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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Angoulême report / (muito) devagarinho...


Quem da CCC foi este ano de Angoulême ainda não se recuperou da viagem de 13 horas de carro de regresso... Por isso, a reportagem anda a passo de caracol.
Começamos com uma fotografia tirada à socapa a um quadro (absolutamente maravilhoso!) da alemã Anke Feuchtenberger, autora que estará em Março, no Porto, no novo evento MAB. O quadro estava patente na exposição Une autre histoire : bande dessinée, l'ouvre peint, no Museu da BD, dedica às relações entre a bd e a pintura. Tema curioso e abordado sobre o prisma europeu, cujo único senão era forma de disposição das obras. O museu não tinha condições para expor arte de grande formato, como acontece com telas de pintura, ficando tudo um bocado encafuado...



No antigo CNBDI (agora Bâtiment Castro) que alberga a Bedeteca de Angoulême, estava a exposição de retrospectiva de Art Spiegelman, o homem que mudou os paradigmas da bd umas duas ou três vezes. Desde os seus primeiros passos como ilustrador de trading cards como no movimento "underground" dos anos 60 e 70, da revista Raw ao Maus, passando pelo 11 de Setembro até ao seu trabalho gráfico na New Yorker, estava representada a sua carreira por completo. Algo que já merece uma deslocação a Angoulême caso Spiegelman não tivesse também criado uma exposição da sua colecção particular de originais de bd, que faziam uma "História dos Comics" no Museu da BD.
Depois deste ano, acho que não é preciso ver mais exposições de bd, afinal tudo o que é de se respeitar estava lá representado: Harvey Kurtzman, bds da EC Comics, originais da Raw (Gary Panter, Charles Burns, a bd Here de Richard McGuire, etc...), tiras e pranchas do príncipio do século XX,... e a joía da coroa: os originais "perdidos" de Binky Brown Meets the Holy Virgin Mary, de Justin Green, a primeira bd autobiográfica norte-americana.
Voltando ao "CNBDI-Castro" havia uma exposição de "BD Sueca" (assim mesmo divulgada) mas que não passava de uma colectiva de seis autores suecos. A Sociedade de BD Sueca, nossa parceira do Futuro Primitivo que nos perdoe, mas esta foi a pior exposição que já tenha visto em Angoulême em 10 anos que lá vou. Até a bd norueguesa está a ser melhor promovida.


Dizia que afinal não haveria mais exposições de bd para ver? Eis que apesar de tudo aparece uma surpresa ou outra em Angoulême, neste caso era a de Vincent Sardon, no Teatro Municipal, que mostrava os seus "originais" - carimbos que usa para fazer ilustrações.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Scutella

Toda a gente adora colocar rótulos nas coisas. A Chili Com Carne e os seus representantes são os "alternativos" da bd em Portugal, e como tal devem gostar APENAS de bd "mal-desenhada", a preto e branco, estórias que não se percebem e mais uma mão cheia de clichés absurdos. Trouxemos este ano de Angoulême livros de bd e ilustração "muito bem desenhada" (redondinha, abonecada), a cores (quase toda) e com estórias que se compreendem. Estranho não é?
Scutella é a mais recente editora francesa dedicada à bd e ilustração feita sobre todo o savoir-faire de uma empresa consciente do novo mundo em que vive. Oferece aos artistas que encomendou os trabalhos, liberdade total de conteúdo, produz sobre um prisma local ("pensa global, age local") usando o talento saído da escola de bd de Angoulême e imprimindo (ecológicamente com papeis e tintas "verdes") nas tipografias da região. Nada podia ser mais "justo" e coerente nestes tempos de neo-liberalismo de nacionalidades e intenções confusas.

Lançou durante o Festival de Angoulême três livros que vão realmente dos "7 aos 77 anos": Mille et une Bêtes de Julie M - definitivamente pra putos delirarem mas um adulto também irá gostar de o folhear com ou sem "guilty-pleasure" infantil -, Tournesols de Adrien Demont - uma bd-alegoria estranha mas linear para toda a gente -  e Une Croisière au Hazar de Josepe - livro de ilustração a preto e branco (AH-HA! a preto e branco!!!) de universo fantástico que não ofende. Quase tudo mudo (sem palavras) para que todos percebam. Muitos dos talentos vêem dos colectivos Café Creed e Coconino World  criados por alunos formados pela Magelis, e o que eles mostram que se pode ser comercial sem se ser um lacaio infantilóide da cultura corporativista (vulgo, o habitual bedófilismo). 

Mais não será necessário dizer, basta ir ao sítio oficial espreitar os livros, para adquiri-los em Portugal podem fazé-lo pelo nosso site. Allez!

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

ccc@angoulême.2010

"Dose French basterdz" perderam a nossa inscrição de stand no Festival de Angoulême... "Merde!" Ainda assim iremos lá chatear os "franciús", deixando alguns livros da Chili Com Carne com os camaradas ingleses do zine Last Hours, e a MMMNNNRRRG com os italianos Passenger Press...

...

"Doze French basterdz" lost our papers for the stand in Angoulême... "merde!" Even so Chili Com Carne crew will go there to annoy you! Books of Chili Com Carne will be on the stand of English punkers Last Hours and MMMNNNRRRG books with Italian warriors of Passenger Press...

We are taking newest book MASSIVE, if you have contribute for this anthology, please tell us to bring copies for you - and tell us where we can meet!

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Visiter tous les pays

Pina Chang
NA; 2014

Voltar a Angoulême é sempre um turbilhão de sensações, de dejá vus, flashbacks voluntários e cruzamentos de mil pessoas que conhecemos, já vimos ou já falámos mas já nem se sabe bem aonde - foi em Roma que conheci aquele tipo ou foi mesmo em Lisboa? E aquela autora foi em Helsínquia ou em Madrid? Realmente concentra-se tudo naquela cidade de interior francês durante os quatro ou cinco dias do Festival de BD.
A Pina Chang conheci em Helsínquia e fui voltando a vê-la em Angoulême. Nunca tinha acompanhado o trabalho dela, nem sabia que fazia BD para dizer a verdade. Quando, este ano, em conversa de circunstância no stand da NA - uma associação francesa de BD - lhe perguntei por novidades, ela dirige-me para o seu livro e engoli a seco!
Caramba, que livrão! Gordinho e colorido, cheio de BDs quase mudas e até reproduções fotográficas de bonecos de pano feitos por Chang. Oi! Apesar desta primeira descrição saber à "neo-escolinha de redução feminina das tricotadeiras" (bonecos de pano e cores, topas?) o livro não é para ficar na secção dos clichés!
Antologia de várias histórias que sabem a falsas lendas etnográficas da América Central (Chang nasceu no Panamá), elas são maravilhosamente contadas encharcadas de suor tropical que quase ligam à Canicola, a autora mostra uma versatilidade de estilos gráficos e usos de materiais, que faz do livro um mimo enquanto objecto. Tudo junto, com as "BD-lendas" e as fotografias sem legendas que nos confudem - são da Islândia ou da Bolívia? sei que a autora passou por estes países lendo a sua biografia na 'net - somos levados a "visitar todos os países", uma tarefa impossível que bem nos alerta a autora, mas que aqui até podemos dizer que percorremos um continente deles.
De referir que a NA é a editora do jornal Modern Spleen, bem como dezenas de outros fanzines e publicações estranhas e bastante excitantes (quem perdeu a ressaca Fort Thunder que foi a revista L'Episode, nem sabe o que perdeu!!!), trabalham também com crianças ou populações desfavorecidas, como a comunidade cigana na zona de Angoulême. Agora lançam-se na publicação de livros, pró ano já vou prevenido e com algumas perguntas de algibeira prá Chang!

sábado, 16 de janeiro de 2016

Valência é o centro do mundo...

Lá estivemos em mais uma edição do Tenderete e voltamos sempre de mão cheias tal é a bibliodiversidade que vai parara este evento, que entretanto cresceu imenso ao ponto da "última Laica" - num espaço institucional, "clean", para "toda a família", cheio de gente... E havia de tudo para todos!


Até lá havia fanzines para "garajeros" como Me Gusta Más Que Desayunar Un Herpe que já vai no número 17 dedicado a "homens das cavernas". O "primitivo" faz parte dos ingredientes de quem gosta de guitarras com urros animalescos à procura da inocência perdida do Rock dos anos 50 e 60, aliás o primitivo faz parte dessa era do nascimento da cultura Pop se pensarmos no ícone que são os "Flintstones". Com uma capa em capa em serigrafia, este fanzine mostra desenhos e artigos em volta do tema e "oferece" ainda um CD com treze bandas espanholas retro-primitivas. Para quem gosta deste género anacrónico esta é a referência, da minha parte gostei de ouvir Pedrito Diablo y los Cadáveres e Islas Marshall por serem justamente as mais "modernitas"...

Para "metaleros" mas com costela punk e power-violence estava lá a Industrias Doc que reduz a vida industrializada a cancro, gentrificação e rotinas desumanas. Com um aspecto brutista podemos fazer algum paralelo ao "nosso" Rodolfo Mariano mas Doc é directo enquanto Rodolfo é labiríntico. Oscure : Comic compilation vol. 1 (2014) é curioso como o "underground" no século XXI é super-burguês, longe vão os dias das fotocópias mal-amanhadas e sujas... Nos dias de hoje em que tudo é barato fazer, com um bom aspecto concorrente a qualquer publicação profissional, os zines aparecem com toques de luxo como uma capa em serigrafia, com tinta dourada e umas rodela prateadas a fazer de olhos prá "calavera" da capa. "Ser rebelde é um luxo?" O paradoxo não é novo bastando lembrar como Guy Debord exigia que os livros da Internacional Situacionista tivessem um ar vistoso como provocação gráfica à sociedade burguesa e vaidosa... Será que há esse mesmo pensamento por aqui e noutras edições de "arte grotesca"? Ou é apenas porque a Morte mete respeitinho?

Quem curte programas de culinária e Gore - não sei, deve haver alguém assim! - Mortal Chef (ed. de autor; 2014?) do sempre hilariante Jorge Parras é a solução de leitura!
Lembra a saudosa Arght! pelo aspecto geral da publicação... mas só publica uma BD (não está assinada sabe-se lá porquê) que se constrói como uma simulação dos concursos de TV de chefes cozinheiros só que refogado com um bocado de Carcass, Cannibal Corpse e Mike Diana tal o nível de violência estúpida que os concorrentes infligem sobre eles próprios.
É uma crítica à sociedade Big Brother e do Narcisismo a três cores... Ou será antes um ataque a quem elegeu a Culinária como um novo Deus?

E para verem que não estou a brincar com o facto que Valência é o centro do mundo, até o Clube do Inferno lançou lá um zine novo do Mao. Um regresso aos temas "eco-biológicos" que estão bem assentes na obra deste autor - Radiation lembram-se? - e outra vez visíveis nesta Bd que relata uma metamorfose de uma colónia de abelhas graças ao "Pop trash" humano. Colony Collapse Disorder como título já nos conta tudo, só falta é verem as imagens. Muito boas!

Bravo Champion (Jean Guichon; 2013) de Antoine Erre é a razão porque mais vale ir ao Tenderete do que a Angoulême. Este zine é preçado conforme o preço da cerveja no evento em que se encontra à venda. Ora como uma "cerveja" é mais barata que uma "bière" e já andava a namorar este título, em Valência foi logo sem pensar... Trata-se de uma BD desenhada com caracteres em "word" ou processador de texto num computador, em que as imagens são substituídas por palavras como por exemplo, o céu invés de desenhado é preenchido por várias palavras "céu" (ou melhor, "ciel") ao longo do seu espaço. Um chapéu tem a silhueta de um chapéu mas novamente toda ela está escrita com essa palavra ("chapeau").
Na poesia visual isto não é uma novidade mas um gajo tem sempre de esperar uns anitos para estas novidades gráficas cheguem a ela. A história mete deficientes motores e é melhor que aquela BD xunga para cegos.
Por falar nisso, o Ilan Manouach vai apresentar o seu projecto Shapereader em Angoulême. Merde! Se calhar Angoulême ainda vale a pensa visitar...

Mais terror, ou pelo menos uma tentativa: Obscuro : 4 Relatos de Terror para El Mañana (Inefable Tebeos; 2014), uma antologia com quatro autores que prometem mais do que dão em relação ao tema... Victor Puchalski é o mais bizarro com a sua estética "mash-up" Charles Burns & Jack Kirby & King Diamond sobre os planos interdimensionais da cultura VHS mas é Adrián Bago González o que dá mais gozo ler com o seu texto em que aplica o materialismo dialéctico sobre a condição de autor de BD. No mínimo, muito divertido e pouco aterrador! Mas a surpresa maior é que este colectivo de bons artistas gráficos é que são na realidade editores de "puta-madre" sobretudo quando se metem a apostar (uma aposta de loucos porque toda a gente se está a cagar) em publicar Clássicos da BD. "Clássicos" aqui significa BDs antes ou paralelas à maldita História oficial da BD que dá primazia aos Heróis norte-americanos da imprensa, vejam o catálogo da El Nadir para perceber que eles publicam BDs do Caran d'Ache, Töpffer, Doré, etc... São loucos estes valencianos!

E o que não faltam é projectos! Nimio é uma "revista" de BD para putos teenagers... claro que tem um aspecto de fanzine velha-guarda, assim mesmo em formato A5, fotocopiado em papel reciclado, quentinho e fofo, onde poderia lá caber os "nossos" André Pereira ou Afonso Ferreira devido aos universos "cool" pós-Adventure Times. Também lembra muita BD francesa pós-Lewis Trondheim e cia. Será que este colectivo irá crescer como modelo editorial e profissional para chegar ao seu público-alvo? Espero que sim! A energia está lá...




A Apa Apa é uma editora de Barcelona que tem em catálogo alguns nomes "pesos-pesados" da BD anglo-saxónica (Tom Gauld, James Kochalka, Dash Shaw, Ron Regé Jr., John Porcellino,...) mas também edita autores espanhóis dos quais destaco os autores do livro Dictadores: Francisco y Leopoldo (2013) de  Sergi Puyol e Irkus E. Zeberio. A nossa Direita, Leopoldo II, esse grande cabrão belga que cortava mãos aos congoleses (tema explorado cá através do Vumbi e o Papá em África) e ainda mais à Direita o filho-da-puta do Franco, fascista espanhol. Um "split-book" combate de boxe com duas ficções gráficas usando as figuras destes monstros que dominaram povos. A "spread" final e central do livro, onde se cruzam os dois livros, deixa um bocado a desejar onde se quer chegar com ambas BDs apesar de mostrarem a crueldade das criaturas. no caso de Franco até aparece como um salvador de uma invasão alienígena no futuro, uma metáfora ao seu conservadorismo. Graficamente faz lembrar a estética que a No Brow impingiu nos últimos anos, em que ilustradores muito coloridos fazem umas BDs sem conteúdo. Estas BDs parecem estar no limite disso mas parecem que com o tempo são capazes de nos dar mais leituras sobre elas... Assim espero!

E vou fechar isto aqui... falta ainda escrever sobre as últimas edições da Canicola, o Mangaro do Le Dernier Cri e o último livro do Camarada Martin Lopez Lam (um dos fundadores do Tenderete)... todos merecem "posts" à parte. Vamos!

Joe Kessler faz parte da nova fornada de autores que apareceram naquela ilha nojenta chamada Inglaterra mas a sua abordagem à BD parece-me empenhada e séria - longe de fazer Bd porque está na moda por lá. Windowpane (Breakdown Press) é a sua publicação que já sairam três números (entre 2012 e 2015) em que vai juntando vários trabalhos curtos seus. Com boas bases literárias, narrativas bem pensadas e um desenho merdoso (já foi apelidado como o "pior artista da ilha") mas sem-medos (tal como Frank Santoro) e sem pudor de rapinar (é um gajo inglês, piratear está no sangue real!) e usando as práticas erráticas da risografia, Kessler é uma boa leitura e a ter atenção.

Alguns destes títulos vão estar disponíveis na próxima Feira Morta no final do mês na SMUP (Parede), apareçam...