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terça-feira, 17 de setembro de 2019

"We can expect an extraordinary variety of genre and apparent eclecticism, but with an underlying conformity of sentiment and vision" (Tim Parks)

Outro texto que ficou perdido no tempo, viva as férias para recuperar e finalizar o artigo mas de resto como já sabem, as antigas resenhas que eram publicadas aqui foram prá A Batalha...
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Vive-se uma estranha confusão por aí, sobre o facto de "girl power" significar "feminismo". Se estamos perante alarvidades como as Spice Girls ou a Capicua ou em mulheres políticas que dizem barbaridades como a Joana Amaral Dias (ela que vá para a Índia com as suas propostas de transportes públicos com espaços exclusivos para mulheres) então estamos em modo de Neo-liberalismo tosco, que produz grandes porcas como a Margaret Thatcher (Rest In Pain!), Theresa May ou Christine Lagarde! Já temos o badalhoco do Trump neste triste mundo, não precisamos de versões femininas da mesma bosta. Na sociedade portuguesa, que nunca foi de grandes lutas sociais desde que o "Cavaquistão" se instalou, vê-se agora muitas mulheres dondocas armadas em grandes sistas e preocupadas com o status quo do seu género. Isto cheira-me a preguiça e a ignorância. Gostaria de as ver nas corajosas manifs dos queers, ou contra a tourada ou contra a empresa Monsanto, por exemplo, e não apenas em manifs de mulheres.

E há algumas que fazem isso! Elas vão a essas manifs para levar porrada cega e cobarde dos bófias-cães-de-guarda. As outras, as que ficam em casa no "Fezesbook" e só saem quando se fala de "direitos das mulheres" são um novo fascismo populista P.C. (nem os comunas terão nisto culpa, pobres diabos) que de imaginativo nada trás - só castra (ui!). Felizmente existem órgãos de comunicação com pés e cabeça, como a revista galega Revirada, que esteve presente na Zine'R'Us no Festival Feminista de Lisboa no ano passado. Mais bonita em linha do que fisicamente, mostra que em Espanha há sempre malta que junta esforços e mete-se em aventuras reais e impressas. Seja para discutir a violência ("e se as feministas usassem a força?" é o tema do #2) ou sobre identidades (#3) ou ainda sobre o desporto Roller Derby, há aqui informação para as portuguesas se informarem, afinal de contas os textos são redigidos em galego, castelhano e português. Outra surpresa dessa feira foram As Bruxas de Blergh, pela Sapata Press, com aspecto trashy e de fanzine "corta-e-cola", pretendem meter medo à antiga, quando uma mulher mais "prá frentex" era logo considerada ser uma bruxa. Já que têm a fama que tirem o proveito! Assim, estas Bruxas dão ferramentas para fazer "voodoo" sobre os políticos fachos do Brasil. Trump entra como extra, claro... Espero que resulte!

Falando da Sapata, eis um projecto que só uma estrangeira poderia fazer no país em que todos vivem como ratinhos bem-comportados - e ratinhas! A Cecília Silveira começou um projecto para inverter a sub-representação de mulheres e dissidentes de género nos espaços de produção de banda desenhada, e a secundarização destxs na história. Publicando projectos de cunho biográfico/ político e/ ou experimental através da perspectiva de autorxs de diferentes origens e backgrounds. É isso aí! Em pouco tempo já editou uma meia-dúzia de zines muito bem produzidos - ou devemos chamar "chapbooks" ou "plaquettes"? - de autoras brasileiras e portuguesas, como o Lado Bê de Aline Lemos, Coração Partido de Ellie Irineu, Sensui de Dois Vês e Fundo do Nada de Ana Caspão (que participou na Visita de Estudo ao Milhões).

A primeira coisa quando pego nestes zines é pensar se haverá uma forma feminina de desenhar, ou de escrever, enfim de fazer BD? Claro que Anke Feuchtenberger ou Julie Doucet ou Jucifer escrevem / desenham de forma diferente do resto dos idiotas da BD comercial-mercenária mas também o fazem, os masculinos Atak, Chester Brown ou André Lemos - ou o queer Sam Wallman, já agora. São artistas e não macacos-de-imitação. Justamente por isso chateia-me ver que Irineu ao querer contar uma lamechice use desenhos e legendagens que poderiam ser de uma série comercialóide qualquer; que a Aline Lemos apesar do texto muito pertinente seja mais uma "Angeli", ou seja, a sua representação caricatural do íntimo vira para algo genérico como uma vulgar tira humorística - que continua a ser uma marca da BD brasileira - sendo queer ou straight!; e, que Ana Caspão desenhe como estivesse a fazer super-heróis ou séries de Sword & Sorcery. Talvez neste último caso, se desculpe a figuração porque Caspão faz uma BD onírica dentro de um universo "fantástico". Aliás, ela parece ser a única pessoa em Portugal que sabe desenhar este género de coisas com estilo e pujança, está pronta para ir prós "comics-books" dos gringos, se ela bem quiser. A legendagem topa-se que está deslocada do desenho e cria frieza, como é que alguém que consegue levar o leitor para tão longe numa metáfora sobre a vida (da autora? de todos nós que crescemos?) e depois deita tudo a perder com letras mecânicas, cartuxos de textos de "marca branca", onomatopeias e balões de BD vulgares? Ana, caga nas convenções da BD, (re)inventa tu outras para o teu trabalho! É um belo livrinho seja como for mas o mais belo deles todos é o da Dois Vês, talvez inspirado no filme Ama-San de Cláudia Varejão, sobre a rotina do trabalho e a respectiva anestesia alcoólica de uma mergulhadora. É um "loop" sobre o delírio que a vida pode ser, num estilo gráfico super-elegante cheio de texturas. Belo, merece uma imagem grande neste "post", tomem:


sábado, 23 de setembro de 2017

Não pula



O Terceiro Corno (A Giant Fern; 2017) é a segunda k7 dos Zarabatana, onde a surpresa diluí-se e a entidade se mistura com outro projecto - culpa de Bernardo Alves que abriu a boca com neo-primitivismos que se conheceram em Alförjs. Estes lançaram antes de Zarabatana, também o seu segundo registo, em CD, Demons I pela Shhpuma - mais uma vez, há editora portuguesa mais atenta que esta? Não deveria ter começado por escrever sobre Alförjs então? Não sei, andei a adiar estas resenhas porque não estou inteiramente feliz com estes "segundos difíceis discos" comparando com os de estreias.
O Corno parece manso e os "Demónios" muito curtos, há repetições de territórios mapeados nos primeiros discos e basta o Alves abrir a boca em Zarabatana para achar que me enganei no disco. Que tal fazer uma super-banda? O Quinteto Zarabörjs?
Apesar desse pormenor irritante é de destacar a gravação ao ar livre nas matas de Sintra pelos Zarabatana, sentindo-se algo realmente "free" no registo. Sei que fui contaminado pelo video "making of" mas desde que comecei a ouvir o "disco" em "download" (invés da k7) sabia que havia algo de estranho no som da gravação. O som límpido do digital permite perceber de que se trata de uma bela de uma bofetada para muita gente que perde tempo e dinheiro em estúdios! Muito bom!
O tema Ajuba do Demons I quase que faz o disco, é totalmente voodoo crazy, uma bomba! Acho que vou meter o LP dos Macumbas à venda que não bate tanto como estes demónios do Sul... De resto, soa a pouco o CD mas o pior é o artwork do CD que é uma valente cagada, nem percebo porque raios o Travassos deixou isto passar... Estavam a pensar para o formato grande de um LP!? Pois, pois, erros destes havia nos anos 90! Estamos em 2017, pessoal, por favor...
Quanto a Zarabatana houve uma mudança visual da capa da primeira k7 prá esta segunda com uma imagem mais identificável com a África negra. É bem sacada mas prefiro o aspecto mais "abstracto" da primeira k7 justamente para não colocar a música em continente algum. Entretanto no bandcamp mudaram a capa da primeira k7, muito parecida com a segunda, temos Estalinismo a limpar o passado!?
Apesar dos pecadilhos de quem não sabe a bela arte de editar (oh oh oh), ainda assim estas bandas são da melhor música que se faz em Lisboa.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Livros do contra

Apontamentos rápidos de vários livros de editoras independentes que tenho apanhado por aí...

Tudo indicaria que este seria o livro do ano mas Desobedecer às Indústrias Culturais (Deriva; 2017) de Regina Guimarães desilude. Metade do livro é uma análise acertada às ideias neo-liberais das "indústrias criativas e culturais" e sobre os desastres do Porto sobretudo por causa do merdas do Rui Rio e a gentrificação / disneylização da cidade - fenómeno que está atingir quase todas as cidades no mundo. Mas a outra metade é uma preguiça que só se justifica porque já se sabe que os poetas não curtem trabalhar. Então para encher chouriços Guimarães mete as (poucas) respostas a um questionário que fez a grupos "do contra" que só dizem leviandades para despachá-la. O pior, é que nada é dito COMO desobedecer! Não que um gajo queira uma cartilha de (des)obediência mas pelo menos entender o que fazer num cenário tão complicado em que vivemos. Já se sabe que quem trabalha neste meio independente artístico e cultural (sobre)vive cheio de contradições e paradoxos, justamente por isso é que merecia mais análise e discussão, não basta manda uns bitaites a soar a ressabiado. Shame on tha hippie!


Prosa poética feminista-queer pós-25 de Abril é a forma mais fácil de apresentar Lábio/ Abril (Traveller + Presente; 2015) de Daniel Lourenço - o nosso "agente provocador" quando apresentamos publicamente o livro sobre o Queercore do Camarada REP. Para simplificar ainda mais, ou para ficar mais angustiado, é escrito que foi dito no 25 de Abril que "a revolução não foi feita para prostitutas e homossexuais reivindicarem" - General Galvão de Melo dixit. Com isto, nada melhor que uma revanche literária dedicada a todos que ficaram excluídos da "democracia". Mesmo que se possa dizer que no máximo este bandalho de militar poderia estar ser reaccionário de forma meramente coloquial (seriam as prostitutas os vendidos? e os homossexuais os covardes?), convenhamos, a declaração serve na mesma para posicionar as mulheres e queers num cantinho sossegado e servil em 1974. Sendo data zero da nossa actual sociedade então este servilismo ainda está presente em 1984 ou 2014. Lourenço escreve contra um evento político feito de espingardas e pilas (os standards mentais dos militares) onde nitidamente precisava de mais cus e de conas. Imaginem como seria Portugal se o Mário Soares fosse gaja, o Eanes paneleiro ou o Pinto Balsemão transgender? Teria sido um país bem melhor, sem dúvida...


A Grain of Sound além de ter voltado e continuar a lançar música experimental de qualidade (um dos melhores discos de sempre foi feito por eles - este), agora mete-se nos livros! Já antes - há muito tempo - tinha uma revista em linha, a Sonic Scope Quartely, que mostrava que não brincavam em serviço. Cinza (2016) é um livro de fotografia de Nuno Moita mas para os puristas não será nada disso. As fotografias tiradas entre 2009 e 2016, em viagens a vários continentes, estão sobrepostas umas sobre as outras criando um caldeirão de cinzas que não permite fazer reconhecimentos de lugares ou de situações, como se espera da "realidade" da fotografia. Se calhar o que temos aqui é um livro de "foto-montagem" em que as cidades reais são transformadas em locais dignos do Blade Runner ou Neuromancer. O "cinza" da excelente impressão lembra que esse locais imaginados futuristas (mesmo que distópicos) deram lugar ao deserto do nosso século incapaz de ter uma visão de futuro mesmo que seja só para os próximos cinco minutos. O livro é acompanhado com um CD de Carlos Santos, tão nubloso como livro, sendo impossível não o considerar uma banda sonora. A voz da quarta faixa lembra os manifestos "this" do Rasalasad dos Antibothis... Hum, ladrão que rouba ladrão, mil anos de perdão.

Os portugueses continuam a ser uns broncos no que respeita à imagem. Prova disto é Fátima Kitsch : Outra estética (Fronteira do Caos; 2017) da Camarada Ondina Pires, um livro que deveria ser um "picture book" e não, é uma cagada digital... Depois de tratar do realizador maldito Kenneth Anger e o "rei do rock português" Victor Gomes, este terceiro livro de Ondina é sobre o "merch" que se produz naquele penico chamado Fátima. Para alguns poderá ser considerado oportunista lançar um título assim no ano em que se celebrou, com laivos de ecoterrorismo e acidente social, os 100 anos das revelações alucinadas dos três pastoritos. No entanto, conhecendo a autora, o interesse pelas santinhas de plástico e faiança é genuíno, a Ondina é uma coleccionadora nata, uma "nerd" pelo kitsch mais kitsch - não teria ela sido dos The Great Lesbian Show ou co-autora de fotonovelas com bonecada? Foi uma coincidência cósmica o livro ter saído por esta altura...
Feito de um texto simples e respeitoso, é explicado o kitsch, a criação e fabricação dos objectos de devoção a Fátima e para finalizar deveria ser uma galeria de fotografias da colecção de Ondina mas infelizmente as imagens são colocadas ao molho, mal impressas (impressão digital), com legendas pouco explicativas - aliás, nem são numeradas para indexar as referências no texto - e sobretudo mal-paginado sabe-se lá porquê! É preciso estar a rodar o livro centenas de vez para ver tudo como deve ser. A culpa, parece-me, é pelo facto de ser um "split-book" (de um lado em inglês e de outro em português) e por isso, talvez, os editores não quiseram colocar as imagens por uma ordem de leitura conforme se venha do lado inglês ou do outro. Assim colocaram todas as imagens na horizontal num sentido de quem vem do lado inglês e do outro de quem vem do português tornando-se num caos que dá jus ao nome da editora. É uma pena, este curioso acervo e extravagante conhecimento sobre o mesmo merecia ser melhor tratado. Diria que parece um livro da Paulus mas até estes emissários da ignorância fazem melhor...

Tonto (Ed. Valientes; 2017) é uma compilação de BDs, cartoons e cartazes para concertos punk do mexicano Abraham Diaz que também faz jus ao título... quanto à edição, antes demais, é excelente, o design de La Sanntera (aka, Camarada Lam López) melhora de edição para edição, julgo que se pode dizer que é um dos melhores designers de livros de BD do momento.
O conteúdo é divertido, desenhos porcalhões e tal, o grafismo é como se o estilo do Don Martin (da revista Mad) tivesse sido roubado pelo Vuillemin usando as "falhas" do Gary Pather. Tal como o Mike Diana quando foi para tribunal explicar os seus desenhos mostrou que o que fazia era por necessidade de deitar para fora os horrores da violência que lhe chegava pelos media e pela sociedade, também Diaz reage à ultra-violência da sociedade mexicana e deposita-nos em tanta merda sem sentido que se pode sufocar nela. A diferença entre os dois, é que o primeiro oferece ainda personagens inocentes, em que ainda se pode identificar naqueles bonecos toscos um bocado de humanidade que irá ser posta em prova com o Sade como Júri, em Diaz isso não acontece. Depois de fechar o livro, já não me lembro o que aconteceu de tão horribilis nas suas páginas...

Por fim, Comiczzzt! Rock e Quadrinhos : Possibilidades de Interface (Contato Comunicação; 2015) de Márcio Mário da Paixão Júnior - o granda-boss da Monstro Discos, Voodoo! e festival TRASH - é a sua tese de Mestrado, onde ele procura um interface entre o Rock e a BD.
Livro interessante que peca pelos trejeitos chatos da escrita académica - boooring - e pelo descuido gráfico do livro - nada de grave, como o livro da Ondina, mas percebe-se que quem o fez faltava-lhe amor pela coisa... Aprende-se várias curiosidades culturais no que respeita ao grafismo de discos ou sobre o underground comix dos anos 60, sendo que a procura de Márcio acaba por ir parar ao seu projecto musical, a banda Mechanics, mais concretamente no CD e o livro de BD Música para Antropomorfos de autoria do grande Fábio Zimbres - que assina uma bela capa, estragada pelo logótipo da editora, breargh... É este "making of" que acaba por ser mais incisivo pois se seguiram os "links" desta resenha já perceberam que a Música para Antropomorfos tem um conceito (e bom resultado, faça-se justiça!) muito interessante e híbrido. Food for brain!

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Freaks Lx

Älforjs: Jengi (Silent Water + BurroDiscos; 2016)

Este trio de freaks limpinhos foi uma das surpresas deste ano, quer dizer, vi-os ao vivo e já fazem parte das boas recordações de concertos de 2016 que achei surpreendentes. Isto num ano que ainda nem vai a meio e já ofereceu prestações maravilhosas de Plus Ultra, HHY & Macumbas, Putan Club, Jucifer ou Sly & Family Drone... O difícil é bater o som ao vivo numa audição domiciliaria senão é que é impossível. Acho que em Portugal falta sempre aquele "oomph" que os bifes e gringos conseguem fazer nas suas produções fonográficas e basta ouvir Cut Hands dentro do mesmo universo de "voodoo-noisers" para perceber as diferenças.
O projecto também pode ser comparado aos Macumbas, só que estes bons selvagens dos Älforjs não querem o pessoal de tanga feita de cânhamo lá em casa a derrubar cinzeiros. Propõem levar-nos mais para o sofá fumar a tanga (já que é de cânhamo) e ver um canal de cabo com uma paisagem exótica no ecrã. Disco composto por dois temas, um para cada lado no vinil, é de referir que o primeiro, Natura Ruidosa, tem quatro momentos dedicados a personagens literárias que discutem as relações entre civilização e o selvagem: Papalagi (os leitores deste blogue devem de certeza conhecer a edição ilustrada por Joos Swarte, certo?), Próspero, Crusoé e Marlow (d'O Coração das Trevas de Joseph Conrad). Será em jeito de homenagem ou são apenas referências de coordenadas culturais para estes neo-nativos da capital portuguesa?
Os nativos são Bernardo Álvares (de Zarabatana, ao qual se pode fazer também comparações entre as bandas), o Mestre André (o gajo da loja!?) e Raphael Soares (The Sound of Typewriters e Sunflare) que prometem outro álbum dia destes. Até lá aproveitem que este mês eles andam na estrada a promover este Jengi, ide lá vê-los!

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Milhões de Índios Cocaleros





Mais um Milhões de Festa! Ou talvez o melhor ou o mais equilibrado que já assisti em que houve todos os dias e noites bandas com alta energia. Este festival distingue-se dos outros porque é feito por quem gosta de música e é por isso que os Drunk in Hell na noite de Sábado invés de andarem à porrada num pub como devem fazer sempre foram convidados a saírem de Inglaterra pela primeira vez para tocarem o seu Sludge autista com saxofone ruidoso num dos palcos principais e à noite. Não haverá outro festival que se arrisque a tal, ou seja, a trazer uma banda estrangeira desconhecida até na sua própria terra para um "horário nobre". Logo a seguir foi o velho Michael Rother que deu uma lição de Rock instrumental em que espero que as 60% das bandas que costumam ir tocar ao Milhões aprenderam de vez como se faz um espectáculo deste tipo de som para deixarem de ser redundantes...  E se o Islam Chipsy tivesse tocado teria sido um BILHÃO de Festas, mesmo! Mas os egípcios cancelaram por problemas no aeroporto de Cairo. Raios!

Com consciência que o Rock é uma expressão cosmopolita e que isso já não significa vir de Londres e Nova Iorque, o Milhões explora todas as contaminações globais mesmo que os projectos estejam mesmo ao lado de Barcelos como os portuenses HHY & The Macumbas que na noite anterior cumpriram o tripanço necessário num festival de Verão, cada vez mais densos e demolidores no seu Dub Voodoo. O Porto por ser uma cidade toda fodida criou esta escola de bandas de destruição maciça como os Plus Ultra onde está Gon - o vocalista dos extintos e saudosos Zen e um verdadeiro arruaceiro em palco. Foi para mim a melhor banda do festival, um power-trio super-oleado, pesadelo para o técnico que cuida do palco e com um som que soa a tudo mas consegue de alguma forma ser novo. Com breaks e composições sofisticadas, tudo isso sai ao vivo como se fosse tocado pela primeira vez, como se fosse improvisado mas o mais provável é que foi ensaiado mil vezes. O que quer dizer que em Portugal se confirma que só os Zen e agora estes Plus Ultra perceberam que o Rock e o Blues são músicas de libido e libertação, que é música para ser vivida como se não houvesse amanhã! Só posso chegar à conclusão que é esta a única banda de Rock portuguesa, e que tudo o resto que anda por aí são trapaças do Fado. Propunha pró ano, o Milhões anunciar os Death Grips como cabeça de cartaz, depois avisavam que eles cancelaram a vinda (o que não seria de admirar como bem se sabe, os Death Grips fartam-se de fazer isso) e colocavam os Plus Ultra como substitutos, ninguém iria ficar chateado... Existe uma k7 da banda lançada pela Tapes, She Said que é de aproveitar enquanto há! Objecto curioso pela embalagem (um livro com as laterais coladas e o interior cortado para caber a k7) e que sabe a pouco, mesmo muito pouco (4 temas, 14 minutos apenas!)...

Mas o que se deve dizer deste festival é que pouco interessa se conhecemos as bandas ou não que vamos lá ver / ouvir, muitas vezes mais vale a pena nem saber de nada! É verdade que podemos encontrar uns padeiros do Doom como os Hey Colossus (seca!!!) mas somos compensados pela festa "transgender" dos Golden Preacher ou o bafo sonoro de The Bug ou os outros exemplos acima destacados. Convém ir de coração aberto para um mundo de sons sem fim e livre de preconceitos. Esta é a razão porque que a Chili Com Carne - e agora acompanhado pelo Xavier Almeida e a Signal Rex - meteu-se mais um ano a vender livros, no palco Taina. O Milhões é um "melting-pot" de estéticas tal como a Chili também o é. Daí a parceria, para quem tinha dúvidas...

capa do CD-EP M'boi Mirim dos TEST
Por fim, no palco Taina, o destaque deste ano foi para as bandas brasileiras de Grind D.E.R. e TEST, que fizeram a proeza de no final de TEST tocarem as duas juntas ao mesmo tempo e no mesmo palco usando o mesmo baterista no meio delas. Uma banda tocava para as colunas esquerdas, outras para as da direita, o barulho de uma abafava a outra enquanto o publico ia de um lado para o outro ouvir uma banda ou a outra. Cara, o "metáu está ficando conceptáu! 

domingo, 5 de julho de 2015

Baron Dimanche



HHY & The Macumbas : Throat Permission Cut (Silo Rumor; 2014)

Uma banda destas não é para meninos. Mesmo que sejam adultos mutantes, levar a bom porto música primitivo-ritualista num país que em "música alternativa" significa mais uma banda Stoner ou um marmelo a dedilhar uma guitarra muito a solo e muito melancólico. Juntar graúdos para tocarem voodoo falsificado com dubs e aguentarem-se este tempo todo (5 anos pelo menos de existência) para fazerem um single 7" e dezenas de concertos é uma improbabilidade neste negócio da música em que tudo tem de ser rentável ($$$) ou acabas logo com a piadinha (da banda).
Sobreviventes neste território inóspito chegam finalmente ao LP de estreia com tudo aprumado para um ritual vinilico. Um bocado limpos demais mas eis um disco para colocar realmente no máximo do volume da aparelhagem, despir as calças (podem deixar as peúgas) e dançar pela casa a beber os restos da festa de Sábado à noite. Isto se quiserem continuar em transe ao Domingo, dia em que não há aulinhas de Yoga... Cuidado com os cacos!

PS - Yo! Eles vão tocar outra vez ao Milhões de Festas, espero que desta vez seja a fechar a noite pró pessoal bater mal!

quinta-feira, 20 de março de 2014

Negócios simples



A Tree of Signs : Saturn (Chaosphere + Raging Planet; 2014)
Sektor 304 : Engage... Forwards (New Approach; 2014)

Há realmente algo de desonesto nas bandas de Rock que gerem o seu nome de banda como se fosse uma empresa. Pouco importa se o vocalista bazou e voltou, continua a ser Iron Maiden com ou sem o pilas do Bruce. Continua a ser Sepultura mesmo que sobre praí um brasileiro na banda, etc... Acho que o único exemplo de integridade que conheço até é um exemplo português: Jorge Ferraz mudava o nome da banda sempre que um elemento saía, daí que tenhamos primeiro os Santa Maria, Gasolina em teu Ventre para depois passar a ser God Spirou e depois para Muad'Dib Off Distortion, Fatimah X, etc...
A verdade é que se ouve melhorias entre o meia-leca de LP de estreia dos A Tree of Signs e este novo single em que a vocalista mudou mantendo-se apenas os gajos feios de barbas que cuidam da bateria e guitarra. É estranho isto? É machismo? Não, é apenas... Rock'n'Roll bizzzzness! Avanti! Eis uma peça de colecção, um single com três temas tão retro como só o século XXI permite - mas ao menos não é Garage ou Blues - ir ao tempo setenteiro do Hard & Heavy, até porque está muito na moda na cena Metal. Temos uma banda mais coesa e groovie que na encarnação anterior mas ainda falta muito para soltar a franga. É preciso dar tempo, coisa que ninguém parece ter a julgar pelas ejeculações editoriais. Belo desenho de capa mesmo que "sobre-capitalizado" e especialmente bom o último tema do disco, Red Lune III, um instrumental de droneira tosca que rende ritualizações no sofá.
Quanto aos Sektor 304, a banda tem engordado as suas fileiras com mais membros - é um quarteto desde o segundo álbum "oficial" - e com isso tem alargado as veias dos primeiros registos que entravam em campos dogmáticos do Noise e do infinito sincopado ritmo tribal. Nestes dois temas do single recém-editado, sente-se aproximação a Metal Industrial que já o tema By the Throat (do tal segundo álbum "oficial") deixava adivinhar. Engage... Forwards parece ser um manifesto do que Sektor 304 pensa do que significa Industrial em 2014 - embora quase todos os seus discos sejam isso, manifestos para o futuro do Industrial. O lado B é uma regravação do tema Voodoo Machine (do Soul Cleansing) agora com os quatro elementos (na altura foi apenas com os dois elementos fundadores) e com uma atitude mais "live" da coisa. Um dos melhores projectos de música urbana portuguesa especialmente porque ninguém pode levar o Rock a sério nos dias que correm... Ainda assim, vale a pena rectificar que os Sektor nem estão nesse terreno pantanoso!

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Milhões de Pilas

Correu bem melhor do que se estava à espera... ou então, não! O público do Milhões de Festa não é o mesmo público-escumalha da Zambujeira ou o público-pseudo-alternativo dos outros festivais grandes de Rock. E compraram montes de livros, zines e discos,... A aposta foi ganha, se calhar nem havia uma aposta para fazer!

Chegamos na Sexta-Feira e ainda vimos esse monstro dançante Otto Von Schirach que compensou tudo antes e depois do festival. Quem não o conhece e dança a música deste tipo é parvo e merece morrer!!! Ainda houve nessa noite bandas revivalistas para todos os gostos sendo o melhor momento no meio disso o encontro em palco das duas bandas míticas lá da terra de Barcelos, os La La La Resonance (ex-membros dos The Astonishing Urbana Fall, uma das poucas boas coisas que aconteceram em Portugal nos anos 90) e os Black Bombaim. Foi uma espécie de "jam ensaiado" intergeracional porreiro que ao menos não soava a mofo ou a retro. Otto arrasou e não haverá mais nada de memorável dessa noite.

No Sábado à tarde, montamos as mesas perto do palco Taina, gerido pela Dedos Biónicos, e obtivemos um excelente contacto com o público. Um público que era pendular entre o Taina e o palco da Piscina - que não visitamos porque não podiamos deixar o posto,  perdendo assim o grande "ex-libris" do Milhões e pior ainda, os Surya Exp Duo. A música no Taina pareceu a mais coerente do Festival porque focava em Rock e em Rock apenas, algum mais prá esquerda do cérebro outro mais convencional. Por exemplo, foi fixe ver que os Quartet of Woath são bons ao vivo apesar de serem insuportavelmente limpinhos em disco.

Barcelos pareceu ser uma cidade simpático e realmente o Milhões merece o estatuto do festival mais "cool" do país. O nível de stress é zero mesmo quando nos recintos estamos cercados por seguranças com pinta de militares frustrados - eles queriam era estar a defender-nos de Espanha ou de Marrocos (ou da Alemanha Nazi-Kapital) mas não... têm de ficar ali a aturar malta e a ouvir a batucada voodoo dos HHY & The Macumbas! Pobres diabos!

Por falar nisso, esta banda do Porto foi o melhor que aconteceu na programação mal enjorcada de Sábado, em que o pior de tudo foi a quebra total que um tal Dam Mantle trouxe. Man! Ibiza às 22h? Enganei-me no festival? Onde estão as gajas de saltos-altos bêbadas prontas para serem violadas por gajos de camisas brancas de alças? Vai haver "racing" daqui um bocado? Fuck!!! Que enorme monte de esterco! Felizmente houve EyeHateGod nessa noite, os seminais Sludgers! Embora, novamente essa noite tenha sido um suplício para passá-la, incluíndo a banda do camarada João Maio Pinto, baixista nos Loosers - banda que mais uma vez mudou de estilo e forma e tudo mais. Além do nosso querido ilustrador, parece que fazem parte da banda uma figurinha negra mítica qualquer (falaram-me que esteve metido com os Funkadelic?) e o Fernando Cunha dos Relfins e Desistência (?). Tudo chato nessa noite, sabe-se lá porquê... Acho que foi mesmo falta de tomates para colocar os nacionais Macumbas a tocarem à noite e não às 20h com quase ninguém no recinto. Os Macumbas estavam bem oleados, com pica para bater em congas e afins e teriam dado boas alucinações a quem já estivesse nos estados narco-qualquer-coisa habituais nesta vida de festivais de verão. Teriamos tido fantásticos pesadelos com os tipos se tivesse acabado a noite com as batucadas e Dub deste colectivo de simpáticos "weirdos".

Por causa de nulidades como Octa Push tivemos de beber imenso para ir prá tenda para encontrar um Domingo cinzento, chuvoso, que insistia no mau-tempo e que não nos deixou montar a banca porque, como bem sabem, livros e água não combinam em nada. E com isto nem livros nem Jibóia Experience que prometia ser algo nessa noite. Voltamos para casa, a pensar que Deus ficou chateado com os EyeHateGod...


O mercado de edições independentes que organizamos até teve novidades editoriais. O primeiro e simultaneamente era lançado na inauguração da excelente exposição Lixo Futuro, é o Musclechoo, vol. 1 (Ruru Comix; 2013) do Rudolfo. Quem se lembra do primeiro número desta coisa? E porque não é o número dois? Deve ser cena de putos... E é mesmo, a personagem é um misto teenage-wet-dream de Rambo e Picatchu - quem adulto gostaria de ver os dois num só? Diversão pura de javardar com a cultura Pop, Muschechoo é feito em cima do joelho embora a lambideza de Rudolfo comece a aparecer a meio deste novo volume. Excelente produção esta edição! E adivinhem porque chamei este "post" de "milhões de pilas"? Só lendo!  Encomendem antes que esgote!


E se o Rudolfo estava no Porto, apareceu-nos o Artur Escarlate com dois mini-zines seus, o Portátil / Volátil (cheio de vaginas) e o Segredo (cheio de... pilas!)... Porquê? Não faço mínima ideia, e tenho "mix fellings" sobre isto... Por um lado desenhos de orgãos genitais parece nos dias de hoje um tema tão chocante ou importante como desenhar elefantes ou ganchos de cabelos mas sobretudo é que sabe a pouco, duas ou três páginas A4 dobradas a fazerem A6, presas com elásticos fazem os zines. Truque engenhoso que nos obriga a abrir cada folha para descobrir cartazes pouco interessantes. Aliás, graficamente, os zines são podres (sujos) a dar uma ar amador de virgem embora Escarlate (é o verdadeiro nome do autor?) dê a entender que é um garanhão da tinta, a julgar pelos seus sítios em linha. O resultado é xoninhas com ou sem xoxotas. Porquê? (porquê? tudo)

 Por fim é de referir a K7 - desculpem, split-k7!!! - de Cangarra e dUASsEMIcOLCHEIASiNVERTIDAS. Edição deste ano pela A Giant Fern, apesar de estar anunciado a um ano prá Feira Laica, só agora saiu em Julho. São 15 minutos para cada lado, para cada uma destas duas bandas mais activas do Noise Rock português. É curioso que são duas bandas bastante diferentes, em parte por causa do seu número de elementos. Os 2sci são mutantes, acho que só há dois elementos que estão "sempre lá" (nos milhares de concertos e nos registos áudio) mas nesta k7 aparecem com mais cinco músicos. A banda toda ela é nervosinha e volátil, quase nipónica e perto da demência, ao contrário de Cangarra que é um duo estável e racional, guitarra e bateria (a cargo do nosso Ricardo Martins) que preferem um psicadélico paisagistico cheio de detalhes para descobrir. Duas bandas, uma prá orgia, outra prá nicotina pós-coito, pelos vistos. Ah! o "artwork" da K7 foi feito pelo Ricardo e pela Margarida Borges, e impresso em risografia, a impressão que molha os designers dos dias de hoje com menos de 30 anos...

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Publish or Perish


La Escena Alternativa : Actas de los Encuentros Internacionales de Editores Independientes, Punta Umbría, Huelva 1994/1999, v/a (Ayuntamiento de Punta Umbría; 2000) ; Soopa, v/a (Soopa; 2011)
Dois livros bastante diferentes tendo apenas em ponto de comum a vontade de registrar as suas actividades. No primeiro caso é um apanhado de apresentações ao longo dos primeiros 5 anos de actividades da Edita, encontro internacional de editores independentes cuja edição deste ano a Chili Com Carne e a MMMNNNRRRG estiveram presentes. Os textos são de vários editores participantes, alguns mais intelectuais outros mais rebarbados mas juntos conseguem transmitir várias mensagens úteis sobre edição independente - apesar destes editores e os próprios encontros estarem "dominados" por editores de Poesia. Mas os dados são comuns, seja para interessados em edições gráficas ou literárias, sejam de Espanha ou de Portugal. Desde que passamos a ser "europeus" de primeira (ultrapassados as décadas dos fascismos) a literatura (ou a edição) passou a ser um mercado como outro produto qualquer, onde "best-sellers" ofuscam as obras realmente importantes, onde a imprensa cultural serve de cão-de-guarda para grupos empresariais, etc... A resistência à estupidez e continuação de uma biblio-diversidade passa por editores independentes que por razões anti-económicas aplicam o seu capital e tempo para mostrar que nem tudo o que se publica é vazio e bem-comportado com o sistema capitalista. Neste livro encontra-se inspiração para continuar a fazer-se livros diferentes mesmo que ninguém queira saber deles.
Apesar de ninguém querer saber deles, aliás, precisamente por ninguém querer saber da Soopa, importante comunidade musical do Porto e Além-Mar, que provavelmente decidiram fazer um livro sobre as suas actividades. Um livro-objecto, luxuoso e bonito, em que textos, fotos e fotomontagens vão juntando um complicado puzzle de actividades, projectos e eventos que vão do Porto a Berlim, de Nova Iorque a Bragança, do electro-acústico ao Metal, do Dub ao Voodoo, da música de câmara à fanfarra de rua, do José Cid ao Carlos Zíngaro, do Sputnik aos túneis subterrâneos de Arca d'Água. O livro dá uma direcção para quem se desorienta nas pistas que esta comunidade têm largado por aí. Já o DVD / filme que acompanha o livro infelizmente de pouco serve. Não têm o mesmo élan do livro, não consegue ser um documentário nem um "objecto" artístico. Talvez falte um "argumento", não necessariamente numa linha narrativa mas algo que lhe desse um propósito estético ou uma mensagem concreta. Apesar disso, este é um dos livros mais bonitos feitos sobre música em Portugal. Fará História e irá oferecer muitos sapos a engolir no futuro.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

It's the sound of the beast!

Foi divertida - modéstia à parte - a Festa dos 10 anos da MMMNNNRRRG. Boas bandas a tocar para o delírio colectivo e tudo o mais... Infelizmente só não acabou tudo à porrada como sugere a capa de Patine (JOPRec; 2010), último álbum de Ghuna X. Isso é que era, hein?
Depois da euforia vem a ressaca metafísica e os restos de comida psíquica - para mim, são uma série de discos trocados durante o Mercado do Livro realizado no Sábado à tarde que comecei a ouvir durante a semana passada... É tanta coisa que só agora dá para divulgar!

Começando pelo referido Ghuna X, antes demais, deve-se dizer que o disco é "online" e não físico. Por isso começo pela excepção à regra. Muitos destes temas foram tocados na Festa e revelam um trabalho funcional de Ghuna X pelo Dubstep - ao contrário do seu álbum anterior. Este "disco" mostra que não é preciso estar em Londres para fazer-se bem ou melhor que as compilações Steppa's Delight. E a provar isso, o destaque vai para a malha k7 (m7 remix) que junta a voz rapada & durona de M7 (das Sygyzy). O formato não será novo - basta lembrar Ladybug - mas os resultados são diferentes. Aqui junta-se a má-onda rapada da tipa com a maldade sonora do Ghuna X. Sendo uma colaboração furtiva dá vontade logo em questionar duas coisas, uma era saber quando tocarão o tema ao vivo (isso é que era!) e dois quando é que as gaijas Sygyzy deixam de fazer "mix-tapes" manhosas - os vossos DJ's são uns pussies, caragu! - e avançam para o som do século XXI?

Indo para o físico, eis um disco bastante físico mesmo!!! Live at Adolf 666 (Soopa; 2010) de John Hegre & Marcelo Aguirre & Die Polizei é um documento ao vivo de um concerto de dois crominhos no domínio Improv e Noise - Hegre é dos Jazkamer! Ao que parece uma bateria e guitarra podem ser bastante barulhentas e trazer problemas com a polícia. Aqui ficamos a saber que sim. Primeiro ficamos ouvimos realmente que havia razões de queixa - a música é lixada de se ouvir não tenhamos dúvidas, na sua desconstrução sónica em que eventualmente ainda podemos chamar de Rock e de Jazz, vai a coisa em crescendo até aos 21m quando uma voz autoritária da Polícia interrompe o concerto. Até ao final do CD-R ficam 10m de som improvisado pelos dois músicos mas... baixinho e atmosférico. Muito mais simpático assim, será que os artistas aprenderam a lição?


O que tem o single Legba/ Houmfort de HHY & The Macumbas e H e x a c o s i o i h e x e c o n t a h e x a f o b i a dos Besta Bode em comum? Três coisas, ambos são singles em vinil editados pela Soopa, as capas são ilustradas e serigrafadas (a de Besta Bode é do José Feitor) e ambos projectos tem Jonathan Uliel Saldanha nas fileiras - e que também lançou em nome próprio o CD The Earth as a Floating Egg (Balleteatro + Soopa; 2010). Os três projectos antes de estar aqui com descrições dos géneros de música (ou as suas contaminações), o mais importante ainda é o facto de todas elas terem uma sofisticação, originalidade e produção fora do comum em Portugal, quer na música propriamente dita, quer na produção (gravação) e os objectos fonográficos.
HHY & Macumbas é Dub com música Voodoo, uma verdadeira valsa estilizada de percurssão analógica e digital, quem devido ao pouco tempo do single não levantará os espíritos convocados - para isso seria necessário Kuduro e usar os 80 minutos da tecnologia CD. Curte-se mais do que se transa mas creio que poderá depender das drogas a consumir.
Besta Bode é uma mixórdia simpática de Grindcore com Electrónica atrofiada, que fãs de Locust poderão gostar apesar de não atingirem os seus excessos olímpicos. Ou então lembra algum Industrial Metal (Skrew? Fetish 69?) mas idealizado pelo Stockhausen depois de fazer um pacto com o Diabo. Se meterem o disco em formol como fazem nos museus regionais com as aberrações da terra - o porco com 5 patas, o cavalo de 2 cabeças, esse tipo de coisas - daqui uns anos os Besta Bode poderão vir a ser um case-study...
Por fim, o The Earth (...) é um trabalho para uma peça de dança em que todos os clichés de Improv, Experimental, Electrónica, Contemporânea, Ambiental, soundscape, concreta são triturados num trabalho de grande nível em que ainda Jonathan consegue impor um excerto de Metal ou vocalizações de "ópera digital". É um disco "slow food"... Há que se ouvir com atenção e não enquanto se faz o pequeno-almoço ou se está a esfaquear um ministro. É um disco tão bom que acho que vou fazer uma limpeza étnica a uma série de discos em casa - este disco substitui muitos como a Fake Mistress, Brian Reitzell, KK Null e sei lá o quê... AH!
Não sei porquê mas de alguma forma este disco complementa-se com as ideias do Most People Have Been Trained To Be Bored e como tal são dois que vão escapar às limpezas étnico-fonográficas!

Mudando de sector: Legião de St. Combadão e o único registo possível: Tempo em que havia respeito (Roilnoise, 2009?) que para quem gosta de Industrial Noise e Ranchos Folclóricos Lusos - melhor que futebol e Noise, não?
Não sei se o casal Ti'Micas (ela, gritos e serras) e o Ti'Tó (ele, pilhagem sonora) estão a gozar com todos nós mas já ouvi dizer que já ganharam ódio pela Direita e pela Esquerda no melhor estilo "Laibach de Mirandela".
Há pormenores curiosos de samplagem e até dos textos - cantados, gritados, distorcidos - mas é tão sujo, violento e claustrofóbico que nem se percebe se é ao vivo ou se é uma javardeira de gravação à True Black Metal. Portanto, será que isto foi feita às "três pancadas" ou é para ficar mesmo assim - completamente oposto aos Diabo na Cruz?
O cariz popular e pagão desta Legião nada tem de fascismos New Age manhosos do Dark Folk - ponto positivo. Outro ponto positivo, também não há aqui Fado! Ou seja, há bom gosto no meio deste estrumeira sonora. é ponto acente, isto é para quem gosta de SPK e de túbaros! O resto que vá ler a Happy!

E por falar em gastronomia popular portuguesa que tal agora uma Cabidela? Outra banda com onda bizarra embora o som seja o típico Black Metal manhoso em que o é original são os barulhos de galinha e letras humorísticas como Rojões de Cristo ou Negra Degolação Galinácea. Não estou a gozar, Of Blood and Rice (Armagedão + Latrina do Chifrudo; 2009?) é um livro de receitas para qualquer pagão da província misantropo, ou então para qualquer urbanita com sentido de humor e ouvidos sujos. Duas criaturas cuidam deste projecto Galuh Desekrathor (gritos) e Rei dos Frangos (cordas e bateria), existem CD-R e não em k7 sabe-se lá porquê... mas se é por isso eis uma:

Josué, o Salvador em busca da Perdição / Profan (Bubonic + Enough; 2009?), split-k7 de uma banda meia Rock Psicadélico e banda Psy-Doom com uma sofisticação ao nível das bandas da Prophecy Productions... A primeira irrita um bocado pela sujidade e algum "retro", a segunda impressiona pela a dimensão épica e monstruosa. A capa é de André Coelho (MASSIVE, Destruição) e a sua versão a cores (e para CD) pode ser vista aqui.

Por fim, foi reunido numa edição única os dois primeiros CD-R's de Sektor 304, Primary Interface (2007) e Transmissions (2008), o primeiro é de estúdio e o segundo é uma improvisação. Qualquer um dos casos não muda o que escrevi anteriormente: SPK duramente puro e puramente duro. Lixado para ouvidos sensíveis e incultos. Não oiçam! É demasiado bom para depois dizerem que é só barulho!

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Música para Antropomorfos

Fábio Zimbres
Monstro + Voodoo; 2006

A ideia de juntar dois produtos culturais num só projecto não é nova. Nem quando esses produtos são um livro de bd e um disco de rock - e como chama atenção as editoras envolvidas, juntar duas das formas culturais mais populares do século XX que são marginalizadas pela "Alta Cultura" como é a bd e o rock. O que é curioso nesta edição, foi o desenvolvimento do trabalho entre duas entidades sobre uma mesma raiz - ou será antes raízes? Os Mechanics fizeram uma base instrumental, o autor Fábio Zimbres criou conceitos, um universo para eles e depois cada um foi para o seu lado: Zimbres fez bd's (com títulos), os Mechanics criaram as letras (em inglês), títulos para as músicas (que não coincidem com os títulos das bd's!) e finalizaram as gravações.
As bd's de Fábio Zimbres são a selvagaria de sempre graças ao seu traço da tradição "ratty" de Gary Panther ou dos "esquadrões da morte" Fort Thunder. Os traços soltos e "errados" não são menos coerentes com as histórias bizarras, aparentemente desconexas entre si. Na realidade as estranhas bd's estão ligadas e são capítulos, sendo Música para Antropomorfos um livro completo e não uma antologia de histórias soltas como uma primeira aproximação ao livro poderá dar a entender. A(s) história(s) incluem golpes palacianos e a porca da política, cidades-robots em conflito, sátira ao mundo da cultura e da edição. Mais não se pode dizer...

quarta-feira, 14 de março de 2007

Colectiva CCC#4: "Seitan Seitan Seitan"

ilustração de André Lemos
- Papá?
- Sim, filhote?
- O que significa "remorsos"?
- Bem, filho, uma coisa engraçada sobre o remorso é que mais vale ter remorsos sobre algo que tenhas feito do que sobre algo que não fizeste… já agora, se vires a tua mãe esta semana, não te esqueças de lhe dizer: SATÃ, SATÃ, SATÃ!!!
Butthole Surfers in "Sweet loaf" (trad. livre)

Os Livros Voodoo de Goiânia (Goiais) preparam-se para editar um livro de desenhos feitos por ilustradores brasileiros e portugueses, estes últimos representados por criadores da Associação Chili Com Carne como Edgar Raposo, Jucifer, Pepedelrey, André Lemos, Pedro Zamith, João Maio Pinto e José Feitor e convidados especiais Tiago Albuquerque, Teresa Amaral e Filipe Abranches.

A única coisa que esperamos é que eles não se arrependam pelo que irão desenhar porque o tema do livro será o das "Seitas". Dos traumas entre estes dois países lusófonos é habitual recordar a exploração colonialista, as telenovelas na TV e claro, as seitas religiosas - entre os Jesuítas e a IURD venha o Diabo e escolha. Em tempos de uma Jihad mais visível do que nunca – porque nunca antes a escala global foi tão diminuída - um tema como as Seitas pareceu-nos de eleição. Vários registos gráficos deverão surgir dos artistas seleccionados já conhecidos de várias publicações (zines, jornais e revistas), livros ou outros projectos editoriais (Mutate & Survive, Imprensa Canalha, Opuntia Books, El Pep) e participações em exposições (Ilustração Portuguesa, Zurzir o gigante, Laica no Espaço, Comboio Fantasma).

Na loja Goma 386 (agora com morada para os lados da Sé - Calçada do Correio Velho, nº7, Lisboa) está patente uma exposição de despedida (com menos dramatismo do que aquelas das caravelas do escorbuto) uma vez que os originais ou impressões sairão a 16 de Março para seguir para o Brasil onde farão itinerância e materializar-se-ão em livro. Horário: 2ª/Sáb.: 10h-19h

domingo, 24 de dezembro de 2006

Incentivando a Pirataria em duplicado

Psychic TV [Splinter Test]: "Electric Newspapers - Issue 1-4" (F.Leote; 2006)

Os Electric Newspapers foram projectados pelos Psychic TV (fase Genesis P-Orridge e Larry Trasher, 1994-1997) usando outra designação, os Splinter Test, para servir vários propósitos. O mais egoísta foi para guardar samplers não utilizados pela banda após o trauma do incêndio de uma mansão Houdini (de Rick Rubin) que destruiu toda a sua colecção de samplers e colocou em risco a vida de P-Orridge; e o mais altruísta, oferecer ao mundo samplers que possam ser usados por quem quiser para fazer nova música. F. Leote compilou os únicos quatro "números" (originalmente projectados como seis volumes) desta série fonográfica para um CD-R.
Verdadeiro catálogo (desorganizado) de sons aleatórios, ouve-se de forma agradável e eclética, sons atrás de sons sem que isso seja uma má experiência non-sense. Desde de um órgão ácido de estilo Mod ao Voodoo de Exuma, guitarradas a percussões industriais, loops a vozes com ou sem manifesto político, linhas de baixo ou batidas electrónicas,... E por fim uma interessante entrevista de P-Orridge a favor do anti-copyright da Música e da Arte. Algo foi remontado em 5 faixas pelo Leote (alguns "números" tinham 90 faixas!) mas não sei o quê /como - espero que o Leote edite um CD-R com manipulações sonoras deste material!

sexta-feira, 3 de novembro de 2006

Voodoo! #1

Livros Voodoo; Out'95


Do Brasil estamos sempre à espera de uma nova-bomba-revista-de-bd por termos ficado mal-servidos com as injustas mortes daquelas revistas emblemáticas como a Animal (feio, forte e formal) ou a Chiclete Com Banana. Embora saibamos que essa Época Dourada já foi e não voltará, sempre temos uma esperança que um dia apareça "aquela revista". Tem havido alguns esforços já aqui referidos (ver o arquivo do mês de Julho'05) ou esta mais ou menos recente Voodoo! mas ainda não é "aquela revista".
Para número Um parece antes o número Zero porque se lê rápido demais. Graficamente é atraente, tem uma boa entrevista ao Fábio Zimbres (um dos cabecilhas da Animal caramba! e um dos melhores ilustradores daquela porra de país!), umas bd's fixes, um inspirador e provocante manifesto sobre filmes trash DIY, umas imagens porno feitas pelo Moebius (para quê?) e um artigo da Cindy Sherman - quem é que não a conhece? É estranha esta combinação de trabalhos menos conhecidos com autores famosos. É aqui que o casamento falha, os alfinetes do "voodoo" não acertam e o feitiço vira contra o feiticeiro, ficamos com aquele sabor que podíamos ter comprado a revista Umbigo que daria no mesmo. Para sabê do conhecido não é preciso fazer revista, cara! Si manca vai!