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domingo, 19 de fevereiro de 2012

Fim da Canicola


Canicola #9, 10 (Outono 2010, Primavera 2011)

Projectos editoriais de vanguarda têm um prazo de validade. É impossível manter ad eternum uma publicação com o mesmo grupo de personalidades artísticas ou intelectuais numa mesma posição, que geralmente significa repetição de fórmulas e a estagnação - situação grotesca para qualquer criativo. Foi o que aconteceu neste milénio com a antologia finlandesa Glömp que se despediu em glória, e é o que está a suceder com a revista italiana Canicola. Relembro que estas foram os projectos de bd mais excitantes neste milênio.
A Canicola começou como um projecto de um colectivo de seis artistas, em 2004, até que o grupo residente em Bolonha começou a desintegrar-se, continuando um grupo reduzido que têm transformado o projecto numa editora de livros de bd e a revista original em  "formato livro-antologia". A redacção da revista mostra o seu cansanço no número 9 e curiosamente um "renascer" com o número 10. O número 9 têm como tema a "Itália" e consegue ser um número preguiçoso, sem apelo e com um uso excessivo de desenho e livro de esboços para encher páginas. Brilha Giacomo Monti que mantêm a sua linha de "slice of life" sobre a incompetência da vida... Acho que ninguém trabalhou para o tema ou não lhes apeteceu. Já o número 10, dedicado aos Bambini (às crianças), já deve ter dado um entusiasmo aos colaboradores e sente-se essa energia em fazer bds para os "leitores mais exigentes do mundo".
A questão de fazer bds para crianças (vindos do universo da bd de autor) começaram a surgir nos últimos anos quando muitos autores questionaram a existência desse tipo de bd depois de terem lutado desde os anos 90 na afirmação da bd como uma arte adulta artística. Alguém lembrou-se: "E os putos"? Não há nada para eles sem serem os franchisings Disney / Marvel / Asterixes? De forma comercial têm havido séries desenvolvidas pela "nova escola" francesa do Lewis Trondheim, Sfar e acólitos, para não falar do infeliz fim da revista Capsule Cosmique. No meio alternativo editorial da bd, são poucas a experiências nesse campo, talvez até haja uma série delas mas são livros de ilustração para a infância (mais fácil de executar que um livro de bd). Recordo um livro do alemão CX Huth (pela Reprodukt), outro de Tiago Manuel (Saí do meu filme) e alguns números da revista suiça Strapazin - incluindo o número / exposição comissariada por Atak e que esteve patente em Lisboa há 2 anos. Este novo número da Canicola é capaz de ser um marco histórico na exploração deste tema. Com colaborações da finlandesa (e fundadora do colectivo) Amanda Vähämäki, a alemã Anke Feutchenberger, Anete Melece (da Letónia), entre outros autores (a maior parte deles italianos) a revista publica bd pela primeira vez a cores mas não perdeu o calor abrasivo que sempre a caracterizou quando era só para adultos. Se a redacção da Canicola está cansada ou virada para a edição de monográficos, este pode ser um bom número de despedida - tal como, por coincidência o 10º número da Glömp o foi - ou um novo ponto de partida.

quinta-feira, 21 de julho de 2005

Canicola numero uno; Inguine Mah!gazine #5

Canicola, Coniglio; Primavera05, Out'04

Duas revistas italianas de bd de autor em regime indie, Canicola faz a sua primeira investida e impressiona logo à primeira, por várias razões o formato (idêntico a um A4), pelo grafismo (simples, directo, funcional e... bonito), pelo conteudo (já lá iremos) e organização editorial - as bd's estão traduzidas para inglês e estão no fundo da página como acontece com as edições filandesas, Malus e recentemente com a revista alemã Orang onde curiosamante dois dos colaboradores da Canicola participam, nomeadamente Amanda Vähämäki (uma finlandesa que mora em Itália desde 2000) e Michelangelo Setola. Curiosamente são estes os meus dois autores favoritos em Canicola, embora a revista seja toda ela "um calor de verão" de novos talentos italianos de uma qualidade gráfica invejável - entre eles também encontramos Andrea Bruno (que já teve trabalho exposto no Salão Lisboa 2001). Revista obrigatória das novas tendências de "fumetti"... 4,5
www.canicola.net




A segunda revista, já conhecida aqui na gente bruta quebra a sua "serialização" com um especial "Mussollini" - já retomada no #6 que saiu em Abril. Gianluca Constantini, Paper Resistance, Alesandar Zograf entre outros são chamados para refletirem sobre o criador do Fascismo. No meio ainda encontramos uma bd de Joe Sacco sobre os bombardeamentos em Malta (de onde ele é originário) descritos pela sua mãe - em inglês encontram no livro "War Junkie" pela Fantagraphics. Revista bem trabalhada... como sempre. 4
http://www.inguine.net/

sábado, 23 de janeiro de 2016

Freddo Freddo Freddo Caldo

Foram realmente tantas as coisas boas que trouxe de Valência que não dava para escrever tudo num único "post". E a Canicola dada a sua forte identidade merece um "post" à parte ainda por cima pela quantidade títulos novos de 2015 que lançaram. No entanto, algo paira no ar de estranho neste projecto italiano...

Começou como uma revista de um colectivo de seis autores que colocaram a Itália outra vez no mapa da BD de vanguarda, isto em 2005. Ao longo destes 10 anos a revista foi-se abrindo para novas colaborações (da Europa, América e Ásia) e à medida que o colectivo ia-se dispersando, ficaram alguns elementos que transformaram-se numa casa editorial com um catálogo irrepreensível. Há alturas que projectos como estes, que primam pela independência também podem ser levados por alguma decadência ou crise existencial.
Ou até pode ser só considerada de mais abertura editorial em que que velhos rezingões ficam aborrecidos com isso e então toca a escrever um "post" má-onda a denunciar o desagrado pela a edição italiana de um livro do polaco Maciej Sieńczyk ou então este número 12 (Germania) da revista dedicada à BD Alemã. Não é que este número esteja mau, pelo contrário, há trabalhos com interesse, embora muitos também sejam aquela fórmula "hipster" de uma ilustração por página. É o excesso de cor burguesa que mina o projecto, é que para mim a Canicola é identificável, mesmo quando os grafismo diferem muito, pelas suas narrativas que nos fazem perder o raciocínio nos labirintos sufocantes do preto e branco - como a "série" nova de Andrea Bruno. As BDs de Jul Gordon e Maria Sulymenko são as que fogem ao registo "Poppy" e entrem nesse clima desesperado da Canicola, as outras BDs deviam estar publicadas noutra editora qualquer, não?

Solitudine de Josephin Ritschel, autora que também colaborou neste número germânico, é uma BD que namora a "estética Canicola" mas ainda assim consegue ser demasiada limpa, linear e clara nas intenções - os alemães só se sujam quando são freaks no Alentejo?
A autora tem um sentido "softcore" para as extravagâncias nas sua exploração da "série B" - em 2011 ela deu nas vistas por ter feito um novo episódio dos X Files em BD. Esta tem uma narrativa que junta uma mulher tecnocrata com fobias, uma lagarta mutante gigante e um cão com cara de Zé Manel da Esquina. Não envergonha o catálogo italiano mas sei que vai ser algo que irei apagar da memória daqui... uns... minutos... Já foi!


L'estate scorsa de Paolo Cattaneo também não convence apesar da primeira vista pareça estar enquadrado nessa Canicola idealizada que costuma oferecer detalhados desenhos a grafite e as densas florestações dos cenários (o maior pavor do Homem). Desagrada-me as caras demasiada alongadas das personagens, a exploração da memória de "teenager" em Itália nos anos 90 mais perto do Verão Azul do que as malandrices de Andrea Pazienza (1956-88) e a tradução de toda a santa onomatopeia e escrito nas paredes da BD (WTF!?). A capa brilhante e a "quatro cores" também sai da linha de produção desta editora que sempre teve a escolha de uma cartolina "quente" para as suas capas bicolores. Todo o livro remete para alguma frieza inesperada que começa na capa e vai até ao fim da leitura da história.

O livro Viaggio a Tokyo de Vincenzo Filosa - autor que já publicamos na antologia Crack On - indicava que ia pelo mesmo caminho também pelas escolhas de impressão/papel/capa. Mas não! O conteúdo é quentinho como um "caldo"! Eis um "original" apesar do autor ter entrado muito mais tarde no projecto.
Romance gráfico que se lê no sentido oriental (como os Mangas, perdão, Gekigas) sobre as experiências da viagem e estadia de Filosa em Tóquio, é um trabalho em que a memória é esticada para 10 anos atrás. Claro que a física quântica explica que é preciso ser mais rápido que a luz para se viajar no tempo, logo, este relato de viagem é de longe "certo" em acontecimentos tirando o facto que todas as Sextas-feiras à tarde há uma linha de Metro na capital japonesa onde acontecem suicídios que atrasam os encontros sociais de fim-de-semana. Zeus!
Esta autobiografia (?) de uma memória impossível de controlar criou auto-ficções e um "alter-ego"? Se sim, temos aqui um "nerd" (um Otaku Ocidental!), com problemas de dependência de analgésicos, já para não falar que se representa como um Gótico da Velha Escola. Apesar destas características repulsivas (sobretudo por parecer um Gótico, arf arf arf) sente-se empatia pela personagem que se expõe mesmo que não se saiba o que é "verdade" ou o que é "inventado". Entre as duas possibilidades, o leitor perde-se tanto como o autor/personagem nos sakes dos karaokes, comprimidos pela goela abaixo, fascínio pelos autores Gekigas (que na altura quase nenhum ocidental conhecia), flirts emocionalmente azarados com uma japonesa e o medo constante de ser deportado por causa da drogaria. Este é o melhor exemplo de como a "literatura de viagem" por países industrializados ainda faz sentido em 2015.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Mais cartas italo-suomis

Continuando a receber mais belos livros da Finlândia e da Itália, as surpresas continuam de livro a livro sem excepção, sem descanso!

Isä significa "pai" em finlandês e é o novo álbum de BD de Hanneriina Moisseinen - frases estas que banalizam completamente um livro sentido de quem o seu pai desapareceu numa noite. Diz a lei (na Finlândia) que só se considera alguém desaparecido como defunto após 10 anos do seu desaparecimento. Desparecimento significa que não existe corpo, significa que foi uma morte tão violenta que a natureza "comeu" o corpo ou pode significar que a pessoa não quer ser encontrada. É neste mórbido binómio que Moisseinen (e a mãe e a irmã) vivem durante 10 anos até que são "libertas" com a morte tornada oficial pelas competências legais. Usando grafite para um desenho realista e bordados para imagens simbólicas, este é uma BD de catarse, justamente o negativo de um livro como Visitez tous les pays recentemente aqui resenhado.
Editado o ano passado, este livro é pesado e austero que mostra que a Huuda Huuda ou as produções finlandesas não são apenas fogo-de-artíficio colorido e de experiências psicadélicas, como muitos pensam.


Com este Keitto Kirja / The Sauce Book (Huuda Huuda; 2013) de Lauri Mäkimurto fica provado que a importância e a influência de Kalervo Palsa (1947-1987) ainda está para ser calculada na BD finlandesa.
Eis um "comic-book" cheio de misantropia e depressão tão típica do norte da Europa. Procurando fotografias de Palsa e de Mäkimurto fico com a impressão que ambos têm ares psicóticos em que só espero que o destino do último não seja tão dramático como o do primeiro.
Lauri parece um eco de Kalervo que percorreu 30 anos até chegar até nós. Nesta BD não estamos em 2013 mas em 1983, tudo é bastante horrível e atrofiante, não há pontos de referência, só deserto humano e natural, morte e violência, sexo e bebedeiras sem sentido... O grafismo, estilo e tiques de Palsa (a corda para enforcamento, por exemplo) estão tão presentes que um leigo poderia ser enganado - e porque não? Que se saiba o Kiasma ainda não mostrou os tesouros em BD deste artista, quem garante que Lauri exista e não são BDs dos arquivos instituições a escorerrem cá pra fora com nome de outro tipo para não haver problemas com esta instituição de arte contemporânea? Como são poucos os finlandeses, é díficil de acreditar nesta tese, alguém saberia da verdade e iria-se bufar. É pena...

Seguimos para Itália - mais uma vez prá Canicola, claro, onde esta casa editorial faz alguns dos livros de BD mais bonitos da actualidade. Seja pelo design simples mas muito quente (dando juz ao nome da editora) seja pelo conteúdo. Dormire nel fango (2012) de Edo Chieregato (a) e Michelangelo Setola (d) reúne várias BDs publicadas anteriormente na revista Canicola... O aspecto anacrónico do desenho e das próprias narrativas tanto nos colocam num mundo que envoca uma nostalgia dos anos 70 ou 80 (a infância mágica e a juventude heróica submersa em referências Pop) como num mundo pós-apocalíptico, causando sempre uma sensação que estamos tão perdidos como as personagens destas BDs. Graficamente, estamos perante um desenho a grafite a lembrar a finlandesa Amanda Vähämäki - e isto nem sequer é uma especulação de quem quer sempre unir nomes de autores a outros porque ambos tem realmente semelhanças de estilo que até partilharam publicamante, lado a lado no livro-catálogo Souvlaki Circus (Buenaventura Press; 2008). Há livros urgentes de serem descobertos, este é daqueles... 

Por fim, mais um A3 da Canicola: Lontano (2013) de Gabriella Giandalli, autora com um trabalho reconhecido há umas boas duas décadas e que assina este magnífico e derradeiro manifesto da depressão. Lembra-me o álbum, não sei bem porquê, o disco Rembrandt Pussyhorse dos Butthole Surfers sem a histeria dos texanos, muito pelo contrário, tal é reconhecida a elegância desta artista.
Ainda assim há aqui uma melancolia de proporções cósmicas a beijar a Teoria do Caos que lembra-me esse disco. Cada pedacinho das coisas mais desinteressantes ou aparentemente importantes são coladas no transe desta má viagem chamada vida.
Algures no quarto do teenager deprimido vê-se um cartaz dos Pink Floyd - relativo ao Dark Side of The Moon - e por isso que associo esta BD a um psicadelismo existencial que o rigor gráfico, de tons cinzentos, não se deixa levar com os esquemas freaks habituais neste tipo de texto. Um colosso!

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

We don't need no education...


Orang #6/7 (Reprodukt; 2006-08) é uma revista que foi criada por alunos do curso de bd/ilustração de Hamburgo. Agora que os alunos já saíram da vida escolar a revista não só se manteve como se posicionou para completar o triângulo das melhores revistas europeias de bd da actualidade - falo da Glömp (Finlândia) e da Canicola (Itália) - não sendo coincidência que artistas de uma revista são publicados nas outras duas. Pela Orang podemos encontrar Chi Hoi (de Hong Kong e que no ano passado a Canicola editou um livro seu), Moki (bonecada fofa), Tommi Musturi e as aventuras do seu Samuel (já editado do Mesinha #200 e com livro a sair este mês pela MMMNNNRRRG), Klass Neumann (com um jogo "oubapoano"), Till Thomas (já publicado em Portugal na Crica) ou do italiano Stefano Ricci (cada vez mais impressionante e que curiosamente vive em Hamburgo, onde também dá aulas)... A revista tem um formato quase quadrado e anda à volta das cento e tal páginas, algumas a preto e branco outras a cores. A política geral da revista deve ser uma espécie de "neu sturm und drang" tal é o urbano-depressivo irracional que emana nas suas páginas. O último número por exemplo tem como tema "The end of the world" (sim a revista apesar de estar em alemão usa o sistema de tradução para inglês no final da página)... um bocado tarde para "finais do mundo", não? A não ser que a paranóia de 2012 (ou é 2016?) esteja a atacar mais do que pensava...


Two Fast Colours #2 (M. Krause & M. Lenzin; Jul'08) é um zine A4 editado por duas estudantes do curso de bd da universidade de Hamburgo - uma turma posterior à Orang. Os trabalhos são ansiosos de provarem qualquer coisa, mesmo quando suspeito que possam ser exercícios do curso de bd como o da Martina Lenzin que explora o potencial meta-narrativo idêntico ao que Chris Ware mostrou em Quimby, the mouse mas ainda assim com um humor próprio. A publicação junta ainda alguns franceses como Quentin Vijoux, Morgan Navarro (provavelmente o autor mais excitante do catálogo Les Requins Marteaux) e Guillaumit. De recorte surrealista e pós-Pop eis um zine em que se sente frescura e que os estudantes alemães de bd sabem se mexer - ao contrário do que se passa em Portugal. Ah! Destaco a Jul que quase roça graficamente o Mike Diana embora o universo não seja o mesmo. A capa em serigrafia faz jus ao título do zine.

E no meio do turbilhão desta nova geração alemã de bd encontramos uma sempre renovada Anke Feutchtenberger cujo trabalho per se já está no patamar dos grandes artistas de bd mais influentes dos últimos 25 anos como Gary Panter, Charles Burns e Blanquet. Se soubermos que é professora no curso de bd e ilustração da Universidade de Hamburgo mais fácil será reparar que a sua influência não é apenas indirecta. Mais que uma autora influente se calhar também poderá ser uma professora influente e uma passagem de olhos pelas três revistas referidas acima percebe-se a sua marca na forma e no conteúdo, sobretudo nas novas autoras - que o diga Amanda Vähämäki portadora de uma voz muito segura mas que deve a Anke a inseminação estética. Cada vez mais virada para o desenho, recentemente cruzei-me com o livro wehwehwehsupertraene.de / lacrimella.de editado pela Mami (2008), que é a sua editora e do seu companheiro Ricci. Trata-se de um belo livro de desenhos de Anke feitos entre 2006 e 2008 e expostos na Galeria d406 (onde recentemente a Canicola fez uma exposição "vista" no seu "derradeiro número"). Assistimos a uma autora cada vez mais virtuosa no desenho a grafite e madura em que tenho a certeza que continuará a surpreender nos próximos anos.

E por falar em alunos e a iniciativa privada, em Angoulême vai-se criando um "cluster" de editoras de bd, algumas explorando o talento que sai do curso de bd como o caso da recentemente criada Scutella mas a maior parte são colectivos criados pelos alunos como a conceituada Ego Comme X ou a recente NA que lançou o jornal Modern Spleen. O jornal claramente inspirado no finlandês Kuti publica autores "dos quatro cantos" encontrando-se finlandeses, alemães (curiosamente alguns da Orang e Two Fast Colour) e a portuguesa Joana Figueiredo - e ainda de autores da Itália, EUA, França e Hong Kong. Claro que é mais fácil "fazer coisas" num país que tenha um mercado de bd como a França mas o que questiono é como ainda não saiu um zine que seja dos três grandes cursos de bd portugueses que existem?

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Canicola numero cinque

Colectivo Canicola, Outono 2007

Número cinco desta revista italiana de bd de novas tendências editada por um colectivo de Bolonha de oito autores e uma "administrativa" - dos autores a única autora é a finlandesa Amanda Vähämäki que esteve alguns anos em Bolonha mas entretanto regressada a Helsínquia.
A colar o grupo está uma vontade abrasadora de contar histórias sobre "coisinhas da vida" - no melhor estilo de um Raymond Carver - mesmo quando a acção se passa em 2012 (Giacomo Monti) ou em universos oníricos (Amanda) sem aparente uniformidade de estilos gráficos, aliás, muito pelo contrário. Na Canicola os desenhos são todos díspares embora se possa encontrar alguns pontos em comum com alguns autores que seguem uma estética "free" em que usam a seu favor, o facto da impressão a preto e branco dos dias de hoje conseguir apanhar tão bem os cinzentos do lápis - relembro que a bd sempre teve um processo de produção que obrigava os autores a fazerem o desenho a lápis que depois seria "passado a preto" (ou a tinta) para ser reproduzido em revista/livro. Nos dias de hoje esse processo está a ser subvertido e os "canicolas" são uns dos muitos que encaminharam pelo "lápis directo".
Um número que volta à normalidade do número de páginas (o anterior foi um pequeno monstro com lombada brochada e tudo). É giro, só agora pensei que o formato grande (A4) é perfeito para que os desenhos respirarem...

Entretanto, no ano passado, foi editado o segundo livro "a solo" de um dos "Canicolas", nomeadamente, Andrea Bruno, autor que durante algum tempo era o autor mais conhecido do colectivo tendo chegado a ter trabalhos expostos no Salão Lisboa 2001 ou a publicar na francesa Amok. Brodo do niente é a compilação de uma história desenvolvida nos primeiros três números da revista.
Passado num futuro (ou presente?) possível numa situação de Guerra, pode lembrar Notes pour une histoire de guerre (Acts Sud BD; 2005) de Gipi pelo mesmo tema e pelo facto de ambos autores serem italianos. No entanto, as diferenças são muitas porque enquanto Gipi é clássico na narração (uma narração de fácil leitura para qualquer pessoa) e tem um tratamento gráfico limpo, Bruno tem um grafismo "sporcho", quase um "up-grade" virulento dos mestres argentinos como Muñoz ou Alberto Breccia (1919-1993), que dificulta o entendimento aos humanos comuns que gostam sempre de coisas fáceis e católicas.

Edições bilingues (italiano/inglês). À venda na shop da CCC (20% desconto para sócios). Atenção: os números 1 e 5 e o livro da Amanda Vähämäki já esgotaram junto dos editores.

segunda-feira, 25 de junho de 2007

Canicola numero quattro

Colectivo Canicola, Out'06

Não é à toa que esta revista tenha recebido o Prémio de Melhor Fanzine / BD Alternativa... Já várias vezes referida neste blogue, este último número engrossou a quantidade de páginas (por culpa?) da sua abertura às colaborações "estrangeiras" - à nacionalidade do projecto como às do colectivo - como Anders Nilsen (autor também da capa), Chi Hoi, Marko Turunen (com a sua companheira Annemari Hietanen), Yan Cong e Jesse Moynihan... e passou a ter uma lombada brochada sem peder a coerência estética dos primeiros três números.
Se o Glömp e as cores histérico-psicadélicas finlandesas revelam um dos caminhos da bd deste novo milénio, o seu contraponto é a sujidade do grafite do lápis que a Canicola nos tem mostrado. Não será à toa que um dos desenhos publicados neste número é da alemã Anke Feuchtenberger, uma autora bastante influente na cena europeia, sobretudo nos últimos anos com a renovação do seu trabalho a grafite (que foi visto no saudoso Salão Lisboa 2003) e como professora de ilustração na universidade de Hamburgo.
O elo comum de quase todas as histórias é uma desorientação dos personagens quer sejam eles idiotas, passáros, empregados de bar ou de um estúdio de bd, soldados, elfos ou crianças, que habitam em cenários com tragos de surrealismo. Diria que serão metáforas fascinantes para o mundo que vivemos.

4,6

à venda na CCC, bem como os números 2 e 3. #2 e 3 a 10€ cada, #4 a 18€. Desconto de 20% para sócios.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2005

Canicola numero due

Canicola; Outono'05

Revista italiana de bd de autor, Canicola no seu segundo número - em continuo programa de publicação das novas tendências do "fumetti". Para evitar repetições descritivas leiam este post.
Destaque para a bd de Andrea Bruno - o autor que sobressai da estética "naif" que a revista tem cunhada nas suas belas páginas - que se encontra a desenvolver uma estranha história (de continuação) pós-apocalíptica em que mete militares-padres e dramas familiares com prostitutas. Uma revista que provoca calor insuportável mesmo no frio do Outono... ou no Inverno.

4,5

domingo, 28 de maio de 2017

Amore di lontano


Fixem este nome: Martoz! Ele é a nova sensação na BD italiana e há razões para isso... Tem sido editado livros dele plenos de páginas coloridas, de desenho vivo, espectacular e "cubista". O seu novo livro, lançado o ano passado, tem cerca de 280 páginas que enchem o olho, contando a história do cavaleiro Antares em cruzada religiosa e sexual, viajando no tempo - idas e voltas do Medieval ao contemporâneo - e criando uma epopeia impossível. 
Apesar da cor e a distância dos temas, eis um livro que volta a colocar a Canicola em forma. Editora originalmente criada como um colectivo de autores de Bolonha que publicavam uma antologia entretanto transformou-se numa editora de BD que apesar de um percalço ou outro manteve a sua identidade original intacta mesmo ao mudar radicalmente de modus operandiAmore di lontano é "Canicola" pura, ou seja, calorenta, bafienta, labiríntica, vanguardista e suada, capaz de baralhar as hormonas do Eros e Thanatos. 

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Cartas italo-suomis

Já tenho dito que têm sido nas periferias da Europa que se encontra a BD mais excitante neste milénio. Agora que há um excesso de ofertas de "graphic novels" nos EUA e França, ou seja, o fomato livro finalmente se adaptou à BD, em contrapartida há menos propostas de ruptura como aconteceu nos anos 90 com os catálogos da Fantagraphics, Drawn & Quarterly ou L'Association. É natural até que estas editoras que tanto lutaram e ainda lutam para que a BD não fique entregue à bicharada "bedófila", com a idade, apresentem autores ou obras menos radicais quando eram mais "novas".

Na última década, onde vi os livros mais belos e com o conteúdo mais interessante foi da Finlândia e da Itália. Do Norte vem muita BD experiemntal e de cores berrantes, do Sul, a preto e branco belíssimos a contarem histórias pujantes. Alguns dos projectos destes países sofreram também metamorfoses mas pelos vistos ainda têm muitas cartas para dar.




Começo pela Huuda Huuda, editora que agora é dirigida apenas pelo Tommi Musturi. Talvez ele tenha aproveitado restos de papel de outros livros para fazer estes dois de Aapo Rapi, que em inglês são intitulados de Log Cabin Man e Future Man. São dois tratados humorísticos a explicar como é ser artista na Finlândia no presente e bem... no futuro, com muito álcool, cigarros e o palavrão "Perkele!" na boca. Lembra o "nosso" José Smith por expor o ridículo do homem contemporâneo.




Advanced Offices & Humans de Roope Eronen mantêm a lógica do livro anterior, ou seja a inversão dos papeis no jogo de personagem (RPG) Dungeons & Dragons, invés de serem pessoas a jogarem um mundo de fantasia, são dragões que encarnam as personagens dos humanos em escritórios. Nesta "aventura" os humanos preparam uma proposta de aquisição de uma empresa alimentar com as situações típicas de rivalidade entre colegas ou andarem a jogar no computador às escondidas. Anexado ao livro está uma folha de características da personagem que parece um verdadeiro CV. Divertido como o livro anterior só é pena que as legendas em inglês tenham sido impressas numa cor de pouca leitura. Se o Tommi não tivesse sozinho nesta empresa, a sua cabeça iria rolar...

E o que dizer de um romance gráfico como Ukkometsola de Jarno Latva-Nikkola? Uma verdadeira provocação à cultura finlandesa? Ou é um disfarce de bons costumes? A história de três irmãos a quererem explorar uma quinta que produz leite de porco (!) poderia não aguentar mais do três páginas de BD mas o sacana do Jarno faz quase 200 de peripécias e dramas humanos que cativam qualquer um, talvez porque o desespero destes "agrónomos" finlandeses não deve ser tão diferente dos portugueses face ao mundo cada vez mais burocratizado, globalizado e mediático. Seja como for, é uma boa história de "white trash" que nos aquece sempre um pouco, delirante q.b. sem cair em humor fácil - apesar do tema ser logo absurdo. Jarno é uma caixa de surpresas como prova com este seu terceiro livro. Um autor que merece toda a atenção!



Da Canicola aparecem em gloriosos grandes formatos A3, os livros Roghi da italiana Anna Deflorian e Cani Selvaggi da finlandesa Amanda Vähämäki, que aliás foi uma das fundadoras da Canicola quando era revista de colectivo. Os dois livros mantêm o espírito do início do projecto desses tempos: narrações em ares insuportáveis de calor pós-apocalíptico, as quebras e aproximações das relações humanas, a inocência dos que nasceram depois do "grande trauma" e metáforas prás "coisinhas da vida". Enquanto que os desenhos de Amanda vivem todo o esplendor neste formato e além de que ela está cada vez mais livre e perfecionista com o uso de grafite, já Deflorian admito alguma relutância em gostar das suas matrafonas hipsters e o ar de fake vintage da coisa a lembrar algumas coisas da dupla Gigi i Gigi... Não deixa de impressionar ainda assim.

Por fim, e voltando para o Norte mas prá Estónia e num formato pequeno (o A6), na mesma colecção onde saiu o primeiro livro de Amanda Baeza encontramos a estreia na BD pela poetisa Tiina Lehikoinen com The Pernicious Kiss. O que se passa na Finlândia? Perceberam que a boa BD passa pela criação poética? Relembro Jyrki Heikinnen que também pela poesia antes de fazer BD... Tal como ele, Tiina não sucube à tentação da palavra substituir o desenho na BD mesmo quando estas são fortes e nos invoquem imagens, pois ela aprendeu a fazer desenhos que têm presença per se. De resto, estamos um pequeno ensaio surrealista caso se alguém se enamore por um namorado com uma cabeça de cavalo - o que se passa com os escritores que adoram contos com cavalos? Espera lá... o que se passa com as autoras de BD e cavalos!?

terça-feira, 17 de julho de 2012

Nessuno mi farà del male (2ª ed.)

Giacomo Monti
Canicola; 2012

Este livro de Giacomo Monti foi recentemente adaptado para cinema por outro autor de BD mais ou menos famoso, Gipi (O Local, editado cá em Portugal pela VitaminaBD), o que deverá ser curioso narrativamente porque este livro compila várias BDs sem ligações entre elas, de Monti que saíram nessa publicação e noutras antologias - e talvez haja aqui uma ou duas BDs inéditas mas infelizmente não há créditos na ficha técnica do livro para descobrir as suas origens. Significa desde já que para quem tem todos os números da Canicola 70% do material aqui proposto encontra-se nessa publicação, o que poderá ser um "mau negócio"... Mas as "novas" BDs de Monti poderão facilmente convencer os espíritos mais tecnocratas a guardar este sólido livro de 168 páginas a preto e branco.
Criados de Casino que vão às putas, ameaças ligeiras de hooligans, o que se faz com um gato morto da vizinhança, visitas (simpáticas ou nem por isso) de alienígena e "paparazzis" atrás de fotos escandalosas de futebolistas homossexuais são algumas das desculpas esfarrapadas que Monti usa para nos manipular com "estórias-não-estórias" sobre a dor e solidão humana. Não interessa o motivo que ele descobre para parecer que vamos entrar num mundo diferente e excitante! Logo esse "motivo" se dissipa em "slices of life" desesperantes da vida moderna, em que pouco importa se vamos ser invadidos por OVNIS ou se assistimos a um programa televisivo de culinária. Se muitas vezes achamos as nossas vidas absurdas - e são, seja como for -  a única luz no fundo do túnel é esperar que Monti as transforme em verdadeiras pérolas de narração. Será absurdo comparar aos textos dos filmes do Tarantino? Talvez não...

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

cachecol

Como sempre nas tendas do Festival de Angoulême, no Sábado, é impossível andar e ver as coisas com olhos de se ver. Até na tenda "Novos Mundos", onde se encontram as editoras alternativas e zines, a maré de gente é brutal. Houve umas trocas com o colectivo italiano Canicola. E as vendas deles deveriam estar a correr bem porque só conseguimos trazer um exemplar do último número (#8) da revista homónima, que para além dos seus habituais colaboradores neste número participam vários autores do extremo Oriente como Chihoi (Hong Kong) ou Yuichi Yokoyama (Japão)... Ainda não lê-mos para comentar mas talvez nem seja necessário tal a qualidade que esta revista já nos habituou.



Mas trouxemos monografias editadas pelo grupo, e justamente um livro de Chihoi, Il treno (2008) adapta um conto de Hung Hung e ainda Sabato Tregua (2009) de Andrea Bruno. Livros de bd que parecem equidistantes, o de Chihoi é um livro A5 de traço minimalista feito a carvão, o de Andrea é um grandioso A3 com os ambientes sobrecarregados de tinta negra decadente mas não, ambos inserem-se numa corrente de "pós-realismo" (existe tal termo?) que a bd começou a escavar neste milénio. Esta corrente onde sobretudo encontramos autores italianos da Canicola e alguns finlandeses e alemães, sintetiza o surrealismo da "escrita automática" dos anos 60 (protagonizada pelas drogas tomadas por Robert Crumb e Moebius, passe a ironia) e a crueza da autobiografia popularizada nos anos 90. São estórias passadas em cenários bizarros e anacrónicos - no sentido de serem quase parábolas - onde o que para nós é estranho, nesse universo é normal. A estória deixa-se de se centrar na exploração das características desse universo e busca os dramas de foro pessoal. Seja as personagens burgueses de Chihoi que vivem em comboios alucinantes, seja na miséria urbana dos deliquentes de Bruno, o ponto comum é a riqueza humana das personagens, das suas angústias e falhas.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Trans Europe Zine

Com os desenvolvimentos das tecnologias de tratamento digital de imagens e impressão, e da Internet, os tradicionais fanzines ou zines tem vindo a desaparecer, ficando no “mundo material” publicações com aspecto profissional – aliás, com cuidados gráficos ainda melhores que as revistas profissionais. Este texto é um mini-guia cartográfico bastante imcompleto para quem procura aventuras gráficas.


Partindo de Portugal temos os Opuntia Books já referido na Umbigo (Dez’07) e já agora investiguem também a Imprensa Canalha mas vamos imediatamente para aquela sempre foi e sempre será a capital da bd em Espanha, ou seja Barcelona, a sanita de Turistas anglo-saxónicos. Desde os anos 40 do século passado que se implantaram as editoras, grandes lojas de bd e o maior festival espanhol de bd. Claro que há muita boa gente no resto de Espanha mas é em Barcelona que aparecem projectos como a ARGH! que já vai no quarto número! E porquê a euforia? Simples... É que a ARGH! mostra que afinal os espanhóis não sabem apenas copiar como até fazem coisas boas - menos na música! Nas páginas da ARGH! vamos encontrar escatologia da grossa, bonecada "guilty-pleasure" e monstros nojentitos, piadas parvas de cócó-xixi & humor "serial-killer". As páginas são preto e branco mais uma cor extra que muda de número para número, permitindo aos autores explorarem temas – o “número amarelo” ligava-se à doença, por exemplo – ou potenciando grafismos mais adequados a cada cor, como aconteceu com o português residente em Madrid, Richard Câmara que participou no último número (verde) com uma versão colorida da bd publicada na colecção Lx Comics. Jorge Parras e Félix Diaz são os responsáveis pela publicação depois de terem feitos das suas no Fanzine Enfermo. Ambos são autores com estilos bastantes diferentes, o primeiro mais humorístico, o segundo mais “abonecado” na veia de Underground Pop. Cada vez que lançam um novo número refazem o sítio arghcomic.com.
Quando subimos para França é inevitável referir o colectivo Le Dernier Cri, sediado em Marselha no centro artístico Friche La Belle de Mai onde máquinas de serigrafia vomitam livros, cartazes e discos pelas mãos do casal Paquito Bolino e Caroline Sury. Nascido em 1993 das cinzas do movimento “undergráfico” francês dos anos 80, o colectivo publicou em 15 anos mais de 200 títulos, maioritariamente em serigrafia. Produção exorbitante para uma estrutura artesanal, que ainda edita a revista anual Hôpital Brut, produziu mais de 50 exposições (uma no Salão Lisboa 2005), discos e filmes de animação. Como afirma Bolino: «As edições do Dernier Cri consistem em artistas a editar outros artistas, artistas que vêm fazer residências, ateliers, ou simplesmente desejam fazer livros connosco, ao contrário de uma vontade de um editor em seguir conceitos pré-estabelecidos e colecções precisas. Isso permite-nos partir em qualquer direcção». A produção, toda ela assegurada pelo casal e colaboradores, é imparável e dispara para sentidos inesperados, por exemplo, num recente lote de edições quase todos livros incluíam música tão violenta como os desenhos: Evil Moisture (single 7" vermelho de Noise, co-editado com o colectivo dinamarquês Smittekilde), Le moindre doute de Guillaume Soulatges (que esteve numa Feira Laica) com desenhos seus Pop nostálgicos e música quase-que-relaxante, Judex (nome do autor e do livro + CD-R de Rock Noise na linha Fort Thunder / Load Records), Placenta Popeye (livro complicado de folhear + CD-R de Frenchy Noise Rock tão marado que parece uma banda de Black Metal que não sabe tocar), Vida Loco (Breakcore visual e sonoro!) e o “best of” do misógino Costes, Pot Pourri, acompanhado pelos desenhos da sua mulher Vanderlinden - se está casado ainda é misógino?

Bolonha, é outra capital da bd… em Itália. E é por lá que surgem projectos de uma qualidade irrepreensível como o Canicola, colectivo de oito autores e uma administrativa. A colar o grupo está uma vontade abrasadora de contar histórias sobre "coisinhas da vida" - no melhor estilo de Raymond Carver - mesmo quando a acção se passa em 2012 (Giacomo Monti) ou em universos oníricos de Amanda Vähämäki – a única autora do grupo, a finlandesa que estudou nesta cidade e que já regressou a Helsínquia. Na Canicola os desenhos são todos díspares embora se possa encontrar alguns pontos em comum com alguns autores que seguem uma estética "free" em que usam a seu favor, o facto da impressão dos dias de hoje conseguir apanhar tão bem os cinzentos do lápis - relembro que a bd sempre teve um processo de produção que obrigava os autores a "passarem a preto" (ou a tinta) os desenhos para serem reproduzidos. Nos dias de hoje, os autores ignoram essa técnica e caminham pelo "lápis directo".
Para além do grupo duro já passaram pelas suas páginas gente importante como Anders Nilsen (EUA), Chi Hoi (Hong Kong), Marko Turunen (Finlândia) e a alemã Anke Feuchtenberger, autora bastante influente na cena europeia, sobretudo nos últimos anos com a renovação do seu trabalho a grafite (que foi visto no Salão Lisboa 2003) e como professora de ilustração na universidade de Hamburgo – onde aliás ajudou a por de pé a revista Orang.
Justamente em Hamburgo que também encontramos o dice industries - já publicado em Portugal e participante na exposição åbroïderij! HA! que passou pela Bedeteca de Lisboa, Maus Hábitos, Casa da Animação e segue para a Biblioteca de Abrantes no mês de Abril. dice industries é DJ, designer, autor de bd, ex-homem do graffiti e recentemente abriu a galeria Linda. Qwert é o seu “zine de vida” que vai no 13º número onde tanto publica bd - Wien, ein mensch stirbt (2005) - como catálogos de exposições de artes plásticas: Low Density (2005) e Low Frenquency (2008) onde ele (ab)usa imagens dos «tios patinhas» (a font do Low Density não deixa dúvidas) e outras imagens populares, manipula-as ao ponto de ruptura sendo recriadas em ruído abstracto. A deformação é impressionante, um cruzamento histérico de Lynch com Lichtenstein.
Por alguma razão misteriosa, os finlandeses estão a descobrir o "ácido" na bd e ilustração. Fora do já conhecido desengonçado crumbiano ou da crueza non-sense ratada de Gary Panter, os finlandeses andam a borrar cores a torto e a direito nos seus desenhos. Prova concreta disso é o jornal Kuti editado pelo atelier Kuti Kuti, onde seja qual for o estilo gráfico das bd's, o que se vai destacar são as cores berrantes aplicadas ora com as canetas de feltro ora com o Photoshop. Outro ponto comum entre vários autores finlandeses é o imaginário sacado aos universos Pop da infância em que são revistos sob um prisma da decadência: ODNI (objectos Disney não identificados), Masters of the Universe destruídos e distorções da bonecada de plástico, da bd ou de desenhos animados xungas.
Do grupo destaca-se os livros de esboços de Tommi Musturi, a saber: Stand Alone and Smile rendido à arte psicadélica - a lembrar até o Moebius quando este tripava nos anos 70; Concrete Floor em formato A4 impresso em páginas verdes tem desenhos de dignos de manicómio visual; e Death to Most com desenhos feitos entre 1986 e 1992, quando o autor era um puto metálico “skater” a viver na província finlandesa e desenhava caveiras, demónios e "damas de ferro", foram-lhes acrescentadas as cores berrantes dando uma nova dimensão visual aos desenhos “teen”.

Texto publicado na Umbigo

quarta-feira, 25 de março de 2009

Canicola numero sei

Canicola; Outono'08

Esta revista de bd italiana tem sido bastante divulgada neste blogue e creio que não há muito mais que queira dizer sem me repetir. Excepto que este número é "especial" por duas razões. A primeira porque neste número existe uma apetência para mostrar o desenho como um elemento narrativo - suspeito que também se deve ao facto dos originais ter sido expostos na Galeria d406. Destaque para a "bd-efeito-de-cristal" da finlandesa Pauliina Mäkelä, originalmente publicada na antologia 10x mas que no formato superior ao A4 ganha potência visual! E claro os desenhos de Andrea Bruno tiram sempre o fôlego a qualquer um...
A segunda razão deve-se pelo facto que este número é uma espécie de despedida. A revista continuará mas noutros moldes, prevê-se mudança de formato, abertura para mais colaboradores, sendo as decisões feitas por duas pessoas abandonando-se, assim, o conceito de revista de colectivo que era a sua identidade seminal (e se calhar a fonte da sua força e originalidade). Lembro-me do membro Edo Chieregato explicar em Ravenna como era obsessivo o método do grupo, um exemplo: para fazer uma capa de um número podiam passar tardes a discutir qual seria o pantone do verde ou do amarelo... A partir de agora existem duas pessoas apenas a decidirem como editores.
Apesar de já não haver Inverno nem Verão, a canícula parece ser a única coisa certa... vamos esperar por ela.

à venda no site da CCC.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Campo di Babà

Amanda Vähämäki
Canicola; 2006

Amanda Vähämäki é a debutante do grupo Canicola na edição de livros monográficos. O talento dela já era uma constante na revista homónima ao colectivo italiano e mais do que isso, as suas colaborações eram (são!) um prazer misterioso. Se a "escrita automática" na banda desenhada surgiu nos anos 60 com Robert Crumb e Moebius, ela já percorreu vários patamares de criação, como o traço "ratty" Garry Panter ou o "minimalismo" de Lewis Trondheim. Agora temos uma finlandesa que mora em Itália (estão justificados os tremas!) que usa o lápis para desenhar e redesenhar e (também) escrever e rescrever bd's surrealistas em que a infância é tratada em colisão com um mundo indefinível. Há um urso blasée a guiar um carro, há operações dentárias a cães e a crianças como quem acende um cigarro, há ainda uns legumes com caras muito expressivas, enfim, e também há um comportamento normal a toda esta anormalidade por parte dos personagens. O tratamento do carvão lembra alguns efeitos estéticos dos últimos trabalhos da alemã Anke Feuchtenberger, o desenho é bastante atraente e expressivo. Uma prova de vitalidade na cena "indie" internacional.

4,5

terça-feira, 10 de outubro de 2006

(depois de) CCC@Helsinki.Comics.Festival

Nos dias 23 e 24 de Setembro ocorre o 21º Festival de BD de Helsinquia. A CCC estará lá presente com uma banca de títulos seus e dos seus associados MMMNNNRRRG, Imprensa Canalha e Opuntia Books
...
Chili Com Carne editions and other Portuguese best kept secrets (like MMMNNNRRRG, Imprensa Canalha and Opuntia Books) will be represented in the 21st Helsinki Comics Festival to be held on the 23rd and 24th of September 2006.



Em jeito de relatório...
Foi a segunda vez que me aconteceu tal coisa e com a mesma viagem! Segunda vez em HELLsinki e foi a segunda vez que me perdem a bagagem numa viagem de avião. Tal como há 2 anos do transbordo de Paris, desta vez foi no de Amsterdão. Se da primeira vez não havia grande drama, desta vez a coisa era grave porque a mala perdida tinha os livros da CCC e dos associados para serem vendidos no Festival de BD. E ao contrário da primeira vez que logo de manhã já tinha a minha bagagem recuperada desta vez só chegou depois das 18h - justamente quando o primeiro dia comercial do Festival terminava.

Ainda assim não me posso queixar: quase todo o material (seleccionado do catálogo da CCC e associados, que estivesse em inglês ou fosse meramente visual) foi vendido - e o que não foi, foi trocado por outro material ou deixado em lojas na Finlândia. Mais, o retorno monetário foi grande o suficiente para pagar 70% da viagem. Sendo que esta viagem era um misto de negócios e férias, a questão do lucro relativisa-se bastante.

Por isso posso dizer que valeu a pena. Manter ou fazer novos contactos, despachar exemplares de livros que em Portugal são ignorados pelo mercado e pelos críticos, receber feedback do público - elogiando ou não mas sempre reagindo. Diferente da letargia portuguesa, de um público que mais parece ter medo dos livros. Aliás, tão ricas que eram as reacções que as conclusões são impossíveis. O que posso dizer é o que me parecia que seria mais óbvio vender não vendeu tanto, e vice-versa. O público também era bastante diferenciado e misturado, desde dos nostálgicos e cromos maluquinhos aos os nerds dos nerds (os fãs de Manga e em regime cosplay - valia ter tirado fotografias!), dos góticos e góticas lamacentos (fãs dos 69 Eyes - o vocalista tinha sido autor de bd nos anos 90 e era reeditado o seu livro Helsinki Zombie Vampire Love ou algo parecido), aos estudantes de artes e similares, e gente normal, ... O que facilitava algumas aproximações - os CD's de música que levei que tinham Moonspell foram todos despachados prós vampiritos!

Não tenho fotografias do evento - a máquina estava na mala e no Domingo, último dia comercial do Festival, queria era vender e despachar material, dai a pobre reportagem fotográfica que se resume a duas fotos da banca e da mascote do Festival, ambas desmontadas...


Das trocas realizadas eis a lista (a actualizar nos próximos dias):

-
Canicola #2
- Canicola #3
a melhor revista italiana de bd do momento, em italiano c/ legendagem em inglês, 10€ cada / 8€ cada para associados
- C'est bon Anthology #1 (3ª série)
revista sueca de bd, em inglês, 14€
/ 11,2€
- Nazi Knife #2
graphzine do mesmo grupo do Rotkop, 10€
/ 8€
- Moving Plastic Castles
livro de arte do finlandês
Tommi Musturi, 6€ / 4,8€
- Madonreikä
zine de ilustração do mesmo autor de Kylmä Liha, 4€ / 3,2€
- Glömp #8
antologia finlandesa de bd, todo a cores!!!, em finlandês c/ legendagem em inglês, 20€ / 16€

quarta-feira, 15 de março de 2006

Canicola numero tre

Canicola; Primavera'06

Revista italiana de bd de autor que continua um percurso que se prevê brilhante no futuro - nem porque seja pelo facto do colaborador Gipi ter ganho um prémio o melhor álbum na edição deste ano do Festival de Angoulême. Mas seria redutor pensar apenas em prémios vindos do frio institucional quando a matéria-prima de que é feita a revista é demasiado quente para coincidências - creio que Gipi participa aqui pela primeira vez. Os autores que aqui se reúnem por mero acaso até batem em temas idênticos como ambientes pós-apocalípticos, visões distorcidas da infância, sexualidade & solidão no emprego - a vida moderna é uma treta! São até pelos desenhos (soltos, free-style) uma onda de calor mortífera para as nossas órbitas. Aumentaram as histórias de continuação e com isso ficamos desorientados. Único momento mau (bastante até!) neste número, a participação de Giacomo Nanni - um delírio editorial?

4,4


Links directos para as resenhas dos números 1 e 2

sábado, 16 de janeiro de 2016

Valência é o centro do mundo...

Lá estivemos em mais uma edição do Tenderete e voltamos sempre de mão cheias tal é a bibliodiversidade que vai parara este evento, que entretanto cresceu imenso ao ponto da "última Laica" - num espaço institucional, "clean", para "toda a família", cheio de gente... E havia de tudo para todos!


Até lá havia fanzines para "garajeros" como Me Gusta Más Que Desayunar Un Herpe que já vai no número 17 dedicado a "homens das cavernas". O "primitivo" faz parte dos ingredientes de quem gosta de guitarras com urros animalescos à procura da inocência perdida do Rock dos anos 50 e 60, aliás o primitivo faz parte dessa era do nascimento da cultura Pop se pensarmos no ícone que são os "Flintstones". Com uma capa em capa em serigrafia, este fanzine mostra desenhos e artigos em volta do tema e "oferece" ainda um CD com treze bandas espanholas retro-primitivas. Para quem gosta deste género anacrónico esta é a referência, da minha parte gostei de ouvir Pedrito Diablo y los Cadáveres e Islas Marshall por serem justamente as mais "modernitas"...

Para "metaleros" mas com costela punk e power-violence estava lá a Industrias Doc que reduz a vida industrializada a cancro, gentrificação e rotinas desumanas. Com um aspecto brutista podemos fazer algum paralelo ao "nosso" Rodolfo Mariano mas Doc é directo enquanto Rodolfo é labiríntico. Oscure : Comic compilation vol. 1 (2014) é curioso como o "underground" no século XXI é super-burguês, longe vão os dias das fotocópias mal-amanhadas e sujas... Nos dias de hoje em que tudo é barato fazer, com um bom aspecto concorrente a qualquer publicação profissional, os zines aparecem com toques de luxo como uma capa em serigrafia, com tinta dourada e umas rodela prateadas a fazer de olhos prá "calavera" da capa. "Ser rebelde é um luxo?" O paradoxo não é novo bastando lembrar como Guy Debord exigia que os livros da Internacional Situacionista tivessem um ar vistoso como provocação gráfica à sociedade burguesa e vaidosa... Será que há esse mesmo pensamento por aqui e noutras edições de "arte grotesca"? Ou é apenas porque a Morte mete respeitinho?

Quem curte programas de culinária e Gore - não sei, deve haver alguém assim! - Mortal Chef (ed. de autor; 2014?) do sempre hilariante Jorge Parras é a solução de leitura!
Lembra a saudosa Arght! pelo aspecto geral da publicação... mas só publica uma BD (não está assinada sabe-se lá porquê) que se constrói como uma simulação dos concursos de TV de chefes cozinheiros só que refogado com um bocado de Carcass, Cannibal Corpse e Mike Diana tal o nível de violência estúpida que os concorrentes infligem sobre eles próprios.
É uma crítica à sociedade Big Brother e do Narcisismo a três cores... Ou será antes um ataque a quem elegeu a Culinária como um novo Deus?

E para verem que não estou a brincar com o facto que Valência é o centro do mundo, até o Clube do Inferno lançou lá um zine novo do Mao. Um regresso aos temas "eco-biológicos" que estão bem assentes na obra deste autor - Radiation lembram-se? - e outra vez visíveis nesta Bd que relata uma metamorfose de uma colónia de abelhas graças ao "Pop trash" humano. Colony Collapse Disorder como título já nos conta tudo, só falta é verem as imagens. Muito boas!

Bravo Champion (Jean Guichon; 2013) de Antoine Erre é a razão porque mais vale ir ao Tenderete do que a Angoulême. Este zine é preçado conforme o preço da cerveja no evento em que se encontra à venda. Ora como uma "cerveja" é mais barata que uma "bière" e já andava a namorar este título, em Valência foi logo sem pensar... Trata-se de uma BD desenhada com caracteres em "word" ou processador de texto num computador, em que as imagens são substituídas por palavras como por exemplo, o céu invés de desenhado é preenchido por várias palavras "céu" (ou melhor, "ciel") ao longo do seu espaço. Um chapéu tem a silhueta de um chapéu mas novamente toda ela está escrita com essa palavra ("chapeau").
Na poesia visual isto não é uma novidade mas um gajo tem sempre de esperar uns anitos para estas novidades gráficas cheguem a ela. A história mete deficientes motores e é melhor que aquela BD xunga para cegos.
Por falar nisso, o Ilan Manouach vai apresentar o seu projecto Shapereader em Angoulême. Merde! Se calhar Angoulême ainda vale a pensa visitar...

Mais terror, ou pelo menos uma tentativa: Obscuro : 4 Relatos de Terror para El Mañana (Inefable Tebeos; 2014), uma antologia com quatro autores que prometem mais do que dão em relação ao tema... Victor Puchalski é o mais bizarro com a sua estética "mash-up" Charles Burns & Jack Kirby & King Diamond sobre os planos interdimensionais da cultura VHS mas é Adrián Bago González o que dá mais gozo ler com o seu texto em que aplica o materialismo dialéctico sobre a condição de autor de BD. No mínimo, muito divertido e pouco aterrador! Mas a surpresa maior é que este colectivo de bons artistas gráficos é que são na realidade editores de "puta-madre" sobretudo quando se metem a apostar (uma aposta de loucos porque toda a gente se está a cagar) em publicar Clássicos da BD. "Clássicos" aqui significa BDs antes ou paralelas à maldita História oficial da BD que dá primazia aos Heróis norte-americanos da imprensa, vejam o catálogo da El Nadir para perceber que eles publicam BDs do Caran d'Ache, Töpffer, Doré, etc... São loucos estes valencianos!

E o que não faltam é projectos! Nimio é uma "revista" de BD para putos teenagers... claro que tem um aspecto de fanzine velha-guarda, assim mesmo em formato A5, fotocopiado em papel reciclado, quentinho e fofo, onde poderia lá caber os "nossos" André Pereira ou Afonso Ferreira devido aos universos "cool" pós-Adventure Times. Também lembra muita BD francesa pós-Lewis Trondheim e cia. Será que este colectivo irá crescer como modelo editorial e profissional para chegar ao seu público-alvo? Espero que sim! A energia está lá...




A Apa Apa é uma editora de Barcelona que tem em catálogo alguns nomes "pesos-pesados" da BD anglo-saxónica (Tom Gauld, James Kochalka, Dash Shaw, Ron Regé Jr., John Porcellino,...) mas também edita autores espanhóis dos quais destaco os autores do livro Dictadores: Francisco y Leopoldo (2013) de  Sergi Puyol e Irkus E. Zeberio. A nossa Direita, Leopoldo II, esse grande cabrão belga que cortava mãos aos congoleses (tema explorado cá através do Vumbi e o Papá em África) e ainda mais à Direita o filho-da-puta do Franco, fascista espanhol. Um "split-book" combate de boxe com duas ficções gráficas usando as figuras destes monstros que dominaram povos. A "spread" final e central do livro, onde se cruzam os dois livros, deixa um bocado a desejar onde se quer chegar com ambas BDs apesar de mostrarem a crueldade das criaturas. no caso de Franco até aparece como um salvador de uma invasão alienígena no futuro, uma metáfora ao seu conservadorismo. Graficamente faz lembrar a estética que a No Brow impingiu nos últimos anos, em que ilustradores muito coloridos fazem umas BDs sem conteúdo. Estas BDs parecem estar no limite disso mas parecem que com o tempo são capazes de nos dar mais leituras sobre elas... Assim espero!

E vou fechar isto aqui... falta ainda escrever sobre as últimas edições da Canicola, o Mangaro do Le Dernier Cri e o último livro do Camarada Martin Lopez Lam (um dos fundadores do Tenderete)... todos merecem "posts" à parte. Vamos!

Joe Kessler faz parte da nova fornada de autores que apareceram naquela ilha nojenta chamada Inglaterra mas a sua abordagem à BD parece-me empenhada e séria - longe de fazer Bd porque está na moda por lá. Windowpane (Breakdown Press) é a sua publicação que já sairam três números (entre 2012 e 2015) em que vai juntando vários trabalhos curtos seus. Com boas bases literárias, narrativas bem pensadas e um desenho merdoso (já foi apelidado como o "pior artista da ilha") mas sem-medos (tal como Frank Santoro) e sem pudor de rapinar (é um gajo inglês, piratear está no sangue real!) e usando as práticas erráticas da risografia, Kessler é uma boa leitura e a ter atenção.

Alguns destes títulos vão estar disponíveis na próxima Feira Morta no final do mês na SMUP (Parede), apareçam...

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

International working in progress press

É injusto não referir alguns projectos editoriais por falta de tempo nem que escreva dez linhas apenas. Um dos injustiçados é Cinema Zenit (Canicola; 2014-15) de Andrea Bruno - autor de Bolonha publicado no Boring Europa e que nos visitou várias vezes (Feira Laica, Festival de Beja, BD Amadora). "Zenit" é uma série que ainda está em construção, tem sido publicada em álbuns A3 de 32 páginas e já sairam dois volumes, o último em 2015. Sinto que entrei num filme degradado de Fellini pois há um ambiente de sonho que lembra os rodopios narrativos de Amarcord ou Oito e Meio. O formato gigante dos livros dá uma sensação de esmagamento pelo monolítico preto e branco de Bruno. O tema principal é a identidade nacional de um indíviduo que pode-se transportar à própria questão da nacionalidade italiana (uma manta de retalhos costurada por Garibaldi) mas também aos conflitos dos Balcãs nos anos 90 e às crises recentes envolvendo a Ucránia e a Rússia. Em "Zenit" vive-se um estado de ansiedade com um estado de sítio. Talvez esteja seja a obra mais nervosa de Bruno...

A revista eslovénia Stripburger é capaz de ser a publicação de BD mais velha na Europa no activo depois da suiça Strapazin. Mas enquanto os piços dos suiços ficam-se pela língua alemã, os renos dos eslovenos publicam em inglês - ou com tradução inglesa. Depois de alguns anos de alguma decadência da rotina do formato, nos últimos três anos tem dado provas de um novo fôlego e em especial nos últimos dois números (65 e 66) com a edição de uma nova geração de autores interessantes - especialmente franceses, flamengos e alemães. Eslovenos ou dos Balcãs é que não há quase nada a vir de lá - tão paradoxal como um concerto de Laibach...
Uma revista é para se ir acompanhando número a número, a Stripburger é aquele "lembrete" para os tarados da web 0.2 que se esqueceram o que são revistas. Ela têm cumprido a sua parte... e vocês?  Assim aproveito para relembrar que a Chili Com Carne tem um número desta revista para venda na sua loja em linha. Quem procurar mais números antigos (em Portugal) deve investigar as lojas lisboetas 1359 e El Pep e creio que também há na Mundo Fantasma.

Cari amici soldati
Srečno novo leto!

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Visiter tous les pays

Pina Chang
NA; 2014

Voltar a Angoulême é sempre um turbilhão de sensações, de dejá vus, flashbacks voluntários e cruzamentos de mil pessoas que conhecemos, já vimos ou já falámos mas já nem se sabe bem aonde - foi em Roma que conheci aquele tipo ou foi mesmo em Lisboa? E aquela autora foi em Helsínquia ou em Madrid? Realmente concentra-se tudo naquela cidade de interior francês durante os quatro ou cinco dias do Festival de BD.
A Pina Chang conheci em Helsínquia e fui voltando a vê-la em Angoulême. Nunca tinha acompanhado o trabalho dela, nem sabia que fazia BD para dizer a verdade. Quando, este ano, em conversa de circunstância no stand da NA - uma associação francesa de BD - lhe perguntei por novidades, ela dirige-me para o seu livro e engoli a seco!
Caramba, que livrão! Gordinho e colorido, cheio de BDs quase mudas e até reproduções fotográficas de bonecos de pano feitos por Chang. Oi! Apesar desta primeira descrição saber à "neo-escolinha de redução feminina das tricotadeiras" (bonecos de pano e cores, topas?) o livro não é para ficar na secção dos clichés!
Antologia de várias histórias que sabem a falsas lendas etnográficas da América Central (Chang nasceu no Panamá), elas são maravilhosamente contadas encharcadas de suor tropical que quase ligam à Canicola, a autora mostra uma versatilidade de estilos gráficos e usos de materiais, que faz do livro um mimo enquanto objecto. Tudo junto, com as "BD-lendas" e as fotografias sem legendas que nos confudem - são da Islândia ou da Bolívia? sei que a autora passou por estes países lendo a sua biografia na 'net - somos levados a "visitar todos os países", uma tarefa impossível que bem nos alerta a autora, mas que aqui até podemos dizer que percorremos um continente deles.
De referir que a NA é a editora do jornal Modern Spleen, bem como dezenas de outros fanzines e publicações estranhas e bastante excitantes (quem perdeu a ressaca Fort Thunder que foi a revista L'Episode, nem sabe o que perdeu!!!), trabalham também com crianças ou populações desfavorecidas, como a comunidade cigana na zona de Angoulême. Agora lançam-se na publicação de livros, pró ano já vou prevenido e com algumas perguntas de algibeira prá Chang!