sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Gente Remota --- ESGOTADO

 




Gente Remota é um livro ficcional que nasceu de quatro longas entrevistas com ex-combatentes anónimos das chamadas guerras de África, conversas que tive em 2014. Não há nada inventado, no que corresponde às experiências de Guerra de Alfredo Jacinto, não teria capacidade para tal. Nem o crime da PIDE, nem a acção salvífica e presença de espírito de Alfredo ao salvar um soldado do colapso moral, nada foi inventado. Limitei-me a baralhar os dados.

Esta é uma pequena história de Portugal, esse país sem problemas de consciência, com uma memória selectiva, ao mesmo tempo sincera e senil.

É uma história de cruzamento de ideias, de confrontos de perspectivas. Eu não estou em lado nenhum, neste livro. Ou então estou em todo o lado.

A questão do racismo é sempre um poço sem fundo. Incómoda, urgente, com ramificações que tocam a todos, profundamente. A minha relação com o nosso passado colonial é múltipla. Eu próprio nasci em Moçambique, rodeado de empregados e privilégio colonial.

Depois veio logo o 25 de Abril, essa tábua rasa a um tempo gloriosa, mas que nos oculta a história e nos iliba de qualquer culpa. Depois veio a primária em que aprendemos a hostilidade contra os espanhóis, e depois o liceu em que nos forçaram os Lusíadas pela goela abaixo. Este livro é talvez o paté resultante.  

A esperança é que sofre. 

- Francisco Sousa Lobo 


23º volume da Colecção CCC, 100p a duas cores, 16,5x23cm, edição brochada.

editado por Marcos Farrajota. Design de Joana Pires.


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Historial

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Obra realizada ao abrigo de uma Bolsa de Criação Literária da DGLAB/ Ministério da Cultura 

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Lançamento no dia 19 de Dezembro 2021 no M.A.L. com apresentação de Sara Figueiredo Costa

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artigo no Público



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artigo na Lusa

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entrevista no Pranchas e Balões

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ESGOTADO, talvez ainda encontrem na Linha de Sombra, Snob, Tinta nos Nervos, Kingpin, Tigre de Papel, Matéria Prima, ZDB, STET, Socorro, Alquimia, Essência do Livro e Stet.

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Feedback

(...) banda desenhada portuguesa maior, adulta e consequente.

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Partindo de entrevistas feitas a quatro ex-combatentes que passaram pela Guerra Colonial, Francisco Sousa Lobo constrói uma ficção que tira o melhor partido da linguagem da banda desenhada para colocar em confronto memórias, ideias feitas, traumas que persistem em não ser abordados. Não é um livro sobre o passado, antes sobre o modo como vários passados – uns colectivos, outros individuais – continuam a assombrar o nosso presente comum.
Sara Figueiredo Costa in Blimunda

Este é um livro desagradável! E ainda bem, porque de livros agradáveis está o Inferno cheio.



Melhor Obra Nacional nos Prémios Bandas Desenhadas

Sem ceder ao panfleto, Sousa Lobo cria uma história actual sobre Portugal e os seus mitos (...)
Sara Figueiredo Costa in Expresso
 
 
O Francisco pegou no século XXI e meteu numa cápsula. Está aqui tanta coisa... As teorias de conspiração dos cotas. Os "neo" coloniais. O jungle fever luso tropicalista. A memória histórica com esquecimento estratégico. As palas nos olhos. A saúde mental dos jovens, em especial dos rapazes, que não se debate nem se cuida. As empregadas domésticas, mesmo as que têm patroas feministas e liberais...
(Se queres levar porrada de todos os lados tenta falar sobre o "fim das empregadas domésticas"... mesmo nos círculos mais pra frentex ... ;) )
Na verdade, acho que tudo isto seria igual, mesmo sem a guerra colonial, mesmo só com brancos. Por essas e por outras não vejo grande utilidade no "white guilt"...
Esta BD é um espelho gigante. Pode ser "ficção" no estilo, mas o conteúdo não é nada ficcional. Demasiado familiar, até.
Miguel Santos (por email)
 
 




BIG com carne

 


Acontece até ao final do ano a BIG em Guimarães e tivemos acesso ao catálogo que tem as seguintes curiosidades: selecção do cartaz de Rodolfo Mariano para a festa do MAL e as ilustrações de Sara Boiça para a colectêanea Contos poucos exemplares e a publicação de um texto de Marcos Farrajota em regime de corta-e-cola dos seus artigos que tem saído no jornal Carne para Canhão - relativo à palestra que deu na edição de 2023 do BIG.

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

1 livro 1 disco 1 zine (11)

 Não se percebe o Sim Mau, o gajo anda nisto da BD há anos e anos e ainda não tem um livro a solo? De vez em quando vou apanhando zines seus no QueerLisboa, evento que parece ser a única forma de aceder às suas auto-publicações em Portugal, pois o artista encontra-se na Dinamarca.

Este Super Mom (vs The Patriarchy) #1 (Fev'25) é uma série nova e que esperemos que venham mais números de futuro. Que isto não cai em saco roto! 

Trata-se de um zine A5, impresso em rosa (a cor favorita do Sim Mau?) de 24 páginas bem divertidas de uma super-heroína que além de ter de salvar o mundo tem ainda de cuidar / salvar da sua família disfuncional. Desenho de traço limpo, narração escorreita e humor inteligente. O que se quer mais de um fanzine?




 Não julgar um livro pela capa, quem vê cara não vê coração, etc... Mal saiu na 'net este CD fiquei entusiasmado com a capa e desenho da Maria Quintas - são lindíssimos os desenhos! 

Infelizmente este Club Sorrow (Rotten//Fresh; 2025) de DJ 420@ôa é apenas chato chato chato. Parece que foi parido num workshop sobre música de dança na c+s de Odivelas em 2005. 

(Infelizmente) os fachos riem-se à toa desta rodela!




Uma Varanda em Júpiter (ed. de autor; 2025) de António Pedro Marques.

Forma: Verdadeira risota democrática este mini-livro.

Cultura: Começa logo com um peta daquelas, que isto é um livro de Ficção Científica com uma capa toda sci-fi + pulp + IA + vintage + à gringo quando na verdade é uma listagem de maleitas do nosso mundinho de merda, escrito entre elegância e mordacidade total. 

Obsessão: Ninguém escapa ileso - nem mesmo A Batalha apesar de estar lá o NIB do jornal de expressão anarquista. O que mais impressiona é a "free-style" da escrita, numa torrente de ideias e citações que não lembra o Diabo! Políticos, bófia, críticos literários, esquerdinhas tudo ao léu.

Opinião sobre a Terra: podem descobrir esta pérola na livraria Snob.

Crianças que alucinam, masmorras, entregas ao domicílio, dates antes e depois da da pandemia, cartas tarot, insónias, casas que morrem, entrevista a Carlos "Zíngaro" e muito mais como sempre...


QUARTO número da revista 

PENTÂNGULO
uma co-edição Ar.Co. e Chili Com Carne


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128p. (32 a cores) 16,5x23cm, capa a cores, design de Rudolfo

Pentângulo é uma publicação que confere visibilidade ao trabalho de novos autores cuja formação tenha sido feita no curso de Ilustração e Banda Desenhada do Ar.Co. Sem hierarquias, nomes consagrados e estreantes, alunos, ex-alunos e professores misturam as suas imagens e palavras numa saudável promiscuidade.

Neste quarto colaboram Pedro Moura, Ana Dias, Catarina César e Simão Simões (obra colectiva), Ana Blockveld, Simona Slovova, Tiago Baptista, Marta Baptista, Joana Matos, Carlos "Zíngaro" (entrevistado por Pedro Moura e Marco Mendes), Bruno Alves, David Pulido, Rodolfo Mariano, Diogo Candeias, João Lencart, Joaquim Afonso, Mar Cunha, Masha Motyleva, Pedro Saúde, Sara Baptista, Sara Boiça (também autora da capa), Ema Acosta, Matilde Ingham e Maria Giovanna Mura.

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Projecto apoiado pelo IPDJ e pelas livrarias BdManiaKingpin BooksLinha de SombraPaperviewSnob Tinta nos Nervos.

além de estar à venda nas referidas lojas ainda se encontra na nossa em linha e na Alquimia, Tigre de Papel, ZDB, Matéria Prima e Utopia.






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Historial: 

Lançamento a 2 de Março 2022 no Damas / Festival Rescaldo com um concerto de Carlos "Zíngaro" e Clothilde.

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vídeo no Bandas Desenhadas

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ilustração da capa por Sara Boiça selecionada para o BIG 2023

Turma do Cangaço, Nostalgia, Veneza, salário baixo, maridos, LGBTI+ comix, Zé Miau, auto-tripes, Indie 2018, xenofobia, cabeças,...



Eis o segundo número da revista PENTÂNGULO que dá continuidade à parceria entre o Ar.Co. - Centro de Arte e Comunicação Visual e a Associação Chili Com Carne.

A Pentângulo é uma publicação que confere visibilidade ao trabalho de novos autores cuja formação tenha sido feita no curso de Ilustração e Banda Desenhada do Ar.Co.

Sem hierarquias, nomes consagrados e estreantes, alunos, ex-alunos e professores misturam as suas imagens e palavras numa saudável promiscuidade.

O departamento de Ilustração/BD do Ar.Co tem vindo a pôr em prática um modelo pedagógico que privilegia as aplicações específicas da ilustração e banda desenhada em relação ao mercado editorial, tendo para o efeito realizado parcerias com várias entidades ao longo dos seus 18 anos de existência, entre elas a Chili Com Carne com quem o departamento colaborou desde o início do milénio.

Só com o primeiro número, a publicação viajou com uma exposição pelo Festival de BD de Beja e uma apresentação na Feira do Livro de Lisboa, em 2018. Seguimos para aonde? Nesta segunda entrega além de BDs cada vez mais ousadas, destacamos para o acréscimo de mais textos de reflexão e informação, algo que a comunidade ligada a estas Artes foge ou tenta ignorar, aqui não. Desafio que lançamos, que tal uma banda desenhada que discuta sobre banda desenhada? Quem sabe para um número futuro...

Coordenação editorial por Daniel Lima, Jorge Nesbitt e Marcos Farrajota. Design por Rudolfo. Capa de Nuno Saraiva. Colaboram neste número: Amanda Baeza, Ana Dias, André Pereira, Daniel Lima, Dois Vês, Francisco San Payo, Francisco Sousa LoboGonçalo DuarteJoão Carola, João Silva, Luana Saldanha, Marcos Farrajota, Mariana Pinheiro, Mathieu Fleury, Pedro Moura, 40 LadrõesRodolfo Mariano, Rosa Francisco, Sara Boiça e Simão Simões.

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Apoio do Instituto Português de Desporto e Juventude.

E apoio de distribuição das seguintes lojas BdMania, Linha de Sombra, Matéria Prima, Kingpin Books, Mundo Fantasma, Snob e Tasca Mastai.

Para além das lojas indicadas, também se encontra no nosso sítio em linhaTigre de PapelZDB, Tortuga (Disgraça), A Vida Portuguesa e Utopia.










Historial

lançado no 9 de Abril 2019 na escola Ar.Co. 
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obra seleccionada para a Bedeteca Ideal 
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artigo no P3 
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nomeado Melhor Antologia e Melhor BD Curta (de Francisco Sousa Lobo) para os prémios Bandas Desenhadas 2019
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participação na exposição TPC na Festa da Ilustração, Setúbal, 1-30 Junho
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Nomeada para Prémio de BD Alternativa Angoulême 2020
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artigo sobre a nomeação em Angoulême com muitas páginas do Pentângulo #2 no Público 29/01/20



Feedback

Mostrar que a banda desenhada (portuguesa) deve ser colocada por extenso, com o seu nome completo - perdeu a pele juvenil da BD, é uma arte como as outras 
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(...) o Simão Simões brinca novamente com o imaginário informe e metafórico (há sempre uma candura monstruosa que pede pelos menos mais 100 páginas de material desta qualidade); o João Carola pega em Lacan para pensar sobre o olhar e a contemplação e a relação entre sujeito-objecto na época da transparência (pode ainda encontrar-se um ângulo morto na visão do panóptico digital?) (...) o sofrimento do Zé Miau perante um dos grandes mistérios da nossa época: o contrabando exasperante e o comércio directo e involuntário de isqueiros. Mas o pathos não está só nesta bd da Luana Saldanha; a contribuição do Francisco Sousa Lobo (alguma vez se esgota esta torrente de inspiração?) obriga o leitor a remexer nas memórias do autor, em mais uma excelente bd autobiográfica, na qual está em jogo a religiosidade e o amor, com uma pitada de referência highbrow pelo caminho (desta vez calhou a Kavafis, os bárbaros estão a chegar, afinal não, etc.). Não esquecer as questões de género e a rebelião contra o despotismo patriarcal: a Rosa Francisco desenha uma bd a partir de um conto de Pessoa e a Ana Dias revela a amargura de quem vive com homens que coleccionam edições do Admirável Mundo Novo, vestem t-shirts de bandas (Motörhead, a sério, não estou a inventar) e ouvem post-rock. Tudo isto em 2019. 
(...) O que é mais curioso no meio de tudo isto é que uma revista costuma sempre armazenar algum lixo e ser desigual, mas esta Pentângulo consegue escapar a esse problema. Mesmo os três textos têm toda a sua pertinência: o Pedro Moura escreve sobre a obsessão dos literatos pela nostalgia e o Marcos Farrajota ensaia duas resenhas históricas sobre as bds LGBTI+ em Portugal e acerca das fanzines e edições independentes publicadas cá no burgo durante o ano passado. (...)
Russo in A Batalha

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Perturbação de Hiperactividade com Défice de Atenção



O volume da Colecção RUBI, intitulado Xeique PHDA de Marko Turunen, diz o seguinte:

Um xeique finlandês vestido de forma tradicional do Médio Oriente foge numa bicicleta, perseguido por polícias suecas, deixando um rastro de crianças sem paternidade assumida, mortes a sangue frio, furtos de casa e carros,... 

Eis um caos existencial que nos aqui é relatado, sendo que o Xeique PHDA (Perturbação de Hiperactividade com Défice de Atenção)  é uma personagem real, romanceada pelo autor finlandês Marko Turunen.

O trabalho de Turunen baseia-se na realidade, muitas vezes a mais monótona delas todas, apimentada com uma estética Hiper-Pop em que temos a sensação de estarmos imersos num universo Meta. Assim no horizonte do quotidiano, co-habitam "mulheres-com-excesso-de-mangá", homens "funny animals" ou super-heróis 3D, entre outras criaturas mutantes da cultura popular da Aldeia Global.

Embora o autor já tenha estado presente com uma exposição individual no Salão Lisboa de Banda Desenhada e Ilustração, em 2005, esta é a sua estreia portuguesa em livro. Curiosamente a autora Tea Tauriainen que participa num episódio deste volume já tinha sido publicada cá no Mesinha de Cabeceira.


Publicado originalmente em quatro volumes separados na Finlândia, entre 2015 e 2017, o último num formato maior que os três primeiros - a lógica do conteúdo explica a radical mudança de formato - foi publicado em francês pela importante Frémok num só volume, como acontece com esta versão portuguesa, cuja tiragem inclui para 100 exemplares uma oferta exclusiva de um mini-zine de material extra. Para aceder à oferta especial e limitada, apanágio da colecção RUBI, é preciso adqurir directamente à Chili Com Carne - e não estar à espera de encontrar numa estúpida cadeia de lojas, por exemplo, dah! Tenham juízo! E seja como for isso já ESGOTOU!!



360p A5 2 cores (56p noutra segunda cor) + capas duplas 1 cor + sobrecapa 2 cores

+ zine A6 para os primeiros 100 que o apanharem! Entretanto esgotou!!!

à venda na nossa loja em linha, Tinta nos Nervos, Kingpin, Snob, Linha de Sombra, ZDB, Socorro, Tigre de Papel, Universal Tongue, Utopia, BdMania, Alquimia, Língua nos Dentes e Matéria Prima.






Historial:

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Recital da obra por Ana Água na Noite da Literatura Europeia na Loja de Bicicletas de Carnide, 12 de Outubro 2024.




FEEDBACK:

(...) devorei o livro do Turunen! (...) Aquilo é massacre de javardice até ao twist final que dá uma gravidade brutal à obra, conseguindo alterar toda a percepção que se tem dos eventos passados. Pobre Xeique... (...) Este livro é bem mais limpo e "vaporwave" mas é sem dúvida uma adaptação perfeita do estilo ao conteúdo que quer explorar. Deve ser dos artistas de BD actuais que mais gosto e respeito, e coloco-o de certa forma a par do Igor Hofbauer, por exemplo, na medida em que conseguem navegar num universo estético muito próprio e surreal, mas sempre com referentes pop muito presentes. 
André Coelho (via email) 


 Só agora, na calma de uma praia flat é que li o Xeique. Devo dizer que o mar se agitou, com a leitura. 
 Tentei uma vez ter amigos esquizofrénicos, quando estive internado com o surto psicótico de 2010, mas um estava em contacto com Deus e Deus dizia-lhe que eu era pedófilo (origem de O cuidado dos pássaros - estava tão stressado que acreditei no Deus dele durante três dias). Outro amigo mandava-me mensagens de texto sobre conspirações incompreensíveis. É tudo um bocadinho mais intenso, para aqueles lados. Há uma sintonia entre fantasia e realidade que nós não temos. 
 Não sei o que achar de entrar na saúde mental adentro sem lá estar a viver - é como roubar um manto alheio, de um profeta ausente. Como BD é bestial, visualmente, não devia funcionar mas faz isso mesmo.


Adorei. O desenho é fabuloso, a cena é decadente e casual, fica na cabeça. Perdi-me uma beca no guião, mas nao importa, porque cria um ambiente sensorial brutal.
Júlia Barata (via email) 

(...) é mesmo um excelente livro (...) gostei da linguagem próxima de uma 'cultura do lixo'. estava mesmo completamente a foder a cabeça, mas depois percebi o porquê da mesma e como essa linguagem reforça a mensagem que se quer passar.
JB (via email)

o Marko sabe contar uma boa estória.
Jucifer (via email)




Marko Turunen (Kotka; 1973) apesar de estar formado em Escultura na Academia de Artes de Turku, a sua praia é o desenho, trabalhando como ilustrador e autor de banda desenhada numa carreira longa que começou em 2000, materializado em vários livros publicados na Finlândia, Bélgica, Suíça, Alemanha, Itália e Estónia, além de várias participações internacionais na Eslovénia ou em França. Em 2004 ganhou o prémio de melhor condutor, na Finlândia, um concurso sobre regras de trânsito, segurança e condução económica.

domingo, 12 de outubro de 2025

1 livro 1 disco 1 zine (10)

Depois do "grande livro" do Gato Mariano, o bichano crítico dos comportamentos culturais dos  seres humanos andou meio desaparecido do físico e largou a canga da música portuguesa publicando tudo na rede social "instagrana" - que algumas pessoas, como eu, não podem aceder. Recentemente o seu criador Tiago da Bernarda fez alguns zines - O Gato Mariano : Herói do Proletariado e O Gato Mariano contra o Mercado - talvez para sentir outra vez o cheirinho do papel e da tinta. Eis que chegamos ao O Gato Mariano : Miau de vários ofícios (2020-2025) com aspecto de "single" pois trata-se de uma compilação temática das "tiras humorísticas" do Gato. Esta primeira - com bela capa em serigrafia - por acaso anda pelo mundo da música indie e o seu mercantilismo. Humor inteligente e refinado que morde em todos mas claro que os gatos quando brincam a morder sabem controlar as dentadas para não magoar o dono. 

Compras aqui!


O finlandês Marko Turunen como já tinha escrito aqui anda a reeditar a sua obra completa para belos livros redigidos em inglês. A nova fornada de livros inclui o Der Round compilado, num formato maior e com mais páginas mas o inesperado é este Goose Step in E Minor! Escrito por um amigo da juventude de Turunen, Mika Jurva em 1992, é originalmente uma das primeiras tentativas de Turunen fazer uma BD e publicá-la, com ambição de se tornar autor de BD. A BD foi feita com o esforço da juventude e foi redesenhada há poucos anos quando Turunen aderiu às novas tecnologias de desenho - via digital - devido a problemas de vista. A BD aqui publicada foi "recuperada" como um exercício de Turunen para se habituar à maquinaria. É giro que a ideia de um detective hipopótamo seja mais tarde recriado na série Elephantmen (Image; 2006-). Topa-se - e é assumido - a influência cósmica-esotérica de Moebius quer na história (hermética) quer no traço linha-clara-yang, influência justificada porque os dois putos finlandeses estavam isolados q.b. numa terrinha - oi! Não havia internet, pá! Lê-se com frescura surrealista de outra altura da Humanidade... Resta dizer que o Mika faleceu com 30 anos, em 2003, e esta é uma forma bonita de homenagear alguém que desapareceu.

Novo disco de Vaiapraia, sim um LP!!! Alegria Terminal (Tons to Tell; 2025) é um disco limpinho, finalmente percebe-se tudo o que o Rodrigo canta e/ou berra. Assim os seus psico-dramas amorosos ou tretas do quotidiano aumentam a sua dimensão a emoção - e sim, os heteros + cis podem-se identificar com as letras não fosse o Rodrigo um escritor astuto. A parte instrumental está cada vez "experimental" mesmo que isto significa usar as matrizes gastas do Garage, Punk e Indie mas o que poderia dar em clichés chatos é justamente o contrário que acontece, este álbum brilha como uma estrela. Meu, se este não for o disco no ano, então estamos num país todo fodido.

Sei que há uns problemas com a edição, por isso, eis um aviso à population: despachem em arranjar um exemplar senão terão de comer papa digital.