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sábado, 1 de julho de 2023

Macacos me mordam! MARKO TURUNEN em LISBOA!!!!!!


CONVITE   |  INAUGURAÇÃO 
SÁBADO  1  JULHO  16h
Marko Turunen

  Macacos me mordam !
Desenhos e transparências
na TINTA NOS NERVOS

É com muito prazer que convidamos para a inauguração da exposição do artista finlandês
Marko Turunen «Macacos me Mordam ! Desenhos e transparências.» 
 
Durante o evento, será igualmente lançado o seu mais recente livro Xeique PHDA, edição da Chili com Carne, numa conversa e sessão de autógrafos com o autor.
 


Macacos me mordam! é o nome da exposição de Marko Turunen que reúne imagens desenhadas ao longo de quase duas décadas. Pode-se encontrar tanto humor como sofrimento nesse título, uma antiga expressão portuguesa. Esses dois elementos são uma dupla comum quando se explora a arte de Turunen.
Na Tinta nos Nervos, apresentam-se quatro conjuntos distintos de trabalhos que partilham o mesmo vocabulário e a mesma força das imagens. Pelos diferentes suportes, compilando o que tem sido a temática recorrente dos seus trabalhos, transitam seres do outro mundo e muitas bizarrias deste, com ursos e extra-terrestres de outras galáxias, vaqueiros, pistoleiros e criaturas diversas deste far, far, west, numa espécie de non-sense criativo e surreal.
 
Marko Turunen é um artista e ilustrador baseado em Kotka (uma pequena cidade costeira na Finlândia perto da fronteira entre a Finlândia e a Rússia). Formou-se como escultor em 1997, mas a banda desenhada é a parte mais visível da sua produção artística. Tem livros traduzidos em francês, italiano, alemão e agora em português
 
Esta exposição tem o apoio do IIAF (Instituto Ibero Americano da Finlândia)


sexta-feira, 30 de junho de 2017

Novas do Turunen


O Marko Turunen é um irrequieto obsessivo autor de BD finlandês, daqueles que faz Arte com uma sistematização, classificação e ordenamento das coisas. É muito raro fazer-se boa arte com calculismo mas não sei porquê ele consegue. Vies de Marko Turunen (Frémok; 2016) é dos seus últimos trabalhos, em que ele se propõe a "biografar" todos os gajos chamados "Marko Turunen" na Finlândia. É claro que essa tarefa é impossível e o motor principal é a própria vida dele, misturada com excertos de vidas públicas (suponho que Turunen andou a recolher perfis na Internet dos outros Markos), com a dele, episódios que passam por Lisboa e os seus conhecidos portugueses, aqui irreconheciveís: eu, Pedro Moura e Nuno Neves (do Serrote). Dividido entre BDs feitas por ele, ou com a sua companheira da altura, Tea Tauriainen, e textos ilustrados, lê-se como um puzzle que tem o seu quê de George Perec e o livro Vida Modo de Usar...




ADHD Sheikki (3 volumes, Daada, Zum Teufel; 2015-17) é ainda mais estranho e perturbador. Um gajo vestido de árabe farta-se de cometer crimes ou acções erradas ou imorais em episódios desconexos, sem cronologia tal como como Turunen faz nas "Vidas de Marko Turunen" ou noutras obras suas - talvez seja uma recolha de histórias que viu ou ouviu em Lahti, conhecida por ser uma cidade de "barra-pesada". Como sempre ele abusa de referências Pop tornando o visual destas BDs uma espécie de território hiper-sexualizado do "Second Life" com toda a má-onda iconoclasta inerente. Ler estes livros soa a islamofobia, o que me perturbou imenso até ser-me desvendado que ler estes livros na Finlândia e fora dela têm significados muito diferentes. "ASHD Sheikki" é baseado numa pessoa real, um doidinho da aldeia, ou melhor, um finlandês dos anos 70/80 que se vestia de Sheik e vendia petróleo. Uma personagem provavelmente que sofria de esquizofrenia, o que explica os episódios absurdos das BDs, que Turunen conheceu e que lhe sempre fascinou. Doidinhos é coisa que não falta na Finlândia, felizmente, para fazer livros geniais como estes que não estão traduzidos noutra língua, sendo a tradução oferecida pelo o autor.

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Perturbação de Hiperactividade com Défice de Atenção



O volume da Colecção RUBI, intitulado Xeique PHDA de Marko Turunen, diz o seguinte:

Um xeique finlandês vestido de forma tradicional do Médio Oriente foge numa bicicleta, perseguido por polícias suecas, deixando um rastro de crianças sem paternidade assumida, mortes a sangue frio, furtos de casa e carros,... 

Eis um caos existencial que nos aqui é relatado, sendo que o Xeique PHDA (Perturbação de Hiperactividade com Défice de Atenção)  é uma personagem real, romanceada pelo autor finlandês Marko Turunen.

O trabalho de Turunen baseia-se na realidade, muitas vezes a mais monótona delas todas, apimentada com uma estética Hiper-Pop em que temos a sensação de estarmos imersos num universo Meta. Assim no horizonte do quotidiano, co-habitam "mulheres-com-excesso-de-mangá", homens "funny animals" ou super-heróis 3D, entre outras criaturas mutantes da cultura popular da Aldeia Global.

Embora o autor já tenha estado presente com uma exposição individual no Salão Lisboa de Banda Desenhada e Ilustração, em 2005, esta é a sua estreia portuguesa em livro. Curiosamente a autora Tea Tauriainen que participa num episódio deste volume já tinha sido publicada cá no Mesinha de Cabeceira.


Publicado originalmente em quatro volumes separados na Finlândia, entre 2015 e 2017, o último num formato maior que os três primeiros - a lógica do conteúdo explica a radical mudança de formato - foi publicado em francês pela importante Frémok num só volume, como acontece com esta versão portuguesa, cuja tiragem inclui para 100 exemplares uma oferta exclusiva de um mini-zine de material extra. Para aceder à oferta especial e limitada, apanágio da colecção RUBI, é preciso adqurir directamente à Chili Com Carne - e não estar à espera de encontrar numa estúpida cadeia de lojas, por exemplo, dah! Tenham juízo! E seja como for isso já ESGOTOU!!



360p A5 2 cores (56p noutra segunda cor) + capas duplas 1 cor + sobrecapa 2 cores

+ zine A6 para os primeiros 100 que o apanharem! Entretanto esgotou!!!

à venda na nossa loja em linha, Tinta nos Nervos, Kingpin, Snob, Linha de Sombra, ZDB, Socorro, Tigre de Papel, Universal Tongue, Utopia, BdMania, Alquimia, Língua nos Dentes e Matéria Prima.






Historial:

... 

Recital da obra por Ana Água na Noite da Literatura Europeia na Loja de Bicicletas de Carnide, 12 de Outubro 2024.




FEEDBACK:

(...) devorei o livro do Turunen! (...) Aquilo é massacre de javardice até ao twist final que dá uma gravidade brutal à obra, conseguindo alterar toda a percepção que se tem dos eventos passados. Pobre Xeique... (...) Este livro é bem mais limpo e "vaporwave" mas é sem dúvida uma adaptação perfeita do estilo ao conteúdo que quer explorar. Deve ser dos artistas de BD actuais que mais gosto e respeito, e coloco-o de certa forma a par do Igor Hofbauer, por exemplo, na medida em que conseguem navegar num universo estético muito próprio e surreal, mas sempre com referentes pop muito presentes. 
André Coelho (via email) 


 Só agora, na calma de uma praia flat é que li o Xeique. Devo dizer que o mar se agitou, com a leitura. 
 Tentei uma vez ter amigos esquizofrénicos, quando estive internado com o surto psicótico de 2010, mas um estava em contacto com Deus e Deus dizia-lhe que eu era pedófilo (origem de O cuidado dos pássaros - estava tão stressado que acreditei no Deus dele durante três dias). Outro amigo mandava-me mensagens de texto sobre conspirações incompreensíveis. É tudo um bocadinho mais intenso, para aqueles lados. Há uma sintonia entre fantasia e realidade que nós não temos. 
 Não sei o que achar de entrar na saúde mental adentro sem lá estar a viver - é como roubar um manto alheio, de um profeta ausente. Como BD é bestial, visualmente, não devia funcionar mas faz isso mesmo.


Adorei. O desenho é fabuloso, a cena é decadente e casual, fica na cabeça. Perdi-me uma beca no guião, mas nao importa, porque cria um ambiente sensorial brutal.
Júlia Barata (via email) 

(...) é mesmo um excelente livro (...) gostei da linguagem próxima de uma 'cultura do lixo'. estava mesmo completamente a foder a cabeça, mas depois percebi o porquê da mesma e como essa linguagem reforça a mensagem que se quer passar.
JB (via email)

o Marko sabe contar uma boa estória.
Jucifer (via email)




Marko Turunen (Kotka; 1973) apesar de estar formado em Escultura na Academia de Artes de Turku, a sua praia é o desenho, trabalhando como ilustrador e autor de banda desenhada numa carreira longa que começou em 2000, materializado em vários livros publicados na Finlândia, Bélgica, Suíça, Alemanha, Itália e Estónia, além de várias participações internacionais na Eslovénia ou em França. Em 2004 ganhou o prémio de melhor condutor, na Finlândia, um concurso sobre regras de trânsito, segurança e condução económica.

domingo, 12 de janeiro de 2025

1 livro 1 disco 1 zine (1?)

Aparentemente o pessoal cagou prá minha sugestão de passar a escrever mensalmente sobre edições que não conseguem entrar n'A Batalha - ou por falta de periocidade em que se encontra o jornal ou por alguns dos objectos não fazerem sentido numa publicação anarquista. 

O certo é que Dabstep dos Greengo já é de 2018 mas só agora é que arranjei uma cópia do CD, editado pela Raging Planet. Apesar de fazerem parte dois terços dos "nossos" Krypto, só agora dei-me ao trabalho - uma aparelhagem à séria ajuda imenso - de ouvir isto com a seriedade que merece. Seriedade!? Má escolha de palavra nem que seja porque todas as imagens do disco são sobre erva - sim, aquela que tem THC - chegando ao cúmulo que a versão CD (existe também um LP) tem um recorte em cartolina da "planta maldita". Som pesadão na senda do Stoner que esteve tão em voga no pré-covid, ali onde Sleep largou as botas para os punks. É incrível o que um baixo + bateria fazem - e uma voz (já agora) que não sendo nada de especial, é funcional para o "género"... obviamente  que a união com Gon para se transformarem em Krypto fez uma diferença brutal nesse nível (e nos concertos ao vivo). Sim, para simplificar isto é música brutal para ganzados...

Só faltam agora o fanzine e o livro. 

Sendo as diferenças ténues nos dias que correm nem sei muito bem por qual começar. Pode ser este Bonança (Imprensa Canalha; 2024) de José Feitor - autor/editor que já sofre de preguiça digital a julgar pelo abandono do blogspot em preferência ao instagram... Ou será puro aceleracionismo? 

Belo A4 todo DIY, ainda tem a ousadia de fazer 150 exemplares num mundinho chato o nosso em que o pessoal faz tiragens tão caganitas e cheios de cagufa.

Com uma prosa tão deliciosa como esta: Até os mais pobres vivem agora melhor que os ricos de antanho - a comida é-lhes entregue à porta, ainda fumegante, por mensageiros de fraque emprestado que se deslocam em traquitanas rocinantes. (...) Não há luta de classes que resista. É complicado saber por onde começar a escrever sobre este livro de autor (zine?). Visualmente Feitor está em modo de "bonança" (aproveitando o título), sempre imaginativo, com fusões gráficas inesperadas e cada imagem produzida é uma fofura de opressão - que dizer daquele giríssimo Yeti capitalista (o chapéu do capitalista representado à 100 anos) com uma corrente e cadeado? É um banqueiro que nos vêm prender prá vida com um empréstimo a contrair? Que seja! Ele é bem giro para ampliar e meter numa parede lá em casa. A melhor opressão é aquela que não sentimos já alguém o deve ter dito... 



UFOs in Lahti
(Auto-edição, 2024) de Marko Turunen é a colectânea dos quatro "comic-books" do que aqui escrevi há mais de 10 anos! O tempo passa... 
 
Roubo a mim mesmo o que escrevi sobre ele n'A Batalha: O Xeique PHDA do finlandês Marko Turunen foi um dos livros de BD mais impressionantes e dos mais ignorados do ano passado. Pessoal da BD esquece, tudo parvo como sempre. Pessoal da psicologia & psiquiatria, também nickes, se calhar só sabem ler bulas médicas… Bem sei que como editor deveria estar caladinho em lágrimas mas chateia-me que (...) não ligaram pevas à coisa. Que raiva! Mas o problema nem é só português, a obra de Turunen existe quase toda publicada em francês pela Fremok e ninguém quer saber. Mesmo na Finlândia, o autor queixa-se que lhe ignorem. Bóf!
 
Entretanto Turunen meteu em marcha um plano de reedição em inglês de quase todos os seus livros. Deve pensar que o mundo anglo-saxónico seja mais aberto, ou que esta língua franca ajude a chegar a mais público. (...) Para quem não sabe Turunen faz BDs sobre a realidade, da sua vidinha ou de outros à sua volta, o que é inesperado na sua obra é o imaginário, em que desenha essas banalidades com representações da cultura Pop. Por isso Marko é o “Alien”, um ET baixote com buraco na cabeça (uma vez que Turunen quando era criança foi atingido por uma bala) e Annemari é a Greater Woman (uma espécie de super-heróina toda em latex fetichista S/M - e que gralhas no passado, e que persistem nesta edição também, aparece como Grater Woman, o que me levou a escrever algumas vezes como "Mulher Raspadora", ops!). Como uma crónica disfuncional, vamos assistindo à vida do casal, (...) As banalidades ganham pujança existencial com o lixo Pop que Turunen utiliza para ilustrar estes “slices-of-life”. Uma poesia emerge desta lixeira que parece quase uma afronta aos detourments dos Situacionistas que usavam a BD pop para mostrar a miséria da vida capitalista. Algumas destas reedições em inglês foram mexidas – supressão ou acrescento de vinhetas, algumas foram agora publicadas a cores ou justamente o contrário, aparecem a preto e branco quando eram originalmente a cores. Porquê? Pouco importa para vocês, nunca souberam da existência deste autor, né? Para quê entrar em detalhes agora? Oh, lembrei-me que ele já cá esteve duas vezes com belas exposições, no Salão Lisboa 2005 e na Tinta nos Nervos em 2023. Os livros do autor podem ser encomendados no seu sítio em linha superturunen.fi (com portes horríveis porque os correios finlandeses foram privatizados) ou em Portugal pela livraria Tinta nos Nervos.

Ufa, foi mais fácil que pareceu, prometo ser menos preguiçoso em Fevereiro...

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Ufoja Lahdessa 3/4

Marko Turunen
Kreegah Bundolo; 2009

Este terceiro volume desta colecção de "comics" que compilam bd's deste finlandês marcou um intervalo da Daada Books, a editora que Marko criou e onde editou "luxuosamente" não só trabalho dele próprio mas também de outros autores finlandeses e estrangeiros. Não se sente que os valores de produção tenham caído e muito menos o conteúdo que continua a ser um tufão de ideias de como o quotidiano podia ser mais giro se fosse a preto & branco, a roçar o Sin City, com personagens fisicamente absurdas imersas em consumismo exasperante e alienação social e mental. A ironia é súbtil, os resultados lidos e vistos não!
De resto continua o belo suplemento de fenómenos bizarros com contribuições de pessoas que não percebem o mundo e acham que existem mesmo fantasmas e OVNI's - será uma forma de apimentar as suas bochechantes vidas? Acho que sim!

Para breve teremos todas novidades do regresso da Daada.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Ufoja Lahdessa 2/4

Marko Turunen
Daada; 2009

Segunda entrega do comic-book do finlandês Marko Turunen, que para além de continuar a publicar as suas bd's de recorte "quotidiano Pop bizarro" também inclui um suplemento de contos e desenhos sobre contactos de terceiro grau recebidos dos seus leitores e fãs - será por isso que é impresso em papel verde marciano?
Ufoja Lahdessa é tão excitante como se lia, nos anos 90, de três em três meses, os comics da Fantagraphics e Drawn & Quarterly (Hate, Eightball, Dirty Plotte, Peepshow...). Melhor elogio não deve haver...

quinta-feira, 8 de maio de 2008

abrindo as malas da viagem...

É o regresso do SPX 2008 (Estocolmo) e serve este "post" para dar as novidades:

_Temos para oferta alguns exemplares do último número do jornal finlandês de bd, Kuti - já várias vezes divulgado neste blogue. É um número especial SPX, com trabalhos de autores finlandeses e suecos. Os textos estão em sueco mas com legendas em inglês.
Esta oferta é exclusiva aos sócios da CCC e que comprem qualquer artigo que seja da Finlândia ou da Suécia (Boing Being, Napa, Daada) ou que tenha participação de autores finlandeses ou suecos (Chili Bean, Mesinha de Cabeceira Popular #200, Mutate & Survive, Canicola).

_Já é uma revista que se tem escrito com alguma regularidade (o #5 e o #1) e que número para número vai crescendo em forma e conteúdo: C'est bon anthology do colectivo sueco C'est Bon, com quem a CCC partilhou mesas na SPX. Trouxemos para venda os quatro volumes da terceira série (#17/20; Ago'06/Dez'07) que marcam a distribuição mundial desta publicação através do catálogo Previews (que distribui todos os comics norte-americanos para as lojas especializadas). A revista continua a sua redacção em inglês e está com um aspecto luxuosa, gordinha e brilhante devido ao papel couché. Tem mais colaborações de autores internacionais (ou seja, "não-suecos") e mais trabalhos arrojados - uma lista de nomes explica por si só a qualidade que a revista atingiu: os alemães Martin tom Dieck (que estará este fim-de-semana no Festival de BD de Beja!) e Arne Bellstorf, o sérvio Danijel Savovic (vol.1), o português Pedro Nora, o sueco Knut Larsson, os finlandeses (que estiveram no Salão Lisboa 2005) Marko Turunen e Jyrki Heikkinen (vol.2), o francês Yvan Alagbé, os italianos Andrea Bruno e Stefano Ricci (vol.3), ou ainda a finlandesa Amanda Vähämäki ou a israelita Rutu Modan (vo.4).

_Um dos editores desta revista é Mattias Elftorp que também é autor de bd. A série Piracy is Liberation é o seu trabalho mais conhecido, que já se encontra num quarto volume editado pelo colectivo desde 2006.
Graficamente próximo de (ou demasiado influenciado por) Brian Wood e Ben Templesmith, Elftorp é menos elegante em questões de anatomia, domina as lutas do preto e branco e dá bom uso de tramas e texturas.
Cada volume apresenta entre 64 a 72 páginas, o que mostra o enorme trabalho com que o autor está lançado. A trama de um futuro não longe do nosso, passado numa megalopólis sem memória, onde piratas informáticos procuram destruir o sistema de dominio dos padres capitalistas, poderá lembrar Matrix ou a bd Invisibles de Grant Morrison (este último menos conhecido mas mais copiado - os criadores do Matrix que o digam) mas não deixa de ter ideias próprias que estão em gestação - gosto particularmente de uma cena em que duas personagens Hackers que fazem "copy'n'paste" deles próprios do mundo virtual para o real. De certa forma as cerca de 240 páginas ainda não pareceram suficientes para perceber o que se passa por aqui - lógica de Manga? À primeira vista, poderá haver uma excessiva exploração de lugares-comuns de "anarco-glamour" mas uma leitura mais atenta revelará mais inteligência do que a visão superficial. Esperando por mais volumes até 2012?

_Nesta edição do SPX assisti, de certa forma, a saída do armário da bd sueca alternativa... enquanto os finlandeses há anos que traduzem as suas bd's para terem feedback internacional, os idiotas dos suecos sempre tiveram fechados no casulo editando livros na língua que nem os ABBA usavam para ganhar o Eurovisão. Resultado, tirando o Max Andersson e o Lars Sjunnesson (este último participou no Mutate & Survive), que vivem em Berlim, e o Gunnar Lundkvist e Joakim Pirinen (editado em Portugal pela Azul BD3), todos eles da "velha guarda" nada mais se conhece da bd sueca. Aliás, as minhas duas visitas ao país - e à SPX - não se traduziram em regressos com malas cheias de novas bd's, livros e zines... justamente o oposto do que aconteceu quando vou ao festival de bd de Helsinquía.
Saiu a antologia From the shadow of the northern lights : an anthology of Swedish alternative comics : vol. 1 (Galago; 2008), uma antologia em inglês (yeah!) que terá distribuição pela norte-americana Top Shelf. Podemos chegar à conclusão do que se passa por lá: há a "velha guarda" (já referida) mais gráfica e experimental, depois há a autobiografia chata dos anos 90 - daquela que ninguém têm nada para contar ou que saiba contar de forma interessante, havendo montes de históras sobre homossexualidade (um sucesso no mercado da bd, creio) - e por fim, o regresso do grafismo e bizarria bruta com nomes novos como Marcus Ivarsson, Marcus Nyblom (autor da capa), Knut Larsson e Kolbeinn Karlsson. Apesar das lamechices de alguns autores, vale a pena ler estas 200 páginas a preto e branco.

_E é este último grupo de autores referidos que faço um destaque porque como já escrevi, raramente há razões para comprar edições suecas por causa dos grafismos pobres e pela barreira da linguagem. As excepções são as seguintes: o livro Skissbok (Kartago; 2007) do Marcus Nyblom e os zines de Kolbeinn Karlsson: Benny Bjorn will never return e Rules of animation (com Hanna Petersson; 2007) e Harvar Vilda Vastern (2007?).
No primeiro caso coloca-se a questão se "skissbok" poderá mesmo significar "livro de esboços"... apesar da estrutura do livro apontar para isso porque os trabalhos publicados não parecem ter ligação aparente. Ora são desenhos soltos, alguns sim com aspecto de "esboço", ora são bd's mudas e insólitas como "Alice no País das Maravilhas". São as bd's que têm um ar mais esboço porque o estilo gráfico que Nyblom usa é "realista" e "certinho" bem longe das suas ilustrações que têm aquele aspecto derretido e degradado de quem está em sintonia com a ilustração deste milénio - embora as raízes deste tipo de desenho e imaginário estejam na Raw e no Fort Thunder, dos anos 80 e 90 respectivamente. É um livro "fifty/fifty".

Quanto a Kolbeinn (várias vezes pensei que ele chamava-se Cobain como o vocalista dos Nirvana ou Kobaïan, a língua inventada pelos prog-rockers franceses Magma) também está em sintonia com o tempo: degradação material e moral, fascínio pelo Pop (o Benny Bjorn para quem ainda não está bem a ver, é um dos tipos dos ABBA), monstros peludos e outras criaturas de série B. Zines fotocopiados em formato A5 com capas a cores, os dois primeiros são de ilustração em parceria com uma tal Hanna Petersson em que as autorias não são identificadas (embora as suspeitas sobre a autoria dos desenhos de Kolbeinn recaiam para os que têm mais texturas); o último é o único de bd - que está também publicada na antologia From the Shadow (...) - com uma estória violenta homoerótica do oeste norte-americano - acho.

_Por fim, material dos inteligentes finlandeses - é a segunda vez que fico com a sensação que a Suécia, ou pelo menos Estocolmo é dominada por campónios e novos-ricos.
Novidade absoluta: Supernormal (Daada; 2008) de Marko Turunen, um dos muitos autores de bd peculiares da Finlândia e também dono da editora Daada. Não é novidade mas é importante na mesma para qualquer português ignorante da cena bedéfila da Fenoscândia: Mystic sessions Vol.I (auto-edição; 2006) de Pauliina Mäkelä.
No primeiro caso são reedições de bd's de zines antigos ou ainda algumas bd's fora do padrão do universo do autor - que nos visitou no Salão Lisboa 2005. Aqui vamos encontrar bd's parvas de super-heróis criadas pelo Turunen de 1984 (de 11 anos) e redesenhadas pelo Turunen de 1998 (de 25 anos) que dão um sentimento estranho para qualquer apreciador de "nerd culture", há fotonovelas nervosas das aventuras do Sr. Pinguim (um boneco azul feito por Turunen) a interagir com patos e com um cão (hilariante!), algumas bd's "minimalistas" de coelhos ninjas ou de contos tradicionais sobre ursos broncos,... enfim, mais de 400 páginas A6 de Arte e pura diversão.
O segundo caso é um livro agrafado A3 de 16 páginas a preto e branco que foi criado pelos - e serve para quem quiser ilustrar - distúrbios e desvaneios psico-acústicos de projectos musicais como sunn0))), Earth, Burzum, Wolf Eyes, Melvins entre outros "dronemeisters".
Existe uma narração feita de imagens de uma figura feminina (uma menina) a tocar um tambor intercaladas com outras imagens de dimensões bizarras e psicadélicas, daquelas que podiámos chamar de "zona negativa" ou algo assim - quem leu os desvaneios de um tal de Kirby sabe do que falo.
Cada batida, um novo universo?

aviso: irá demorar a colocação destes artigos na nossa loja virtual, por isso quem quiser entretanto comprar poderá fazê-lo pedindo pelo e-mail ccc@chilicomcarne.com. cada número da C'est bon custa 15€ e cada volume de Piracy is Liberation custa 10€ (c/ desconto de 20% aos sócios da CCC)

terça-feira, 20 de outubro de 2009

porquê é que os cães lambem os genitais? porque podem...

Enquanto o pessoal vai ver o mesmo de sempre à "BD Porcalhota", Filipe Abranches (a imagem ao lado é de sua autoria) e Marcos Farrajota vão a Ljubjana participar no projecto Greetings from Cartoonia de onde trarão exemplares do livro (co-edição com a Stripburger) para Portugal - por isso, se quiserem reservar já o podem fazer escrevendo para o nosso e-mail.

Participam da Eslovénia Kaja Avberšek, Jakob Klemenčič, Marko Kociper, Matej Lavrenčič, Gašper Rus e Matej Stupica (quase todos visitaram a Feira Laica e Bedeteca de Lisboa ou foram publicados pela Bedeteca de Lisboa, Chili Com Carne e Polvo), Bendik Kaltenborn (do grupo norueguês Dongery), Mateusz Skutnik (Polónia), Matei Branea (Roménia, do colectivo Hardcomics), o finlandês Jyrki Heikkinen (Salão Lisboa 2005), Andrea Bruno (do colectivo italiano Canicola) e o já referido Filipe Abranches. Mais detalhes sobre o livro para breve!

...

Alto! Afinal a Chili Com Carne este ano vai estar na BD Porcalhota!!!
- "Mas como se escreveram isto o ano passado?"
Porque a loja Central Comics convidou-nos a ter as nossas edições no seu stand...
- "Mas como se escreveram isto o ano passado?"
Realmente... temos uma espinha dorsal de uma vulgar cobra, não?

Vamos por partes, a Central Comics apesar de incentivar uma cultura "teen" e bedófila da bd, sempre foi simpática com a CCC (ou pelo menos de algum tempo para trás). Convidaram-nos e prometeram dar destaque às nossas edições - ao contrário ao que acontecia nos stands de outras editoras e livrarias que nos representaram no passado. Sendo, que se for verdade os vários rumores que ouvimos, que um stand no Festival Internacional de BD da Amadora (um momento sóbrio!) está estimado em 500 euros (ou mais, rumor do ano passado: 1000 eur!) não nos importamos de ajudar a Central Comics, que é uma pequena empresa privada, estilo familiar.

A CCC já esteve presente com mesas e stands em países nórdicos, na Itália e no maior festival de bd da Europa (Angoulême) sendo que nesses eventos ou nunca pagou ou pagou-se um quinto do que a Amadora pede, isto para eventos em que apesar de sermos "só mais uns" entre mil editores HÁ um público curioso, interessado e consumidor. Sem nunca termos saído milionários destes eventos, as vendas sempre cobriram custos de viagem (avião ou carro) e gastos do quotidiano (alimentação). No final das contas apareceu alguns cobres e outras recompensas: material trocado, contactos e satisfação de ter atingido algum público que parece não existir em Portugal.

Sabendo que o mercado de bd está em baixo (tão mal como antes de 1996, embora já ninguém se lembre desse tempo) isso pelos vistos não impede de um organismo público peça um valor absurdo a privados por seis dias de vendas - contamos apenas os fins-de-semanas porque nos outros dias o festival está às moscas. Como é possível?
É possível porque as editoras e lojas afinal sempre conseguem vender para pagar os stands? Porque afinal ainda há mercado de bd em Portugal e ele concentrasse na BD Amadora?

Há quem diga que não há capitalistas mais convictos que os comunas, é capaz de não ser uma frase tão reaccionária como isso se os valores destes rumores se confirmarem.

Bom, com sorte, pode ser que não vendemos nada e assim não teremos de por os pés ao Festival para repor exemplares.
...

Com ou sem Amadoras, o mundo continua a girar e a única novidade desta semana é que temos uma nova moldura no nosso site - chilicomcarne.com - feita pelo associado Marco Moreira. Para quem nunca reparou mas desde que remodelamos o site todos os meses mudamos a pele... de cobra!

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Old school (rescaldo laico 2)

Continuando com o rescaldo da Laica desta vez incidindo em fanzines gráficos e de poesia, confirmando a estranha energia que atravessou esta última edição do evento.
Sendo a sua estreia no mundo da auto-edição - embora já tenha sido publicado no Futuro Primitivo com os retratos mutantes dos autores que participaram na antologia, João Paulo Nóbrega lançou o graphzine Daydrawings que compila alguns desenhos deste autor que afirma desenhar um rabisco por dia. Sem uma prática artística de experiência ou formação, Nóbrega é uma espécie de naive mas que não se circunscreve nos temas naives: animazinhos, paisagens, coisinhas bonitinhas... Os temas são "factos orgánicos" (usando uma expressão para definir o Malus) com construções surrealistas e geométricas que lembram (em alguns casos pelo grafismo) o imaginário de João Chambel e André Lemos. Formato A5 em 22 páginas, coisa modesta para começar...

Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (Dildo Doodles) de Ana Menezes não é realmente uma adaptação de textos de Freud mas uma interpretação gráfica em que a autora muda de estilo de desenho como os materias da capa mudavam de exemplar para exemplar - como latex, lona, veludo, enfim, materiais "kinky"... desde que sempre preto com um recorte de máscara S/M.
O terceiro capítulo é o mais erótico com uma sequência S/M cujo estilo gráfico lembra vagamente algum tratamento do finlandês Marko Turunen faz a algumas personagens. Formato quadrado sexy!

Por falar nesse capítulo as ilustrações também entraram no número zero do Nicotina'zine, que é um zine de poesia que reúne material poético de um grupo de escritores - incluíndo o "nosso" Rafael Dionísio - mas também alguns desenhos e uma BD! Uma BD do sueco Lars Sjunnesson (que há uma década participou no Mutate & Survive, mundo pequeno!). A5, excelente apresentação e design, Nicotina'zine será uma lufada de ar fresco à bafienta cena lisboeta, espero que sim mesmo que o nome indique o contrário... Entretanto o Dionísio voltou a fazer um mini-zine A6 de poesia, Escavações Arbitrárias segue os formatos de refúgios e alguns slides que editou no final dos anos 90. Fez 41 exemplares que deverão esgotar rápido, é melhor contactá-lo!!!

segunda-feira, 25 de junho de 2007

Canicola numero quattro

Colectivo Canicola, Out'06

Não é à toa que esta revista tenha recebido o Prémio de Melhor Fanzine / BD Alternativa... Já várias vezes referida neste blogue, este último número engrossou a quantidade de páginas (por culpa?) da sua abertura às colaborações "estrangeiras" - à nacionalidade do projecto como às do colectivo - como Anders Nilsen (autor também da capa), Chi Hoi, Marko Turunen (com a sua companheira Annemari Hietanen), Yan Cong e Jesse Moynihan... e passou a ter uma lombada brochada sem peder a coerência estética dos primeiros três números.
Se o Glömp e as cores histérico-psicadélicas finlandesas revelam um dos caminhos da bd deste novo milénio, o seu contraponto é a sujidade do grafite do lápis que a Canicola nos tem mostrado. Não será à toa que um dos desenhos publicados neste número é da alemã Anke Feuchtenberger, uma autora bastante influente na cena europeia, sobretudo nos últimos anos com a renovação do seu trabalho a grafite (que foi visto no saudoso Salão Lisboa 2003) e como professora de ilustração na universidade de Hamburgo.
O elo comum de quase todas as histórias é uma desorientação dos personagens quer sejam eles idiotas, passáros, empregados de bar ou de um estúdio de bd, soldados, elfos ou crianças, que habitam em cenários com tragos de surrealismo. Diria que serão metáforas fascinantes para o mundo que vivemos.

4,6

à venda na CCC, bem como os números 2 e 3. #2 e 3 a 10€ cada, #4 a 18€. Desconto de 20% para sócios.

quinta-feira, 27 de julho de 2023

#lisbonisshit

cartaz de Paz Rodríguez


Vêm aí os bárbaros cristãos!!!

Toca a fechar a loja (de 27 Julho a 1 de Setembro) antes que eles tentem queimar as nossas edições heréticas!

Vamos à A Corunha, Galiza, ao Festival Autobán, fartos de uma cidade medieval!

Quando voltarmos deveremos ter uma novidade pagã do Lucas Almeida e a reimpressão do satânico Os Companheiros da Penumbra de Nunsky.


PS - Não se esqueçam que a exposição do finlandês Marko Turunen continua patente até dia 16 de Setembro na Tinta nos Nervos