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quinta-feira, 4 de maio de 2017

TEMPORA MUTANTUR @ Lisboa até dia 4 de Maio / Porto 5 e 6 de Maio


Em 2015 o estúdio / colectivo finlandês KutiKuti comemorou 10 anos de existência e editaram um livro de tiragem limitada intitulado Tempora Mutantur. Este álbum foi impresso em offset com tintas fluorescentes e participam 38 artistas finlandeses que fazem ou fizeram parte deste grupo, entre eles Benjamin Bergman, Terhi Ekebom, Roope Eronen, Jyrki Heikkinen, Jarno Latva-Nikkola, Tiina Lehikoinen, Aapo Rapi, Kati Rapia, Tommi Musturi, Jyrki Heikkinen, Amanda Vähämäki, Katja Tukiainen, Matti Hagelberg,... autores alguns deles conhecidos dos portugueses devido às suas presenças no Salão Lisboa 2005, na exposição Glömp X (2009) ou pelos livros publicados em Portugal - nomeadamente os de Musturi.

Do livro surgiram cartazes em serigrafia, aos quais foram acrescidos mais oito autores, tornando-se numa exposição itinerante pela mundo fora - a Rússia, Alemanha, Suiça foram algumas das muitas paragens.

A exposição chegou a Lisboa no dia 22 de Abril no âmbito do evento Singular - Uma Festa para os 21 anos da Bedeteca de Lisboa. São 46 cartazes em serigrafia do colectivo Kuti que invadiram (literalmente) as três salas de leitura da Bedeteca de Lisboa!

Ficarão lá até 4 de Maio se não forem todos vendidos!

Os que sobrarem seguem para o Porto para o Free Comic Book Day e Mini Zine Fest Pt nos dias 5 e 6 de Maio na Mundo Fantasma.

O último número do jornal Kuti - agora com uma mudança de formato que lhe dar mais ar de revista - foi oferecido aos visitantes de dia 22 à Bedeteca! ESGOTOU!

Esta “visita” escandinava é da cortesia da Chili Com Carne, associação que inaugurou a colecção de novos autores da Bedeteca, a Lx Comics, em 1998 e que assim relembra os tempos de boa programação desta instituição.

sexta-feira, 27 de março de 2015

4 fabulosos mini-kus!


O título deste "post" soa pessimamente a sexista, ainda mais quando são quatro autoras! Ah, e não! Não estou a lamber o "ku" a esta malta por terem feito o número especial Portugal / "Desassossego"! Como é normal em qualquer colecção nem sempre tudo o que é editado poderá ser do agrado do público e convenhamos, nem tudo terá a mesma qualidade mesmo que o editor tenha seleccionado as obras segundo um programa que ele ache coerente. Com a mini kuš! já aconteceu isso, números menos bons do que outros, outros geniais (muito poucos) e muitos outros sem graça nenhuma. A colecção para quem não sabe é de formato A6 impresso a cores e com uma BD completa de um autor.
Nesta nova leva de quatro títulos temos um pico de qualidade incrível, os quatro números / as quatro BD's / as quatro autoras são do melhor! A começar por duas finlandesas "veteranas", a Amanda Vähämäki e Terhi Ekebom, a primeira com o seu habitual registo sobre o quotidiano quase-mágico em It's Tuesday mas colorido (o desenho) fugindo à técnica do registo natural a grafite. Ekebom, autora que já esteve presente no saudoso Salão Lisboa 2005, neste Logbook faz uma parábola sobre a dor e doença (e morte?) bastante poderosa e num estilo gráfico diferente do que estava habituado - na verdade há imenso tempo que nada via desta autora e sem dúvida que este mini-livro é um grande regresso. A norte-americana Lala Albert e a francesa Marie Jacotey são uma surpresa como mostram o que são as relações humanas em 2015 com os seus grafismos sujos e desagradáveis (para muitos). Em R.A.T. o "Big Brother" está em grande, mostra um software em que podemos espiar o computador com câmara de outras pessoas - quem espiona, é para eles um passatempo aliás, e é conhecido por ser um "rato". No final a questão quem é que não é "rato" no mundo dos agarrados ao mundo digital. Um mini-livro que deixa em aberto questões de ética. BFF é um triângulo amoroso tão frio que deixa o voyerismo do pecado desarmado, as figuras humanas de Jacotey são tão parecidas com aqueles andróides parvos (vulgo, modelos) das revistas Umbigo ou Dif que nada interessa se andam ou não a comer o cu uns dos outros. Mas com isto não quero deixar a impressão que BFF é fútil, não, é o Ocidente que chegou a este ponto letárgico, e este mini-livro regista isso com perfeição tal como acontece com as BDs de Ruppert & Mulot.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Checkem lá a presença humana...

O Camarada Lopes voltou do Brasil e trouxe umas quantas coisas de lá que sinceramente já não há muita paciência divulgar mas foi justamente a peça mais pequena que teve maior efeito. Fim (Beleléu; 2014) é um A6 (formato que até há em Portugal com as colecções O Filme da Minha Vida e Quadradinho) com 40 micro-BDs de Rafael Sica, feitas sem sentido, como se poemas desenhados fossem. Devedor à linha "ratada" de Fábio Zimbres, no entanto algumas composições de páginas e temas lembram o suiço Baladi, naquele abandono de paisagens e de emoções. Longe do extremo "non-sense" de Ordinário (Quadradinhos na Cia; 2010) em que Sica já mostrava ser um autor com muito potencial, este "Fim" parece ser antes um excelente início para algo mais profundo mas não se sabe se naqueles trópicos o pessoal quer isso...

Ward Zwart, excelente desenhador que participou no nosso MASSIVE, enviou alguns zines seus do quais destaca-se Moon (2014) que é impossível de não comparar a O Espelho de Mogli porque são tantas as coincidências entre si: ambos autores são flamengos, os formatos dos livros são quase idênticos, há alguma estrutura narrativa igual (duas vinhetas por tira, quatro tiras por página) e até acontece que aparece uma página inteira com um animal! (um orangotango no Espelho, uma coruja neste Moon). As diferenças também são muitas, a temática recorre à infância / puberdade (tempos em que o autor via os X-Files!?) para mostrar os mistérios da natureza - não muito longe e até pelo registo gráfico dos trabalhos de Amanda Vähämäki ou Michelangelo Setola. O melhor ainda é uma bela sequência abstracta em que o Zwart desenha usando colagens de desenhos seus - tal como0 o fez na capa...

Vieram de Badajoz a Lisboa, recentemente o casal responsável pela Aristas Martinez. Regalaram-nos com Fanzinerama (2014) que é um... ehm... fanzine!?... com desenhos do Roberto Massó no seu típico imaginário "masters of the universe jodido meets power rangers primitivos" em que as pessoas, o público, ehm... Perdi-me...
É um caderno com desenhos do Massó mas que as pessoas podem intervir nele, ora desenhando e escrevendo nele e até podem recortar e colar imagens de Massó (de uns suplementos que acompanham o caderno) fazendo assim cada um a(s) sua(s) BD(s) à vontade do freguês - é um novo tipo de "comix-remix" que não tinha ainda processado! Muito fixe a ideia mas pelos vistos a ideia anda por aí porque a "nossa" Mundo Fantasma também fez algo parecido... em risografia que é mais chique! (e como vingança por estar a chamar os espanhóis de vaidosos!)

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Mais cartas italo-suomis

Continuando a receber mais belos livros da Finlândia e da Itália, as surpresas continuam de livro a livro sem excepção, sem descanso!

Isä significa "pai" em finlandês e é o novo álbum de BD de Hanneriina Moisseinen - frases estas que banalizam completamente um livro sentido de quem o seu pai desapareceu numa noite. Diz a lei (na Finlândia) que só se considera alguém desaparecido como defunto após 10 anos do seu desaparecimento. Desparecimento significa que não existe corpo, significa que foi uma morte tão violenta que a natureza "comeu" o corpo ou pode significar que a pessoa não quer ser encontrada. É neste mórbido binómio que Moisseinen (e a mãe e a irmã) vivem durante 10 anos até que são "libertas" com a morte tornada oficial pelas competências legais. Usando grafite para um desenho realista e bordados para imagens simbólicas, este é uma BD de catarse, justamente o negativo de um livro como Visitez tous les pays recentemente aqui resenhado.
Editado o ano passado, este livro é pesado e austero que mostra que a Huuda Huuda ou as produções finlandesas não são apenas fogo-de-artíficio colorido e de experiências psicadélicas, como muitos pensam.


Com este Keitto Kirja / The Sauce Book (Huuda Huuda; 2013) de Lauri Mäkimurto fica provado que a importância e a influência de Kalervo Palsa (1947-1987) ainda está para ser calculada na BD finlandesa.
Eis um "comic-book" cheio de misantropia e depressão tão típica do norte da Europa. Procurando fotografias de Palsa e de Mäkimurto fico com a impressão que ambos têm ares psicóticos em que só espero que o destino do último não seja tão dramático como o do primeiro.
Lauri parece um eco de Kalervo que percorreu 30 anos até chegar até nós. Nesta BD não estamos em 2013 mas em 1983, tudo é bastante horrível e atrofiante, não há pontos de referência, só deserto humano e natural, morte e violência, sexo e bebedeiras sem sentido... O grafismo, estilo e tiques de Palsa (a corda para enforcamento, por exemplo) estão tão presentes que um leigo poderia ser enganado - e porque não? Que se saiba o Kiasma ainda não mostrou os tesouros em BD deste artista, quem garante que Lauri exista e não são BDs dos arquivos instituições a escorerrem cá pra fora com nome de outro tipo para não haver problemas com esta instituição de arte contemporânea? Como são poucos os finlandeses, é díficil de acreditar nesta tese, alguém saberia da verdade e iria-se bufar. É pena...

Seguimos para Itália - mais uma vez prá Canicola, claro, onde esta casa editorial faz alguns dos livros de BD mais bonitos da actualidade. Seja pelo design simples mas muito quente (dando juz ao nome da editora) seja pelo conteúdo. Dormire nel fango (2012) de Edo Chieregato (a) e Michelangelo Setola (d) reúne várias BDs publicadas anteriormente na revista Canicola... O aspecto anacrónico do desenho e das próprias narrativas tanto nos colocam num mundo que envoca uma nostalgia dos anos 70 ou 80 (a infância mágica e a juventude heróica submersa em referências Pop) como num mundo pós-apocalíptico, causando sempre uma sensação que estamos tão perdidos como as personagens destas BDs. Graficamente, estamos perante um desenho a grafite a lembrar a finlandesa Amanda Vähämäki - e isto nem sequer é uma especulação de quem quer sempre unir nomes de autores a outros porque ambos tem realmente semelhanças de estilo que até partilharam publicamante, lado a lado no livro-catálogo Souvlaki Circus (Buenaventura Press; 2008). Há livros urgentes de serem descobertos, este é daqueles... 

Por fim, mais um A3 da Canicola: Lontano (2013) de Gabriella Giandalli, autora com um trabalho reconhecido há umas boas duas décadas e que assina este magnífico e derradeiro manifesto da depressão. Lembra-me o álbum, não sei bem porquê, o disco Rembrandt Pussyhorse dos Butthole Surfers sem a histeria dos texanos, muito pelo contrário, tal é reconhecida a elegância desta artista.
Ainda assim há aqui uma melancolia de proporções cósmicas a beijar a Teoria do Caos que lembra-me esse disco. Cada pedacinho das coisas mais desinteressantes ou aparentemente importantes são coladas no transe desta má viagem chamada vida.
Algures no quarto do teenager deprimido vê-se um cartaz dos Pink Floyd - relativo ao Dark Side of The Moon - e por isso que associo esta BD a um psicadelismo existencial que o rigor gráfico, de tons cinzentos, não se deixa levar com os esquemas freaks habituais neste tipo de texto. Um colosso!

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Cartas italo-suomis

Já tenho dito que têm sido nas periferias da Europa que se encontra a BD mais excitante neste milénio. Agora que há um excesso de ofertas de "graphic novels" nos EUA e França, ou seja, o fomato livro finalmente se adaptou à BD, em contrapartida há menos propostas de ruptura como aconteceu nos anos 90 com os catálogos da Fantagraphics, Drawn & Quarterly ou L'Association. É natural até que estas editoras que tanto lutaram e ainda lutam para que a BD não fique entregue à bicharada "bedófila", com a idade, apresentem autores ou obras menos radicais quando eram mais "novas".

Na última década, onde vi os livros mais belos e com o conteúdo mais interessante foi da Finlândia e da Itália. Do Norte vem muita BD experiemntal e de cores berrantes, do Sul, a preto e branco belíssimos a contarem histórias pujantes. Alguns dos projectos destes países sofreram também metamorfoses mas pelos vistos ainda têm muitas cartas para dar.




Começo pela Huuda Huuda, editora que agora é dirigida apenas pelo Tommi Musturi. Talvez ele tenha aproveitado restos de papel de outros livros para fazer estes dois de Aapo Rapi, que em inglês são intitulados de Log Cabin Man e Future Man. São dois tratados humorísticos a explicar como é ser artista na Finlândia no presente e bem... no futuro, com muito álcool, cigarros e o palavrão "Perkele!" na boca. Lembra o "nosso" José Smith por expor o ridículo do homem contemporâneo.




Advanced Offices & Humans de Roope Eronen mantêm a lógica do livro anterior, ou seja a inversão dos papeis no jogo de personagem (RPG) Dungeons & Dragons, invés de serem pessoas a jogarem um mundo de fantasia, são dragões que encarnam as personagens dos humanos em escritórios. Nesta "aventura" os humanos preparam uma proposta de aquisição de uma empresa alimentar com as situações típicas de rivalidade entre colegas ou andarem a jogar no computador às escondidas. Anexado ao livro está uma folha de características da personagem que parece um verdadeiro CV. Divertido como o livro anterior só é pena que as legendas em inglês tenham sido impressas numa cor de pouca leitura. Se o Tommi não tivesse sozinho nesta empresa, a sua cabeça iria rolar...

E o que dizer de um romance gráfico como Ukkometsola de Jarno Latva-Nikkola? Uma verdadeira provocação à cultura finlandesa? Ou é um disfarce de bons costumes? A história de três irmãos a quererem explorar uma quinta que produz leite de porco (!) poderia não aguentar mais do três páginas de BD mas o sacana do Jarno faz quase 200 de peripécias e dramas humanos que cativam qualquer um, talvez porque o desespero destes "agrónomos" finlandeses não deve ser tão diferente dos portugueses face ao mundo cada vez mais burocratizado, globalizado e mediático. Seja como for, é uma boa história de "white trash" que nos aquece sempre um pouco, delirante q.b. sem cair em humor fácil - apesar do tema ser logo absurdo. Jarno é uma caixa de surpresas como prova com este seu terceiro livro. Um autor que merece toda a atenção!



Da Canicola aparecem em gloriosos grandes formatos A3, os livros Roghi da italiana Anna Deflorian e Cani Selvaggi da finlandesa Amanda Vähämäki, que aliás foi uma das fundadoras da Canicola quando era revista de colectivo. Os dois livros mantêm o espírito do início do projecto desses tempos: narrações em ares insuportáveis de calor pós-apocalíptico, as quebras e aproximações das relações humanas, a inocência dos que nasceram depois do "grande trauma" e metáforas prás "coisinhas da vida". Enquanto que os desenhos de Amanda vivem todo o esplendor neste formato e além de que ela está cada vez mais livre e perfecionista com o uso de grafite, já Deflorian admito alguma relutância em gostar das suas matrafonas hipsters e o ar de fake vintage da coisa a lembrar algumas coisas da dupla Gigi i Gigi... Não deixa de impressionar ainda assim.

Por fim, e voltando para o Norte mas prá Estónia e num formato pequeno (o A6), na mesma colecção onde saiu o primeiro livro de Amanda Baeza encontramos a estreia na BD pela poetisa Tiina Lehikoinen com The Pernicious Kiss. O que se passa na Finlândia? Perceberam que a boa BD passa pela criação poética? Relembro Jyrki Heikinnen que também pela poesia antes de fazer BD... Tal como ele, Tiina não sucube à tentação da palavra substituir o desenho na BD mesmo quando estas são fortes e nos invoquem imagens, pois ela aprendeu a fazer desenhos que têm presença per se. De resto, estamos um pequeno ensaio surrealista caso se alguém se enamore por um namorado com uma cabeça de cavalo - o que se passa com os escritores que adoram contos com cavalos? Espera lá... o que se passa com as autoras de BD e cavalos!?

sábado, 23 de março de 2013

Kuti Kuti



Participei no último número do famoso jornal finlandês de BD Kuti com um artigo já conhecido neste blogue. Por causa disso chegou-me um caixote cheio de exemplares desta publicação - mais o Specter (2012), que foi o primeiro livro dos autores que integram o atelier Kuti Kuti (em Helsínquia). Apadrinham o tema da Ficção Científica / Fantástico mas os 14 finlandeses mais o dinamarquês Soren Mosdal e a norte-americana Juliacks cagaram bem de alto para entrar nos seus típicos esquemas ácido-gráficos que tornam este objecto A3 cheio de cores em mais um estonteante objecto de culto. Para além de que estão cá todos os que interessam: o Tommi Musturi com um novo estilo gráfico, o tarado do Jarno Latva-Nikkola, os manipuladores Amanda Vähämäki e Roope Eronen, etc... Pedidos para aqui.

Quem quiser o jornal Kuti, há umas quantas hipóteses de o apanhar grátis: uma visita à Bedeteca de Lisboa (deixei lá alguns exemplares), comprando livros à Chili Com Carne que tenham autores finlandeses - não se esqueçam desta ENORME novidade!!! - ou indo a eventos em que a CCC esteja presente. Quem não foi ontem ao lançamento do Kassumai poderá apanhar amanhã na inauguração da NAVE... Aproveitem!

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Fim da Canicola


Canicola #9, 10 (Outono 2010, Primavera 2011)

Projectos editoriais de vanguarda têm um prazo de validade. É impossível manter ad eternum uma publicação com o mesmo grupo de personalidades artísticas ou intelectuais numa mesma posição, que geralmente significa repetição de fórmulas e a estagnação - situação grotesca para qualquer criativo. Foi o que aconteceu neste milénio com a antologia finlandesa Glömp que se despediu em glória, e é o que está a suceder com a revista italiana Canicola. Relembro que estas foram os projectos de bd mais excitantes neste milênio.
A Canicola começou como um projecto de um colectivo de seis artistas, em 2004, até que o grupo residente em Bolonha começou a desintegrar-se, continuando um grupo reduzido que têm transformado o projecto numa editora de livros de bd e a revista original em  "formato livro-antologia". A redacção da revista mostra o seu cansanço no número 9 e curiosamente um "renascer" com o número 10. O número 9 têm como tema a "Itália" e consegue ser um número preguiçoso, sem apelo e com um uso excessivo de desenho e livro de esboços para encher páginas. Brilha Giacomo Monti que mantêm a sua linha de "slice of life" sobre a incompetência da vida... Acho que ninguém trabalhou para o tema ou não lhes apeteceu. Já o número 10, dedicado aos Bambini (às crianças), já deve ter dado um entusiasmo aos colaboradores e sente-se essa energia em fazer bds para os "leitores mais exigentes do mundo".
A questão de fazer bds para crianças (vindos do universo da bd de autor) começaram a surgir nos últimos anos quando muitos autores questionaram a existência desse tipo de bd depois de terem lutado desde os anos 90 na afirmação da bd como uma arte adulta artística. Alguém lembrou-se: "E os putos"? Não há nada para eles sem serem os franchisings Disney / Marvel / Asterixes? De forma comercial têm havido séries desenvolvidas pela "nova escola" francesa do Lewis Trondheim, Sfar e acólitos, para não falar do infeliz fim da revista Capsule Cosmique. No meio alternativo editorial da bd, são poucas a experiências nesse campo, talvez até haja uma série delas mas são livros de ilustração para a infância (mais fácil de executar que um livro de bd). Recordo um livro do alemão CX Huth (pela Reprodukt), outro de Tiago Manuel (Saí do meu filme) e alguns números da revista suiça Strapazin - incluindo o número / exposição comissariada por Atak e que esteve patente em Lisboa há 2 anos. Este novo número da Canicola é capaz de ser um marco histórico na exploração deste tema. Com colaborações da finlandesa (e fundadora do colectivo) Amanda Vähämäki, a alemã Anke Feutchenberger, Anete Melece (da Letónia), entre outros autores (a maior parte deles italianos) a revista publica bd pela primeira vez a cores mas não perdeu o calor abrasivo que sempre a caracterizou quando era só para adultos. Se a redacção da Canicola está cansada ou virada para a edição de monográficos, este pode ser um bom número de despedida - tal como, por coincidência o 10º número da Glömp o foi - ou um novo ponto de partida.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

O último fósforo em Lisboa

Lisboa recebe da Letónia O Último Fósforo (The Last Match), uma exposição de ilustração e banda desenhada de 200 autores de todo o mundo e que cabe em sete caixas de fósforos! Como disse? Mas está tudo doido?

Não propriamente! A crise, a famosa crise, fez e continua a fazer estragos, e por isso a revista Kuš! e o Latvian Center for Contemporary Art, entre 12 e 19 de Setembro, em Riga, criaram no âmbito do projecto Survival Kit, a maior pequena exposição de ilustração e banda desenhada com participantes de toda a parte do mundo – de Hong Kong à Finlândia, de Portugal aos EUA, do Líbano à Estónia – e que cabe em sete caixas de fósforos. Com nomes conhecidos como os do polémico Mike Diana, passando pelos famosos Jeffrey Brown, Roberta Gregory e Tom Gauld ou ainda pelo reconhecido japonês Daisuke Ichiba, a Associação Chili Com Carne tinha de trazer esta mostra para Lisboa!!!
E é o que acontece entre 16 de Janeiro e 8 de Fevereiro no novo espaço de Arte Urbana lisboeta, a Artside, que inaugura as suas paredes com 200 fósforos a segurarem 200 trabalhos minúsculos e minuciosos com um porto de honra às 16h30, gentilmente cedido pela Embaixada da Letónia, sendo o evento aberto com a presença do Sr. Embaixador Artis Bertulis.
E no meio deste frenesim visual ainda aproveitamos para lançar a antologia MASSIVE, que reúne ilustração de vários autores espalhados pela Europa e Américas, muitos deles coincidentes na exposição como Ilan Manouach ou André Lemos. São cerca de 100 páginas em papéis coloridos editados pela Chili Com Carne em colaboração com o colectivo Hülülülü. Espera-se a presença de todos os autores nacionais que participaram nesta orgia de desenho.

Por aqui não há crise criativa, obrigado!

Participam na exposição os seguintes autores (em “bold” os mais conhecidos pelo público português): Afra Katastrofa (CH), Aistė Mo (LT), Aivars Baranovs (LV), Aleksandar Zograf (SRB), Alex Baladi (CH), Allison Cole (USA), Amanda Vähämäki (FI), Ana Albero (D), André Lemos (P), Andrej Štular (SI), Andy Leuenberger (CH), Anete Melece (LV), Anna Anjos (BR), Anna Maria Łuczak (PL), Anna Sailamaa (FI), Ben Katchor (USA), Brecht Vandenbroucke (B), Chihoi (HK), Dace Sietiņa (LV), Daisuke Ichiba (J), Daniel Cantrell (UK), Daniela Witzel (D), David Collier (CA), David Sandlin (UK), diceindustries (D), Dunja Janković (HR), Edda Strobl (A), Eikantas (LT), Emelie Östergren (S), Ernests Kļaviņš (LV), Fahad Faizal (IND), Fede Pazos (AR), Filipe Abranches (P), Frau Franz (D), Gabriella Giandelli (I), Gatis Šļūka (LV), Gašper Rus (SI), Geneviève Castrée (CA), Giacomo Nanni (I), Gorand (MK), Gustė Poc (LT), HAZ (E), Helmut Kaplan (A), Henriette Vogtherr (D), Hironori Kikuchi (J), Ilan Katin (USA/H), Ilan Manouach (GR), Ines Christine Geißer (D), Ingrīda Pičukāne (LV), Isabel Seliger (D), Itzik Rennert (IL), Jan Solheim (DK), Janek Koza (PL), Jari Vaara (FI), Jeffrey Brown (USA), João Chambel (P), Jochen Schievink (D), Jorge Perez-Ruibal (PE), Juanita (D), Jucifer (P), Juhyun Choi (ROK), Kai Pfeiffer (D), Kaja Avberšek (SI), Kaspars Groševs (LV), Katja Tukiainen (FIN), Kavi (LV), König Lü. Q. (CH), Keisei Kanamachi (J), Kerascoët (F), Klungel (NL), Knut Larsson (S), Kolbeinn Karlsson (S), Lai Tat Tat Wing (HK), Laura Jurt (CH), Laura Kenins (CA), Laurent Cilluffo (F), Léo Quiévreux (F), Liesbeth De Stercke (B), Lilli Carré (USA), Lisa Röper (D), Lorcan White (ZA), Lovatto (BR), Luis Henriques (P), Luka (LT), Līga Koklače (LV), Maija Kurševa (LV), Maija Līduma (LV), Malin Biller (S), Marcos Farrajota (P), Margarida Borges (P), Mark Newgarden (USA), Marko Turunen (FIN), Markus Häfliger (CH), Martin Ernstsen (N), Massimo Milano (CH), Matey Lavrencic (SI), Matthew Thurber (USA), Matti Hagelberg (FIN), Max Andersson (S), Michael Jordan (D), Michael Meier (D), Mike Diana (USA), Milorad Krstić (H), Milva Stutz (CH), Minoru Sugiyama (J), Miriam Katin (USA), Māris Bišofs (LV), Mārtiņš Zutis (LV), Nick Abadzis (UK), Nicolas Mahler (A), Nicolas Robel (CH), Nicolene Louw (ZA), Olegti (RUS), Olislaeger (B), Olive Booger (F), Oskars Pavlovskis (LV), Paul Paetzel (D), Peggy Adam (F), Rajiv Eipe (IND), Reinis Pētersons (LV), Remo Keller (CH), Ricardo Martins (P), Rita Fürstenau (D), Roberta Gregory (USA), Rokudai Tanaka (J), Roman Maeder (CH), Roni Fahima (IL), Ruedi Schorno (CH), Rui Tenreiro (MOC), Rutu Modan (IL), Rūta Briede (LV), Sara Varon (USA), Sekhar Mukherjee (IND), Sergio Ponchione (I), Shaun Tan (AUS), Shintaro Kago (J), Shinya Komatsu (J), Silvia Rodrigues (P), Takeshi Tadatsu (J), TeER (D), Tetsu Kayama (J), The Stamm (D), Tiemo Wydler (CH), Till D. Thomas (D), Till Hafenbrak (D), Tinet Elmgren (S), Tom Gauld (UK), Ulli Lust (A), Vladan Nikolić (SRB), Yoshi (LT/UK) e Zeina Abirached (RL).

E ainda: Aleks Deurloo (NL), Boris Peeters (NL), Christian G. Marra (I), Fermín Solís (E), Gregor Hinz (D), Irkus M. Zeberio (E), Jeroen Funke (NL), Kriebaum (A), Matt Broersma (USA), Oskars Weilands (LV), Pascal Girard (CA), Polina Petrouchina (RUS), Sam Peeters (NL) e Sunaina Coelho (I).

...

imagens das participações portuguesas:



Artside, Art Gallery / Urban Art Shop
Rua São João da Mata Nr. 53
Santos-o-Velho
1200-846 Lisboa
Horário: 2ª/6ª das 14h às 20h, Sáb das 14h às 18h

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

We don't need no education...


Orang #6/7 (Reprodukt; 2006-08) é uma revista que foi criada por alunos do curso de bd/ilustração de Hamburgo. Agora que os alunos já saíram da vida escolar a revista não só se manteve como se posicionou para completar o triângulo das melhores revistas europeias de bd da actualidade - falo da Glömp (Finlândia) e da Canicola (Itália) - não sendo coincidência que artistas de uma revista são publicados nas outras duas. Pela Orang podemos encontrar Chi Hoi (de Hong Kong e que no ano passado a Canicola editou um livro seu), Moki (bonecada fofa), Tommi Musturi e as aventuras do seu Samuel (já editado do Mesinha #200 e com livro a sair este mês pela MMMNNNRRRG), Klass Neumann (com um jogo "oubapoano"), Till Thomas (já publicado em Portugal na Crica) ou do italiano Stefano Ricci (cada vez mais impressionante e que curiosamente vive em Hamburgo, onde também dá aulas)... A revista tem um formato quase quadrado e anda à volta das cento e tal páginas, algumas a preto e branco outras a cores. A política geral da revista deve ser uma espécie de "neu sturm und drang" tal é o urbano-depressivo irracional que emana nas suas páginas. O último número por exemplo tem como tema "The end of the world" (sim a revista apesar de estar em alemão usa o sistema de tradução para inglês no final da página)... um bocado tarde para "finais do mundo", não? A não ser que a paranóia de 2012 (ou é 2016?) esteja a atacar mais do que pensava...


Two Fast Colours #2 (M. Krause & M. Lenzin; Jul'08) é um zine A4 editado por duas estudantes do curso de bd da universidade de Hamburgo - uma turma posterior à Orang. Os trabalhos são ansiosos de provarem qualquer coisa, mesmo quando suspeito que possam ser exercícios do curso de bd como o da Martina Lenzin que explora o potencial meta-narrativo idêntico ao que Chris Ware mostrou em Quimby, the mouse mas ainda assim com um humor próprio. A publicação junta ainda alguns franceses como Quentin Vijoux, Morgan Navarro (provavelmente o autor mais excitante do catálogo Les Requins Marteaux) e Guillaumit. De recorte surrealista e pós-Pop eis um zine em que se sente frescura e que os estudantes alemães de bd sabem se mexer - ao contrário do que se passa em Portugal. Ah! Destaco a Jul que quase roça graficamente o Mike Diana embora o universo não seja o mesmo. A capa em serigrafia faz jus ao título do zine.

E no meio do turbilhão desta nova geração alemã de bd encontramos uma sempre renovada Anke Feutchtenberger cujo trabalho per se já está no patamar dos grandes artistas de bd mais influentes dos últimos 25 anos como Gary Panter, Charles Burns e Blanquet. Se soubermos que é professora no curso de bd e ilustração da Universidade de Hamburgo mais fácil será reparar que a sua influência não é apenas indirecta. Mais que uma autora influente se calhar também poderá ser uma professora influente e uma passagem de olhos pelas três revistas referidas acima percebe-se a sua marca na forma e no conteúdo, sobretudo nas novas autoras - que o diga Amanda Vähämäki portadora de uma voz muito segura mas que deve a Anke a inseminação estética. Cada vez mais virada para o desenho, recentemente cruzei-me com o livro wehwehwehsupertraene.de / lacrimella.de editado pela Mami (2008), que é a sua editora e do seu companheiro Ricci. Trata-se de um belo livro de desenhos de Anke feitos entre 2006 e 2008 e expostos na Galeria d406 (onde recentemente a Canicola fez uma exposição "vista" no seu "derradeiro número"). Assistimos a uma autora cada vez mais virtuosa no desenho a grafite e madura em que tenho a certeza que continuará a surpreender nos próximos anos.

E por falar em alunos e a iniciativa privada, em Angoulême vai-se criando um "cluster" de editoras de bd, algumas explorando o talento que sai do curso de bd como o caso da recentemente criada Scutella mas a maior parte são colectivos criados pelos alunos como a conceituada Ego Comme X ou a recente NA que lançou o jornal Modern Spleen. O jornal claramente inspirado no finlandês Kuti publica autores "dos quatro cantos" encontrando-se finlandeses, alemães (curiosamente alguns da Orang e Two Fast Colour) e a portuguesa Joana Figueiredo - e ainda de autores da Itália, EUA, França e Hong Kong. Claro que é mais fácil "fazer coisas" num país que tenha um mercado de bd como a França mas o que questiono é como ainda não saiu um zine que seja dos três grandes cursos de bd portugueses que existem?

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Intercâmbios

Na Aldeia Global é cada vez mais normal aparecer projectos de bd em que haja uma troca de experiências entre autores de países e/ou de culturas diferentes. Desde que o Joe Sacco colocou em voga a hipótese de se visitar um país e dali criar conteúdo dessa experiência em bd, a ideia estalou por vários lados, não faltando várias editoras comerciais a levar autores franceses ao Japão para fazerem reportagens e afins. Seja pela Internet ou pelos vôos "low-cost" o mundo diminui a olhos vistos e por isso quase que deixou de ser exótico fazer livros em que se juntam suecos com italianos ou algo parecido. Esta Aldeia só encontrará uma Vila ou uma Cidade ou um País se realmente houver vida inteligente fora da Terra.  Por enquanto a Aldeia ainda tem uma existência interessante porque apesar das barreiras nacionais terem ido à vida, ainda habitam indíviduos diferentes - com mais ou menos talento para esta ou aquela função - e isso ainda permite julgar os projectos para além da lógica nacional-exótica. Eis três projectos que recentemente tive acesso:


10x / Dix Fois /Kymmenen Kertaa (Premières Lignes; 2008) por Christian Quesnel e Terhi Ekebom (ed)

Apresentado na 23ª edição do Festival de BD de Helsínquia, este livro compila cinco autores do Canadá e cinco da Finlândia sendo que estes últimos - Terhi Ekebom, Pauliina Mäkelä, Amanda Vähämäki e Mikko Väyrynen (o único homem do grupo) - ganham versus os quebequenses Caroline Fréchette, Line Gamache, Christian Quesnel & Danièle Vallé, Siris e Stanley Wany. Juntaram-se para fazer uma antologia de 160 páginas (a maior parte a preto e branco) para celebrar o encontro duas culturas nórdicas com a publicação de autores conhecidos como alguns emergentes. Graficamente os finlandeses atingem pontos altos das suas carreiras individuais: os onirismos de Amanda, Jenni e Pauliina valem logo pelo livro todo, Terhi e Mikko metamorfeiam-se, ela para um desenho do tipo Edward Gorey, ele para um inesperado "origami-comix" (afinal ser Designer não é assim tão mau como isso!). Os canadianos ficam-se por esquemas tradicionais gráficos sendo a Line Gamache quem se destaca pela dimensão política da sua bd, o resto parece ingénuo.
Em inglês ou francês e em finlandês mas sempre com traduções inglesas no fundo da página, as bd's foram feitas no isolamento térmico do atelier de cada autor, sem qualquer interacção entre os autores.

City Stories, vol.3 (Projecto City Stories; 2008)

Associado ao Festival BD de Łódz (na Polónia) esta antologia junta autores polacos e franceses em workshops em que a cidade de Łódz é trabalhada pelos vários prismas desses autores. O tema deste volume é a "reconstrução" que faz todo o sentido para quando se quer tratar de cidades. Haveria todas as razões para termos um projecto com interesse, no entanto o resultado é desastroso em quase todos os aspectos, sendo o pior o próprio objecto que reproduz as bd's duas vezes, uma vez em francês de um lado do livro, e em polaco do outro (pondo o livro de pernas para o ar e começando na contra-capa... ou seja, como se fosse um split). Se a maior parte das bd's são mediocres, quem ficar com este livro fica com a mediocridade em duplicado, estranhando-se quando se quer ser crítico e ecologista e acaba-se por cometer os mesmos erros daqueles a quem se crítica - não conhecer o sistema de legendas no fundo das páginas bd's, criado pelos finlandeses, só mostra que no projecto muita gente deve ter os olhos fechados para o que se passa pelo mundo. Destaco o desenhador Krzysztof Gawronkiewicz cujo grafismo parece um misto de Yellow Submarine e Dave Cooper.

Kugelblitz : MGMB vs NNH, vol.2 (Moga Mobo + Nou Nou Hau; 2005) 

É um catálogo trilingue que junta dois colectivos DIY, um alemão (Moga Mobo) e um japonês (Nou Nou Hau - que é uma brincadeira fonética para "No Know How") sub-intitulado "A look into German and Japanese Illustration and Comic underground" que é para marcar charme, porque apesar da euforia criativa dos dois colectivos ser energética e multi-direccionada ("toys", bd, ilustração, animação, performance, fotografia) os resultados são acessíveis, fáceis e até populares (um dos japoneses é conhecido pela série de animação Afro-Samurai), longe portanto da obscuridade. Podem ser autores independentes mas "underground" é só para abusar de uma palavra "hypesca". Os resultados do encontro na Internet acabou por se transformar numa admiração mútua e materializou-se em exposições em Berlim e Tóquio. Este catálogo mostra os trabalhos dos dois grupos, incluíndo os trabalhos feitos de propósito para as exposições e uma bd-cadáver-esquisito... Too Bright Für Mi!

todos estes títulos podem ser pedidos à Chili Com Carne via e-mail

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Trans Europe Zine

Com os desenvolvimentos das tecnologias de tratamento digital de imagens e impressão, e da Internet, os tradicionais fanzines ou zines tem vindo a desaparecer, ficando no “mundo material” publicações com aspecto profissional – aliás, com cuidados gráficos ainda melhores que as revistas profissionais. Este texto é um mini-guia cartográfico bastante imcompleto para quem procura aventuras gráficas.


Partindo de Portugal temos os Opuntia Books já referido na Umbigo (Dez’07) e já agora investiguem também a Imprensa Canalha mas vamos imediatamente para aquela sempre foi e sempre será a capital da bd em Espanha, ou seja Barcelona, a sanita de Turistas anglo-saxónicos. Desde os anos 40 do século passado que se implantaram as editoras, grandes lojas de bd e o maior festival espanhol de bd. Claro que há muita boa gente no resto de Espanha mas é em Barcelona que aparecem projectos como a ARGH! que já vai no quarto número! E porquê a euforia? Simples... É que a ARGH! mostra que afinal os espanhóis não sabem apenas copiar como até fazem coisas boas - menos na música! Nas páginas da ARGH! vamos encontrar escatologia da grossa, bonecada "guilty-pleasure" e monstros nojentitos, piadas parvas de cócó-xixi & humor "serial-killer". As páginas são preto e branco mais uma cor extra que muda de número para número, permitindo aos autores explorarem temas – o “número amarelo” ligava-se à doença, por exemplo – ou potenciando grafismos mais adequados a cada cor, como aconteceu com o português residente em Madrid, Richard Câmara que participou no último número (verde) com uma versão colorida da bd publicada na colecção Lx Comics. Jorge Parras e Félix Diaz são os responsáveis pela publicação depois de terem feitos das suas no Fanzine Enfermo. Ambos são autores com estilos bastantes diferentes, o primeiro mais humorístico, o segundo mais “abonecado” na veia de Underground Pop. Cada vez que lançam um novo número refazem o sítio arghcomic.com.
Quando subimos para França é inevitável referir o colectivo Le Dernier Cri, sediado em Marselha no centro artístico Friche La Belle de Mai onde máquinas de serigrafia vomitam livros, cartazes e discos pelas mãos do casal Paquito Bolino e Caroline Sury. Nascido em 1993 das cinzas do movimento “undergráfico” francês dos anos 80, o colectivo publicou em 15 anos mais de 200 títulos, maioritariamente em serigrafia. Produção exorbitante para uma estrutura artesanal, que ainda edita a revista anual Hôpital Brut, produziu mais de 50 exposições (uma no Salão Lisboa 2005), discos e filmes de animação. Como afirma Bolino: «As edições do Dernier Cri consistem em artistas a editar outros artistas, artistas que vêm fazer residências, ateliers, ou simplesmente desejam fazer livros connosco, ao contrário de uma vontade de um editor em seguir conceitos pré-estabelecidos e colecções precisas. Isso permite-nos partir em qualquer direcção». A produção, toda ela assegurada pelo casal e colaboradores, é imparável e dispara para sentidos inesperados, por exemplo, num recente lote de edições quase todos livros incluíam música tão violenta como os desenhos: Evil Moisture (single 7" vermelho de Noise, co-editado com o colectivo dinamarquês Smittekilde), Le moindre doute de Guillaume Soulatges (que esteve numa Feira Laica) com desenhos seus Pop nostálgicos e música quase-que-relaxante, Judex (nome do autor e do livro + CD-R de Rock Noise na linha Fort Thunder / Load Records), Placenta Popeye (livro complicado de folhear + CD-R de Frenchy Noise Rock tão marado que parece uma banda de Black Metal que não sabe tocar), Vida Loco (Breakcore visual e sonoro!) e o “best of” do misógino Costes, Pot Pourri, acompanhado pelos desenhos da sua mulher Vanderlinden - se está casado ainda é misógino?

Bolonha, é outra capital da bd… em Itália. E é por lá que surgem projectos de uma qualidade irrepreensível como o Canicola, colectivo de oito autores e uma administrativa. A colar o grupo está uma vontade abrasadora de contar histórias sobre "coisinhas da vida" - no melhor estilo de Raymond Carver - mesmo quando a acção se passa em 2012 (Giacomo Monti) ou em universos oníricos de Amanda Vähämäki – a única autora do grupo, a finlandesa que estudou nesta cidade e que já regressou a Helsínquia. Na Canicola os desenhos são todos díspares embora se possa encontrar alguns pontos em comum com alguns autores que seguem uma estética "free" em que usam a seu favor, o facto da impressão dos dias de hoje conseguir apanhar tão bem os cinzentos do lápis - relembro que a bd sempre teve um processo de produção que obrigava os autores a "passarem a preto" (ou a tinta) os desenhos para serem reproduzidos. Nos dias de hoje, os autores ignoram essa técnica e caminham pelo "lápis directo".
Para além do grupo duro já passaram pelas suas páginas gente importante como Anders Nilsen (EUA), Chi Hoi (Hong Kong), Marko Turunen (Finlândia) e a alemã Anke Feuchtenberger, autora bastante influente na cena europeia, sobretudo nos últimos anos com a renovação do seu trabalho a grafite (que foi visto no Salão Lisboa 2003) e como professora de ilustração na universidade de Hamburgo – onde aliás ajudou a por de pé a revista Orang.
Justamente em Hamburgo que também encontramos o dice industries - já publicado em Portugal e participante na exposição åbroïderij! HA! que passou pela Bedeteca de Lisboa, Maus Hábitos, Casa da Animação e segue para a Biblioteca de Abrantes no mês de Abril. dice industries é DJ, designer, autor de bd, ex-homem do graffiti e recentemente abriu a galeria Linda. Qwert é o seu “zine de vida” que vai no 13º número onde tanto publica bd - Wien, ein mensch stirbt (2005) - como catálogos de exposições de artes plásticas: Low Density (2005) e Low Frenquency (2008) onde ele (ab)usa imagens dos «tios patinhas» (a font do Low Density não deixa dúvidas) e outras imagens populares, manipula-as ao ponto de ruptura sendo recriadas em ruído abstracto. A deformação é impressionante, um cruzamento histérico de Lynch com Lichtenstein.
Por alguma razão misteriosa, os finlandeses estão a descobrir o "ácido" na bd e ilustração. Fora do já conhecido desengonçado crumbiano ou da crueza non-sense ratada de Gary Panter, os finlandeses andam a borrar cores a torto e a direito nos seus desenhos. Prova concreta disso é o jornal Kuti editado pelo atelier Kuti Kuti, onde seja qual for o estilo gráfico das bd's, o que se vai destacar são as cores berrantes aplicadas ora com as canetas de feltro ora com o Photoshop. Outro ponto comum entre vários autores finlandeses é o imaginário sacado aos universos Pop da infância em que são revistos sob um prisma da decadência: ODNI (objectos Disney não identificados), Masters of the Universe destruídos e distorções da bonecada de plástico, da bd ou de desenhos animados xungas.
Do grupo destaca-se os livros de esboços de Tommi Musturi, a saber: Stand Alone and Smile rendido à arte psicadélica - a lembrar até o Moebius quando este tripava nos anos 70; Concrete Floor em formato A4 impresso em páginas verdes tem desenhos de dignos de manicómio visual; e Death to Most com desenhos feitos entre 1986 e 1992, quando o autor era um puto metálico “skater” a viver na província finlandesa e desenhava caveiras, demónios e "damas de ferro", foram-lhes acrescentadas as cores berrantes dando uma nova dimensão visual aos desenhos “teen”.

Texto publicado na Umbigo

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

rapidez final... ufa!

Ainda há "coisas" vindas do Festival de Helsínquia para divulgar... bom aqui vai:

Ufoja Lahdessa 1/4 (Daada Books; 2008) do finlandês Marko Turunen (que esteve presente no Salão Lisboa 2005) é um comic-book que compila estórias curtas embrulhadas como se fosse uma revista dedicada a OVNI's e fenómenos paranormais. As bd's de Turunen estão realmente muito bem embrulhadas porque elas são bastante paranormais. Os factos biográficos são dramatizados e representados com excertos de cultura Pop (sobretudo de bd fantástica ou de super-heróis). Seja uma cena de ciúmes com a sua companheira Annemarri Hietanen ou a compra de um livro numa livraria podem ser mostradas de forma absurda com figuras anatomicamente impossíveis, a começar pelo alter-ego de Turunen, Alien, que é isso mesmo, um "alien" baixote. Impresso a preto e branco o desenho de Turunen revela-se virtuoso e decadente ao mesmo tempo podendo encontrar relações com o italiano Andrea Bruno e um gajo qualquer da Marvel. Já está a ser anunciado o segundo número desta fantástica revista!

Next stop, a Suécia... com Emelie Östergren que tem dois zine publicados: Solflickan e The Evil Dress (imagem) ambos de 2008 (?). O primeiro é uma bd sobre a sobrevivência ao frio nórdico e apobreza rural, entre um homem e um javali (que fala) num ambiente onírico devedor a Anke Feuchtenberger ou a vizinha (finlandesa) Amanda Vähämäki até por razões gráficas: o uso de grafite, algumas composições e representações de personagens. O segundo zine é dividido em várias bd's e ilustrações sequenciadas tem um fundo sobre a solidão em que os vestidos servem de metáforas. Menos coerente que Solflickan há imagens que quase lembram o velho mestre italiano Crepax. Desconfio também que sejam trabalhos anteriores a Solflickan. Emelie poderá uma autora a seguir...

Por falar na Suécia, é onde está actualmente a viver o português Rui Tenreiro depois de ter passado pela África do Sul e Noruega. Ele criou a Soy Friends, uma editora de livros de autor tal como é a Opuntia Books, Le Dernier Cri, etc... São graphzines impressos a lazer, quase sempre em papel cinzento num formato A5 ou menor, de 20 e poucas páginas. Tiragens limitadas a 50 exemplares, numeradas e assinadas pelos os artistas que na maioria noruegueses também podem ser estrangeiros como o norte-americano Tim Pigott, cujo o título do seu livro Chicago Obituary Pictures já diz tudo. Os retratos lembram-me vagamente uma experiência "oubapiana" do Lucas Almeida num número do O Hábito faz o Monstro pela textura dos desenhos e pelo ar naíf das figuras. Não sei o que é mais "creepy", se são as expressões dos mortos (ainda eram vivos quando tiraram as fotos, claro está) ou a atitude do autor fazer disto o seu corpo de trabalho... Mais "creepy" é o trabalho de Martin Skauen - o livro não tem título - que lembra as visões apocalípticas de Hieronymus Bosch mas mais Gore, sexuais, contemporâneas e desenhadas a grafite - livrinho impressionante! Nihilism, Emptiness, Nothingness & Nonsense de Kalle Runeson é mais "zine old-school" à base de trabalhos visuais de colagem, desenho e texto de teor iconoclasta Pop. Apesar da produção perfeita da Soy/Rui - o livrinho é impresso em vários papeis de cor - não tem o mesmo efeito que os anteriores.
Alguns deste zines estarão à venda no espaço da Chili Com Carne a abrir para a semana, dia 27.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

abrindo as malas da viagem...

É o regresso do SPX 2008 (Estocolmo) e serve este "post" para dar as novidades:

_Temos para oferta alguns exemplares do último número do jornal finlandês de bd, Kuti - já várias vezes divulgado neste blogue. É um número especial SPX, com trabalhos de autores finlandeses e suecos. Os textos estão em sueco mas com legendas em inglês.
Esta oferta é exclusiva aos sócios da CCC e que comprem qualquer artigo que seja da Finlândia ou da Suécia (Boing Being, Napa, Daada) ou que tenha participação de autores finlandeses ou suecos (Chili Bean, Mesinha de Cabeceira Popular #200, Mutate & Survive, Canicola).

_Já é uma revista que se tem escrito com alguma regularidade (o #5 e o #1) e que número para número vai crescendo em forma e conteúdo: C'est bon anthology do colectivo sueco C'est Bon, com quem a CCC partilhou mesas na SPX. Trouxemos para venda os quatro volumes da terceira série (#17/20; Ago'06/Dez'07) que marcam a distribuição mundial desta publicação através do catálogo Previews (que distribui todos os comics norte-americanos para as lojas especializadas). A revista continua a sua redacção em inglês e está com um aspecto luxuosa, gordinha e brilhante devido ao papel couché. Tem mais colaborações de autores internacionais (ou seja, "não-suecos") e mais trabalhos arrojados - uma lista de nomes explica por si só a qualidade que a revista atingiu: os alemães Martin tom Dieck (que estará este fim-de-semana no Festival de BD de Beja!) e Arne Bellstorf, o sérvio Danijel Savovic (vol.1), o português Pedro Nora, o sueco Knut Larsson, os finlandeses (que estiveram no Salão Lisboa 2005) Marko Turunen e Jyrki Heikkinen (vol.2), o francês Yvan Alagbé, os italianos Andrea Bruno e Stefano Ricci (vol.3), ou ainda a finlandesa Amanda Vähämäki ou a israelita Rutu Modan (vo.4).

_Um dos editores desta revista é Mattias Elftorp que também é autor de bd. A série Piracy is Liberation é o seu trabalho mais conhecido, que já se encontra num quarto volume editado pelo colectivo desde 2006.
Graficamente próximo de (ou demasiado influenciado por) Brian Wood e Ben Templesmith, Elftorp é menos elegante em questões de anatomia, domina as lutas do preto e branco e dá bom uso de tramas e texturas.
Cada volume apresenta entre 64 a 72 páginas, o que mostra o enorme trabalho com que o autor está lançado. A trama de um futuro não longe do nosso, passado numa megalopólis sem memória, onde piratas informáticos procuram destruir o sistema de dominio dos padres capitalistas, poderá lembrar Matrix ou a bd Invisibles de Grant Morrison (este último menos conhecido mas mais copiado - os criadores do Matrix que o digam) mas não deixa de ter ideias próprias que estão em gestação - gosto particularmente de uma cena em que duas personagens Hackers que fazem "copy'n'paste" deles próprios do mundo virtual para o real. De certa forma as cerca de 240 páginas ainda não pareceram suficientes para perceber o que se passa por aqui - lógica de Manga? À primeira vista, poderá haver uma excessiva exploração de lugares-comuns de "anarco-glamour" mas uma leitura mais atenta revelará mais inteligência do que a visão superficial. Esperando por mais volumes até 2012?

_Nesta edição do SPX assisti, de certa forma, a saída do armário da bd sueca alternativa... enquanto os finlandeses há anos que traduzem as suas bd's para terem feedback internacional, os idiotas dos suecos sempre tiveram fechados no casulo editando livros na língua que nem os ABBA usavam para ganhar o Eurovisão. Resultado, tirando o Max Andersson e o Lars Sjunnesson (este último participou no Mutate & Survive), que vivem em Berlim, e o Gunnar Lundkvist e Joakim Pirinen (editado em Portugal pela Azul BD3), todos eles da "velha guarda" nada mais se conhece da bd sueca. Aliás, as minhas duas visitas ao país - e à SPX - não se traduziram em regressos com malas cheias de novas bd's, livros e zines... justamente o oposto do que aconteceu quando vou ao festival de bd de Helsinquía.
Saiu a antologia From the shadow of the northern lights : an anthology of Swedish alternative comics : vol. 1 (Galago; 2008), uma antologia em inglês (yeah!) que terá distribuição pela norte-americana Top Shelf. Podemos chegar à conclusão do que se passa por lá: há a "velha guarda" (já referida) mais gráfica e experimental, depois há a autobiografia chata dos anos 90 - daquela que ninguém têm nada para contar ou que saiba contar de forma interessante, havendo montes de históras sobre homossexualidade (um sucesso no mercado da bd, creio) - e por fim, o regresso do grafismo e bizarria bruta com nomes novos como Marcus Ivarsson, Marcus Nyblom (autor da capa), Knut Larsson e Kolbeinn Karlsson. Apesar das lamechices de alguns autores, vale a pena ler estas 200 páginas a preto e branco.

_E é este último grupo de autores referidos que faço um destaque porque como já escrevi, raramente há razões para comprar edições suecas por causa dos grafismos pobres e pela barreira da linguagem. As excepções são as seguintes: o livro Skissbok (Kartago; 2007) do Marcus Nyblom e os zines de Kolbeinn Karlsson: Benny Bjorn will never return e Rules of animation (com Hanna Petersson; 2007) e Harvar Vilda Vastern (2007?).
No primeiro caso coloca-se a questão se "skissbok" poderá mesmo significar "livro de esboços"... apesar da estrutura do livro apontar para isso porque os trabalhos publicados não parecem ter ligação aparente. Ora são desenhos soltos, alguns sim com aspecto de "esboço", ora são bd's mudas e insólitas como "Alice no País das Maravilhas". São as bd's que têm um ar mais esboço porque o estilo gráfico que Nyblom usa é "realista" e "certinho" bem longe das suas ilustrações que têm aquele aspecto derretido e degradado de quem está em sintonia com a ilustração deste milénio - embora as raízes deste tipo de desenho e imaginário estejam na Raw e no Fort Thunder, dos anos 80 e 90 respectivamente. É um livro "fifty/fifty".

Quanto a Kolbeinn (várias vezes pensei que ele chamava-se Cobain como o vocalista dos Nirvana ou Kobaïan, a língua inventada pelos prog-rockers franceses Magma) também está em sintonia com o tempo: degradação material e moral, fascínio pelo Pop (o Benny Bjorn para quem ainda não está bem a ver, é um dos tipos dos ABBA), monstros peludos e outras criaturas de série B. Zines fotocopiados em formato A5 com capas a cores, os dois primeiros são de ilustração em parceria com uma tal Hanna Petersson em que as autorias não são identificadas (embora as suspeitas sobre a autoria dos desenhos de Kolbeinn recaiam para os que têm mais texturas); o último é o único de bd - que está também publicada na antologia From the Shadow (...) - com uma estória violenta homoerótica do oeste norte-americano - acho.

_Por fim, material dos inteligentes finlandeses - é a segunda vez que fico com a sensação que a Suécia, ou pelo menos Estocolmo é dominada por campónios e novos-ricos.
Novidade absoluta: Supernormal (Daada; 2008) de Marko Turunen, um dos muitos autores de bd peculiares da Finlândia e também dono da editora Daada. Não é novidade mas é importante na mesma para qualquer português ignorante da cena bedéfila da Fenoscândia: Mystic sessions Vol.I (auto-edição; 2006) de Pauliina Mäkelä.
No primeiro caso são reedições de bd's de zines antigos ou ainda algumas bd's fora do padrão do universo do autor - que nos visitou no Salão Lisboa 2005. Aqui vamos encontrar bd's parvas de super-heróis criadas pelo Turunen de 1984 (de 11 anos) e redesenhadas pelo Turunen de 1998 (de 25 anos) que dão um sentimento estranho para qualquer apreciador de "nerd culture", há fotonovelas nervosas das aventuras do Sr. Pinguim (um boneco azul feito por Turunen) a interagir com patos e com um cão (hilariante!), algumas bd's "minimalistas" de coelhos ninjas ou de contos tradicionais sobre ursos broncos,... enfim, mais de 400 páginas A6 de Arte e pura diversão.
O segundo caso é um livro agrafado A3 de 16 páginas a preto e branco que foi criado pelos - e serve para quem quiser ilustrar - distúrbios e desvaneios psico-acústicos de projectos musicais como sunn0))), Earth, Burzum, Wolf Eyes, Melvins entre outros "dronemeisters".
Existe uma narração feita de imagens de uma figura feminina (uma menina) a tocar um tambor intercaladas com outras imagens de dimensões bizarras e psicadélicas, daquelas que podiámos chamar de "zona negativa" ou algo assim - quem leu os desvaneios de um tal de Kirby sabe do que falo.
Cada batida, um novo universo?

aviso: irá demorar a colocação destes artigos na nossa loja virtual, por isso quem quiser entretanto comprar poderá fazê-lo pedindo pelo e-mail ccc@chilicomcarne.com. cada número da C'est bon custa 15€ e cada volume de Piracy is Liberation custa 10€ (c/ desconto de 20% aos sócios da CCC)

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Canicola numero cinque

Colectivo Canicola, Outono 2007

Número cinco desta revista italiana de bd de novas tendências editada por um colectivo de Bolonha de oito autores e uma "administrativa" - dos autores a única autora é a finlandesa Amanda Vähämäki que esteve alguns anos em Bolonha mas entretanto regressada a Helsínquia.
A colar o grupo está uma vontade abrasadora de contar histórias sobre "coisinhas da vida" - no melhor estilo de um Raymond Carver - mesmo quando a acção se passa em 2012 (Giacomo Monti) ou em universos oníricos (Amanda) sem aparente uniformidade de estilos gráficos, aliás, muito pelo contrário. Na Canicola os desenhos são todos díspares embora se possa encontrar alguns pontos em comum com alguns autores que seguem uma estética "free" em que usam a seu favor, o facto da impressão a preto e branco dos dias de hoje conseguir apanhar tão bem os cinzentos do lápis - relembro que a bd sempre teve um processo de produção que obrigava os autores a fazerem o desenho a lápis que depois seria "passado a preto" (ou a tinta) para ser reproduzido em revista/livro. Nos dias de hoje esse processo está a ser subvertido e os "canicolas" são uns dos muitos que encaminharam pelo "lápis directo".
Um número que volta à normalidade do número de páginas (o anterior foi um pequeno monstro com lombada brochada e tudo). É giro, só agora pensei que o formato grande (A4) é perfeito para que os desenhos respirarem...

Entretanto, no ano passado, foi editado o segundo livro "a solo" de um dos "Canicolas", nomeadamente, Andrea Bruno, autor que durante algum tempo era o autor mais conhecido do colectivo tendo chegado a ter trabalhos expostos no Salão Lisboa 2001 ou a publicar na francesa Amok. Brodo do niente é a compilação de uma história desenvolvida nos primeiros três números da revista.
Passado num futuro (ou presente?) possível numa situação de Guerra, pode lembrar Notes pour une histoire de guerre (Acts Sud BD; 2005) de Gipi pelo mesmo tema e pelo facto de ambos autores serem italianos. No entanto, as diferenças são muitas porque enquanto Gipi é clássico na narração (uma narração de fácil leitura para qualquer pessoa) e tem um tratamento gráfico limpo, Bruno tem um grafismo "sporcho", quase um "up-grade" virulento dos mestres argentinos como Muñoz ou Alberto Breccia (1919-1993), que dificulta o entendimento aos humanos comuns que gostam sempre de coisas fáceis e católicas.

Edições bilingues (italiano/inglês). À venda na shop da CCC (20% desconto para sócios). Atenção: os números 1 e 5 e o livro da Amanda Vähämäki já esgotaram junto dos editores.