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terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

escola argentina, antepenúltimo capítulo

Tempos houve que existia um tipo de bd sul-americana, chamada de Escola Argentina, de onde surgiram gente como o Alberto Breccia ou José Muñoz (reconhecido este ano em Angoulême com o prémio máximo do evento), ou o italiano Hugo Pratt que por lá passou. Foram tempos de trabalho árduo num medium popular como era o da bd. Como sabemos a bd foi perdendo a importância popular, e os mercados mudaram com as investidas dos gigantes económicos "comics" norte-americanos e Manga do Japão, para não falar ainda da ditadura. A crise económica cada vez mais forte na Argentina e o seu fundo dramático de Dezembro de 2001 estoiraram de vez com as últimas hipóteses da historieta de se recuperar.
Mas como a humanidade é feita de corpos e anti-corpos, tem aparecido pequenos resistentes - daqueles que não foram trabalhar para Espanha ou para os EUA - como é o caso da La Productora, um colectivo de autores / editores que tem experimentado uma série de soluções editoriais na nova realidade argentina. Já possuem um catálogo considerável (para uma pequena editora) porque por um lado apostaram em "comics" nas bancas numa onda "trash gótico-fantástico" e respectivo desenho naturalista. Para mim, são pouco interessantes e fico pelos livros que também tem editado. É o caso de Carne Argentina sobre o qual já escrevi nos "tempos gloriosos" do Entulho Informativo (#15) e nada tenho a acrescentar a não ser que o que aqui anuncio é a reedição argentina de 2003, mais pequena que a edição da Under Cómic (de Espanha). Este ano o livro teve uma edição francesa pela Éditions Minuscules.
Morón Suburbio (2005) é a compilação dos "comics" homónimos (um deles com edição espanhola pela Under Cómic) de Angel Mosquito (que participou no Mutate & Survive) e de uma estória de um número da colecção miniTonto. Para mim o autor menos virtuoso da carrada de bons desenhadores que existem por aquelas bandas mas é sem dúvida o mais divertido de todos. As suas estórias de Western contemporâneo sul-americano são de um terror para qualquer europeu burguês (como eu) pela forma como ele mostra a violência nestes ambientes exóticos onde por acaso também existem "McKakás". Fico na dúvida se a violência é ficcionada ou se pode ser real - fogo, eu é que não quero ir para a Terra do Satã! A edição de formato A5 não é lá muito boa - nem o papel - mas é a crise, cabrón primeromundista! [3,8]


Morón Suburbio à venda na Chili Com Carne a 10€. Desconto 50% a associados

sábado, 21 de julho de 2012

BUENOS AIRES DEPOIS DO APOGEU

Cidade de muitas livrarias, Buenos Aires não desaponta no que à banda desenhada diz respeito. Mas também não deslumbra. O colecionador proveniente da Europa poderá demorar-se na livraria Enteléquia, sita no número 341 da Avenida Uruguay, onde encontrará vários exemplares das revistas que marcaram o período dourado da historieta argentina, de Hora Cero ou Misterix (anos 1950-60) até Hierro (anos 1980), tudo devidamente fechado em invólucros de plástico, etiquetados com preços mais ou menos acessíveis. Os clássicos de Oesterheld estão igualmente disponíveis em livro, em particular os que resultaram das parcerias com Solano López (Eternauta I e II, pela Doedytores) e Alberto Breccia (Sherlock Time, Mort Cinder, pelas Ediciones Colihue, menos apelativas por causa das suas capas uniformes em tom laranja). O problema começa quando se pergunta pela banda desenhada argentina actual, em especial os trabalhos de pendor mais alternativo ou experimental. Em livrarias como a Enteléquia ou a Club del Cómic, a amostra é reduzida, para não dizer inexistente, sendo abertamente menosprezada pelos funcionários em proveito das velhas glórias entronizadas. E torna-se complicado tropeçar em pontos de venda de fanzines e edições independentes, mesmo para quem disponha de alguns dias para calcorrear as longas artérias que cruzam o Microcentro, em especial as duas margens da Avenida Corrientes entre Callao e 9 de Julio. Mas eles existem, claro: por exemplo, a galeria LDF, no fascinante bairro de San Telmo (Avenida Perú, 711), que todavia não tivemos oportunidade de visitar.
As notas que se seguem são, por isso mesmo, esparsas, resultando sobretudo das informações e materiais disponibilizados pela ilustradora Muriel Bellini. Há pelo menos duas editoras a ter em conta: La P!nta e Burlesque. O catálogo da primeira é reduzido, consistindo numa meia dúzia de livros em formato comic, com boa apresentação, podendo ser facilmente encontrados em livrarias como a Enteléquia. Já as Ediciones Burlesque editam brochuras em formato A6, mais próximas do circuito dos fanzines e, como tal, mais difíceis de descobrir. Em qualquer dos casos, o que se edita são maioritariamente autores argentinos, mas não só (Burlesque tem colaborações provenientes da Suiça ou da Holanda, entre outras). Berliac será porventura o nome mais projetado da nova geração. Se Rachas (La P!nta, 2009) nos apresenta um conjunto de histórias ‘de romance e mistério’ ilustradas a traço grosso e com muitas sombras, aqui ou ali fazendo lembrar Muñoz, DGMW / Devil Got My Woman (La P!nta, 2011) afirma-se como realização de maior fôlego, onde o autor desenvolve um registo subtil e original, de traço parcimonioso de modo a gerar um efeito de desenho ‘inacabado’ que na verdade se complementa em manchas de um cinzento desbotado, aplicadas com mestria. A história, com argumento de Damián Connelly, relata as investigações de um jornalista em torno do bluesman Nehemiah Curtis ‘Skip’ James, contendo admiráveis enquadramentos inspirados nos cenários naturais do delta do Mississípi.

Connely & Berliac, DGMW

Para além do craque Berliac, a seleção de banda desenhada argentina apresenta outros recursos dignos de nota, como o humor extravagante de Ernán Ciriani, servido com um traço desleixado e bastante idiossincrático (vários trabalhos publicados no fanzine peruano Carboncito); ou as narrativas autobiográficas de Ezequiel García, num estilo que nos recorda o melhor de Marcos Farrajota, tanto a nível gráfico como textual (Llegar a los 30, Emecé Editores, 2007; e aventuras subsequentes, também em Carboncito); ou ainda as atribulações domésticas de Camila Torre Notari, em especial a sua produção a preto e branco (Es Miserable, No?, Burlesque Ediciones, 2010; e outros trabalhos em Carboncito); e, para finalizar, os super-heróis surrealistas de Fran López (Súper, Burlesque Ediciones, 2010). É caso para dizer que, se em tempos o melhor da historieta argentina girava em torno de naves espaciais e extraterrestres (com a notável exceção dos argumentos de Oesterheld desenhados por Pratt), a inspiração contemporânea é mais terrena mas, igualmente, bem mais variada.

Ernán Ciriani, 'De como os Conquistamos', Carboncito 13 

 Ezequiel Garcia (sem título), Carboncito 13 

 Camila Torre Notari, Es Miserable, No? 

Fran López, Súper


Sites & blogs
www.ldfgaleria.blogspot.pt                                                                                           

Contactos:
Galeria LDF: ldf.galeria@gmail.com
Muriel Bellini: murielbellini@gmail.com
Burlesque Comics: burlesquecomics@gmail.com
Ezequiel García: ezeqgarcia@hotmail.com

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007

escola argentina, penúltimo capítulo

Nas novas mexidas globais como seria de esperar, a Argentina não podia ficar de fora e abraçar os paradigmas do Novo Novo Mundo, por isso, não é à toa que falo a seguir de Revue Ex Abrupto #2 (Ex Abrupto; 2005) e de Suda Merry K. recopilatório (ABC; 2006), revistas que se parecem com livros e em que em comum tem o editor francês Thomas Dassance que partiu para a Argentina em 1999.
No primeiro caso, a revista está em francês e apresenta-se como uma revista de «experimentação gráfica e narrativa» com colaborações de peso como o José Muñoz e o Carlos Nine (capa) eautores menos conhecidos como Max Cachimba e Julian Taborda. O objectivo é dar a conhecer o talento sul-americano nas terras gaulesas. Até se come "a coisa" apesar dos altos e baixos (como repararam alguns autores são amadores e outros são mestres como Muñoz) mas a legendagem horrível em TODAS as bd's acaba por condenar a revista. Nem o seu ar altivo (à francesa?) e suplementos escondidos a salvam do estigma do "tiro ao lado" [3]
Já Suda Merry K. tem um ar mais humilde (foi editado lá em castelhano) consegue ganhar vários pontos acima. É uma revista de esforço tripartido entre o Ex-Abrupto, Viñetas con Altura (Bolívia) e Feroces Editores (Chile); e junta autores europeus como o suiço Thomas Ott (com um trabalho de Recuerdos de Mexico) e o espanhol iconoclasta Miguel Brieva e vários sul-americanos de vários países nas suas páginas em que destaco o peruano Jorge Ruibal (na imagem em baixo) a lembrar vagamente a Kaz e outros gráficos selvagens. O presente volume recompila os dois primeiros números da revista em versão melhorada. [4]
Com um Presidente argentino (Muñoz) para a próxima edição do festival de bd do mundo (Angoulême 2008), ainda não se escreveu o último capítulo da historieta. Estejam atentos, muito atentos...

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Zines associados


Perdidos #1 é uma publicação desdobrável que um gajo tem de montar para aceder a intervenções gráficas de ilustradores sobre o tema dos "folhetos de animal doméstico perdido", ideia entre o mórbido e o fofo (coincidência que em italiano mórbido significa fofo!) do mesmo editor de El Monstruo de Colores no tiene boca. Por acaso o desenho mais interessante é da nossa 'tuga Ana Menezes para nosso gáudio nacionalista da treta ao ponto de até o reproduzimos aqui como ícone para este "post" sobre os zines de autores associados à Chili Com Carne participaram ou lançaram - e que não tenho tido tempo nenhum para os divulgar, aqui vai!!

Continuando entre castelhano e português, Cotidiano de Lujo #1 de Júlia Barata (ou Tovar, é assim que assina em Zona de Desconforto) é uma recolha de BDs sempre a abrir - porque a vida quotidiana é isso mesmo! - desta autora portuguesa residente na Argentina. Entre a leveza de uma Maitena (ergh) e algo mais naíf e verdadeiro - a quinta vinheta da página 14 é fantástica! - Júlia conta as suas aventuras autobiográficas com a família e a sociedade argentina. Para quem gostou do que ela contou no Zona de Desconforto esta é uma óptima forma de não lhe perder o rastro. Quando sair o número dois espero que ela avise de tal! Ah! Este zine e outros da autora e do seu marido Alejandro Levacov estão disponíveis na nova livraria lisboeta (ena!) Tigre de Papel.

O Sim Mau apareceu na Feira Morta na Bedeteca de Lisboa com uma série de zines produzidos na sua estadia numa escola de BD em Viborg (Dinamarca). Cyclops #4 cujo tema "Interpretations" é o resultado das classes dadas pelo argumentista Steven T. Seagle (um cromo da indústria norte-americana dos "comics") com cerca de três dezenas de alunos a interpretarem um texto (muito) simples que o gringo escreveu. Um exercício que tem tudo de "oubapoano" e mostra como realmente algo como um texto tão simples pode ter tantas visões diferentes. Seria algo que as escolas de BD portugueses deviam deitar cá para fora o tempo todo... Com outro aluno da mesma escola, o norueguês Erlend Sandoy, juntos fizeram o zine Man, take your freedom que parece um libreto da revista Mad para um oratório da Santa Igreja Queer dos Ogres Contabilistas. Sim Mau desenha a narrativa e Sandoy embeleza com molduras com motivos "Sword'n'Sorcery", quem escreve os versos não se sabe mas é aqui que se percebe que os Game of Thrones são uma má influência para a nossa Juventude! Ámen! A solo ainda há A day in school with refugees que sabe a pouco para tema tão importante, ou seja, sobre a escolarização de jovens refugiados (da Síria) e os seus problemas de adaptação na Dinamarca. Com um "final feliz" não deixa de ser estranha uma abordagem tão superficial mas a sinceridade é assumida desde o título de 12 páginas A4. Foi só um dia...

Por fim, III é o primeiro zine (acho, apesar do título indicar o contrário) de Rui Moura, um jovem artista que faz culto de arte freak e todo o fumo associado. Esta BD que publica está muito verdinha para aquilo que sei que é capaz de fazer, conheci-o através de uma candidatura interessante para o concurso dos "500 paus". Diria que serviu de desculpa apenas para experimentar a edição e o linóleo. Fazes melhor do que isto, certo?

segunda-feira, 28 de março de 2022

Webinar com Francisco Sousa Lobo e Berliac


 

Working Group 2 The Metamorphoses of Contemporary Iberian Comics led by Benoît Mitaine (Leader), Ana Matilde Sousa (Co-Leader) and José Manuel Trabado (Scientific Advisor) is organising a seminar on the topic of non-fiction comics on 30 March 2022 at 6.00pm.

The event will feature two artists, Berliac from Argentina, who is the author of Playground (2013) and Francisco Sousa Lobo from Portugal, author of Deserto / Nuvem (2017)


Details of the event: Wednesday 30 March 2022, 6.00pm (CET).


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O Non-Fiction Comics Webinar #2 é o segundo webinar de uma série dedicada à banda desenhada de não-ficção, organizado no contexto da Acção COST iCOn-MICs 'Investigation on Comics and Graphic Novels from the Iberian Cultural Area’. 

Contará com a presença dos artistas Berliac (Argentina), autor de "Playground", e Francisco Sousa Lobo (Portugal), autor de "Deserto | Nuvem", "Palácio" e "Gente Remota". 

Vai decorrer nesta quarta-feira (30 de Março) às 17h de Portugal, através da plataforma ZOOM, sendo moderado por Ana Matilde Sousa (Hetamoé) e Hugo Almeida (Mao).

terça-feira, 13 de março de 2018

LISBOA é VERY VERY TYPICAL ::::: ESGOTADA tal como a cidade!




Lisboa é Very Very Typical

experiências de quem estudou ou trabalhou em Lisboa

1 Capital europeia / 12 autores estrangeiros / 9 países / 3 continentes

Nesta colecção para quem gosta de "viajar sem apanhar transportes e gastar dinheiro" já se deram muitas voltas, da Europa aborrecida à Guiné-Bissau. Pela primeira vez, vira-se para o umbigo e viaja por Portugal, ou melhor... por Lisboa!

Todas as nossas antologias nascem de ideias puras mas por serem tão ingénuas acabam sempre erráticas... Não nos estamos a queixar antes pelo contrário, glorificamos o erro! A culpa é da "espanhola do caralho" que nos foi impingida para entrar na Zona de Desconforto, colectânea de autores de BD portugueses que contavam as suas experiências no estrangeiro enquanto estudantes ou trabalhadores. Begoña Claveria seria um contra-ponto, uma estrangeira a comentar Portugal, uma ideia com piada mas que não coube nesse volume e a sua BD ficou em águas de bacalhau...

Passado um ano e dado ao sucesso que obtivemos com Zona de Desconforto, pensamos que seria um bom desafio juntar estrangeiros que vivem ou viveram em Portugal. Plano arriscado! Há assim tantos autores que tenham passado por cá? E que queiram arriscar a fazer uma BD?

Há! E muitos! Ao ponto de alguns não terem deixado de dar notícias - temos muita pena dos autores africanos que nos deixaram na mão... Outros apareceram e sem papas na língua. De três continentes diferentes e com experiências variadas, muitas em volta das questões laborais portuguesas, eis Lisboa é Very Very Typical.

Lisboa!? Não era para ser sobre Portugal? É coincidência mas a verdade é que todas as BDs tem a capital como centro geográfico dando razão ao que se diz que "o resto é paisagem"! Talvez de futuro tenhamos de fazer uma antologia sobre estrangeiros no Porto ou Alentejo, até lá fiquem com as visões de Anica Govedarica (Croácia), Taís Koshino (Brasil), Elias Taño (Espanha), Alejandro Levacov (Argentina), BNK TNK (Japão), Martina Manya (Espanha), Aude Barrio (Suiça), Nicolae Negura (Roménia), Dileydi Florez (Colômbia), Alain Corbel (França) e Téo Pitella (Brasil). A capa é da responsabilidade do alemão Lars Henkel - autor que já estudou também em Lisboa e chegou a participar na Feira Laica.

Historial: mostra de originais do livro na BD Amadora 2015 ... Festa de lançamento no dia 29 de Outubro na Zaratan organizada pela 1359 com unDJ MMMNNNRRRG ...

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136p a verde branco, 8p p/b 16,5x23cm, capa a cores com badanas
sem ISBN porque a APEL pretende humilhar os pequenos editores
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Últimos exemplares talvez ainda na Mundo Fantasma, Bertrand e Palavra de Viajante.

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Feedback:

Depois de Zona de Desconforto, livro que reunia bandas desenhadas de vários autores portugueses vivendo no estrangeiro, o novo volume colectivo editado pela Chili Com Carne junta autores estrangeiros que vivem em Lisboa. O propósito é o mesmo: dar espaço à reflexão sobre as experiências individuais, as pequenas histórias, as expectativas, potenciando uma leitura mais ampla sobre como é ser-se estrangeiro numa cidade (e logo numa que cada vez mais se promove como destino de sonho para turistas) nos dias que correm. 
Blimunda 
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Uma Lisboa posta à mesa pelos atípicos (...) é uma obra de arte e em simultâneo o relato na primeira voz o que é ser-se estranho num lugar tão típico. 
Dif 
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Com várias antologias originais de banda desenhada no currículo (...) a Chili Com Carne tem sabido rodear-se de alguns dos mais prometedores autores de banda desenhada, muitas vezes apostando em principiantes, sempre sem ceder no capítulo da qualidade e da vontade de experimentar caminhos a partir da linguagem da banda desenhada. (...) Com um título como este, o livro arrisca-se a aliciar turistas para uma suposta cidade que, afinal, não cabe nestas páginas. Apesar disso, Marcos Farrajota acredita que Lisboa É Very Very Typical não deixa de ser um cartão de visita da capital, sobretudo para quem não ande à procura de tuk-tuks, tascas gourmet e casas de fado com preços astronomicamente inflacionados: “Não é um diário de viagem ou um daqueles livros de esboços chatos. Quase nunca se vê a cidade, mas daí, qual o problema disso? São as pessoas que fazem as cidades e não os monumentos e museus. Se calhar até é um livro de despedida da Lisboa anacrónica e do século XX para uma nova, menos romântica, provavelmente...” Menos romântica, mas com espaço para gente que se descobre estrangeira apesar de falar a mesma língua, como na história de Téo Pitella, infiltrações inevitáveis nos prédios antigos, a despertarem a bronquite e a narrativa de Alejandro Levacov, casas que desaparecem e voltam a erguer-se à medida que alguém precisa de as habitar, na história de Taís Koshino. 
Páragrafo 
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cria um rosto real, tangível, endereçado que nos permite entrar em diálogo imediato com o que está a ser discutido. Não se procura nenhum tipo de concordância imediata, mas antes uma compreensão dessa mesma perspectiva. Assim, a Lisboa ou Portugal que emerge destes retratos pode revelar-se menos gloriosa do que muitas vezes “nós” pintamos. Em segundo lugar, essas mesmas discussões não têm uma tonalidade pedagógica e institucionalizada – lá está, supostamente objectiva. Reforçando o aspecto dialogal. 
Pedro Moura / Ler BD
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(...) título brincalhão com que se apresenta um livro coligindo bandas desenhadas da autoria de artistas estrangeiros - homens e mulheres - que estiveram, ou ainda permanecem em Portugal, e que escolheram Lisboa para simples passagem ou mesmo fixação. É exactamente o caso da pintora Nina Govedarica, que veio da Croácia visitar Portugal em 1998, escolheu Lisboa, cidade de que gostou de imediato, aqui conheceu Fernando Relvas, casaram, e ficou a morar com ele na Amadora. Assim, quando o editor Marcos Farrajota da Chili Com Carne teve a ideia (bem interessante) de convidar artistas estrangeiros, de passagem ou a viver em Lisboa, a transformarem em banda desenhada as suas impressões sobre a Mui Nobre e Sempre Leal cidade, Nina aceitou o desafio, ela que nunca fizera BD (...) além de provar ter invulgar capacidade ilustrativa, demonstrou um fino sentido crítico em relação aos lisboetas (extensível aos portugueses em geral), gozando, por exemplo, com o significado que é dado à palavra amanhã, sempre muito variável, tanto pode querer dizer para a semana, no próximo mês, para o ano, ou mesmo nunca.
Geraldes Lino

Artigo na Gazeta das Caldas
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Apesar dos riscos inerentes a uma recolha, de todas as (boas) propostas coletivas da editora Chili Com Carne esta é talvez a mais conseguida de todas, e um excelente livro que vale a pena levar aos olhos enquanto espelho.
sobre os autores:

Aude Barrio (1985, França)… a mãe é suiça e o pai português. Vive e trabalha entre Genebra e Lisboa. Faz parte da editora Hécatombe (que já esteve presente numa Feira Laica e exposição na Matéria Prima) e participou em várias antologias como Un Fanzine carré ou Turkey Comics (The Hoochie Coochie). Em 2014, realizou o seu primeiro livro a solo Petit Lapiin Chouin Chouiiin e inaugurou Zonas de Habitabilidade, colecção de BDs "à quatro mãos" com Barbara Meuli, em 2015.

Begoña Claveria (Lleida, 1982) Graduada em Design Gráfico pela Escola de Disseny i Art (Barcelona), fez também uma pós-graduação em ilustração pela mesma escola. Entre 2005 e 2009 trabalhou como designer e ilustradora colaborando com vários ateliers. Em 2009 mudou-se para Lisboa onde realizou um estágio com a PVK Editions e em 2010 começou a trabalhar na Ivity Brand Corp. Actualmente trabalha em regime de part-time nesta firma e colabora habitualmente em projectos no âmbito da edição e da ilustração. Publicou seu primeiro livro de desenhos em 2014 Vous avez de la biére? Non, juste le whiskey bérbère pela Senhora do Monte, editora que ajudou a fundar com Anafaia Supico e Nuno Barroso.

Alain Corbel (Bretanha, França, 1965) viveu em lugares tão diferente como Bruxelas, Marselha, na Gasconha, em Lisboa e Baltimore. É conhecido como ilustrador e colaborou com muitos autores portugueses. É também autor de BDs, escreve, faz fotografias e sestas com muito gosto. Desde 2000, e a seguir o projecto de livro Ilhas de fogo (ACEP; 2002), viajou regularmente nos países africanos de língua portuguesa, assim como em Timor-Leste, onde organiza oficinas de ilustração e escrita. É é professor no departamento de Ilustração do Maryland Institute College of Art (EUA) e é também o coordenador do programa Unspoiled Africa.

Dileydi Florez ( Bogotá, 1990) É ilustradora e Designer. Estudou Design no IADE e Ilustração Artística na Universidade de Évora. Em 2013/14 foi bolseira e finalista do curso de Ilustração e BD no Ar.Co. Actualmente vive e trabalha em Lisboa. A sua primeira obra de BD Askar, o General (Chili Com Carne; 2015) é inspirada em iluminuras persas e gravuras japonesas.

Anica Nina Govedarica (Zagreg; 1971) Estudou Belas-Artes em Zagreb durante quatro anos, desde 1997 que se dedica às artes plásticas e participou em numerosas exposições individuais e colectivas em Portugal, Croácia e Inglaterra. Esta é a sua primeira experiência em BD.

Taís Koshino (Brasília, 1992) é estudante de Comunicação Social com habilitação em audiovisual na Universidade de Brasília, tendo feito programa de intercâmbio na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. É co-fundadora do selo editorial Piqui, criado em 2011, com mais de dez publicações e participações em feiras nacionais e internacionais.

Alejandro Levacov (Buenos Aires; 1973) Três anos depois de nascer começou a Ditadura mais sangrenta do seu país. Desde então já passaram 14 Presidentes por este país (4 deles ditadores), mega-desvalorizações e uma bancarrota. A história recente argentina exemplifica a capacidade de improvisação e sobrevivência que caracteriza os seus habitantes. Emigrou para a Europa em 2002 (pós "corralito") morando em Barcelona, Lisboa, Maputo e Porto e trabalhando como Designer, ilustrador, cozinheiro, modelo, actor… Retornou ao seu país em 2013 com Júlia Tovar – ver Zona de Desconforto (Chili Com Carne; 2014) vivendo os dois (três!) em Buenos Aires.

Martina Manyà (Barcelona, 1983) estudou nas Belas Artes de Barcelona. No início de 2006 muda-se para Lisboa, para fazer um Erasmus, e desde então não conseguiu deixar Portugal. Tirou o curso de Ilustração e BD no Arco e actualmente vive e trabalha entre as duas cidades.

Nicolae Negura (Vaslui; 1987) é um ilustrador e artista romeno que desde há alguns anos tem feito de Lisboa a sua casa e fonte de inspiração. Gosta de utilizar cores fortes e garridas mesmo quando aborda temáticas mais depressivas . Outra fonte de inspiração é a BD vintage, que define completamente o seu traço.

Téo Pitella (1985) tirou o curso de Design Gráfico na Universidade Federal do Paraná, Gravura na Escola de Música e Belas Artes do Paraná e é Mestre em Arte Multimédia com especialização em Fotografia na Faculdade de Belas Artes de Lisboa. Actualmente dirige o projecto editorial 1359, onde trabalha com Risografia e edições de autor. Já realizou exposições no Brasil, Portugal, França, Moçambique e EUA. Tem experiência em fotografia editorial produzindo material para edições de diversas revistas e jornais.

BNK TNK (1976; Tóquio) chegou a Portugal em 2005 com um diploma em arte do vidro (TAMA - Universidade de Arte em Tóquio) e um amor por todas as coisas relacionadas à luz e reflexos. Rapidamente apaixonou-se pela luz de Lisboa e, consequentemente, decidiu ficar e completar a sua formação, tirando um curso avançado de Artes Plásticas no Ar.Co. Foi um passo natural combinar o conhecimento adquirido e sua grande paixão por culturas orientais - tanto o lado artístico e espiritual a fim de desenvolver diferentes formas de artes cénicas, sempre inspirados na natureza e no seu interior e os fluxos de energia exteriores. Desde esse momento tem realizado inúmeras intervenções, espectáculos e performances a solo e em colaboração com diversas instituições, passando por países como Itália, Japão e Portugal.

Elías Taño (1983) é desenhador e editor ocasional na cidade de "Violência" desde 2004. Dedica o seu tempo a andar para cima e para baixo com livros e outras coisas, viajando sobretudo pelas penínsulas europeias (a italiana e a ibérica) e por outros lugares do sul do mundo com a companhia de teatro-político Atirohecho. O seu grafismo tem fins políticos e de insurreição e trabalha em cartazes sobre os muros da cidade de forma totalmente anónima. Edita desde 2011, a revista Arròs Negre. Trabalha em serigrafia num edifício em ruínas que partilha com um escritor das ruas e um indigente napolitano.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Mutate & Survive (2001-2011)



Recuperamos um vídeo-clip promocional da seminal antologia Mutate & Survive (Colecção CCC #2; 2001) que passou na SIC Radical. Produzido por Nuno Pereira têm a banda sonora dos I.M.M. - Industrial Metal Machine, banda de Braga, alguns dos elementos estão em Slate Machine.
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Há 10 anos estavamos a ir ao apartado dos correios receber pacotes de fotocópias e CDs com ficheiros de bds e desenhos vindos da Croácia, Canadá, Argentina, Suécia e outros países que não tinhamos mínimo contacto... Foi das melhores sensações do mundo, quase todos os dias encontrar envelopes vindos de meia-planeta graças ao (então) poder do "forward" que fez o nosso pedido de trabalhos chegar a cerca de 80 autores para uma antologia única - pelo menos em Portugal e há 10 anos. 
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Passados 10 anos da sua edição - foi em Setembro de 2001 o seu lançamento - o ciclo fecha-se com os últimos exemplares do livro prestes a esgotar e com uma série de mini-entrevistas aos participantes, em alguns casos tentando recuperar alguns contactos perdidos.
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Agradecimentos a Afonso Cortez Pinto pela recuperação do vídeo de uma cassete VHS e à Andreia Rechena por ter colocado na civilização Youtube.

domingo, 23 de agosto de 2026

MITI MOTA - edição inglesa nomeada para os IGNATZ AWARDS

 

O novo livro da Amanda Baeza já caminha pelas livrarias! 

{bem como a edição em inglês pela kuš!}

Trata-se de mais uma compilação de novas Bandas Desenhadas curtas desde o Bruma até aos dias de hoje.

Encontra-se disponível na nossa loja em linha virtual e na BdMania, Cult, Greta, It's a Book, Kingpin, Linha de Sombra, Snob, Tigre de Papel, Tinta nos Nervos, ZDB (Lisboa), Velhotes (V.N. de Gaia), Matéria Prima, Mundo Fantasma, Socorro,  Utopia (Porto) e Subtil (Almada). 

 



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Editado em Dezembro 2025

100p A5 a cores, edição brochada, capa a cores

 

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Usando técnicas, materiais e expressões muito diversas, este livro reúne uma série de Bandas Desenhadas sobre pessoas, o mundo e o Amor. 

 

Os trabalhos saíram originalmente em várias antologias pelo mundo fora - Argentina, Austrália, Espanha e Portugal - entre 2017 e 2024. 

 

Para muitos é a continuação da colecção de curtas de Amanda desde o esgotadíssimo Bruma.



 



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HISTORIAL


Apesar de termos feito um lançamento oficial podem assistir à entrevista à artista em Pessoas que Desenham a Liberdade (RTP 2)

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Exposição na Tinta nos Nervos entre 25 de Abril e 6 de Junho 2026

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conversa com a autora na Biblioteca Central de Almada, dia 24 de Julho, 19h

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edição inglesa nomeada para os Prémios Ignatz 2026




FEEDBACK

É o livro mais bonito de 2025!
André Ferreira (via email)
 

O Trabalho de Amanda Baeza é eclético, luminoso mesmo que a falar de coisas sérias, cromaticamente intenso porque é a cor o fio condutor da fabricação de uma imagética muito pessoal. Na exposição Miti Mota, cujo título se retira do livro de banda desenhada recém-publicado pela Chilli com Carne, a aparente dispersão criativa que experimenta materiais (riscadores, tintas, lãs), suportes (papel vegetal, cartolina, madeira, tecido) e linguagens distintas (desenho, banda desenhada, pintura, ilustração, escultura, manipulação têxtil, cerâmica) constrói um movimento oscilatório frutífero entre disciplinas, abrindo campos de leitura mais amplos do que o dum mero filão narrativo. 

Working with cloth provides a useful framework for the moments of abstraction in a piece like “Miti Mota,” where images are cut and reassembled to demonstrate the nature of play, of sharing. This is not a version of comics as predecessor to storyboards, where identifiable character designs are paramount, but comics as a form of folkcraft where the artist expresses themselves through every choice made. This is not to say Baeza does not take comics seriously, but rather that she understands it healthily.
The Comics Journal sobre a versão inglesa Wisps
 

Mitimota e Bruma não são a mesma coisa. Ambas são a reunião, num só volume, de um conjunto de pequenas bandas desenhadas curtas, particularmente heteróclitas entre si, publicadas pela autora Amanda Baeza ao longo de anos em variadíssimas publicações, em países, línguas, formatos, estilos e circunstâncias diferentes. Sim. E não é impossível encontrar, de um título para o outro, pequenos temas recorrentes, trejeitos ou facetas comuns, uma maneira de encarar o acto de criar banda desenhada livre, sempre livre. 

(...) Acima de tudo, há um permanente assunto, que tem a ver com o da identidade, sobre que ingredientes são necessários para a assegurar– de forma obrigatória sob o olho da legalidade, ou da inscrição cultural imposta pelos agentes auto-eleitos desse limite, ou mais livres na vida corrente. Conhecerão alguns leitores um assunto que foi discutido em torno da pessoa de Baeza, que podemos apresentar como “portuguesa-chilena”, onde esse hífen faz um trabalho policial tremendo, e que já argumentámos dever ser visto não tanto como sinal matemático de redução, mas sim de acrescimento, de âncora para algo mais. (...) Esse assunto torna-se quase diáfano na história “Nem de cá, nem de lá” mas também em “1 + 1 = 0” (e, atenção, pouco importa aqui a cronologia precisa das histórias, pois estes embates não serão seguramente pontuais, mas sistémicos e contínuos). Diria, porém, que se essas histórias são, respectivamente, um apontamento diarístico e acusatório de um trauma (e é um trauma, pois é uma afirmação violenta dizerem-nos que não somos algo que somos, só porque quem afirma não sermos pensa ser o juiz dessa mesma identidade) e uma tentativa de compreensão dos mecanismos de recusa, é precisamente “miti-mota” que parece ganhar distância e descobrir como explorar o aspecto positivo desse processo de “metadização” da pessoa humana.

Uma pequena caixa de jóias, brilhantes e coloridas, várias e nem sempre doces, mas que abre um ramalhete de possibilidades.

sábado, 6 de novembro de 2010

PEQUENO É BOM encontros sobre edição independente (7ª sessão)



O PEQUENO é bom! vai fazer um intervalo até à Primavera... e despede-se este ano com a América do Sul, não tivesse a Chili Com Carne um denominação dúbia de gastronomia latino-americana.
Assim, será uma oportunidade única de poder adquirir zines, comics, publicações vintage daquele continente e poder usufruir das novas produções do Brasil (para quem ainda ressaca Chiclete Com Banana), Peru, Argentina,...
Voltamos às CURTAS CHILENAS (2ª sessão) com uma mostra de uma série de curtas-metragens do Chile onde encontramos ficção, cinema de animação e documentário.
Aproveitando o espírito "revolucionário sud-america" conjugado com as comemorações da República para promover o lançamento de o Fígado da República, zine bd de José Smith Vargas - bem como ainda outros zines de David Campos (que recentemente fez a moldura do sítio da CCC) e João Ortega, com uma pequena análise à situação da banda desenhada portuguesa com a presença de alguns destes autores.
E ainda vamos projectar os 2 volumes do Drome Vídeo-zine.
...
Aproveitem o último PEQUENO deste ano!!!
a CASA DA ACHADA fica aqui - entrada livre!

segunda-feira, 22 de abril de 2019

PEQUENO é BOM! Com AIDAN KOCH

A Chili Com Carne promoveu os encontros mensais PEQUENO é bom! em 2010, com o objectivo de divulgar a edição independente junto do público português – essas “coisas pequenas” que circulam por aí, longe do olho público: zines, CD-R’s, k7’s, vinil, graphzines, livros de autor, etc… 

Desde 2017 que o PEQUENO é bom! regressou numa segunda temporada mais ambiciosa de criar um encontro saudável entre artistas estrangeiros e público, fora dos grandes festivais e as suas tretas comerciais. 

Depois de Aaron $hunga (EUA) e Berliac (Argentina/ Polónia),
eis um encontro com a norte-americana Aidan Koch 
para 22 de Abril, às 19h, nos Anjos 70, 
moderado por Hetamoé e Mao.

§

Entrada Livre
Condicionada pelos lugares disponíveis, prioridade para os associados Chili Com Carne,
marcações para ccc @ chilicomcarne . com


Aidan Koch (Seattle, 1988) é uma artista sediada em Nova Iorque, cuja prática multidisciplinar inclui narrativas gráficas de carácter experimental. A sua banda desenhada decompõe o meio aos elementos mínimos, trilhando fragmentos visuais e verbais ambíguos entre o visível e ausente, poesia e silêncio. Nos seus trabalhos, são recorrentes motivos como artefactos de culturas clássicas e antigas, que transitam da banda desenhada para pinturas, esculturas, cerâmicas e têxteis. Em 2017, criou o Institute for Interspecies Art and Relations, onde mobiliza teoria, ética e estética na produção de conhecimento sobre e sensibilização pública para as relações entre humanos e não-humanos. Do seu percurso profícuo, destacam-se os livros de banda desenhada The Whale (2010), The Blonde Woman (2012) e Impressions (2014), bem como múltiplas exposições individuais e em grupo nos EUA e Europa.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

LIMA PROLÍFERA

É difícil resistir à tentação das delimitações nacionais quando se trata de falar da banda desenhada e da ilustração de outras paragens que não os Estados Unidos ou o eixo franco-belga ou o Japão, e isto mesmo quando as intenções do divulgador pretendem ser tudo menos folclóricas. O que se procura, com tais enquadramentos, é desvendar uma cena local, intuindo laços de amizade e colaboração, adivinhando regimes de produção e circuitos de divulgação que podem dar azo, assim se pensa, a formas específicas de absorver e digerir as influências estéticas provenientes dos grandes centros, criando estranhas erupções e alimentando redes que atravessam países e podem mesmo tornar-se, à sua maneira, globais. O caso do Peru e, em especial, da sua capital, constitui um bom exemplo. Se a produção clássica e de grande tiragem ficará claramente aquém da argentina ou brasileira, os circuitos alternativos contemporâneos da historieta peruana exibem uma formidável vivacidade. Em termos editoriais, Lima oferece pelo menos dois núcleos aglutinadores que de algum modo vão refundindo o melhor da banda desenhada e ilustração autoeditadas: o das Ediciones Contracultura, de Benjamin Corzo, com livraria aberta no número 986 da Avenida Larco, distrito de Miraflores; e o do fanzine Carboncito, editado pelos irmãos Renso e Amadeo Gonzales, onde publicam regularmente os autores mais influentes do Peru e países circunvizinhos (Renso pode ser encontrado na livraria de um pequeno centro comercial situado no número 295 da Avenida Alcanfores, que corre paralela à Avenida Larco). Outro aspecto relevante do contexto limenho, e que no fundo atesta a sua sintonia com as correntes alternativas globais, tem a ver com a hibridez entre banda desenhada e ilustração, nalguns casos abarcando também a pintura ou o design, noutros a música e a performance.

Lima, Peru

E quem são eles, os novos ilustradores peruanos? Uma primeira amostra teria de considerar os relatos autobiográficos de Jorge Pérez-Ruibal, publicados entre 2004 e 2006 no fanzine Trulópolis e posteriormente reunidos no volume Bestia (Ediciones Contracultura, 2008): uma sequência de episódios curtos de cunho realista turvado por uma boa dose de psicadelismo, exibindo recursos narrativos variados, apuro gráfico e, sobretudo, assinalável versatilidade estilística. Numa linha semelhante, as ficções suburbanas e decadentes de David Galliquio, autor prolífico mas evoluindo quase sempre dentro do mesmo registo meticuloso e denso, preenchendo o branco da página com padrões cruzados, manchas de pontinhos e balões de texto, devidamente inspirado na melhor banda desenhada underground (veja-se o fanzine A Mosca e as várias contribuições nos números de Carboncito ou Crashboomzap). Num outro comprimento de onda, mencionem-se as experimentações poéticas e existenciais de Jesús Cossio no fanzine Ciudades Convertidas en Selvas, a que se juntam trabalhos mais estruturados e, sobretudo, fortemente politizados, como Barbárie: Comics sobre Violencia Política en el Perú, 1985-1990 (Contracultura, 2010).

Jorge Perez-Ruibal, Bestia 

 David Galliquio, 'Lito El Perro en...', Carboncito 8

Jesús Cossio, Ciudades Convertidas en Selvas, nº 2

Os irmãos Gonzales têm direito a uma menção especial pela sua notável actividade editorial à frente do fanzine Carboncito, que se afirma como um excelente ponto de partida para quem quiser conhecer melhor o universo dos comics latino-americanos. O seu trabalho artístico é, contudo, igualmente digno de nota. Renso Gonzales reflecte sobre desventuras de amor em historietas de persuasão autobiográfica (incluindo as protagonizadas por um possível alter ego denominado Patrick, publicadas nas páginas de Carboncito), revelando-se ainda como ilustrador expressivo e explorador dos ambientes da metrópole limenha em Ilustración Desconocida (Carboncito Ediciones, 2007). Amadeo sobressai como primoroso retratista, cultor de uma estética linear-sintética versada em metamorfoses e desconformidades, ideal para estampagem em autocolantes e crachás, e que pode ser saboreada no fanzine Horrible y Divertido (2011) e em muitas outras contribuições na publicação que dirige com o irmão Renso. Para além disso, Amadeo Gonzales é músico e cantor de rocanrol, tendo editado, também em 2011, o CD Mostros Marcianos Y Rocanrol.

Renso Gonzales,  La Ilustración Desconocida

Amadeo Gonzales, Horrible y Divertido

Não sendo o objectivo deste post o de traçar um panorama completo, ficamo-nos por duas referências finais. A primeira diz respeito a Rodrigo La Hoz. O seu Islas (Contracultura, 2010) é uma história vertiginosa envolvendo sessões de psicoterapia e adivinhação, relações homossexuais masculinas, alucinogénios naturais (cogumelos e mel de vespa), ansiedades em torno da procriação e um avião que se despenha em cima da casa do protagonista. Tudo se passa em Lima e arredores, numa narrativa atravessada por diferentes escalas e dimensões, que vão do microscópico e do subterrâneo ao grande plano aéreo, sem esquecer diversos momentos de devaneio. A segunda referência diz respeito a Manuel Gomez Burns, certamente um dos mais virtuosos desenhadores peruanos da atualidade, que se detém sobre os códigos do cartoon e da banda desenhada vintage para baralhá-los e redistribui-los com resultados surpreendentes, elegantes e engenhosos (vejam-se as suas experimentações gráficas em torno das onomatopeias, publicadas em Carboncito e também no blog do autor).

Rodrigo La Hoz, Islas 

Manuel Gomez Burns, 'The Theater of the Sounds and the Eyes' Carboncito 14

Mesmo sumária, esta amostra chega para compreender que os quadradinhos e a ilustração proliferam sob o céu branco da capital do Peru.
                                                                                                                                                                
Sites & blogs:

Contactos:
Livraria Contracultura: libreriacontracultura@hotmail.com
Amadeo Gonzales: amadeo77@gmail.com
David Galliquio: davidalberto699@hotmail.com
Jesús Cossio: graficos777@gmail.com
Jorge Pérez-Ruibal: resinapower@yahoo.com
Manuel Gomez Burns: magomezburns@yahoo.com
Rodrigo La Hoz: rodrigolahozs@gmail.com