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segunda-feira, 3 de julho de 2023

Novas do Super-Turunen




O finlandês Marko Turunen trouxe novidades suas nesta sua visita a Lisboa. Não são livros de BD infelizmente mas são fantásticos na mesma, é o Super Turunen em acção! 

Neon Barbarians é um álbum de ilustrações suas em formato LP cheio de misticismos Pop em que o único possível que o misticismo cria é caos. Algumas imagens vieram de capas de discos e o que sobressai são as cores (as famosas cores finlandesas!) em degradés vaporosos e brilhantes, com toda a pinta retro mas sem ser vomitante como era antigamente este tipo de produção. No fim de contas é uma vingança do vintage 80s mas com estilo desta vez! 

Walking with Lihis - não confundir com o Caminhando com Samuel, hahah - é um álbum de fotografias de Lihis, a cadela Pug salva do abandono em Espanha, que "posa" para Turunen. As fotografias são resultado de caminhadas com a cadela para (re)descobrir Kotka, cidade de onde Turunen é original mas que só regressou à pouco tempo. Quando o transhumanismo passar para os nossos bichos de estimação, será possível refazer a alminha da Lihis, de tão fotografada que é nos escombros da cidade, galerias de arte e neve - ou será a alma de Turunen? É incrível o equilíbrio entre pose, espontaneidade, arte, crítica e humor que Turunen consegue com este livro e estas fotografias, quase não há diferença entre elas e as suas ilustrações e BDs. Não é qualquer um... 



Por fim, o Super Turunen fez uma capa para a k7 Dead (Ruton; 2019) de Jussi Lehtisalo (dos Circle). Trata-se uma singela intervenção de sintetizadores tão frios como o inverno finlandês. O ar 3D velha guarda da capa ilustra bem a música que é.

Amanhã o autor vai estar na Tinta nos Nervos a fazer uma visita guiada de manhã, às 11h, aproveitem para ir lá já que foram preguiçosos no Sábado!

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Novas do Turunen


O Marko Turunen é um irrequieto obsessivo autor de BD finlandês, daqueles que faz Arte com uma sistematização, classificação e ordenamento das coisas. É muito raro fazer-se boa arte com calculismo mas não sei porquê ele consegue. Vies de Marko Turunen (Frémok; 2016) é dos seus últimos trabalhos, em que ele se propõe a "biografar" todos os gajos chamados "Marko Turunen" na Finlândia. É claro que essa tarefa é impossível e o motor principal é a própria vida dele, misturada com excertos de vidas públicas (suponho que Turunen andou a recolher perfis na Internet dos outros Markos), com a dele, episódios que passam por Lisboa e os seus conhecidos portugueses, aqui irreconheciveís: eu, Pedro Moura e Nuno Neves (do Serrote). Dividido entre BDs feitas por ele, ou com a sua companheira da altura, Tea Tauriainen, e textos ilustrados, lê-se como um puzzle que tem o seu quê de George Perec e o livro Vida Modo de Usar...




ADHD Sheikki (3 volumes, Daada, Zum Teufel; 2015-17) é ainda mais estranho e perturbador. Um gajo vestido de árabe farta-se de cometer crimes ou acções erradas ou imorais em episódios desconexos, sem cronologia tal como como Turunen faz nas "Vidas de Marko Turunen" ou noutras obras suas - talvez seja uma recolha de histórias que viu ou ouviu em Lahti, conhecida por ser uma cidade de "barra-pesada". Como sempre ele abusa de referências Pop tornando o visual destas BDs uma espécie de território hiper-sexualizado do "Second Life" com toda a má-onda iconoclasta inerente. Ler estes livros soa a islamofobia, o que me perturbou imenso até ser-me desvendado que ler estes livros na Finlândia e fora dela têm significados muito diferentes. "ASHD Sheikki" é baseado numa pessoa real, um doidinho da aldeia, ou melhor, um finlandês dos anos 70/80 que se vestia de Sheik e vendia petróleo. Uma personagem provavelmente que sofria de esquizofrenia, o que explica os episódios absurdos das BDs, que Turunen conheceu e que lhe sempre fascinou. Doidinhos é coisa que não falta na Finlândia, felizmente, para fazer livros geniais como estes que não estão traduzidos noutra língua, sendo a tradução oferecida pelo o autor.

domingo, 12 de janeiro de 2025

1 livro 1 disco 1 zine (1?)

Aparentemente o pessoal cagou prá minha sugestão de passar a escrever mensalmente sobre edições que não conseguem entrar n'A Batalha - ou por falta de periocidade em que se encontra o jornal ou por alguns dos objectos não fazerem sentido numa publicação anarquista. 

O certo é que Dabstep dos Greengo já é de 2018 mas só agora é que arranjei uma cópia do CD, editado pela Raging Planet. Apesar de fazerem parte dois terços dos "nossos" Krypto, só agora dei-me ao trabalho - uma aparelhagem à séria ajuda imenso - de ouvir isto com a seriedade que merece. Seriedade!? Má escolha de palavra nem que seja porque todas as imagens do disco são sobre erva - sim, aquela que tem THC - chegando ao cúmulo que a versão CD (existe também um LP) tem um recorte em cartolina da "planta maldita". Som pesadão na senda do Stoner que esteve tão em voga no pré-covid, ali onde Sleep largou as botas para os punks. É incrível o que um baixo + bateria fazem - e uma voz (já agora) que não sendo nada de especial, é funcional para o "género"... obviamente  que a união com Gon para se transformarem em Krypto fez uma diferença brutal nesse nível (e nos concertos ao vivo). Sim, para simplificar isto é música brutal para ganzados...

Só faltam agora o fanzine e o livro. 

Sendo as diferenças ténues nos dias que correm nem sei muito bem por qual começar. Pode ser este Bonança (Imprensa Canalha; 2024) de José Feitor - autor/editor que já sofre de preguiça digital a julgar pelo abandono do blogspot em preferência ao instagram... Ou será puro aceleracionismo? 

Belo A4 todo DIY, ainda tem a ousadia de fazer 150 exemplares num mundinho chato o nosso em que o pessoal faz tiragens tão caganitas e cheios de cagufa.

Com uma prosa tão deliciosa como esta: Até os mais pobres vivem agora melhor que os ricos de antanho - a comida é-lhes entregue à porta, ainda fumegante, por mensageiros de fraque emprestado que se deslocam em traquitanas rocinantes. (...) Não há luta de classes que resista. É complicado saber por onde começar a escrever sobre este livro de autor (zine?). Visualmente Feitor está em modo de "bonança" (aproveitando o título), sempre imaginativo, com fusões gráficas inesperadas e cada imagem produzida é uma fofura de opressão - que dizer daquele giríssimo Yeti capitalista (o chapéu do capitalista representado à 100 anos) com uma corrente e cadeado? É um banqueiro que nos vêm prender prá vida com um empréstimo a contrair? Que seja! Ele é bem giro para ampliar e meter numa parede lá em casa. A melhor opressão é aquela que não sentimos já alguém o deve ter dito... 



UFOs in Lahti
(Auto-edição, 2024) de Marko Turunen é a colectânea dos quatro "comic-books" do que aqui escrevi há mais de 10 anos! O tempo passa... 
 
Roubo a mim mesmo o que escrevi sobre ele n'A Batalha: O Xeique PHDA do finlandês Marko Turunen foi um dos livros de BD mais impressionantes e dos mais ignorados do ano passado. Pessoal da BD esquece, tudo parvo como sempre. Pessoal da psicologia & psiquiatria, também nickes, se calhar só sabem ler bulas médicas… Bem sei que como editor deveria estar caladinho em lágrimas mas chateia-me que (...) não ligaram pevas à coisa. Que raiva! Mas o problema nem é só português, a obra de Turunen existe quase toda publicada em francês pela Fremok e ninguém quer saber. Mesmo na Finlândia, o autor queixa-se que lhe ignorem. Bóf!
 
Entretanto Turunen meteu em marcha um plano de reedição em inglês de quase todos os seus livros. Deve pensar que o mundo anglo-saxónico seja mais aberto, ou que esta língua franca ajude a chegar a mais público. (...) Para quem não sabe Turunen faz BDs sobre a realidade, da sua vidinha ou de outros à sua volta, o que é inesperado na sua obra é o imaginário, em que desenha essas banalidades com representações da cultura Pop. Por isso Marko é o “Alien”, um ET baixote com buraco na cabeça (uma vez que Turunen quando era criança foi atingido por uma bala) e Annemari é a Greater Woman (uma espécie de super-heróina toda em latex fetichista S/M - e que gralhas no passado, e que persistem nesta edição também, aparece como Grater Woman, o que me levou a escrever algumas vezes como "Mulher Raspadora", ops!). Como uma crónica disfuncional, vamos assistindo à vida do casal, (...) As banalidades ganham pujança existencial com o lixo Pop que Turunen utiliza para ilustrar estes “slices-of-life”. Uma poesia emerge desta lixeira que parece quase uma afronta aos detourments dos Situacionistas que usavam a BD pop para mostrar a miséria da vida capitalista. Algumas destas reedições em inglês foram mexidas – supressão ou acrescento de vinhetas, algumas foram agora publicadas a cores ou justamente o contrário, aparecem a preto e branco quando eram originalmente a cores. Porquê? Pouco importa para vocês, nunca souberam da existência deste autor, né? Para quê entrar em detalhes agora? Oh, lembrei-me que ele já cá esteve duas vezes com belas exposições, no Salão Lisboa 2005 e na Tinta nos Nervos em 2023. Os livros do autor podem ser encomendados no seu sítio em linha superturunen.fi (com portes horríveis porque os correios finlandeses foram privatizados) ou em Portugal pela livraria Tinta nos Nervos.

Ufa, foi mais fácil que pareceu, prometo ser menos preguiçoso em Fevereiro...

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Dada dada dada


A Daada Books é a "label" do finlandês Marko Turunen, inicialmente criada para publicar trabalhos seus, tendo pouco a pouco investido em outros autores como Katja Tukiainen ou os alemães Anke Feuchtenberger e Martin tom Dieck.
Em 2009, Turunen desistiu na sua editora, em parte desiludido com as vendas fracas destes autores fortes mas "difíceis". Tanto que o terceiro volume da série Ufoja Lahdessa já era publicado por outra editora. Passado um ano, a Daada volta e regressa aos trabalhos de Turunen com dois volumes de Der Round e o quarto volume de Ufoja (no prelo). Der Round são livrinhos A6 que dão a entender duas continuações do trabalho de Turunen, por um lado a exploração autobiográfica e iconoclasta que nos habituou com as desaventuras de "Alien" (seu alter-ego), só que desta vez Turunen usa "Der Round", o polícia do futuro que parece saído das bd's de Kevin O'Neill; por outro, explora bd's parvitas com animais ou seres antropomorfizados em situações mundanas, ou seja, temas que também já explorou no passado e que poderão ser vistos na antologia Supernormal. Nada de novo excepto pelo facto que o trabalho continua a ser único e atraente.
Entretanto o regresso da Daada também significa a publicação de trabalhos de alunos de Turunen. São livrinhos de putos com pouco mais de 20 anos cheios de vícios da idade: Manga, humor, animalitos e afins... Tudo muito verde e com pouco sumo, excepto Slaagi de Mikko Luostarinen, verdadeira ofensa visual e mental que parece um mau-híbrido entre o Mike Diana (o naíf, a violência) e Tommi Musturi (o virtuosimo, o psicadelismo). É uma antologia de trabalhos em que a melhor estória passa-se quando um grupo de skinheads ao cair num vórtice espacio-temporal vão parar algures a África subsariana...




Apesar do interesse muito relativo destes livros, são sobretudo uma forma simpática de publicar novos autores e de os lançar à praça pública. Seria bom ver o mesmo a acontecer com os alunos dos cursos de bd em Portugal, ao menos saberiamos que existem autores a sairem desses sítios... mas se calhar não existem autores novos nesses cursos. A sensação que tenho, especialmente depois de sair o Destruição é que na bd portuguesa não serve de nada haver cursos de bd, os autores continuam a construir-se nas margens do(s) sistema(s). Se a bd é marginal em relação às outras artes, é curioso reparar que é nessa mesma marginalidade que reside a sua maior força criativa. O que aliás, não é novidade nenhuma, são sempre nas margens que se encontram as obras interessantes e originais - seja na música, seja no cinema, etc... porque razão haveria de ser diferente na bd?

sábado, 1 de julho de 2023

Macacos me mordam! MARKO TURUNEN em LISBOA!!!!!!


CONVITE   |  INAUGURAÇÃO 
SÁBADO  1  JULHO  16h
Marko Turunen

  Macacos me mordam !
Desenhos e transparências
na TINTA NOS NERVOS

É com muito prazer que convidamos para a inauguração da exposição do artista finlandês
Marko Turunen «Macacos me Mordam ! Desenhos e transparências.» 
 
Durante o evento, será igualmente lançado o seu mais recente livro Xeique PHDA, edição da Chili com Carne, numa conversa e sessão de autógrafos com o autor.
 


Macacos me mordam! é o nome da exposição de Marko Turunen que reúne imagens desenhadas ao longo de quase duas décadas. Pode-se encontrar tanto humor como sofrimento nesse título, uma antiga expressão portuguesa. Esses dois elementos são uma dupla comum quando se explora a arte de Turunen.
Na Tinta nos Nervos, apresentam-se quatro conjuntos distintos de trabalhos que partilham o mesmo vocabulário e a mesma força das imagens. Pelos diferentes suportes, compilando o que tem sido a temática recorrente dos seus trabalhos, transitam seres do outro mundo e muitas bizarrias deste, com ursos e extra-terrestres de outras galáxias, vaqueiros, pistoleiros e criaturas diversas deste far, far, west, numa espécie de non-sense criativo e surreal.
 
Marko Turunen é um artista e ilustrador baseado em Kotka (uma pequena cidade costeira na Finlândia perto da fronteira entre a Finlândia e a Rússia). Formou-se como escultor em 1997, mas a banda desenhada é a parte mais visível da sua produção artística. Tem livros traduzidos em francês, italiano, alemão e agora em português
 
Esta exposição tem o apoio do IIAF (Instituto Ibero Americano da Finlândia)


domingo, 12 de outubro de 2025

1 livro 1 disco 1 zine (10)

Depois do "grande livro" do Gato Mariano, o bichano crítico dos comportamentos culturais dos  seres humanos andou meio desaparecido do físico e largou a canga da música portuguesa publicando tudo na rede social "instagrana" - que algumas pessoas, como eu, não podem aceder. Recentemente o seu criador Tiago da Bernarda fez alguns zines - O Gato Mariano : Herói do Proletariado e O Gato Mariano contra o Mercado - talvez para sentir outra vez o cheirinho do papel e da tinta. Eis que chegamos ao O Gato Mariano : Miau de vários ofícios (2020-2025) com aspecto de "single" pois trata-se de uma compilação temática das "tiras humorísticas" do Gato. Esta primeira - com bela capa em serigrafia - por acaso anda pelo mundo da música indie e o seu mercantilismo. Humor inteligente e refinado que morde em todos mas claro que os gatos quando brincam a morder sabem controlar as dentadas para não magoar o dono. 

Compras aqui!


O finlandês Marko Turunen como já tinha escrito aqui anda a reeditar a sua obra completa para belos livros redigidos em inglês. A nova fornada de livros inclui o Der Round compilado, num formato maior e com mais páginas mas o inesperado é este Goose Step in E Minor! Escrito por um amigo da juventude de Turunen, Mika Jurva em 1992, é originalmente uma das primeiras tentativas de Turunen fazer uma BD e publicá-la, com ambição de se tornar autor de BD. A BD foi feita com o esforço da juventude e foi redesenhada há poucos anos quando Turunen aderiu às novas tecnologias de desenho - via digital - devido a problemas de vista. A BD aqui publicada foi "recuperada" como um exercício de Turunen para se habituar à maquinaria. É giro que a ideia de um detective hipopótamo seja mais tarde recriado na série Elephantmen (Image; 2006-). Topa-se - e é assumido - a influência cósmica-esotérica de Moebius quer na história (hermética) quer no traço linha-clara-yang, influência justificada porque os dois putos finlandeses estavam isolados q.b. numa terrinha - oi! Não havia internet, pá! Lê-se com frescura surrealista de outra altura da Humanidade... Resta dizer que o Mika faleceu com 30 anos, em 2003, e esta é uma forma bonita de homenagear alguém que desapareceu.

Novo disco de Vaiapraia, sim um LP!!! Alegria Terminal (Tons to Tell; 2025) é um disco limpinho, finalmente percebe-se tudo o que o Rodrigo canta e/ou berra. Assim os seus psico-dramas amorosos ou tretas do quotidiano aumentam a sua dimensão a emoção - e sim, os heteros + cis podem-se identificar com as letras não fosse o Rodrigo um escritor astuto. A parte instrumental está cada vez "experimental" mesmo que isto significa usar as matrizes gastas do Garage, Punk e Indie mas o que poderia dar em clichés chatos é justamente o contrário que acontece, este álbum brilha como uma estrela. Meu, se este não for o disco no ano, então estamos num país todo fodido.

Sei que há uns problemas com a edição, por isso, eis um aviso à population: despachem em arranjar um exemplar senão terão de comer papa digital.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Ufoja Lahdessa 4/4


Marko Turunen
Daada Books; 2011

Anunciado o regresso do selo editorial de Turunen era natural que ele concluísse a sua série de comics de "OVNIS em Lahti" onde a vida mundana de Turunen e a sua companheira desde sempre Annemari Hietanen, usando os alter-egos "Rapaz ET" e "Mulher Raspadora", é transfigurada pelo uso de um imaginário Pop enegrecido pelo grafismo de Turunen. Sendo o registo a preto e branco, existe um misto de imagem "realista" com corpos desproporcionados de "personagens de bd popular", uma forma que o casal nos habituou de exagerar discursos ou a esconder algumas vergonhas mais pessoais. Este universo de "esconde e mostra" é perfeitamente normal na autobiografia, só ninguém está habituado é ver figuras ficcionadas a servirem de "avatar" para episódios realistas.
Neste número, estão registados momentos que irão conduzir ao final trágico de Annemari, vítima de Cancro. Não sei se Turunen irá realizar mais alguma bd sobre este terrível e traumatizante acontecimento mas desde já este livro não deixa de ser um antípoda de Our Cancer Year de Harvey Pekar [et al], impedindo voyeurismo e exibicionismo tão típico dos norte-americanos e mantendo as premissas surpreendentes de "humor" (negro) face à falta de sentido da Vida.

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Perturbação de Hiperactividade com Défice de Atenção



O volume da Colecção RUBI, intitulado Xeique PHDA de Marko Turunen, diz o seguinte:

Um xeique finlandês vestido de forma tradicional do Médio Oriente foge numa bicicleta, perseguido por polícias suecas, deixando um rastro de crianças sem paternidade assumida, mortes a sangue frio, furtos de casa e carros,... 

Eis um caos existencial que nos aqui é relatado, sendo que o Xeique PHDA (Perturbação de Hiperactividade com Défice de Atenção)  é uma personagem real, romanceada pelo autor finlandês Marko Turunen.

O trabalho de Turunen baseia-se na realidade, muitas vezes a mais monótona delas todas, apimentada com uma estética Hiper-Pop em que temos a sensação de estarmos imersos num universo Meta. Assim no horizonte do quotidiano, co-habitam "mulheres-com-excesso-de-mangá", homens "funny animals" ou super-heróis 3D, entre outras criaturas mutantes da cultura popular da Aldeia Global.

Embora o autor já tenha estado presente com uma exposição individual no Salão Lisboa de Banda Desenhada e Ilustração, em 2005, esta é a sua estreia portuguesa em livro. Curiosamente a autora Tea Tauriainen que participa num episódio deste volume já tinha sido publicada cá no Mesinha de Cabeceira.


Publicado originalmente em quatro volumes separados na Finlândia, entre 2015 e 2017, o último num formato maior que os três primeiros - a lógica do conteúdo explica a radical mudança de formato - foi publicado em francês pela importante Frémok num só volume, como acontece com esta versão portuguesa, cuja tiragem inclui para 100 exemplares uma oferta exclusiva de um mini-zine de material extra. Para aceder à oferta especial e limitada, apanágio da colecção RUBI, é preciso adqurir directamente à Chili Com Carne - e não estar à espera de encontrar numa estúpida cadeia de lojas, por exemplo, dah! Tenham juízo! E seja como for isso já ESGOTOU!!



360p A5 2 cores (56p noutra segunda cor) + capas duplas 1 cor + sobrecapa 2 cores

+ zine A6 para os primeiros 100 que o apanharem! Entretanto esgotou!!!

à venda na nossa loja em linha, Tinta nos Nervos, Kingpin, Snob, Linha de Sombra, ZDB, Socorro, Tigre de Papel, Universal Tongue, Utopia, BdMania, Alquimia, Língua nos Dentes e Matéria Prima.






Historial:

... 

Recital da obra por Ana Água na Noite da Literatura Europeia na Loja de Bicicletas de Carnide, 12 de Outubro 2024.




FEEDBACK:

(...) devorei o livro do Turunen! (...) Aquilo é massacre de javardice até ao twist final que dá uma gravidade brutal à obra, conseguindo alterar toda a percepção que se tem dos eventos passados. Pobre Xeique... (...) Este livro é bem mais limpo e "vaporwave" mas é sem dúvida uma adaptação perfeita do estilo ao conteúdo que quer explorar. Deve ser dos artistas de BD actuais que mais gosto e respeito, e coloco-o de certa forma a par do Igor Hofbauer, por exemplo, na medida em que conseguem navegar num universo estético muito próprio e surreal, mas sempre com referentes pop muito presentes. 
André Coelho (via email) 


 Só agora, na calma de uma praia flat é que li o Xeique. Devo dizer que o mar se agitou, com a leitura. 
 Tentei uma vez ter amigos esquizofrénicos, quando estive internado com o surto psicótico de 2010, mas um estava em contacto com Deus e Deus dizia-lhe que eu era pedófilo (origem de O cuidado dos pássaros - estava tão stressado que acreditei no Deus dele durante três dias). Outro amigo mandava-me mensagens de texto sobre conspirações incompreensíveis. É tudo um bocadinho mais intenso, para aqueles lados. Há uma sintonia entre fantasia e realidade que nós não temos. 
 Não sei o que achar de entrar na saúde mental adentro sem lá estar a viver - é como roubar um manto alheio, de um profeta ausente. Como BD é bestial, visualmente, não devia funcionar mas faz isso mesmo.


Adorei. O desenho é fabuloso, a cena é decadente e casual, fica na cabeça. Perdi-me uma beca no guião, mas nao importa, porque cria um ambiente sensorial brutal.
Júlia Barata (via email) 

(...) é mesmo um excelente livro (...) gostei da linguagem próxima de uma 'cultura do lixo'. estava mesmo completamente a foder a cabeça, mas depois percebi o porquê da mesma e como essa linguagem reforça a mensagem que se quer passar.
JB (via email)

o Marko sabe contar uma boa estória.
Jucifer (via email)




Marko Turunen (Kotka; 1973) apesar de estar formado em Escultura na Academia de Artes de Turku, a sua praia é o desenho, trabalhando como ilustrador e autor de banda desenhada numa carreira longa que começou em 2000, materializado em vários livros publicados na Finlândia, Bélgica, Suíça, Alemanha, Itália e Estónia, além de várias participações internacionais na Eslovénia ou em França. Em 2004 ganhou o prémio de melhor condutor, na Finlândia, um concurso sobre regras de trânsito, segurança e condução económica.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

rapidez final... ufa!

Ainda há "coisas" vindas do Festival de Helsínquia para divulgar... bom aqui vai:

Ufoja Lahdessa 1/4 (Daada Books; 2008) do finlandês Marko Turunen (que esteve presente no Salão Lisboa 2005) é um comic-book que compila estórias curtas embrulhadas como se fosse uma revista dedicada a OVNI's e fenómenos paranormais. As bd's de Turunen estão realmente muito bem embrulhadas porque elas são bastante paranormais. Os factos biográficos são dramatizados e representados com excertos de cultura Pop (sobretudo de bd fantástica ou de super-heróis). Seja uma cena de ciúmes com a sua companheira Annemarri Hietanen ou a compra de um livro numa livraria podem ser mostradas de forma absurda com figuras anatomicamente impossíveis, a começar pelo alter-ego de Turunen, Alien, que é isso mesmo, um "alien" baixote. Impresso a preto e branco o desenho de Turunen revela-se virtuoso e decadente ao mesmo tempo podendo encontrar relações com o italiano Andrea Bruno e um gajo qualquer da Marvel. Já está a ser anunciado o segundo número desta fantástica revista!

Next stop, a Suécia... com Emelie Östergren que tem dois zine publicados: Solflickan e The Evil Dress (imagem) ambos de 2008 (?). O primeiro é uma bd sobre a sobrevivência ao frio nórdico e apobreza rural, entre um homem e um javali (que fala) num ambiente onírico devedor a Anke Feuchtenberger ou a vizinha (finlandesa) Amanda Vähämäki até por razões gráficas: o uso de grafite, algumas composições e representações de personagens. O segundo zine é dividido em várias bd's e ilustrações sequenciadas tem um fundo sobre a solidão em que os vestidos servem de metáforas. Menos coerente que Solflickan há imagens que quase lembram o velho mestre italiano Crepax. Desconfio também que sejam trabalhos anteriores a Solflickan. Emelie poderá uma autora a seguir...

Por falar na Suécia, é onde está actualmente a viver o português Rui Tenreiro depois de ter passado pela África do Sul e Noruega. Ele criou a Soy Friends, uma editora de livros de autor tal como é a Opuntia Books, Le Dernier Cri, etc... São graphzines impressos a lazer, quase sempre em papel cinzento num formato A5 ou menor, de 20 e poucas páginas. Tiragens limitadas a 50 exemplares, numeradas e assinadas pelos os artistas que na maioria noruegueses também podem ser estrangeiros como o norte-americano Tim Pigott, cujo o título do seu livro Chicago Obituary Pictures já diz tudo. Os retratos lembram-me vagamente uma experiência "oubapiana" do Lucas Almeida num número do O Hábito faz o Monstro pela textura dos desenhos e pelo ar naíf das figuras. Não sei o que é mais "creepy", se são as expressões dos mortos (ainda eram vivos quando tiraram as fotos, claro está) ou a atitude do autor fazer disto o seu corpo de trabalho... Mais "creepy" é o trabalho de Martin Skauen - o livro não tem título - que lembra as visões apocalípticas de Hieronymus Bosch mas mais Gore, sexuais, contemporâneas e desenhadas a grafite - livrinho impressionante! Nihilism, Emptiness, Nothingness & Nonsense de Kalle Runeson é mais "zine old-school" à base de trabalhos visuais de colagem, desenho e texto de teor iconoclasta Pop. Apesar da produção perfeita da Soy/Rui - o livrinho é impresso em vários papeis de cor - não tem o mesmo efeito que os anteriores.
Alguns deste zines estarão à venda no espaço da Chili Com Carne a abrir para a semana, dia 27.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

abrindo as malas da viagem...

É o regresso do SPX 2008 (Estocolmo) e serve este "post" para dar as novidades:

_Temos para oferta alguns exemplares do último número do jornal finlandês de bd, Kuti - já várias vezes divulgado neste blogue. É um número especial SPX, com trabalhos de autores finlandeses e suecos. Os textos estão em sueco mas com legendas em inglês.
Esta oferta é exclusiva aos sócios da CCC e que comprem qualquer artigo que seja da Finlândia ou da Suécia (Boing Being, Napa, Daada) ou que tenha participação de autores finlandeses ou suecos (Chili Bean, Mesinha de Cabeceira Popular #200, Mutate & Survive, Canicola).

_Já é uma revista que se tem escrito com alguma regularidade (o #5 e o #1) e que número para número vai crescendo em forma e conteúdo: C'est bon anthology do colectivo sueco C'est Bon, com quem a CCC partilhou mesas na SPX. Trouxemos para venda os quatro volumes da terceira série (#17/20; Ago'06/Dez'07) que marcam a distribuição mundial desta publicação através do catálogo Previews (que distribui todos os comics norte-americanos para as lojas especializadas). A revista continua a sua redacção em inglês e está com um aspecto luxuosa, gordinha e brilhante devido ao papel couché. Tem mais colaborações de autores internacionais (ou seja, "não-suecos") e mais trabalhos arrojados - uma lista de nomes explica por si só a qualidade que a revista atingiu: os alemães Martin tom Dieck (que estará este fim-de-semana no Festival de BD de Beja!) e Arne Bellstorf, o sérvio Danijel Savovic (vol.1), o português Pedro Nora, o sueco Knut Larsson, os finlandeses (que estiveram no Salão Lisboa 2005) Marko Turunen e Jyrki Heikkinen (vol.2), o francês Yvan Alagbé, os italianos Andrea Bruno e Stefano Ricci (vol.3), ou ainda a finlandesa Amanda Vähämäki ou a israelita Rutu Modan (vo.4).

_Um dos editores desta revista é Mattias Elftorp que também é autor de bd. A série Piracy is Liberation é o seu trabalho mais conhecido, que já se encontra num quarto volume editado pelo colectivo desde 2006.
Graficamente próximo de (ou demasiado influenciado por) Brian Wood e Ben Templesmith, Elftorp é menos elegante em questões de anatomia, domina as lutas do preto e branco e dá bom uso de tramas e texturas.
Cada volume apresenta entre 64 a 72 páginas, o que mostra o enorme trabalho com que o autor está lançado. A trama de um futuro não longe do nosso, passado numa megalopólis sem memória, onde piratas informáticos procuram destruir o sistema de dominio dos padres capitalistas, poderá lembrar Matrix ou a bd Invisibles de Grant Morrison (este último menos conhecido mas mais copiado - os criadores do Matrix que o digam) mas não deixa de ter ideias próprias que estão em gestação - gosto particularmente de uma cena em que duas personagens Hackers que fazem "copy'n'paste" deles próprios do mundo virtual para o real. De certa forma as cerca de 240 páginas ainda não pareceram suficientes para perceber o que se passa por aqui - lógica de Manga? À primeira vista, poderá haver uma excessiva exploração de lugares-comuns de "anarco-glamour" mas uma leitura mais atenta revelará mais inteligência do que a visão superficial. Esperando por mais volumes até 2012?

_Nesta edição do SPX assisti, de certa forma, a saída do armário da bd sueca alternativa... enquanto os finlandeses há anos que traduzem as suas bd's para terem feedback internacional, os idiotas dos suecos sempre tiveram fechados no casulo editando livros na língua que nem os ABBA usavam para ganhar o Eurovisão. Resultado, tirando o Max Andersson e o Lars Sjunnesson (este último participou no Mutate & Survive), que vivem em Berlim, e o Gunnar Lundkvist e Joakim Pirinen (editado em Portugal pela Azul BD3), todos eles da "velha guarda" nada mais se conhece da bd sueca. Aliás, as minhas duas visitas ao país - e à SPX - não se traduziram em regressos com malas cheias de novas bd's, livros e zines... justamente o oposto do que aconteceu quando vou ao festival de bd de Helsinquía.
Saiu a antologia From the shadow of the northern lights : an anthology of Swedish alternative comics : vol. 1 (Galago; 2008), uma antologia em inglês (yeah!) que terá distribuição pela norte-americana Top Shelf. Podemos chegar à conclusão do que se passa por lá: há a "velha guarda" (já referida) mais gráfica e experimental, depois há a autobiografia chata dos anos 90 - daquela que ninguém têm nada para contar ou que saiba contar de forma interessante, havendo montes de históras sobre homossexualidade (um sucesso no mercado da bd, creio) - e por fim, o regresso do grafismo e bizarria bruta com nomes novos como Marcus Ivarsson, Marcus Nyblom (autor da capa), Knut Larsson e Kolbeinn Karlsson. Apesar das lamechices de alguns autores, vale a pena ler estas 200 páginas a preto e branco.

_E é este último grupo de autores referidos que faço um destaque porque como já escrevi, raramente há razões para comprar edições suecas por causa dos grafismos pobres e pela barreira da linguagem. As excepções são as seguintes: o livro Skissbok (Kartago; 2007) do Marcus Nyblom e os zines de Kolbeinn Karlsson: Benny Bjorn will never return e Rules of animation (com Hanna Petersson; 2007) e Harvar Vilda Vastern (2007?).
No primeiro caso coloca-se a questão se "skissbok" poderá mesmo significar "livro de esboços"... apesar da estrutura do livro apontar para isso porque os trabalhos publicados não parecem ter ligação aparente. Ora são desenhos soltos, alguns sim com aspecto de "esboço", ora são bd's mudas e insólitas como "Alice no País das Maravilhas". São as bd's que têm um ar mais esboço porque o estilo gráfico que Nyblom usa é "realista" e "certinho" bem longe das suas ilustrações que têm aquele aspecto derretido e degradado de quem está em sintonia com a ilustração deste milénio - embora as raízes deste tipo de desenho e imaginário estejam na Raw e no Fort Thunder, dos anos 80 e 90 respectivamente. É um livro "fifty/fifty".

Quanto a Kolbeinn (várias vezes pensei que ele chamava-se Cobain como o vocalista dos Nirvana ou Kobaïan, a língua inventada pelos prog-rockers franceses Magma) também está em sintonia com o tempo: degradação material e moral, fascínio pelo Pop (o Benny Bjorn para quem ainda não está bem a ver, é um dos tipos dos ABBA), monstros peludos e outras criaturas de série B. Zines fotocopiados em formato A5 com capas a cores, os dois primeiros são de ilustração em parceria com uma tal Hanna Petersson em que as autorias não são identificadas (embora as suspeitas sobre a autoria dos desenhos de Kolbeinn recaiam para os que têm mais texturas); o último é o único de bd - que está também publicada na antologia From the Shadow (...) - com uma estória violenta homoerótica do oeste norte-americano - acho.

_Por fim, material dos inteligentes finlandeses - é a segunda vez que fico com a sensação que a Suécia, ou pelo menos Estocolmo é dominada por campónios e novos-ricos.
Novidade absoluta: Supernormal (Daada; 2008) de Marko Turunen, um dos muitos autores de bd peculiares da Finlândia e também dono da editora Daada. Não é novidade mas é importante na mesma para qualquer português ignorante da cena bedéfila da Fenoscândia: Mystic sessions Vol.I (auto-edição; 2006) de Pauliina Mäkelä.
No primeiro caso são reedições de bd's de zines antigos ou ainda algumas bd's fora do padrão do universo do autor - que nos visitou no Salão Lisboa 2005. Aqui vamos encontrar bd's parvas de super-heróis criadas pelo Turunen de 1984 (de 11 anos) e redesenhadas pelo Turunen de 1998 (de 25 anos) que dão um sentimento estranho para qualquer apreciador de "nerd culture", há fotonovelas nervosas das aventuras do Sr. Pinguim (um boneco azul feito por Turunen) a interagir com patos e com um cão (hilariante!), algumas bd's "minimalistas" de coelhos ninjas ou de contos tradicionais sobre ursos broncos,... enfim, mais de 400 páginas A6 de Arte e pura diversão.
O segundo caso é um livro agrafado A3 de 16 páginas a preto e branco que foi criado pelos - e serve para quem quiser ilustrar - distúrbios e desvaneios psico-acústicos de projectos musicais como sunn0))), Earth, Burzum, Wolf Eyes, Melvins entre outros "dronemeisters".
Existe uma narração feita de imagens de uma figura feminina (uma menina) a tocar um tambor intercaladas com outras imagens de dimensões bizarras e psicadélicas, daquelas que podiámos chamar de "zona negativa" ou algo assim - quem leu os desvaneios de um tal de Kirby sabe do que falo.
Cada batida, um novo universo?

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