque reproduziram a essência da Laica, sendo este um outro projecto mesmo que reclame a herança Laica. O espaço que encontraram era excelente para circular à cata do melhor que se faz cá em Portugal de edição independente e pelo caminho alguma "video-art", música e docinhos caseiros para engordar! Não havia crianças nem artesanato urbano, o que acho bem para distanciar dessa tradição Laica. Nem apareceram editores estrangeiros - só se considerarmos que a visita do Weaver Lima fosse uma mas isso é esticar a corda.

As novidades editorais e a segunda mão não foram anunciadas, podendo terem sido ambas um chamariz embora acho que a segunda mão cada vez faz menos sentido existir quando temos uma produção inacreditável de fanzines, zines, livros, k7s, LPs, etc... de pequenos editores e artistas. Comprei algumas coisas que o provam - mesmo que este tenha sido um evento com menos novidades comparando directamente com a Laica. Talvez tenha havido menos editores a participar neste evento por cepticismo da capacidade de trabalho dos "putos" ou alguma irritação / inveja do mediatismo bacoco da Cafetra (que entretanto já foi à vida, certo?) mas o evento aconteceu sem erros grosseiros a apontar. De certeza que a questão de público poderá ser melhorada para a próxima - e "eles" já disseram que querem fazer uma Morta de Natal! Peraí!? Morta de Natal? ahahahahaha

Parabéns oficiais aos "putos mortos"!

E vamos lá às provas que o que não falta por aí são excelentes criações que provam uma ausência de crise na criatividade portuguesa - sobretudo na área da BD! Não sei porquê mas neste evento não adquiri música, por exemplo. Foi quase só zines de BD... Estou a ficar um cromo velho? Ai!

CVTHVUS #2 (Jun'13)
, zine A5 que no primeiro era um graphzine dedicado aos gatos desta vez os gatos são dedicados em BD... no passado já houve destas taradices, lembram-se o Durty Kat da Ana Ribeiro?
Chaz The Cat (aliás, Sérgio Neves) e Gonçalo Duarte fazem duas BDs em honra ao felino, ou melhor, à capacidade de um bicho deste ter-se transformado no Deus do Século XXI. Neves tem um estilo mais digital, frio e rígido seja em desenho seja em narrativa mas apanhou bem a psicopatologia de se amar os gatos em demasiado. Duarte mudou o registo gráfico a que assistimos no passado nas antologias Destruição e Futuro Primitivo, está mais "felino" de acordo com a trágico-comédia que conta sobre os excessos de idolatria sobre a gataria e a tecnologia - não misturar as duas, nunca!!!

Do Clube do Inferno comprei dois dos quatro títulos novos: Lovebirds de Astromanta e 9:2:5 de André Pereira, o primeiro é um porno-S/M-gay impresso em papel cor-de-rosa e formato A6 como manda a regra destas coisas que metam erotismo e voyeurismo - o factor tecnológico também aparece aqui, curiosamente. O segundo é uma válvula de escape de Pereira, em registo autobiográfico, sobre a rotina fantasmagórica do trabalho das "9 às 5" e o de ter de desenhar porcos... A autobiografia sempre foi sinónimo de "auto-ajuda" para os artistas e é o que parece nestas folhas A4. Formalmente o trabalho é bastante interessante com a sua distribuição rígida de vinhetas. Espero que Pereira e outros "chavalos do aPOPcalipse" descubram de vez que BD é sobre "escrita desenhada" e não sobre "desenhos" (com textos de não sei quem).


Lençóis Felizes (Sunflowers Books; 2013) de Van Ayres é capaz de ser o zine de BD que merece o título da "BD portuguesa mais freak de sempre"! Sim é uma BD sobre lençóis (felizes ainda por cima!) que andam por aí a voar, a curtir a vida, "naquela", na descontra... O desenho a lápis mimetiza o desenho das crianças e até se podia dizer que esta é uma BD para esse tipo de público mas então teríamos de pôr no mesmo saco os Moomins, Neil The Horse, Tales of The Beanworld, Caminhando Com Samuel, etc... É que uma coisa é o "infantil-infantilóide" como o Lucky Luke, Turma da Mônica ou a Disney feitos por adultos cinzentos, outra coisa são estas outras obras que apesar do ar de "todo público" ou aspecto "infantil" ou pelo "ar feliz" que conseguem levar-nos a estados de espírito "positivo" - terreno pantanoso quando vivemos numa sociedade obcecada pelo "positivo", "zen", "happy", "baba de caracol", "omega 3" e "yoga" - mas sem levar-nos para estas armadilhas de consumo barato Yo! Zen pró povo! Aqui o produto é genuíno, não fosse ele custar apenas 05 cêntimos e ser um zine fotocopiado em papel verde A5. O estatuto de génio poderá passar por aqui um dia... Ou já é? No que diz a domínio da linguagem da BD está perfeito, por exemplo. Ei-de de reler isto um dia num piquenique com muita fruta e água fresca!

Nada positivo - o título também não engana, né? - é Mass Extinction of All life (Cabidela Ninjas; 2003) de Uganda Lebre e Tosco... Zine A5 de ilustração algumas vezes com texto, é dos poucos zines em Portugal em que podemos Jesus a segurar caralhos, Santo António a fazer broches, Jesus em regime de auto-felatio enquanto bate uma punheta a um bófia nazi (não são todos?) que se esporra nas Suas costas. Há mais mas já contei o suficiente, não? Só não é fixe porque não é BD... Pois é! De resto já conhecem o trabalho do Uganda Lebre nas nossas antologias, certo? Não? Seus toscos!
E a Amanda Baeza têm um novo mini-comic!!! Nubes de Talco (Bombas Para Desayunar; 2013) saiu em Espanha, e talvez por isso, lembra-me imediatamente um "mash-up" de grafismos e intenções surrealistas dos grandes Pere Jóan e Max. Mini-zine A6 a preto e branco, Baeza investe para o satanismo, não de forma porca, suja e feia como os badalhocos dos Cabidela Ninja, mas de forma filosófica e intimista, com belos desenhos e composições gráficas. Esta é a confirmação que estamos presente da autora portuguesa de BD mais interessante do momento - mesmo que pouco ou nada tenha editado cá, o outro "mini" foi lançado na Letónia. Ah, e como a língua portuguesa é machista por natureza, quando digo "autora" na realidade queria dizer "autor" apanhando os machos e as fémeas. Heil Satanna!
Por fim, como já tinha referido, na Morta não houve convidados estrangeiros mas apareceu o Weaver - que entretanto tem uma exposição em Ponte de Sôr! - como visitante comprador de tudo o que lhe aparecia à frente! E também tinha coisas para oferecer e trocar como o catálogo do Expressiocinismo que se propõe como um movimento artístico-pictórico-pícaro fomentado pelo seu colectivo Monstra. Numa saco de plástico, aparece-nos um folheto com o manifesto do movimento e vários cartões, tipo postal, com imagens das obras dos autores e com divertidas biografias no verso. O movimento está sintonizado com o Neo-Pop Surrealista difundido pela revista norte-americana Juxtapoz - aliás, a exposição do grupo tem o seu apoio - propondo uma miscelânea de técnicas plásticas como pintura, desenho, serigrafia, objectos (Jabson Rodrigues), bordados em ponto cruz (Franklin Stein), etc... Aquele toque humorístico brasileiro que já conhecemos aparece por estas bandas e reforça as palavras do Aaron $hunga quando escreveu sobre o primeiro volume d'AcontorcionistA, dizia ele que era "absurdo escrever manifestos nesta altura do mundo onde existe Dubstep". Pois...

sábado, 9 de março de 2013

Comix Remix, parte I

Lembras-te quando eras puto com um gravador de k7s e com a pretensão de querer fazer música usando pedaços daqui e dali? Querias misturar aquele “beat” de uma música com um berro histérico do apresentador do programa de rádio. Ou prolongar para sempre aquele riff que tanto gostavas – e nesse tempo nem conhecias o termo "Drone"?


Pois é, já vivias numa “era de edição” em que os Dadaístas, William S. Burroughs, os Situacionistas, o Hip Hop e o Techno deram as bases teóricas, artísticas e técnicas, e por fim, o mundo digital deu as ferramentas para a concretizar ubiquamente. Todos nós seja quando preparamos um e-mail apaixonado ou um relatório cinzento habituamo-nos a escrever, corrigir, reescrever, cortar um excerto e colocar noutro parágrafo, reutilizar um texto para outro propósito nem que seja mudando o nome a quem nos vamos endereçar! Vivemos uma cultura de “copy / paste” – consequentemente as formas de arte arranjaram mais outras terminologias como “remix” ou “mash up”.

Enquanto isso as leis de direito de autor agonizam, sem saber onde irão chular a seguir, e até parece impossível que se venha a cometer outra vez crimes oficiais como aconteceu ao John Oswald ou aos Negativland (1) há umas décadas atrás – o que não verdade como irão ver mais à frente. Apesar da fama de batalhas legais ir quase sempre para a indústria fonográfica, na verdade os maiores casos legais de direitos acontecerem (e continuam) no seio da indústria BD norte-americana e na Europa, com a intratável Fundação Moulinsart a perseguir tudo e todos que usem o velho Tintin e a sua cadela idiota. A defesa extrema do “copyright” na BD é mais um pecadilho a juntar à história negra da BD. Mas não é sobre isto que vos quero falar mas sim sobre as possibilidades da cultura “remix” no médium do “comix”. E temos de falar disto rápido! Não há tempo a perder!

A BD demorou 40 anos a chegar ao automatismo (obrigado Robert Crumb e Moebius por terem tomado drogas!), ”andou às aranhas” com a autobiografia ou à auto-representação do autor, jornalismo, ensaio e crónica e uma eternidade no que diz ao respeito institucional. Não podemos ficar de fora, não podemos deixar que os DJs roubem todo o bolo! Preparem lá essa tesoura e cola! Melhor ainda… saquem lá o Photoshop!



Socialistische Patienten Kollektiv

Talvez as formas mais vulgares de “comix remix” serão os “cadáveres-esquisitos”, ou Comix jams como são conhecidos, em que vários indivíduos encontram-se num evento e fazem uma BD improvisada. Cada autor escreve e desenha uma vinheta, passa a outro autor para que seja continuada sem poder exercer nenhum controlo sobre o que irá acontecer à sua história original. Geralmente funciona bem quando o teu grupo de amigos junta-se no mesmo bar há anos e já não têm nada para discutir…

Os “cadáveres-esquisitos” são um catalisador colectivo de subconsciente onde reina algum caos narrativo (para não falar gráfico) no entanto este processo também pode ser direccionado com um propósito como um argumento prévio. É o caso de The Worm : The Longest Comic Strip in the World (Slab-O-Concrete + The Cartoon Ar Trust; 1999) escrito por Alan Moore e desenhado por “a galaxy of greats” (2). Com um propósito de criar fundos para o Cartoon Art Trust em 1991 através de um evento espectacular e mediático, participaram 125 desenhadores para realizar 250 vinhetas expostas em 75 metros lineares de cumprimento ganhando o estatuto da maior tira de BD do mundo pelo Guiness. A narrativa passa por um sonho utópico de um autor de BD que revê todo o processo da progressão da Humanidade e da sua relação com a BD: das pinturas rupestres aos hieróglifos, das tapeçarias de Bayeaux à BD moderna. O esquema de trabalho parece explicado no livro que publica o resultado final e percebe-se que houve um cuidado minucioso de Moore para cada vinheta fazendo com que esta BD seja diferente pela performance ao vivo e pela caldeirada de estilos gráficos de vinheta para vinheta.

o trabalho em linha de montagem de The Worm

os resultados gráficos  caóticos de The Worm

Mais interessante é a compilação Twilight Jamming : comic jams by Serbian underground family and their further relatives (Silent Wall Army; 2008) que é um “best of” das melhores experiências do género realizadas na Sérvia – onde existe uma tradição em “jams”. A mais radical enquanto manifesto artístico é do autor Wostok que declara que Year after year it was getting harder and harder for me to force myself to read some of those “profesionall” and “hight quality” comics. And when I had almost lost all hope that it is possible to find something really new, fresh and Creative in comics, it happened that I came across the stories and drawings of na absolute amateur. That peson was my four year old daughter Lola.[sic] Talvez esta descoberta tenha ajudado Wostok a tornar-se um incansável instigador de workshops de BD que realiza com grupos em aldeias, vilas e cidades, fora ou não da Sérvia, e ao publicar os seus resultados já merecia também um registo no Guiness por ter editado mais números de um fanzine – não me recordo mas creio que já ultrapassa os 600 números do seu zine Krpelj. Uma das BDs apresentada no Twilight Jamming usa um texto de Kate Hodges que biografa o mítico e alucinado produtor musical inglês Joe Meek (1929-1967). Ou seja, Wostok andou pela Sérvia e Alemanha obrigando as pessoas que se metessem no seu caminho a desenharem uma vinheta a partir do dito texto. A vantagem sobre o The Worm é que realmente o amadorismo chega ao ponto de haver participantes que nem desenham mas recortam imagens. Há uma vinheta que tem uma fotografia do Kurt Cobain, outras usam vinhetas de outras BDs populares (italianas?) sem relação com o texto criando todo um novo discurso entre imagem e texto – que não é assim tão novo, já lá iremos! Esta BD sobre Meek é de uma puerilidade cómica alinhada a um surrealismo sujo porque as imagens desenhadas (ou coladas) são feitas pelos participantes sem que estes tenham qualquer documentação real. Esta biografia de Meek acaba por ser tão negra e mistificada em imagens tal como foi realmente a sua vida.


o rapaz dos Nirvana a servir aos interesses britânicos e sérvios



Impelida pela força do silêncio abre-se para trás uma porta


Mas como dizia, não há um novo discurso na relação disparatada entre texto e imagem “roubada” porque Max Ersnt (1891-1976) fez dois maravilhosos livros de BD: La femme 100 têtes (Éditions du Carrefour; 1929) e Semaine de Bonté (Jeanne Bucher; 1934) (3). Ambos são “graphic novels” como muitas outras que se editaram nos anos 30 do século passado pelo mundo fora, geralmente identificáveis por usarem uma imagem por página (ou até uma por folha) ultrapassando as narrativas em mais de 200 páginas e com temas que não eram para entretenimento infantil e juvenil, como He Done Her Wrong (Doubleday, Doran & Co.; 1930) de Milton Gross (4) ou Destiny : a story pictures (Delphin; 1930) de Otto Nückel. De facto a existência destes livros revela outro pecado da BD enquanto arte, que não deixou este formato vingar até o aparecimento de Maus de Art Spiegelman em 1986. Ainda assim a diferença destas “graphic novels” com as de Ersnt é que este usa colagens para ilustrar os seus textos usando reproduções de gravuras da época Vitoriana cheias de tragédias épicas (acidentes) ou quotidianas (ambientes sórdidos), animais e engenhos tecnológicos, figuras etnográficas e mitológicas. As colagens naturalmente reúnem objectos e figuras humanas em desproporções físicas talvez porque não havia as fotocopiadoras (ou Photoshop!) para reduzir ou ampliar imagens o que no caso de Ersnt até reforça o cariz surrealista das obras. Semana de Bondade é impressionante como Ernst conta vários crimes passionais com imagens tão “desconexas”. É impossível, por exemplo, a mesma personagem ter a mesma cabeça ou corpo de imagem para imagem (vinheta para vinheta ou página para página) uma vez que cada colagem usa fontes diferentes não podendo. Talvez dada à tecnologia da altura, reproduzir a mesma “figura” implicasse ter vários exemplares da mesma revista de onde Ersnt recortava para ter uma continuidade figurativa, ou então, ele simplesmente não o quis... Para os fatalistas do “tudo já foi inventado”, é verdade, o Max Ernst foi o primeiro “comix remixer” do mundo!

Capa de Una Biografia
Em 1973 é dado mais um passo em frente neste tipo invulgar de BD, com o espanhol Chumy Chumez (1927-2003) e o seu álbum Una Biografia – um livro de 104 páginas em grande formato (27x35cm). Diz na introdução da edição da Grupo Libros (1994) que o autor demorou 5 anos a fazer este álbum, três dos quais a juntar imagens para recortar e montar. As imagens são também retiradas de revistas ilustradas do século XIX, por isso, elas são também na essência gravuras, dando, tal como os livros de Ernst, alguma coerência formal e estética. Chumez admite também que não queria que as suas colagens ganhassem uma dimensão surrealista, o que se concluí que deveria conhecer os livros de Ernst e não queria ser facilmente comparado, embora isso seja quase inevitável por não haver muitas obras assim. Onde claramente se distingue é na composição de página, sempre composta por três tiras por página, e texto em baixo de cada tira/ vinheta, um formato rígido, tradicional e facilmente reconhecível da BD. A sensação que as imagens nos transmitem é de planos cinematográficos, o que não será de estranhar, uma vez que o autor além de cartoonista também era realizador de filmes (5), havendo sequências sem texto perfeitamente assombrosas – a do sonho, da fecundação (microscópica), dos pássaros (da morte) ou a do leão.

a fecundação em Una Biografia


Muito provavelmente haverá mais deste “tipo” de trabalho - BDs feitas exclusivamente de colagens - espalhados pelo mundo, e correndo o risco de passar por ignorante nacionalista não deixaria de comentar uma modesta intervenção de 5 páginas da BD Avés Marias Rap de Diniz Conefrey na revista Lx Comics #2 (MFCR; Outono 1990) que desbunda um “rap” sobre Lisboa usando imagens desenhadas de panfletos turísticos e fotografias de Lisboa. Mais curioso ainda é que o próprio texto é também um “mash-up” de textos do escritor Cesário Verde e uma reportagem sobre Portugal da National Geographic dos anos 50. Com duas vinhetas / tiras por página é um retracto melancólico de um país pobre que só pode viver do turismo mas sobretudo é uma pequena pepita de ouro produzida mais sobre a influência da música de David Byrne e Brian Eno do que outra obra visual.

o Rap de Conefrey


A propriedade é um roubo

Os franceses adoram o termo “detournement” para quando se pega numa imagem e muda-se o texto dando à imagem um significado completamente diferente. Os Situacionistas na sua acção fartaram-se de fazer isso nos anos 60, mais tarde os Punks mantiveram esta ideia viva até que nos dias de hoje quase toda a gente pratica esta arte iconoclasta – quantos “forwards” com um gif animado e manhoso a gozar com alguém famoso recebes por dia?

Em Itália também se mastigou bem o Situacionismo especialmente o autor Stefano Tamburini (1955-1986) que entre várias sacanices elaboradas, é de se referir o divertido Snake Agent (1984) em que fotocopiava as tiras “clássicas” (como o Secret Agent X-9), remontando para histórias de espiões obcecados em prazos e timings minuciosos. Para gozar com a questão da precisão e cronometragem, as imagens eram arrastadas na fotocopiadora dando um efeito de “desfoque” – da mesma forma quando um objecto é “fotografado” a uma grande velocidade. Já antes, Tamburini, diz-se, que chegou a fazer BDs de “westerns” para a enorme indústria italiana de “Fumettis” decalcando os desenhos de outras BDs similares (5). Nunca vi o resultado disto nem consegui confirmar através dos meus contactos italianos mas só por si é um belo mito urbano!

Snake Agent por Tamburini publicada na revista brasileira Animal (ou julgavam que isto tinha sido traduzido em Portugal? Ah!)

Com o advento da fotocopiadora e mais tarde dos PCs, o uso de fotografia ou de outras imagens, colagens e inserção de objectos ou texturas nos trabalhos tornou-se mais ou menos vulgar para desenhar ou acrescentar algo ao desenho embora o objectivo de usar excertos (samples) de imagens reais (geralmente fotografias) sirva apenas como decoração sem que isso traga elementos subversivos à narração. A lista será interminável, podemos encontrar nos “comics” de super-heróis (John Byrne), nas BDs francesas (Piotr), espanholas (Josep M. Béa), belgas (La Vache de Johann de Moor) e no influente britânico Dave McKean. A sua influência foi tal que durante uma década, os ilustradores quase perderam os seus empregos porque qualquer Designer achava que poderia fazer ilustrações à McKean com o Mackintosh “scanando” umas texturas e despejando na “ilustração”! Antes deles todos ainda podemos encontrar um importante trabalho de colagem fundido com texto e imagem pelo artista de Art Brut, Henry Darger (1892-1973) que fez o maior livro da história (15 145 páginas!) e claro é obrigatório referir o grande mestre uruguaio/ argentino Alberto Breccia (1919-1993) que conseguia desenhar tão bem com os habituais riscadores como com papel colado. Entre 1973 e 1979 publicou várias BDs que adaptavam contos de H.P. Lovecraft (7), onde ironicamente usou a colagem (fotografias) para poder representar o irrepresentável - que é o fulcro da obra Lovecraftiana - sendo estas BDs talvez o pico virtuoso do uso de colagem em BD.

Nos anos 90 surge o movimento OuBaPo (8), apoiado pelos membros da editora francesa L’Association, que teorizou uma série de ideias para BDs diferentes dos cânones habituais aplicando-se na criação restrições matemáticas ou semânticas. Irmanada do movimento OuLiPo que afirmaram que os seus escritores eram ratos que construíam um labirinto que dele se proponham sair, entre as várias propostas de exercícios na sua revista oficial, OuPus I (L’Association; Janeiro 1997), vamos encontrar desde o clássico “detournement” (um texto de Freud numa prancha de Little Nemo in Slumberland) à diminuição do número de vinhetas de uma BD já publicada - imaginem uma aventura num álbum de Tintin de 60 e tal páginas em que se colocam 10 vinhetas numa só página. Mas também colagens de elementos de uma BD noutra, reenquadramento de imagens e até substituição de elementos gráficos por outros novos. Foi uma caixa de Pandora teorizada e modelada que poderá ter levado criadores de todo do mundo a fazerem experiências novas com a BD, embora duvido que o norte-americano Hank Retchum tenha lido estas teorias redigidas em francês quando fez a simples página Menaced Dennis no primeiro volume de Legal Action Comics (Dirty Danny Legal Defense Fund; 2001). Nesta BD usa close-ups da tipificada série “Dennis The Menace” – aquele género de BD sobre putos de classe média norte-americana que estão sempre a fazer traquinices - e que lhe tira justamente esse ar inocente e divertido para transmitir uma cena de violência sobre crianças – nunca é demais relembrar que os EUA é o país com maior estatística de pobreza infantil, trabalho de menores, abusos sexuais... Definitivamente algo que é originalmente inocente pode ser “remisturado” para algo sinistro.

O irritante Denis leva porrada!


Entre várias iniciativas produzidas pela OuBaPo a mais próxima do “remix” musical é sem dúvida a Series OuMuPo (2004-06), em parceria com a editora fonográfica Ici, d’ailleurs. Foram produzidos seis CDs acompanhados pelos respectivos “booklets” com BDs. Cada “rato”, músico ou autor de BD, inventou os seus “labirintos para saírem deles” embora houvesse uma regra geral que todos deveriam usar os materiais sonoros e gráficos dos catálogos das editoras envolvidas no projecto. Assim, The Third Eye Foundation, DJ Hide, Rob Swift, DJ Krush, Rubin Steiner e Kid Loco misturaram faixas de discos das bandas como Micro:Mega, Matt Elliot, Yann Tiersen, Bästard entre outros projectos, não fugindo muito a uma lógica de “mix-tape” de música electrónica que esteve na moda nos anos 90 – batidas Hip Hop sobre um ambiente de Clubling burguês – e apesar de muitos escolherem os mesmos temas para misturar, ainda assim conseguiram transmitir a personalidade do misturador – ex.: Steiner é mais kitsch / Disco, Swift mais Rap, etc… Da mesma forma os autores de BD Jochen Gerner, Luz, JC Menu, Dupuy-Berberian, Killoffer e Étienne Lécroart usando imagens de vários autores editados pela L’Association (José Parrondo, Matti Hagelberg, David B, Sfar, etc…) conseguem mostrar versatilidade de propostas de “mixagem” e de identidade artística sendo o trabalho mais conseguido será o de Killoffer que reproduz as 64 jogadas de uma partida de xadrez entre Marcel Duchamp e Edouard Verschueren em 1923.


OuMuPo, vol.6 reúne DJ Krush no CD e Killoffer no livrinho / BD
nunca o xadrez foi tão divertido de se assistir!

Há no entanto uma nova geração de autores que estão a fazer uma síntese do que tenho estado aqui a escrever, são os nossos contemporâneos Dice Industries (Alemanha), Fredox (França) e Dunja Jancovic (Croácia), que mantêm a chama acesa do corte e costura e preparam-se para esticar para um novo nível, embora para já os seus trabalhos sejam mais gráficos do que narrativos. Fredox usa colagens para mostrar um mundo “porno-gore” cheio de feridas psico-sexuais e desordem social – como poderão tomar conhecimento no assustador Les Dossiers Noirs de L’Histoire (Le Dernier Cri; 2001) que compila esse trabalho gráfico. Recentemente na antologia Hopital Brut (Le Dernier Cri) têm-se assistido à publicação de trabalhos com sequências que se inscrevem no âmbito da BD. Dice Industries fez um caminho oposto, começou por fazer BD depois achou que já estava tudo desenhado e que ele não conseguiria acrescentar mais nada nesta forma (9), e passou a usar a colagem para potencializar novas visões. Usa elementos das BDs populares da Disney (e quejandos) e Manga comercial para criar paisagens e abstracções. A maior parte destes trabalhos tem sido mostrados em galerias ou pequenos catálogos auto-editados – no seu “zine de vida” QWERT  com 15 números lançados, os últimos quatro dedicados ao trabalho de colagem. Recentemente para o meu “zine de vida”, o Mesinha de Cabeceira (#23 : Inverno, Associação Chili com Carne; 2012) Dice pegou numa série de colagens e acrescentou um texto para podermos inserir esta série na categoria de BD, será este o regresso de Dice à BD? Espero que sim! Dunja no seu recente livro Circle Cycles Circuits (Firma; 2012) coloca colagens ao serviço da narrativa e funde-as com desenhos seus – as imagens são sobrepostas, montadas, desenhadas por cima. As imagens tanto são fotografias figurativas como são apenas formas geométricas ou abstractas. Serão desenhadas à parte e coladas posteriormente? São pinturas falhadas que são recuperadas para “texturar” as páginas? Não sabemos…

Dice Industries no Mesinha #23


Em 2011 apareceu um livro intitulado Katz que teve o triste final de ter sido destruído sob a acusação de infringir “copyright”. Katz substituía as cabeças de todos os animais de Maus por cabeças de gatos – relembro que em Maus, ao retratar a perseguição dos judeus no regime Nazi, Spiegelman retrata os judeus como ratos, os alemães como gatos, os polacos como porcos... Quando os autores anónimos de Katz fazem a substituição das cabeças, uma das várias perguntas que se levantava é o maniqueísmo antropomorfo realizado por Spiegelman na construção da sua obra. O livro foi recolhido em 2012 do mercado e os exemplares foram destruídos num revivalismo histórico digno dos tempos em que os The JAMMs (mais tarde The KLF) tiveram de retirar o seu disco com samples dos ABBA. No entanto a barbárie de 2012 chega a ser pior a de 1987, pois se os JAMMs foram prá Suécia destruir os discos como mais uma provocação no caso de Katz os exemplares tiveram de ser destruídos, incluindo o ficheiro digital, na presença de representantes oficiais! (10)


A conclusão violenta deste livro mostra que afinal a BD ainda contém elementos perigosos por explorar. Apesar de ter vivido tempos “zombies” actualmente não é uma arte morta!



Marcos Farrajota
Lisboa, 26/02/13

Agradecimentos Tommi Musturi, Bedeteca de Lisboa, Diniz Conefrey, Vitor Petel, Ilan Manouach, Thanassis Rentzis, Valerio Bindi e Alberto Corradi. Ondina Pires traduziu para inglês este artigo que será publicado brevemente no jornal finlandês Kuti, e Joana Baguenier traduziu para francês para ser publicado no livro MetaKatz. Uma segunda parte deste levantamento de “comix-remix” está a ser redigido mas desta vez focado nas questões narrativas.


Notas

(1)  é curioso que o processo levantado contra os Negativland tenha sido os “defensores dos pobrezinhos” dos U2, que nada fizeram para aliviar os sacríficos que os Negativland sofreram.
(2)  Onde vamos encontrar desde o desconhecido Christopher Webster ao famoso Kevin O’Neil
(3)  O primeiro é a Mulher 100 cabeças (que quer em francês e português pode-se ser como a “mulher sem cabeças”) e o segundo é Semana de Bondade. Procurem edições modernas destes livros, em Portugal estão publicados pela &etc
(4)  Ver edição portuguesa da Libri Impressi, Ele foi mau para ela (2011)
(5)  Outra curiosidade, quer a Mulher 100 cabeças de Ernst quer Una Biografia de Chumez, foram adaptadas para cinema. A mulher foi realizado pelo francês Eric Duvivier em 1968 e Una Biografia pelo grego Rentzis Thanassis em 1975- que é capaz de ser a única adaptação realmente fiel para cinema de uma BD, embora o realizador tenha acrescentado um capítulo extra no final do filme.
(6)  É de assumir que seja um tipo de BD popular dos anos 70, feita por autores anónimos, mal remunerada e de conteúdo estereotipada, do tipo “Tex” da Bonelli ou algo assim...
(7)  Estas BDs estão exemplarmente reunidas em Les Mythes de Cthulu (Rackham; 2008)
(8)  Ouvroir de Bande Dessinée Potentielle / Oficina de Banda Desenhada Potencial
(10)  Podem ver o vídeo em vimeo.com/38618657