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domingo, 26 de setembro de 2010

Strip it!


v/a
Strip it + Vladimir Palibrk; 2009

Antologia de bd com os resultados de um encontro em Belgrado com o apoio do programa "Juventude em acção" juntando autores de bd / interessados / ilustradores da Sérvia, Croácia, Espanha, Holanda e República Checa. Não fugindo ao formato habitual das antologias desta década - tipo Mutate & Survive ou Balkan Twilight (publicado pelo mesmo editor do Strip it!) - publicam-se bd's e desenhos soltos de uma série de workshops e "comix jams" feitos durante a semana do evento. Entre o amador interessante e desinteressante e autores que já marcam algum território gráfico, muitas das bd's foram feitas baseadas em textos de escritores conhecidos (como Nikolai Gogol) e contos tradicionais, ou então eram pedidas bd's de "como fazer..." (algo - e vale tudo, baldas às aulas quando se 10 anos ou ser assassinado por um serial-killer conhecido). Há também alguns "slices of life" de biografia e relato de viagem.
Independentemente dos resultados serem pouco excitantes e a edição fragmentada, o livro vale sobretudo como modelo para futuros encontros que se realizem do género com ou sem os apoios institucionais juvenis.

Oferta deste livro na compra de qualquer edição da Europa de Leste (temos mais títulos vindos de Leste que não se encontram no site, peçam-nos pelo e-mail ccc@chilicomcarne.com)

sábado, 9 de março de 2013

Comix Remix, parte I

Lembras-te quando eras puto com um gravador de k7s e com a pretensão de querer fazer música usando pedaços daqui e dali? Querias misturar aquele “beat” de uma música com um berro histérico do apresentador do programa de rádio. Ou prolongar para sempre aquele riff que tanto gostavas – e nesse tempo nem conhecias o termo "Drone"?


Pois é, já vivias numa “era de edição” em que os Dadaístas, William S. Burroughs, os Situacionistas, o Hip Hop e o Techno deram as bases teóricas, artísticas e técnicas, e por fim, o mundo digital deu as ferramentas para a concretizar ubiquamente. Todos nós seja quando preparamos um e-mail apaixonado ou um relatório cinzento habituamo-nos a escrever, corrigir, reescrever, cortar um excerto e colocar noutro parágrafo, reutilizar um texto para outro propósito nem que seja mudando o nome a quem nos vamos endereçar! Vivemos uma cultura de “copy / paste” – consequentemente as formas de arte arranjaram mais outras terminologias como “remix” ou “mash up”.

Enquanto isso as leis de direito de autor agonizam, sem saber onde irão chular a seguir, e até parece impossível que se venha a cometer outra vez crimes oficiais como aconteceu ao John Oswald ou aos Negativland (1) há umas décadas atrás – o que não verdade como irão ver mais à frente. Apesar da fama de batalhas legais ir quase sempre para a indústria fonográfica, na verdade os maiores casos legais de direitos acontecerem (e continuam) no seio da indústria BD norte-americana e na Europa, com a intratável Fundação Moulinsart a perseguir tudo e todos que usem o velho Tintin e a sua cadela idiota. A defesa extrema do “copyright” na BD é mais um pecadilho a juntar à história negra da BD. Mas não é sobre isto que vos quero falar mas sim sobre as possibilidades da cultura “remix” no médium do “comix”. E temos de falar disto rápido! Não há tempo a perder!

A BD demorou 40 anos a chegar ao automatismo (obrigado Robert Crumb e Moebius por terem tomado drogas!), ”andou às aranhas” com a autobiografia ou à auto-representação do autor, jornalismo, ensaio e crónica e uma eternidade no que diz ao respeito institucional. Não podemos ficar de fora, não podemos deixar que os DJs roubem todo o bolo! Preparem lá essa tesoura e cola! Melhor ainda… saquem lá o Photoshop!



Socialistische Patienten Kollektiv

Talvez as formas mais vulgares de “comix remix” serão os “cadáveres-esquisitos”, ou Comix jams como são conhecidos, em que vários indivíduos encontram-se num evento e fazem uma BD improvisada. Cada autor escreve e desenha uma vinheta, passa a outro autor para que seja continuada sem poder exercer nenhum controlo sobre o que irá acontecer à sua história original. Geralmente funciona bem quando o teu grupo de amigos junta-se no mesmo bar há anos e já não têm nada para discutir…

Os “cadáveres-esquisitos” são um catalisador colectivo de subconsciente onde reina algum caos narrativo (para não falar gráfico) no entanto este processo também pode ser direccionado com um propósito como um argumento prévio. É o caso de The Worm : The Longest Comic Strip in the World (Slab-O-Concrete + The Cartoon Ar Trust; 1999) escrito por Alan Moore e desenhado por “a galaxy of greats” (2). Com um propósito de criar fundos para o Cartoon Art Trust em 1991 através de um evento espectacular e mediático, participaram 125 desenhadores para realizar 250 vinhetas expostas em 75 metros lineares de cumprimento ganhando o estatuto da maior tira de BD do mundo pelo Guiness. A narrativa passa por um sonho utópico de um autor de BD que revê todo o processo da progressão da Humanidade e da sua relação com a BD: das pinturas rupestres aos hieróglifos, das tapeçarias de Bayeaux à BD moderna. O esquema de trabalho parece explicado no livro que publica o resultado final e percebe-se que houve um cuidado minucioso de Moore para cada vinheta fazendo com que esta BD seja diferente pela performance ao vivo e pela caldeirada de estilos gráficos de vinheta para vinheta.

o trabalho em linha de montagem de The Worm

os resultados gráficos  caóticos de The Worm

Mais interessante é a compilação Twilight Jamming : comic jams by Serbian underground family and their further relatives (Silent Wall Army; 2008) que é um “best of” das melhores experiências do género realizadas na Sérvia – onde existe uma tradição em “jams”. A mais radical enquanto manifesto artístico é do autor Wostok que declara que Year after year it was getting harder and harder for me to force myself to read some of those “profesionall” and “hight quality” comics. And when I had almost lost all hope that it is possible to find something really new, fresh and Creative in comics, it happened that I came across the stories and drawings of na absolute amateur. That peson was my four year old daughter Lola.[sic] Talvez esta descoberta tenha ajudado Wostok a tornar-se um incansável instigador de workshops de BD que realiza com grupos em aldeias, vilas e cidades, fora ou não da Sérvia, e ao publicar os seus resultados já merecia também um registo no Guiness por ter editado mais números de um fanzine – não me recordo mas creio que já ultrapassa os 600 números do seu zine Krpelj. Uma das BDs apresentada no Twilight Jamming usa um texto de Kate Hodges que biografa o mítico e alucinado produtor musical inglês Joe Meek (1929-1967). Ou seja, Wostok andou pela Sérvia e Alemanha obrigando as pessoas que se metessem no seu caminho a desenharem uma vinheta a partir do dito texto. A vantagem sobre o The Worm é que realmente o amadorismo chega ao ponto de haver participantes que nem desenham mas recortam imagens. Há uma vinheta que tem uma fotografia do Kurt Cobain, outras usam vinhetas de outras BDs populares (italianas?) sem relação com o texto criando todo um novo discurso entre imagem e texto – que não é assim tão novo, já lá iremos! Esta BD sobre Meek é de uma puerilidade cómica alinhada a um surrealismo sujo porque as imagens desenhadas (ou coladas) são feitas pelos participantes sem que estes tenham qualquer documentação real. Esta biografia de Meek acaba por ser tão negra e mistificada em imagens tal como foi realmente a sua vida.


o rapaz dos Nirvana a servir aos interesses britânicos e sérvios



Impelida pela força do silêncio abre-se para trás uma porta


Mas como dizia, não há um novo discurso na relação disparatada entre texto e imagem “roubada” porque Max Ernst (1891-1976) fez dois maravilhosos livros de BD: La femme 100 têtes (Éditions du Carrefour; 1929) e Semaine de Bonté (Jeanne Bucher; 1934) (3). Ambos são “graphic novels” como muitas outras que se editaram nos anos 30 do século passado pelo mundo fora, geralmente identificáveis por usarem uma imagem por página (ou até uma por folha) ultrapassando as narrativas em mais de 200 páginas e com temas que não eram para entretenimento infantil e juvenil, como He Done Her Wrong (Doubleday, Doran & Co.; 1930) de Milton Gross (4) ou Destiny : a story pictures (Delphin; 1930) de Otto Nückel. De facto a existência destes livros revela outro pecado da BD enquanto arte, que não deixou este formato vingar até o aparecimento de Maus de Art Spiegelman em 1986. Ainda assim a diferença destas “graphic novels” com as de Ersnt é que este usa colagens para ilustrar os seus textos usando reproduções de gravuras da época Vitoriana cheias de tragédias épicas (acidentes) ou quotidianas (ambientes sórdidos), animais e engenhos tecnológicos, figuras etnográficas e mitológicas. As colagens naturalmente reúnem objectos e figuras humanas em desproporções físicas talvez porque não havia as fotocopiadoras (ou Photoshop!) para reduzir ou ampliar imagens o que no caso de Ersnt até reforça o cariz surrealista das obras. Semana de Bondade é impressionante como Ernst conta vários crimes passionais com imagens tão “desconexas”. É impossível, por exemplo, a mesma personagem ter a mesma cabeça ou corpo de imagem para imagem (vinheta para vinheta ou página para página) uma vez que cada colagem usa fontes diferentes não podendo. Talvez dada à tecnologia da altura, reproduzir a mesma “figura” implicasse ter vários exemplares da mesma revista de onde Ersnt recortava para ter uma continuidade figurativa, ou então, ele simplesmente não o quis... Para os fatalistas do “tudo já foi inventado”, é verdade, o Max Ernst foi o primeiro “comix remixer” do mundo!

Capa de Una Biografia
Em 1973 é dado mais um passo em frente neste tipo invulgar de BD, com o espanhol Chumy Chumez (1927-2003) e o seu álbum Una Biografia – um livro de 104 páginas em grande formato (27x35cm). Diz na introdução da edição da Grupo Libros (1994) que o autor demorou 5 anos a fazer este álbum, três dos quais a juntar imagens para recortar e montar. As imagens são também retiradas de revistas ilustradas do século XIX, por isso, elas são também na essência gravuras, dando, tal como os livros de Ernst, alguma coerência formal e estética. Chumez admite também que não queria que as suas colagens ganhassem uma dimensão surrealista, o que se concluí que deveria conhecer os livros de Ernst e não queria ser facilmente comparado, embora isso seja quase inevitável por não haver muitas obras assim. Onde claramente se distingue é na composição de página, sempre composta por três tiras por página, e texto em baixo de cada tira/ vinheta, um formato rígido, tradicional e facilmente reconhecível da BD. A sensação que as imagens nos transmitem é de planos cinematográficos, o que não será de estranhar, uma vez que o autor além de cartoonista também era realizador de filmes (5), havendo sequências sem texto perfeitamente assombrosas – a do sonho, da fecundação (microscópica), dos pássaros (da morte) ou a do leão.

a fecundação em Una Biografia


Muito provavelmente haverá mais deste “tipo” de trabalho - BDs feitas exclusivamente de colagens - espalhados pelo mundo, e correndo o risco de passar por ignorante nacionalista não deixaria de comentar uma modesta intervenção de 5 páginas da BD Avés Marias Rap de Diniz Conefrey na revista Lx Comics #2 (MFCR; Outono 1990) que desbunda um “rap” sobre Lisboa usando imagens desenhadas de panfletos turísticos e fotografias de Lisboa. Mais curioso ainda é que o próprio texto é também um “mash-up” de textos do escritor Cesário Verde e uma reportagem sobre Portugal da National Geographic dos anos 50. Com duas vinhetas / tiras por página é um retracto melancólico de um país pobre que só pode viver do turismo mas sobretudo é uma pequena pepita de ouro produzida mais sobre a influência da música de David Byrne e Brian Eno do que outra obra visual.

o Rap de Conefrey


A propriedade é um roubo

Os franceses adoram o termo “detournement” para quando se pega numa imagem e muda-se o texto dando à imagem um significado completamente diferente. Os Situacionistas na sua acção fartaram-se de fazer isso nos anos 60, mais tarde os Punks mantiveram esta ideia viva até que nos dias de hoje quase toda a gente pratica esta arte iconoclasta – quantos “forwards” com um gif animado e manhoso a gozar com alguém famoso recebes por dia?

Em Itália também se mastigou bem o Situacionismo especialmente o autor Stefano Tamburini (1955-1986) que entre várias sacanices elaboradas, é de se referir o divertido Snake Agent (1984) em que fotocopiava as tiras “clássicas” (como o Secret Agent X-9), remontando para histórias de espiões obcecados em prazos e timings minuciosos. Para gozar com a questão da precisão e cronometragem, as imagens eram arrastadas na fotocopiadora dando um efeito de “desfoque” – da mesma forma quando um objecto é “fotografado” a uma grande velocidade. Já antes, Tamburini, diz-se, que chegou a fazer BDs de “westerns” para a enorme indústria italiana de “Fumettis” decalcando os desenhos de outras BDs similares (5). Nunca vi o resultado disto nem consegui confirmar através dos meus contactos italianos mas só por si é um belo mito urbano!

Snake Agent por Tamburini publicada na revista brasileira Animal (ou julgavam que isto tinha sido traduzido em Portugal? Ah!)

Com o advento da fotocopiadora e mais tarde dos PCs, o uso de fotografia ou de outras imagens, colagens e inserção de objectos ou texturas nos trabalhos tornou-se mais ou menos vulgar para desenhar ou acrescentar algo ao desenho embora o objectivo de usar excertos (samples) de imagens reais (geralmente fotografias) sirva apenas como decoração sem que isso traga elementos subversivos à narração. A lista será interminável, podemos encontrar nos “comics” de super-heróis (John Byrne), nas BDs francesas (Piotr), espanholas (Josep M. Béa), belgas (La Vache de Johann de Moor) e no influente britânico Dave McKean. A sua influência foi tal que durante uma década, os ilustradores quase perderam os seus empregos porque qualquer Designer achava que poderia fazer ilustrações à McKean com o Mackintosh “scanando” umas texturas e despejando na “ilustração”! Antes deles todos ainda podemos encontrar um importante trabalho de colagem fundido com texto e imagem pelo artista de Art Brut, Henry Darger (1892-1973) que fez o maior livro da história (15 145 páginas!) e claro é obrigatório referir o grande mestre uruguaio/ argentino Alberto Breccia (1919-1993) que conseguia desenhar tão bem com os habituais riscadores como com papel colado. Entre 1973 e 1979 publicou várias BDs que adaptavam contos de H.P. Lovecraft (7), onde ironicamente usou a colagem (fotografias) para poder representar o irrepresentável - que é o fulcro da obra Lovecraftiana - sendo estas BDs talvez o pico virtuoso do uso de colagem em BD.

Nos anos 90 surge o movimento OuBaPo (8), apoiado pelos membros da editora francesa L’Association, que teorizou uma série de ideias para BDs diferentes dos cânones habituais aplicando-se na criação restrições matemáticas ou semânticas. Irmanada do movimento OuLiPo que afirmaram que os seus escritores eram ratos que construíam um labirinto que dele se proponham sair, entre as várias propostas de exercícios na sua revista oficial, OuPus I (L’Association; Janeiro 1997), vamos encontrar desde o clássico “detournement” (um texto de Freud numa prancha de Little Nemo in Slumberland) à diminuição do número de vinhetas de uma BD já publicada - imaginem uma aventura num álbum de Tintin de 60 e tal páginas em que se colocam 10 vinhetas numa só página. Mas também colagens de elementos de uma BD noutra, reenquadramento de imagens e até substituição de elementos gráficos por outros novos. Foi uma caixa de Pandora teorizada e modelada que poderá ter levado criadores de todo do mundo a fazerem experiências novas com a BD, embora duvido que o norte-americano Hank Retchum tenha lido estas teorias redigidas em francês quando fez a simples página Menaced Dennis no primeiro volume de Legal Action Comics (Dirty Danny Legal Defense Fund; 2001). Nesta BD usa close-ups da tipificada série “Dennis The Menace” – aquele género de BD sobre putos de classe média norte-americana que estão sempre a fazer traquinices - e que lhe tira justamente esse ar inocente e divertido para transmitir uma cena de violência sobre crianças – nunca é demais relembrar que os EUA é o país com maior estatística de pobreza infantil, trabalho de menores, abusos sexuais... Definitivamente algo que é originalmente inocente pode ser “remisturado” para algo sinistro.

O irritante Denis leva porrada!


Entre várias iniciativas produzidas pela OuBaPo a mais próxima do “remix” musical é sem dúvida a Series OuMuPo (2004-06), em parceria com a editora fonográfica Ici, d’ailleurs. Foram produzidos seis CDs acompanhados pelos respectivos “booklets” com BDs. Cada “rato”, músico ou autor de BD, inventou os seus “labirintos para saírem deles” embora houvesse uma regra geral que todos deveriam usar os materiais sonoros e gráficos dos catálogos das editoras envolvidas no projecto. Assim, The Third Eye Foundation, DJ Hide, Rob Swift, DJ Krush, Rubin Steiner e Kid Loco misturaram faixas de discos das bandas como Micro:Mega, Matt Elliot, Yann Tiersen, Bästard entre outros projectos, não fugindo muito a uma lógica de “mix-tape” de música electrónica que esteve na moda nos anos 90 – batidas Hip Hop sobre um ambiente de Clubling burguês – e apesar de muitos escolherem os mesmos temas para misturar, ainda assim conseguiram transmitir a personalidade do misturador – ex.: Steiner é mais kitsch / Disco, Swift mais Rap, etc… Da mesma forma os autores de BD Jochen Gerner, Luz, JC Menu, Dupuy-Berberian, Killoffer e Étienne Lécroart usando imagens de vários autores editados pela L’Association (José Parrondo, Matti Hagelberg, David B, Sfar, etc…) conseguem mostrar versatilidade de propostas de “mixagem” e de identidade artística sendo o trabalho mais conseguido será o de Killoffer que reproduz as 64 jogadas de uma partida de xadrez entre Marcel Duchamp e Edouard Verschueren em 1923.


OuMuPo, vol.6 reúne DJ Krush no CD e Killoffer no livrinho / BD
nunca o xadrez foi tão divertido de se assistir!

Há no entanto uma nova geração de autores que estão a fazer uma síntese do que tenho estado aqui a escrever, são os nossos contemporâneos Dice Industries (Alemanha), Fredox (França) e Dunja Jancovic (Croácia), que mantêm a chama acesa do corte e costura e preparam-se para esticar para um novo nível, embora para já os seus trabalhos sejam mais gráficos do que narrativos. Fredox usa colagens para mostrar um mundo “porno-gore” cheio de feridas psico-sexuais e desordem social – como poderão tomar conhecimento no assustador Les Dossiers Noirs de L’Histoire (Le Dernier Cri; 2001) que compila esse trabalho gráfico. Recentemente na antologia Hopital Brut (Le Dernier Cri) têm-se assistido à publicação de trabalhos com sequências que se inscrevem no âmbito da BD. Dice Industries fez um caminho oposto, começou por fazer BD depois achou que já estava tudo desenhado e que ele não conseguiria acrescentar mais nada nesta forma (9), e passou a usar a colagem para potencializar novas visões. Usa elementos das BDs populares da Disney (e quejandos) e Manga comercial para criar paisagens e abstracções. A maior parte destes trabalhos tem sido mostrados em galerias ou pequenos catálogos auto-editados – no seu “zine de vida” QWERT  com 15 números lançados, os últimos quatro dedicados ao trabalho de colagem. Recentemente para o meu “zine de vida”, o Mesinha de Cabeceira (#23 : Inverno, Associação Chili com Carne; 2012) Dice pegou numa série de colagens e acrescentou um texto para podermos inserir esta série na categoria de BD, será este o regresso de Dice à BD? Espero que sim! Dunja no seu recente livro Circle Cycles Circuits (Firma; 2012) coloca colagens ao serviço da narrativa e funde-as com desenhos seus – as imagens são sobrepostas, montadas, desenhadas por cima. As imagens tanto são fotografias figurativas como são apenas formas geométricas ou abstractas. Serão desenhadas à parte e coladas posteriormente? São pinturas falhadas que são recuperadas para “texturar” as páginas? Não sabemos…

Dice Industries no Mesinha #23


Em 2011 apareceu um livro intitulado Katz que teve o triste final de ter sido destruído sob a acusação de infringir “copyright”. Katz substituía as cabeças de todos os animais de Maus por cabeças de gatos – relembro que em Maus, ao retratar a perseguição dos judeus no regime Nazi, Spiegelman retrata os judeus como ratos, os alemães como gatos, os polacos como porcos... Quando os autores anónimos de Katz fazem a substituição das cabeças, uma das várias perguntas que se levantava é o maniqueísmo antropomorfo realizado por Spiegelman na construção da sua obra. O livro foi recolhido em 2012 do mercado e os exemplares foram destruídos num revivalismo histórico digno dos tempos em que os The JAMMs (mais tarde The KLF) tiveram de retirar o seu disco com samples dos ABBA. No entanto a barbárie de 2012 chega a ser pior a de 1987, pois se os JAMMs foram prá Suécia destruir os discos como mais uma provocação no caso de Katz os exemplares tiveram de ser destruídos, incluindo o ficheiro digital, na presença de representantes oficiais! (10)


A conclusão violenta deste livro mostra que afinal a BD ainda contém elementos perigosos por explorar. Apesar de ter vivido tempos “zombies” actualmente não é uma arte morta!



Marcos Farrajota
Lisboa, 26/02/13

Agradecimentos Tommi Musturi, Bedeteca de Lisboa, Diniz Conefrey, Vitor Petel, Ilan Manouach, Thanassis Rentzis, Valerio Bindi e Alberto Corradi. Ondina Pires traduziu para inglês este artigo que será publicado brevemente no jornal finlandês Kuti, e Joana Baguenier traduziu para francês para ser publicado no livro MetaKatz. Uma segunda parte deste levantamento de “comix-remix” está a ser redigido mas desta vez focado nas questões narrativas.


Notas

(1)  é curioso que o processo levantado contra os Negativland tenha sido os “defensores dos pobrezinhos” dos U2, que nada fizeram para aliviar os sacríficos que os Negativland sofreram.
(2)  Onde vamos encontrar desde o desconhecido Christopher Webster ao famoso Kevin O’Neil
(3)  O primeiro é a Mulher 100 cabeças (que quer em francês e português pode-se ser como a “mulher sem cabeças”) e o segundo é Semana de Bondade. Procurem edições modernas destes livros, em Portugal estão publicados pela &etc
(4)  Ver edição portuguesa da Libri Impressi, Ele foi mau para ela (2011)
(5)  Outra curiosidade, quer a Mulher 100 cabeças de Ernst quer Una Biografia de Chumez, foram adaptadas para cinema. A mulher foi realizado pelo francês Eric Duvivier em 1968 e Una Biografia pelo grego Rentzis Thanassis em 1975- que é capaz de ser a única adaptação realmente fiel para cinema de uma BD, embora o realizador tenha acrescentado um capítulo extra no final do filme.
(6)  É de assumir que seja um tipo de BD popular dos anos 70, feita por autores anónimos, mal remunerada e de conteúdo estereotipada, do tipo “Tex” da Bonelli ou algo assim...
(7)  Estas BDs estão exemplarmente reunidas em Les Mythes de Cthulu (Rackham; 2008)
(8)  Ouvroir de Bande Dessinée Potentielle / Oficina de Banda Desenhada Potencial
(10)  Podem ver o vídeo em vimeo.com/38618657 

segunda-feira, 9 de março de 2015

Norberto à chuva

Margarida Esteves
La Pie qui aime les livres; 2014

Já tinha escrito sobre o Norberto aqui, esse lamechas que é uma fofura de pessoa senão fosse um urso polar. Adquiri este zine na última Feira das Almas e bem que a autora bem avisou que este volume das "aventuras do Norberto" era diferente.
Fiquei a pensar se isto tinha chegado a uma dimensão tipo "Tijuana Bibles" em o que ia apanhar era um "Norberto vai ao Strip" mas não! Ele continua calminho e "kiduxo", realmente desta vez não "há aventuras" e todo o zine descreve apenas o amor do "urso-pessoa" pela chuva - ao ponto de coleccionar essa água vinda dos céus. Quem disse que os ursos não podem ser "zen"?
Deliciosamente Pop (ou será "Indie-Pop"?) o "Norbas" dá-nos alguns bons minutos de leitura "para toda a família" mas precisamente por causa disso, que venham mais zines do Norberto porque os meses são curtos!

(Só não percebo porque este texto tem o meu "record" de aspas)

terça-feira, 8 de junho de 2010

ccc@festival.de.beja.2010 ATÉ dia 13 de JUNHO!

A Chili Com Carne atacou este ano o programa do Festival de BD de Beja, não só com as suas edições à venda nas também porque organizou a vinda da exposição da antologia Greetings From Cartoonia. 

O esloveno Jakob Klemencic (Mesinha de Cabeceira Popular #200, Chili Bean) e Filipe Abranches foram os artistas presentes a representar o livro / exposição.
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A MMMNNNRRRG, que comemora este mês 10 anos de existência, por seu lado teve o croata Igor Hofbauer (do livro Prison Stories) como convidado e com uma exposição individual de bd. E por falar nisso, os associados João Fazenda e JCoelho também tem lá expos individuais!
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Até 13 de Junho vale bem a pensa ir a Beja! 
Go!
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Jakob Klemenčič (1968) é Historiador de Arte que desfruta de um calmo trabalho a "part-time" como foto-arquivista na Faculdade de Artes, em Ljubljana. Desenhou de forma mais ou menos séria bd entre 1993 e 1999 e depois outra vez entre 2003 e 2009. Nos dias de hoje, a sua actividade criativa que mais lhe dá mais prazer, segundo as suas palavras, é “impressão em boa e velha tecnologia”. Quando considerava-se como um autor de bd, a vida Jakob esteve bastante ligada com a Stripburger, revista que ajudou a sedimentar e onde publicou várias bd’s. As suas colaborações mais notórias estão publicadas nos dois volumes da antologia Stripburek (que passou pelo Salão Lisboa 2003), Honey talks – comics inspired by painted beehive panels (que visitou a Bedeteca de Lisboa em 2008 e que trouxe Jakob a Lisboa), Osmosa e XXX(Strip)burger. O seu projecto mais pessoal até hoje é Bratovščina sivega goloba (Forum Ljubljana, 2008), um livro de prosa ilustrado que inclui algumas bd’s, embora não possamos ignorar Anjos (Polvo, 2000), livro publicado apenas em Portugal e as participações na Quadrado e algumas antologias da Chili Com Carne.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011



Galleri Ocampo - Claesgatan 8 (inne på Mitt Möllan)

Utställningen Futuro Primitivo består av bilder från den 12e boken från den portugisiska föreningen Chili Com Carne och är ett samarbete mellan alla föreningens medlemmar. Serietecknare, illustratörer och collagekonstnärer har tillsammans gjort stafettserier på ett dystopiskt/ postapokalyptiskt tema: Den primitiva framtid som vi ständigt rör oss emot, det som kommer efter att det vi har nu brakat samman.
Serierna i boken är skapade av flera olika tecknare som gjort varsin strip som tillsammans bildar en historia. De portugisiska tecknarna i Chili Com Carne har fått sällskap av serieskapare från de städer där utställningen också visas. Från Malmö deltar Mattias Elftorp och Sofia Lindh. Efter att utställningen visats på den internationella seriefestivalen i Beja gick den vidare till CRACK!-festivalen i Rom, Helsinki seriefestival och nu kommer den till I Seriernas Värld i Malmö. Den kommer också att visas i USA och Brasilien.

Utställningen har ett soundtrack (från You Are Not Stealing Records) som
Utställningen arrangeras i Sverige av Wormgod: wormgod.net



Om Chili Com Carne
Föreningen Chili Com Carne är en ickekommersiell organisation av och för för unga konstnärer. Den bygger på medlemmarnas fria och spontana samarbeten. Sedan Chili Com Carne grundades 1995 har vi hjälpt och utvecklat en serie konstevenemang, som att organisera utställningar och publikationer. Vi främjar konstnärernas oberoende när det gäller den mångfald i form och innehåll som formar den samtida kultur- och konstscenen. Sedan 2000 arbetar CCC framförallt med utgivning av sina medlemmars verk i kollektiva eller individuella böcker och fanzines. CCC publicerar litteratur, serier, illustrationer och essäer och stödjer medlemmarnas andra redaktionella projekt genom promotion och distribution samt stödjer ett DIY etos och patos. Hemsida: chilicomcarne.com

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Puro Turbo Folk!


A Caravana Underground portuguesa saiu no semanário sérvio independente Vreme, duas páginas em bd por Aleksandar Zograf - aqui em pormenor, a preto e branco (sai a cores na revista) e em inglês, ou seja a versão a sair no livro da tour em breve.
...
Na capa, a Raínha do Turbo Folk a ser chamada de "putovanja" (putéfia? não pode ser!). Explica Zograf: «She definitelly is "puta", not "puto"! Putovanja means travels. Ceca went to Australia, just before another trial, I think, as she did some illegal money transfers while selling football players in her club... She did it years ago, but obviously some political figures are defending her from being prosecuted... Anyway, at Vreme they told me that magazine sells better whenever she appears on the cover, so it's good for the strip... » Mais sérvio não podia ser!

quinta-feira, 13 de março de 2008

Balcony power szene

Três antologias de bd, duas vindas da ex-Jugoslávia e a outra da Roménia.

Balkan Twilight (Vladimir Palibrk; 2007) é da Sérvia e Komikaze #6 (Komikaze; 2007) da Croácia, mas as duas são almas-gémeas: capas negras, colaboradores nacionais e alguns internacionais, coincidência de usar colaboradores comuns - em alguns casos com as mesmas histórias -, o aproximado formato 17x23cm (tornou-se um standart das antologias após os livros do colectivo esloveno Strip Core ou do Mutate & Survive), ambos assumem nas suas páginas as línguas maternas e a inglesa em perfeita orgia línguista, e ambas tem um suplemento (escondido nas badanas) com traduções das bd's escritas naquelas línguas "jugoslavas".
A única diferença é que Balkan Twilight pretende explorar temas dos Balcãs mesmo que os colcaboradores sejam estrangeiros como o italiano Alberto Corradi ou o esloveno Jakob Klemencic (que participaram no Mutate & Survive). Depois disso é o bordel de propostas em que é dificil dizer qual das duas antologias será a melhor... a Komikaze ganha porque tem mais páginas e menos trabalhos amadores mas por exemplo. Mas o mais estranho é que alguns dos cromos mais interessantes de cada país está menos bem representado na antologia da sua nação... O Balkan tem uma bd do croata Igor Hofbauer, um autor a seguir com muito cuidado, mas só aparece em "cadáveres-esquisitos" no Komikaze. Ao contrário, o sérvio Aleksandar Opacic, um hiper-activo do desenho bizarro já publicado no Mesinha de Cabeceira, tem três bd's no Komikaze... Um processo de reunião jugoslava ou a razão de haver tantos conflitos por aqueles lados?

Do Balkan, para além do Igor Hofbauer, há os "clássicos" Wostok e Aleksandar Zograf, o Septic - que Opacic e Zograf já me tinham falado quando estiveram no Salão Lisboa 2003 - um desenhador que meterá inveja a ilustrador de capas de bandas de Metal, e a francesa residente na Croácia (creio? começo a estar baralhado) Johanna Marcade que apesar de ter alguns vícios da formação francesa (creio que ela estudou em Angoulême...) tem nas suas mãos um texto bastante alucinado de um tal Radovan Nastic.

Do Komikaze, que é também o nome de um colectivo bastante animado pela dinâmica Ivana Armanini, sinceramente há trabalhos mais apelativos no geral, desde o nosso André Lemos ao Pakito Bolino (do Le Dernier Cri), da canadiana Nina Bunjevac ao francês Craoman (com um estilo preverso "cuty-pie"), os tais "cadáveres-esquisitos", etc... tudo se cozinha num livro com aspecto negro e forte. Só a capa mete respeito.


Ao lado da Sérvia, no país do Drácula e de outros horrores há malta que se diverte a fazer e editar bd num país com poucas tradições na bd. O colectivo Hardcomics lançou o sétimo volume de bd, dedicado à "Primeira experiência sexual" e com o apoio da Playboy romena!
Parece (quase) um livro pra putos dada a capa dura e à entrada haver aquela coisa que muita gente já faz como brincadeira, que é "Este livro pertence a _________". Depois disso é muitos pénis, algumas mamas e poucas vaginas em registo de humor juvenil orgulhosamante disseminado em inglês ou em romeno sem tradução possível. Acredito que a "coisa" esteja a fazer furor na Roménia porque se trata de genuíno - a julgar pela apresentação no Komikazen, a apresentação mais divertida sobre bd que já assisti - e se a maior parte da produção é muita amadora não deixa já de haver trabalhos (daqueles que se compreende) com interesse, sobretudo pela sua força gráfica apesar de serem muito "street-art". São os casos de Saddo, Matei Branea (um dos editores) e Alexandru Ciubotaru. De referir, os "stills" do filme de animação de Pierre Delarue (ok! é um francês!), os cães digitais a copular de Omar e a bd de Roman Tolici, um Hino ao Amor em jeito de vexo & siolência vectorizado... Não há dúvida que das 120 páginas a p/b (e algumas a cores) irá surgir qualquer coisa nos próximos anos. E se me perdoarem o cliché cito o Dracula (Bram Stocker) «- Not so! Alas! Not so. It is only the beginning!»

terça-feira, 13 de julho de 2010

Poststressthing (3/3): livros


O Meister Igor trouxe-me dois livros maravilhosos, que bem poderiam ter saído pela MMMNNNRRRG... Dois autores sérvios, Radovan Popović e Aleksandar Opačić (esteve presente no Salão Lisboa 2003) partilham o mesmo colectivo Studio Strip e a mesma colecção homónima de livros de bd pela Fabrika Knjiga.
Šaka (2007) ao que parece é baseado no Do Androids Dream of Electric Sheep? (vulgo Blade Runner) de Philip K. Dick mas escrito em língua sérvia e com tal densidade demencial de negro é quase impossível reconhecer o universo PKD. O desenho de Popović é o híbrido bastardo de Andrea Bruno e Bill Sienkiewicz, um caos gráfico tal que só um papel brilhante é que lhe poderia dar mais dignidade ao seu trabalho - na realidade se consultarem o trabalho em digital (ver mais abaixo) irão notar o quanto mais nítidas e bonitas são as pranchas.
Tajna Paukove Krvi (2007) que significa o "Segredo do Sangue de Aranha" de PKD nada tem embora Aleksandar já ter adaptado alguns excertos para bd em algumas antologias e o ambiente cibernético decadente poderia levar-nos para aí. Bd sem palavras de contornos surrealistas e "brutistas", é pura sodomia de Druillet com Martin tom Dieck, bestialismo sobre as linhas frágeis do Mattotti e necro-felação ao Malus... No meio um Batman mutante e um trajecto impossível de traçar racionalmente. A MMMNNNRRRG devia ter publicado isto!

Podem descarregar os livros aqui e aqui. Opacic já editou em Portugal, na primeira CriCa...

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Co.Mix (relatório 2025 das independências)


Foi bonito de se ver. O governo PSD fez merda com as Bolsas de Criação Literária, nomeadamente com as de BD e Ilustração para a Infância. Ao contrário do que aconteceu quando em o PSD deu cabo delas em 2003, desta vez houve uma reação da parte dos vários agentes da cena. Foi escrita uma carta aberta à Ministra da Cultura com centenas de assinaturas de autores, artistas, editores, formadores, curadores, jornalistas e quejandos, o que nitidamente fez o Governo mudar de atitude, voltando
atrás, remexendo tudo para ficar mais ou menos igual, desorientando as instituições subalternas (DGLAB) e ainda poupou uns cobres - uma vez que as bolsas em 2025 não foram atribuídas devido às referidas trapalhadas. Esta gente da política sabe que a Cultura é importante para o "show off" do capital simbólico, não haja ilusões sobre isso, talvez em 2003 não sabiam disso embora tenha visto uma vez o "Cherne" numa premiere do Manoel de Oliveira no CCB, sabe-se lá porquê... 

Curioso foi quem não assinou a tal carta: Catarina Valente - directora do maior certame de BD no país sendo que maior não quer dizer melhor - e Luís Louro que comemorou 40 anos de carreira, tendo sido este ano galardoado com várias medalhinhas do aparelho - é um autor perfeito para o sistema, especialmente de Direita, que quer espectáculo e inconsciência política. Realço um facto para não diabolizar os direitinhas em exclusivo, afinal a "gerigonça de Esquerda" não mexeu uma palha para que Fernando Relvas não morresse na miséria... 

É claro que o Louro nunca se sujeitou às Bolsas porque exige unhas que ele não tem, tudo bem, desculpa-se o idiotita, agora a Directora da BD Amadora estar ausente só mostra que, ou é uma menina bem comportada ou é ignorante - ou as duas coisas, porque não? Ambas personalidades gostam de se distanciar da maralha, armados em aristocratas da treta e são bons exemplos das contradições da BD portuguesa. Louro vende pouco mais do que qualquer outro autor português de BD (ou até menos se pensarmos que a Chili Com Carne tem reeditado vários títulos nos últimos anos) e a BD Amadora desde a saída de seu director Nelson Dona tem piorado na programação e no relacionamento com os actores da cena da BD. Apesar disso, ambos sabem usar os seus passados históricos para alavancar facilmente os seus nomes neste meio em que falta referência, reflexão e crítica. Ambos estão cada vez mais distantes do que se escreve nos jornais - como foi a capa do Ílpsilon / Público de 26 de Setembro - ou na TV - programa Pessoas que Desenham a Liberdade (RTP 2) de António Jorge Gonçalves que entrevistou vários artistas gráficos como José Feitor, Ana Margarida Matos, Ana Biscaia, João Fazenda, Amanda Baeza,... - ou do que se mostra em eventos como o WC/BD (que acabou este ano), Story Tellers, Flexágono (Festival Fólio, Óbidos) ou a Miragem que foi sem dúvida o evento do ano em relação à BD!

Comecemos por aí, a Miragem foi mais do que um mero mercado de edições independentes - que aliás proliferam pelo país: Autónoma (Almada), FLIFA, Raia, Parangona (Lisboa), Feira da Alegria, Mercado do Contra, Perímetro (Porto), Festival de BD e Fanzines de Alpiarça, Feira do Livro de Arte (Coimbra) e FLOP (Açores). Teve workshops, conversas incisivas (invés das punheteiras que acontecem nos festivais de BD), apresentou espetáculos que misturavam desenho e música - sem ser aquelas xaropadas dos "concertos desenhados" -, e apresentou a exposição Ponto Ponto Ponto que ultrapassava a mera prancha na parede. Durante dois dias de Maio, sob a batuta do colectivo A Goteira, na Biblioteca de Marvila, a civilização reapareceu na BD portuguesa. Uma ilusão, claro, antes e depois, a merda foi omnipresente.

Ainda assim o Festival de Beja recebeu Ana Margarida Matos e Amanda Baeza (finalmente!), a Tinta nos Nervos teve exposições de Miguel Rocha, Diniz Conefrey, Alexandre Piçarra e Beatriz Brajal - estes dois últimos no âmbito dos concursos Toma lá 500 paus e faz uma BD! de 2024 e 2025 respectivamente. A Bedeteca do Porto organizou a colectiva Próximos Capítulos com trabalhos de Carlos Pinheiro, Daniel Silvestre, Marco Mendes, Nuno Sousa e Sofia Neto.

Foi um ano pobre na internacionalização mas Ana Margarida Matos, Hetamoé e Ivo Puiupo participaram na antologia letã š! e Mao fez um mini kuš!. Matos e Bruno Borges participaram na revista eslovena Stripburger - aliás, o Bruno já faz parte da casa! O livro Andrómeda do Zé Burnay teve uma edição em Espanha pela Mondo Cane e o Mangusto de Joana Mosi voltou ao Canadá mas agora em língua inglesa - o livro originalmente apareceu primeiro lá em francês e em 2023. Também as participações em eventos internacionais foram mais reduzidos mas a Chili Com Carne esteve no Crack (salvo seja) em Roma e Viñetas desde o Atlântico n'A Corunha, Francisco Sousa Lobo na Feira do Livro de Leipzig, Burnay no Graf (Barcelona), Gonçalo Duarte, André Pereira e Bia Kosta no Autobán (A Corunha) e Ana Margarida esteve por Bruxelas na BD Comic Strip e na residência do Camões (salvo seja). Pedro Moura também foi ao Texas num projecto universitário com a š!, que ajudou a coordenar.

O contrário também é verdade. Tirando a presença do espanhol Miguel Ángel Martin na LouriBD e do grego-belga Ilan Manouach na Casa do Comum, não houve mais ninguém estrangeiro interessante para nos visitar, a não ser versões baratas da Marjane Satrapi e outros sucedâneos que se publicam neste mercado sem rasgo e amorfo que até já enjoa de tanto livro do Junji Ito. Finalmente publicou-se o Alack Sinner de Muñoz & Sampayo - se ignoramos o jornal Lobo Mau em... 1979 - pela Devir, que reeditou também o Silêncio de Didier Còmes (1942-2013) outra vez a preto e branco e é assim que deve ser impresso! Na colecção 25 Imagens a Levoir e o Público assaltaram à descarada as bolsas dos leitores, apesar dos bons nomes dos participantes: Tardi, Thomas Ott, Nina Bunjevac e Joe Pinelli - lembram-se quando a Polvo era boa em... 2002? Sobra Flash Point de Imai Irata, uma parceria da Chili Com Carne e Sendai, um autor japonês com teor político, como tal, desconhecido e desafiante. Ficámos à espera do HP de Guido Buzzelli (1927-92) com argumento de Alexis Kostandi, pela Escorpião Azul, anunciado em Março mas que só sairá agora em Janeiro de 2026.

Dentro do atrasos na Chili somos culpados de não cumprir as datas redondas, a reedição da comemoração dos dez anos da edição original da Plana Press (e finalmente em português) de Propaganda de Joana Estrela não foi em 2024 mas este ano. Tal como reedição de Mr. Burroughs de David Soares e Pedro Nora não foi feita este ano - para comemorar os 25 anos da edição original da Círculo de Abuso - mas sairá em 2026. A nível de reedições ainda de assinalar a colecção da série Pós-Tugal de Diogo Barros, em formato zine auto-editado - e aproveitando a deixa, houve uma nova página da série n'A Batalha : Jornal de Expressão Anarquista.

Soares regressou com desenhos de Sónia Oliveira com o livro Atrahasis, pela Kingpin,tal como a revista Umbra (OK boomer!), o projecto Magma Bruta com How to kiss a crying man da ex-jugoslava residente no Canadá Andrea Laukic, o "Gato Mariano" aos zines (para comemorar 10 anos de existência), Filipe Felizardo com o Bestiário dos Rios e Sim Mau com o zine Super Mum. Continuou a colecção O Filme da Minha Vida, o jornal Carne Para Canhão, os zines Mesinha de Cabeceira e Olho do Cu e títulos vários de Gonçalo Duarte e Samir Karimo. Começou o zine Enfarta-Brutos sob batuta de Tetrateles. Não sendo BD, é de se referir sempre as gráficas Imprensa Canalha, Noturno Azul e Opuntia Books. Destaques para as edições de autor de Pats - especialmente o título Sortido - e claro o Rei da BD Rudolfo da Silva que fez uma obra-prima intitulada Fusão Dimensional na sua Palpable Press, e que trata da gunaficação da realidade. É o livro do ano!!! É por isso que este "post" abre com a imagem da capa do Fusão, dah!

Giro foi falar com a Pats na Autónoma, em que no seu mini-zine Eye-volution publica uma BD-ensaio sobre o seu estilo gráfico. Estava sem óculos quando estava a comprar o zine e vi algures numa vinheta referências aos grandes monstros da BOA BD: Julie Doucet, Robert Crumb, Lynda Barry, Jim Woodring, e... 

- Espera não estou a ver bem este, quem é este?

- Rory Hayes...

- O quê? [além de começar a ficar pitosga também começo a ficar surdo ou não perceber inglês, cóf cóf cóf]

- Rory Hayes!

- Ah!!!!!! Mas... isto são tudo excelentes referências!! Como conheces esta gente toda? Os teus pais tinham uma boa "bedeteca" em casa?

- Não, descobri na 'net...

- A sério!? Parabéns! Tiveste uma sorte no teu algoritmo!!!

"Sorte"! Num país em que as editoras não publicam livros de referência - ou se publicam é vómito absoluto como se viu com os livros da Escorpião e Polvo deste ano (sobre a carreira do Louro, as leituras e escritas inócuas do evangelista Pedro Cleto e algo sobre da série Astérix relacionado com Portugal, WTF!?) - alguém conseguir "sair da linha" e encontrar os verdadeiros e grandes artistas que também raramente se publicam cá é mesmo um "random" do caneco! Esta autora não ter ficado nas "mangacadas" ou nos "comics" dos fachos gringos, é mesmo algo de agradecer à entidade divina da "Sorte"! Resta saber o que Pats irá fazer com este maná de informação de futuro, se conseguirá alguma vez algo poderoso e original. O Sortido, colectânea de comix curtos, aponta já para aí. Que ela invista mais e melhor em 2026 é tudo o que lhe peço!

Fechando aqui a secção da referência: a Agenda Cultural do Porto deu tempo de antena ao Rudolfo e Goteira num especial BD (melhor que o paspalho do Gross na Agenda de Lisboa em 2021), reeditou-se o meu texto-metade-de-livro Punk Comix com actualizações e foi feita uma mostra no Festival de Alpiarça, editou-se também um texto da minha intervenção sobre BD do BIG de 2023 no catálogo deste ano (que espero a quem o ler lhe ajude a encontrar novos caminhos na BD), Mosi foi entrevistada no sítio em linha inglês Broken Frontier, publicam-se textos e resenhas no jornal Carne Para Canhão, continua o trabalho de recuperação da imprensa underground nacional no blogue My Nation Underground e por fim houve umas entrevistas em linha com Rodolfo Mariano (por causa d'O Filme da Minha Vida) e Diniz Conefrey por causa da exposição retrospectiva na BD Amadora, curada por António Jorge Gonçalves, na Galeria Artur Bual. Foi o ano Conefrey sem dúvida, ainda se acrescenta mais duas exposições, uma Lisboa na já referida Tinta nos Nervos e outra na Bedeteca do Porto, ambas no âmbito do seu último livro Estância do Sino Coberto, pela Quarto de Jade. Uma verdadeira comemoração de carreira que não merece medalhas histéricas mas serenidade artística.

Por fim, os que desapareceram em 2025. Logo em Janeiro faleceu Arlindo Fagundes, figura mais conhecida pela olaria ou pela ilustração, no entanto foi dos poucos autores portugueses a publicar um livro de BD nos anos 80 e talvez o único a abordar temas contemporâneos ou sobre a realidade portuguesa em formato de livro - claro que havia mais autores, como Relvas, com estes temas mas eram publicados nos jornais (que se deitam fora depois da leitura) ou nos fanzines (difíceis de encontrar). Era um Comunista convicto, não teve direito a condecorações, embora a Biblioteca Municipal de Alcântara tenha feito uma boa exposição retrospectiva da sua obra, entre Maio e Junho. Faleceram autores de peso como norte-americano Jules Feiffer - que mudou a escrita da BD - e egípcio-francês Édika - um badalhoco de peso. Menos conhecido e mais gráfico que narrativo, também faleceu o francês Y5/P5 que influenciou a malta d'A Vaca que veio do Espaço nos anos 80 quando passou por Lisboa. Longe da BD mas que puserem os seus dedos uma vez ou outra nela, morreu o realizador David Lynch e o pintor Eduardo Batarda, cujos respectivos cão raivoso e "pinguim cego" ainda são monumentos por tratar. O jazzman e amigo Sei Miguel também nos deixou. Não fez BD mas algumas imagens que queriam ser isso, publicadas em 2017 pelo Homem do Saco / Marmita Gigante, sobretudo mostrou que gostar de BD é saber ser exigente e crítico, coisa que os agentes que trabalham na cena não o são...

Que 2026 seja melhor! Bom Ano Novo!

Marcos Farrajota

 

desenho de Pats in Eye-volution