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quarta-feira, 7 de maio de 2014

Mais cartas italo-suomis

Continuando a receber mais belos livros da Finlândia e da Itália, as surpresas continuam de livro a livro sem excepção, sem descanso!

Isä significa "pai" em finlandês e é o novo álbum de BD de Hanneriina Moisseinen - frases estas que banalizam completamente um livro sentido de quem o seu pai desapareceu numa noite. Diz a lei (na Finlândia) que só se considera alguém desaparecido como defunto após 10 anos do seu desaparecimento. Desparecimento significa que não existe corpo, significa que foi uma morte tão violenta que a natureza "comeu" o corpo ou pode significar que a pessoa não quer ser encontrada. É neste mórbido binómio que Moisseinen (e a mãe e a irmã) vivem durante 10 anos até que são "libertas" com a morte tornada oficial pelas competências legais. Usando grafite para um desenho realista e bordados para imagens simbólicas, este é uma BD de catarse, justamente o negativo de um livro como Visitez tous les pays recentemente aqui resenhado.
Editado o ano passado, este livro é pesado e austero que mostra que a Huuda Huuda ou as produções finlandesas não são apenas fogo-de-artíficio colorido e de experiências psicadélicas, como muitos pensam.


Com este Keitto Kirja / The Sauce Book (Huuda Huuda; 2013) de Lauri Mäkimurto fica provado que a importância e a influência de Kalervo Palsa (1947-1987) ainda está para ser calculada na BD finlandesa.
Eis um "comic-book" cheio de misantropia e depressão tão típica do norte da Europa. Procurando fotografias de Palsa e de Mäkimurto fico com a impressão que ambos têm ares psicóticos em que só espero que o destino do último não seja tão dramático como o do primeiro.
Lauri parece um eco de Kalervo que percorreu 30 anos até chegar até nós. Nesta BD não estamos em 2013 mas em 1983, tudo é bastante horrível e atrofiante, não há pontos de referência, só deserto humano e natural, morte e violência, sexo e bebedeiras sem sentido... O grafismo, estilo e tiques de Palsa (a corda para enforcamento, por exemplo) estão tão presentes que um leigo poderia ser enganado - e porque não? Que se saiba o Kiasma ainda não mostrou os tesouros em BD deste artista, quem garante que Lauri exista e não são BDs dos arquivos instituições a escorerrem cá pra fora com nome de outro tipo para não haver problemas com esta instituição de arte contemporânea? Como são poucos os finlandeses, é díficil de acreditar nesta tese, alguém saberia da verdade e iria-se bufar. É pena...

Seguimos para Itália - mais uma vez prá Canicola, claro, onde esta casa editorial faz alguns dos livros de BD mais bonitos da actualidade. Seja pelo design simples mas muito quente (dando juz ao nome da editora) seja pelo conteúdo. Dormire nel fango (2012) de Edo Chieregato (a) e Michelangelo Setola (d) reúne várias BDs publicadas anteriormente na revista Canicola... O aspecto anacrónico do desenho e das próprias narrativas tanto nos colocam num mundo que envoca uma nostalgia dos anos 70 ou 80 (a infância mágica e a juventude heróica submersa em referências Pop) como num mundo pós-apocalíptico, causando sempre uma sensação que estamos tão perdidos como as personagens destas BDs. Graficamente, estamos perante um desenho a grafite a lembrar a finlandesa Amanda Vähämäki - e isto nem sequer é uma especulação de quem quer sempre unir nomes de autores a outros porque ambos tem realmente semelhanças de estilo que até partilharam publicamante, lado a lado no livro-catálogo Souvlaki Circus (Buenaventura Press; 2008). Há livros urgentes de serem descobertos, este é daqueles... 

Por fim, mais um A3 da Canicola: Lontano (2013) de Gabriella Giandalli, autora com um trabalho reconhecido há umas boas duas décadas e que assina este magnífico e derradeiro manifesto da depressão. Lembra-me o álbum, não sei bem porquê, o disco Rembrandt Pussyhorse dos Butthole Surfers sem a histeria dos texanos, muito pelo contrário, tal é reconhecida a elegância desta artista.
Ainda assim há aqui uma melancolia de proporções cósmicas a beijar a Teoria do Caos que lembra-me esse disco. Cada pedacinho das coisas mais desinteressantes ou aparentemente importantes são coladas no transe desta má viagem chamada vida.
Algures no quarto do teenager deprimido vê-se um cartaz dos Pink Floyd - relativo ao Dark Side of The Moon - e por isso que associo esta BD a um psicadelismo existencial que o rigor gráfico, de tons cinzentos, não se deixa levar com os esquemas freaks habituais neste tipo de texto. Um colosso!

domingo, 30 de janeiro de 2011

Vergonhas suomi...


Jarno Markuksen Kauneimmat, de Jarno Latva-Nikkola ; Setit ja Partituurit - Häpeällisiä tarinoita (Sets and Scores - Shameful Stories), de Hanneriina Moisseinen
(Huuda Huuda; 2010)

Dois livros de autores finlandeses de banda desenhada que em comum têm a participação na Glömp X - antologia e exposião que esteve patente na Feira Laica / Bedeteca de Lisboa (2009) - e terem livros cujo o tema central é a vergonha. No caso de Moisseinen é mais do que assumido, pediu estórias reais de situações embaraçosas de pessoas nos seus quotidianos finlandeses - como o episódio na sauna, por exemplo, em que uma tipa apalpa, na brincadeira, as nádegas de outra pensando que era uma amiga... Esta autora é bem relembrada por ter feito uma bd com bordados (que estavam dentro de uma tenda), aqui ela volta a esta técnica mas só num episódio ou noutro. O resto é pintura que lembra de alguma forma "ilustração para a infância" que tem um travo naíf para além de ser meio "free" meio desleixado. Desilude para quem esperava aventuras gráficas tecidas a agulha e linha...
Já o novo livro do Jarno também desilude porque não é um livro de material novo como foi o excelente Tunteiden Maisteri, mas sim uma compilação de bd's curtas, complementado por alguns desenhos. Mas as mágoas ficam por aqui porque é um abuso de páginas e páginas, estórias e mais estórias de episódios autobiográficos manhosos como este (em que participei), auto-ficções e parvoíces mundanas misturadas com fantasia épica da aldeia. As desgraças das personagens são sentidas mas invés de seguirem um caminho emocional linear, a dada altura tudo descamba para o rídiculo. Rimos do melodrama, do engodo e da miséria, tal como Lars von Trier, Jarno obriga as suas personagens a serem plásticas para manipularem os leitores. Há também "migalhas de Crumb" em algumas bd's, diria mais do início da carreira de Jarno mas infelizmente por falta de créditos não sabemos datas nem onde foram publicadas estas bd's para chegar a essa conclusão. Perkele!
Ah! Sim os livros estão redigidos em finlandês mas há as sempre úteis legendas em inglês no final das páginas.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

+ umas kuvas

 fotos de Joana Pires


Talvez a única exposição de interesse durante o Festival de BD de Helsínquia, na galeria Jangva, comissariada pela francesa Polina Petrouchina, que juntou o seu trabalho à finlandesa Hanneriina Moisseinen e à russa Gala Marina sobre  de BDs em bordados. 
Não tenho a certeza se havia mais exposições. O programa em inglês incidia sobretudo nas conversas e entrevistas. Esta confusão (ou queixa) não é exclusiva minha, Polina também se queixou de que ninguém parece ter visitado a galeria - pelo menos dos convidados estrangeiros do Festival. Foi graças a uma conversa entre Polina e a Joana Pires que percebemos que havia esta exposição no programa, e por acaso já conhecia a galeria quando visitei o Festival noutras edições. Também falaram de uma inauguração de uma exposição do Aapo Raapi na galeria Myym älä 2 mas essa nem estava no programa... Quem percebe estes Suomis?

terça-feira, 15 de setembro de 2009

A Norte tudo de novo...


Como já tinha referido aqui, a autora alemã Anke Feuchtenberger criou com o seu marido Stefano Ricci uma editora, a Mami, onde têm publicado trabalhos seus e também de alunos da Faculdade de Hamburgo onde Anke ministra um curso de ilustração e bd. Sem grande informação na Internet - e sem tempo para grandes discursos - escrevo apenas que chegaram Ich weiß de Birgit Weyhe e CandieColouredClown de Jul Gordon, belas edições: boas encadernações, boa escolha de papel e trabalhos de bd com impacto à primeira vista. O problema é que é preciso saber alemão para poder apreciar a primeira e 50% da segunda (algumas bd's estão em inglês)...


S! (com uma "coisa-acento" no "s") é uma mini-revista que era o Kus (que também tinha algo no "s"), novo conceito para tempos de crise, ou seja, reduziu-se para um formato A5 super-simpático completamente a cores onde convivem autores nacionais (continuando a Anete Melece a ser a autora mais interessante) e estrangeiros como Emilie Östergren (Suécia), Henning Wagenbreth (Alemanha - alguém se lembra do Salão Lisboa 2003?), Bendik Kaltenborn (Noruega) ou Nicolene Louw (África do Sul)... Sairam dois números entre Outubro 2008 e Fevereiro 2009.



Passados 10 números e 12 anos de actividade editorial, Tommi Musturi - um dos muitos autores de bd da Finlândia com talento e voz própria - cansou-se de editar o Glömp, projecto que começou como zine e passou a antologia. Como explicou quando esteve , para se despedir do projecto tinha de fazer algo de especial daí que GlömpX (Huuda Huuda; 2009) seja um livro saudávelmente pretensioso, querendo ser um marco na história das antologias de bd - o editorial do livro não deixa dúvidas em relação a isso fazendo um breve resumo dessa história. Apresenta-se em capa dura, todo a cores, com um CD banda sonora (Fricara Pacchu, Amon Düde & The Hoppo, Kiiskinen e Nuslux), e sobretudo e o que importa, um conceito de querer publicar e expor "narrativas em três dimensões". Ou seja, fugindo do tradicional "lápis + caneta sobre papel" (embora também haja situações dessas em alguns trabalhos), criaram-se bd's plasticamente diferentes do tradicional. Por exemplo, Hanneriina Moisseinen fez uma bd em bordados. Na exposição é preciso entrar numa tenda para poder ler a dita cuja - como poderam ver os que visiram a exposição que esteve patente na Bedeteca de Lisboa. Katri Sipiläinen criou um ambiente-escultura com alguns bonecos, esse ambiente fotografado tem uma carga cinematográfica e dramática fortíssima depois de composto em páginas de bd. Outras bd's são interactivas como a de Roope Eronen cujas tiras de bd podem ser lidas de formas diferentes com um sistema rotativo de paralelepipedos numa caixa - no livro, o autor (e o editor) oferece a hipótese (remota) de destruirmos o livro para recriarmos esses paralelepidos. Talvez nem tudo o que é apresentado na exposição seja competente - claro que não poderia ser - mas comparando com um projecto idêntico do passado, o Zalão de Danda Besenhada, os finlandeses sobretudo não se esqueceram de uma coisa, a bd no final é sempre transmitida via livro ou papel. E é aqui que não há falhas, o GlömpX merece um glorioso epitáfio na História da BD.