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quarta-feira, 7 de maio de 2014

Mais cartas italo-suomis

Continuando a receber mais belos livros da Finlândia e da Itália, as surpresas continuam de livro a livro sem excepção, sem descanso!

Isä significa "pai" em finlandês e é o novo álbum de BD de Hanneriina Moisseinen - frases estas que banalizam completamente um livro sentido de quem o seu pai desapareceu numa noite. Diz a lei (na Finlândia) que só se considera alguém desaparecido como defunto após 10 anos do seu desaparecimento. Desparecimento significa que não existe corpo, significa que foi uma morte tão violenta que a natureza "comeu" o corpo ou pode significar que a pessoa não quer ser encontrada. É neste mórbido binómio que Moisseinen (e a mãe e a irmã) vivem durante 10 anos até que são "libertas" com a morte tornada oficial pelas competências legais. Usando grafite para um desenho realista e bordados para imagens simbólicas, este é uma BD de catarse, justamente o negativo de um livro como Visitez tous les pays recentemente aqui resenhado.
Editado o ano passado, este livro é pesado e austero que mostra que a Huuda Huuda ou as produções finlandesas não são apenas fogo-de-artíficio colorido e de experiências psicadélicas, como muitos pensam.


Com este Keitto Kirja / The Sauce Book (Huuda Huuda; 2013) de Lauri Mäkimurto fica provado que a importância e a influência de Kalervo Palsa (1947-1987) ainda está para ser calculada na BD finlandesa.
Eis um "comic-book" cheio de misantropia e depressão tão típica do norte da Europa. Procurando fotografias de Palsa e de Mäkimurto fico com a impressão que ambos têm ares psicóticos em que só espero que o destino do último não seja tão dramático como o do primeiro.
Lauri parece um eco de Kalervo que percorreu 30 anos até chegar até nós. Nesta BD não estamos em 2013 mas em 1983, tudo é bastante horrível e atrofiante, não há pontos de referência, só deserto humano e natural, morte e violência, sexo e bebedeiras sem sentido... O grafismo, estilo e tiques de Palsa (a corda para enforcamento, por exemplo) estão tão presentes que um leigo poderia ser enganado - e porque não? Que se saiba o Kiasma ainda não mostrou os tesouros em BD deste artista, quem garante que Lauri exista e não são BDs dos arquivos instituições a escorerrem cá pra fora com nome de outro tipo para não haver problemas com esta instituição de arte contemporânea? Como são poucos os finlandeses, é díficil de acreditar nesta tese, alguém saberia da verdade e iria-se bufar. É pena...

Seguimos para Itália - mais uma vez prá Canicola, claro, onde esta casa editorial faz alguns dos livros de BD mais bonitos da actualidade. Seja pelo design simples mas muito quente (dando juz ao nome da editora) seja pelo conteúdo. Dormire nel fango (2012) de Edo Chieregato (a) e Michelangelo Setola (d) reúne várias BDs publicadas anteriormente na revista Canicola... O aspecto anacrónico do desenho e das próprias narrativas tanto nos colocam num mundo que envoca uma nostalgia dos anos 70 ou 80 (a infância mágica e a juventude heróica submersa em referências Pop) como num mundo pós-apocalíptico, causando sempre uma sensação que estamos tão perdidos como as personagens destas BDs. Graficamente, estamos perante um desenho a grafite a lembrar a finlandesa Amanda Vähämäki - e isto nem sequer é uma especulação de quem quer sempre unir nomes de autores a outros porque ambos tem realmente semelhanças de estilo que até partilharam publicamante, lado a lado no livro-catálogo Souvlaki Circus (Buenaventura Press; 2008). Há livros urgentes de serem descobertos, este é daqueles... 

Por fim, mais um A3 da Canicola: Lontano (2013) de Gabriella Giandalli, autora com um trabalho reconhecido há umas boas duas décadas e que assina este magnífico e derradeiro manifesto da depressão. Lembra-me o álbum, não sei bem porquê, o disco Rembrandt Pussyhorse dos Butthole Surfers sem a histeria dos texanos, muito pelo contrário, tal é reconhecida a elegância desta artista.
Ainda assim há aqui uma melancolia de proporções cósmicas a beijar a Teoria do Caos que lembra-me esse disco. Cada pedacinho das coisas mais desinteressantes ou aparentemente importantes são coladas no transe desta má viagem chamada vida.
Algures no quarto do teenager deprimido vê-se um cartaz dos Pink Floyd - relativo ao Dark Side of The Moon - e por isso que associo esta BD a um psicadelismo existencial que o rigor gráfico, de tons cinzentos, não se deixa levar com os esquemas freaks habituais neste tipo de texto. Um colosso!

sábado, 29 de dezembro de 2007

Tunteiden Maisteri

Jarno Latva-Nikkola
(Huuda Huuda; 2007)

Um dos livros de bd mais hilariantes que 2007 pariu.
Jarno é um autor finlandês que usa a sua figura para nos enganar com um princípio pseudo-biográfico que ruma mortalmente para excentridades escatológicas: a namorada que lhe mete os cornos com um médico (ela atravessa a rua com o sinal vermelho para os peões de forma a ter acidentes e assim estar em contacto com o médico); um "Mestre de Emoções" que contas as aventuras da 2ª Guerra Mundial - como daquela vez que guardou o esperma de um camarada moribundo na boca para engravidar a noiva do camarada, sofrendo pelo processo sodomia de soldados russos entre outras situações gloriosas...
Jarno, ou o seu alter-ego, vive angustiado com a namorada, o facto de ela não querer ter filhos seus e passar a ter os estranhos "acidentes" leva Jarno a alguns comportamentos típicos da escandinávia como andar à porrada com estranhos (em Setembro de 2004, Jarno-autor convidou-me para irmos prá rua lutar) ou beber como um desalmado (em Setembro do ano passado, estive com Jarno-autor a beber até às tantas e a falar da porca da vida). O encontro com o tal "Mestre de Emoções" irá levar a acções inacreditáveis e que me recuso a revelar, só escrevo mais isto: Tunteiden Maisteri poderá agradar aos leitores de É sempre tarde demais (autoria deste vosso escriba) e do Sourball Prodigy de Mike Diana, se conseguirem imaginar tal fusão.
Escrito em finlandês, tem legendas em inglês no fundo das páginas.

sábado, 8 de janeiro de 2022

CRACKING de TOMMI MUSTURI até AMANHÃ na TINTA NOS NERVOS


 


Cracking  
Pintura, bandeiras e obra gráfica 
Tommi Musturi

A  Tinta nos Nervos apresenta um conjunto de trabalhos diversos do artista multifacetado finlandês Tommi Musturi (Ruovesi, 1975) que, nas duas últimas décadas, tem sido uma influente referência no seio de vários selos editoriais e gráficos independentes da Europa, e para além dela. Um artista multidisciplinar, tanto no campo das “belas artes” e das “populares”, trabalhando em imagem e som, como no campo editorial editorial através da Boing Being, da Huuda Huuda e da KutiKuti, Musturi é um nome celebrado.    

Em Portugal o seu trabalho tem sido apresentado sobretudo pela editora MMMNNNRRRG, que publicou, entre outros trabalhos curtos, os dois volumes da série Samuel Antologia da Mente, um livro que coligiu a produção de banda desenhada do autor de entre 1997 e 2017 em pequenas editoras, zines e outras peças.

A exposição patente na Tinta nos Nervos até o início de 2022 apresentará uma série de 15 pinturas e 3 bandeiras, todas datadas de 2019 e 2020, em tintas acrílicas e outros materiais, que mostram uma das práticas ou produções correntes do artista: uma permanente tensão entre o figurativo e o abstracto, entre as formas mais afectas a um certo imaginário popular da animação e banda desenhada e um movediço informe que parece dar conta daquele fundo inquieto de onde partem todas as formas (o reino das Madres de Goethe).   

A exposição incluirá ainda um conjunto alargado de múltiplos que remontam a 2012 e atravessam esta última década de trabalho. Será também projectado o episódio do projecto do realizador português Edgar Pêra, Cine Comics, dedicado a Tommi Musturi.    

Esta exposição conta com o apoio do Instituto Iberoamericano de Finlândia

sábado, 5 de novembro de 2011

O mundo é finlandês!


Para quem pensa que a BD ou os belos livros acontecem nos EUA, França ou Japão... A Huuda Huuda garante que não! É impressionante a vitalidade da bd finlandesa como provam alguns livros (que não conhecia) do Marko Turunen e Jirky Heikkinen. Bem que podem comemorar os 100 anos da bd finlandesa!

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Very Important Publishers


O húngaro Daniel Csordás foi ao Festival de Helsínquia e fez uma bd "reportagem" do evento - numa língua pouco acessível ao português médio - em que vamos encontrar algumas caras conhecidas como o David Schilter (da Estónia), Tommi Musturi - editor da Huuda Huuda e autor de Caminhando com Samuel -, Marcos Farrajota (de Futuro Primitivo na mão!) e Nuno Neves (participante no Mutate & Survive mas mais conhecido pelo projecto Serrote)... O Farrajota parece um "turku"...

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Kuvas e palavras da Sarja



O Festival de BD de Helsínquia já não é o que era... Ganhou potência mas perdeu o gozo... Assumiram-se como um projecto popular e comercial que monta uma tenda no centro da cidade fazendo claro que aumente o número de visitantes e consumidores. A questão é se afastou os mais interessados pela cena. Se os tarados do Cosplay fossem um bom indicador desta questão então a resposta seria positiva - não vi palhaços vestidos de Naruto. Só que também não vi Punks nem Freaks, ou então passavam despercebidos... Os zines foram parar a outra tenda mais pequena e de alguma forma, apesar da distância das tendas ser mínima (2 metros!) acho que os editores, autores e público não se misturaram.
A cena alternativa está consolidada via Huuda Huuda, Asema e jornal Kuti, parece que não vai aparecer um novo colectivo marado como aconteceu nos últimos 15 anos, é possível que a cena se cristalize e se institua - só para este evento foram lançados uns 3 "coffee-tables" sobre a cena finlandesa ou nórdica, esta última pela Fantagraphics. No meio desta demonstração de força, pergunto o que aconteceu à Napa Books que não estava presente e se há realmente novos talentos por estas terras.
De resto, vendeu-se bem... quer dizer vendemos mais cartazes do Futuro Primitivo e discos dos Kebabs que livros, coisa que não acontecia no passado, daí estas questões sobre "onde estão interessados" parecem-me pertinentes.



Seria injusto dizer que o Festival não deixa de ser um evento relaxado e divertido o suficiente. Por alguma razão a organização prepara a "Comics Battle" em que dois desenhadores têm 3 minutos para fazer um desenho e um minuto para destruir o desenho do oponente. Pelo facto do pivot do evento ser o Black Peider parecer um "wrestler" lembrei-me de saltar e lutar com o desenho do meu oponente. Ganhei claro! Não tive tanta sorte quando fiz amor com o segundo desenho e não fui às finais. O mundo está todo lixado, preferem violência ao amor... Não foi só eu que perdeu, foi também a Humanidade!



Nunca irei perceber porque uma exposição pensava há um ano foi tão mal divulgada pelos finlandeses. Não tenha sido por maldade - acho que os finlandeses são mais latinos do que parecem - tanto que se esforçaram na montagem (kiitos Joonas Lehtimäki!) e até pintaram o logotipo do Futuro Primitivo numa parede.
...
Kiitos oficiais a Kalle Hakolla e a equipa da Sociedade Finlandesa de BD. 
Fotos de Joana Pires.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

A Norte tudo de novo...


Como já tinha referido aqui, a autora alemã Anke Feuchtenberger criou com o seu marido Stefano Ricci uma editora, a Mami, onde têm publicado trabalhos seus e também de alunos da Faculdade de Hamburgo onde Anke ministra um curso de ilustração e bd. Sem grande informação na Internet - e sem tempo para grandes discursos - escrevo apenas que chegaram Ich weiß de Birgit Weyhe e CandieColouredClown de Jul Gordon, belas edições: boas encadernações, boa escolha de papel e trabalhos de bd com impacto à primeira vista. O problema é que é preciso saber alemão para poder apreciar a primeira e 50% da segunda (algumas bd's estão em inglês)...


S! (com uma "coisa-acento" no "s") é uma mini-revista que era o Kus (que também tinha algo no "s"), novo conceito para tempos de crise, ou seja, reduziu-se para um formato A5 super-simpático completamente a cores onde convivem autores nacionais (continuando a Anete Melece a ser a autora mais interessante) e estrangeiros como Emilie Östergren (Suécia), Henning Wagenbreth (Alemanha - alguém se lembra do Salão Lisboa 2003?), Bendik Kaltenborn (Noruega) ou Nicolene Louw (África do Sul)... Sairam dois números entre Outubro 2008 e Fevereiro 2009.



Passados 10 números e 12 anos de actividade editorial, Tommi Musturi - um dos muitos autores de bd da Finlândia com talento e voz própria - cansou-se de editar o Glömp, projecto que começou como zine e passou a antologia. Como explicou quando esteve , para se despedir do projecto tinha de fazer algo de especial daí que GlömpX (Huuda Huuda; 2009) seja um livro saudávelmente pretensioso, querendo ser um marco na história das antologias de bd - o editorial do livro não deixa dúvidas em relação a isso fazendo um breve resumo dessa história. Apresenta-se em capa dura, todo a cores, com um CD banda sonora (Fricara Pacchu, Amon Düde & The Hoppo, Kiiskinen e Nuslux), e sobretudo e o que importa, um conceito de querer publicar e expor "narrativas em três dimensões". Ou seja, fugindo do tradicional "lápis + caneta sobre papel" (embora também haja situações dessas em alguns trabalhos), criaram-se bd's plasticamente diferentes do tradicional. Por exemplo, Hanneriina Moisseinen fez uma bd em bordados. Na exposição é preciso entrar numa tenda para poder ler a dita cuja - como poderam ver os que visiram a exposição que esteve patente na Bedeteca de Lisboa. Katri Sipiläinen criou um ambiente-escultura com alguns bonecos, esse ambiente fotografado tem uma carga cinematográfica e dramática fortíssima depois de composto em páginas de bd. Outras bd's são interactivas como a de Roope Eronen cujas tiras de bd podem ser lidas de formas diferentes com um sistema rotativo de paralelepipedos numa caixa - no livro, o autor (e o editor) oferece a hipótese (remota) de destruirmos o livro para recriarmos esses paralelepidos. Talvez nem tudo o que é apresentado na exposição seja competente - claro que não poderia ser - mas comparando com um projecto idêntico do passado, o Zalão de Danda Besenhada, os finlandeses sobretudo não se esqueceram de uma coisa, a bd no final é sempre transmitida via livro ou papel. E é aqui que não há falhas, o GlömpX merece um glorioso epitáfio na História da BD.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Vieram todos do frio: Finlândia, Noruega, Lisboa... Lisboa?

Eis uma fornada de novos zines/livros que vieram da visita da CCC ao Festival de BD de Helsínquia, curiosamente todos eles pautados pela revisitação à infância e juventude.

A mais óbvia ou de relação mais directa é Death to Most (Boing Being) do Tommi Musturi que mostra que quando era puto já desenhava bizarrias virtuosas. Musturi resgata desenhos feitos entre 1986 e 1992 quando era um puto metálico e skater a viver na província finlandesa. Como é óbvio só poderia desenhar caveiras, demónios e "damas de ferro". A cor berrante - tão típica nas produções finlandesas - foi acrescentada para a edição deste mini-livro A6 de poucas páginas. Queriamos mais já que este ano não saiu a Glömp - a propósito o número 10 desta antologia sairá ainda este ano e servirá de catálogo para uma exposição de bd em três dimensões... Promessa feita de trazê-la a Lisboa para 2009. Cruzem os dedos!

Anna Sailamaa com Ollaan nätisti (Huuda Huuda) a infância é revisitada - por acaso é um tema do qual não tenho nenhum interesse seja em bd, literatura ou cinema. Apesar de tudo gostei de ver as distorções gráficas que a autora aplica no espaço e nas personagens criando um efeito "nostálgico" quando olhávamos para os adultos ou para os nossos pais e achávamos que eles eram enormes - as pessoas mais poderosas do mundo. Tirando as bd's de Chester Brown nunca tive interesse em bd's sobre a infãncia - acho que revelam fraqueza e falta de inspiração por parte do autor - mesmo assim este livro é interessante, novamente mais pela parte gráfica... Está escrito em finlandês mas com as legendas em inglês.

E se o finlandês consumiu demasiados desenhos animados pela TV, os noruegueses Kristoffer Kjolberg e Sindre Goksoyr leram demasiados "Tio Patinhas". E a piorar ainda tem uma obsessão doentia e inexplicável por Lisboa como se pode perceber pelo quatro zine dedicado a "Lisboa" em que o Gavião e o Prof. Pardal andam à bulha com a nossa capital como pano de fundo - um pano de fundo farçola e minimalista como as bd's Disney. Safety on Board (Dongery; 2008?) é um split-zine em que as bd's que se desenvolvem de um lado e do outro vai colidir nas páginas centrais. De um lado assistimos às acções do Gavião e do outro do Prof. Pardal, apesar de estarmos a assistir a uma bd de "continuação" pode-se ler com a independência sã de um oubapo. Escrito em inglês.

Experimental é o Jyrki Heikkinen com o seu novo livro (um deles, sairam mais mas só este é acessível para além dos 5 milhões de finlandeses e mais alguns conhecedores da língua suomi) Paparoad (Boing Being). Um livro horizontal que por pouco não se "parece com uma bd". Sem palavras, com desenhos que mudam de estilo/material de desenho/pintura, sem vinhetas clássicas podemos ser enganados a pensar que se trata antes de um livro de desenhos. O engano é tão legítimo como a qualidade e maturidade do trabalho.


E enquanto as fotos não são descarregadas, contas feitas e aquisições editoriais totalmente revisitadas (faltam dezenas de zines do Dongery e do Rui Tenreiro) podemos anunciar que já temos à venda o livro Nalle Uhh e que trouxemos também os últimos dois números do jornal "psico-berante-marado" Kuti que pode adquirido gratuitamente na compra de qualquer artigo finlandês ou com autores finlandeses no site da Chili Com Carne - a oferta é limitada ao stock existente - ou no caso do número 8 (imagem) por ser dedicada ao Trash, poderá ser oferecido na compra de qualquer bd Trash - as ofertas são acumulativas!

Para mais informações sobre o Kuti é só clicar aqui.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

PEQUENO é bom regressa! Aaron $hunga em Lisboa! (8ª sessão)




Aaron $hunga, autor de Aspiração Horrífica, vai estar em Lisboa, no BAR IRREAL, sobre o seu novo livro: DMV:  Jidousha Bumon.

Haverá uma conversa com este autor norte-americano e Marcos Farrajota (editor) no dia 12 de Outubro, às 21h30.




Aaron $hunga é Aaron Kaneshiro (1983) nascido em Honolulu, Havaí, onde se licenciou em desenho e pintura na Univerdade do Havaí. Trabalha e vive em São Francisco, como Chef privado.

Auto-publicou várias BDs como Aspiração Horrífica (2006) e Endless Night (2010). Fez alguns cartazes para bandas locais e a capa do álbum dos VEXX. Foi publicado em várias revistas como Beautiful Decay, Lodaçal Comix (Portugal), Happiness Salt HillAspiração Horrífica foi publicado em formato livro pela MMMNNNRRRG (em Portugal) e na Finlândia pela Huuda Huuda, em 2011. As últimas cópias deste livro estarão disponíveis no evento de dia 12. 

Actualmente, Kaneshiro está focado no seu novo livro, DMV: Jidousha Bumon, que segundo o autor é uma BD de acção, terror e artes marciais... depois das 3ª Guerra Mundial, a América cria uma zona para americanos exilados, o Departamento de Veículos Motorizados - Department of Motor Vehicles (DMV). Situada no sul do país é controlada por impiedosos  senhores da guerra. Fidge Conn, uma empresa chinesa, planeia tomar a região pela via militar.

O encontro com este autor será feito no dia 12 de Outubro, às 21h30 no Bar Irreal, Lisboa e será um "episódio-piloto" de retoma de um novo ciclo de programação do PEQUENO é bom! Evento da Chili Com Carne que existiu entre Abril e Novembro de 2010 na Casa da Achada / Centro Mário Dionísio foi um espaço mensal de encontros entre editores independentes. Saltando para 2017, é-nos impossível fazer esse esforço como as outras sessões do PEQUENO é bom!, no entanto devido à falta de investimento de visita de autores estrangeiros de BD independentes nos eventos oficiais (valia apontar os defeitos dos Festivais de BD de Beja e Amadora mas temos mais do que fazer) e noutras iniciativas privadas, achamos que seria saudável para a cena portuguesa ter pelo menos uma vez por ano um contacto mais intimista com artistas estrangeiros e as suas outras realidades. Em 2018 daremos novidades.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Cartas italo-suomis

Já tenho dito que têm sido nas periferias da Europa que se encontra a BD mais excitante neste milénio. Agora que há um excesso de ofertas de "graphic novels" nos EUA e França, ou seja, o fomato livro finalmente se adaptou à BD, em contrapartida há menos propostas de ruptura como aconteceu nos anos 90 com os catálogos da Fantagraphics, Drawn & Quarterly ou L'Association. É natural até que estas editoras que tanto lutaram e ainda lutam para que a BD não fique entregue à bicharada "bedófila", com a idade, apresentem autores ou obras menos radicais quando eram mais "novas".

Na última década, onde vi os livros mais belos e com o conteúdo mais interessante foi da Finlândia e da Itália. Do Norte vem muita BD experiemntal e de cores berrantes, do Sul, a preto e branco belíssimos a contarem histórias pujantes. Alguns dos projectos destes países sofreram também metamorfoses mas pelos vistos ainda têm muitas cartas para dar.




Começo pela Huuda Huuda, editora que agora é dirigida apenas pelo Tommi Musturi. Talvez ele tenha aproveitado restos de papel de outros livros para fazer estes dois de Aapo Rapi, que em inglês são intitulados de Log Cabin Man e Future Man. São dois tratados humorísticos a explicar como é ser artista na Finlândia no presente e bem... no futuro, com muito álcool, cigarros e o palavrão "Perkele!" na boca. Lembra o "nosso" José Smith por expor o ridículo do homem contemporâneo.




Advanced Offices & Humans de Roope Eronen mantêm a lógica do livro anterior, ou seja a inversão dos papeis no jogo de personagem (RPG) Dungeons & Dragons, invés de serem pessoas a jogarem um mundo de fantasia, são dragões que encarnam as personagens dos humanos em escritórios. Nesta "aventura" os humanos preparam uma proposta de aquisição de uma empresa alimentar com as situações típicas de rivalidade entre colegas ou andarem a jogar no computador às escondidas. Anexado ao livro está uma folha de características da personagem que parece um verdadeiro CV. Divertido como o livro anterior só é pena que as legendas em inglês tenham sido impressas numa cor de pouca leitura. Se o Tommi não tivesse sozinho nesta empresa, a sua cabeça iria rolar...

E o que dizer de um romance gráfico como Ukkometsola de Jarno Latva-Nikkola? Uma verdadeira provocação à cultura finlandesa? Ou é um disfarce de bons costumes? A história de três irmãos a quererem explorar uma quinta que produz leite de porco (!) poderia não aguentar mais do três páginas de BD mas o sacana do Jarno faz quase 200 de peripécias e dramas humanos que cativam qualquer um, talvez porque o desespero destes "agrónomos" finlandeses não deve ser tão diferente dos portugueses face ao mundo cada vez mais burocratizado, globalizado e mediático. Seja como for, é uma boa história de "white trash" que nos aquece sempre um pouco, delirante q.b. sem cair em humor fácil - apesar do tema ser logo absurdo. Jarno é uma caixa de surpresas como prova com este seu terceiro livro. Um autor que merece toda a atenção!



Da Canicola aparecem em gloriosos grandes formatos A3, os livros Roghi da italiana Anna Deflorian e Cani Selvaggi da finlandesa Amanda Vähämäki, que aliás foi uma das fundadoras da Canicola quando era revista de colectivo. Os dois livros mantêm o espírito do início do projecto desses tempos: narrações em ares insuportáveis de calor pós-apocalíptico, as quebras e aproximações das relações humanas, a inocência dos que nasceram depois do "grande trauma" e metáforas prás "coisinhas da vida". Enquanto que os desenhos de Amanda vivem todo o esplendor neste formato e além de que ela está cada vez mais livre e perfecionista com o uso de grafite, já Deflorian admito alguma relutância em gostar das suas matrafonas hipsters e o ar de fake vintage da coisa a lembrar algumas coisas da dupla Gigi i Gigi... Não deixa de impressionar ainda assim.

Por fim, e voltando para o Norte mas prá Estónia e num formato pequeno (o A6), na mesma colecção onde saiu o primeiro livro de Amanda Baeza encontramos a estreia na BD pela poetisa Tiina Lehikoinen com The Pernicious Kiss. O que se passa na Finlândia? Perceberam que a boa BD passa pela criação poética? Relembro Jyrki Heikinnen que também pela poesia antes de fazer BD... Tal como ele, Tiina não sucube à tentação da palavra substituir o desenho na BD mesmo quando estas são fortes e nos invoquem imagens, pois ela aprendeu a fazer desenhos que têm presença per se. De resto, estamos um pequeno ensaio surrealista caso se alguém se enamore por um namorado com uma cabeça de cavalo - o que se passa com os escritores que adoram contos com cavalos? Espera lá... o que se passa com as autoras de BD e cavalos!?

domingo, 30 de janeiro de 2011

Vergonhas suomi...


Jarno Markuksen Kauneimmat, de Jarno Latva-Nikkola ; Setit ja Partituurit - Häpeällisiä tarinoita (Sets and Scores - Shameful Stories), de Hanneriina Moisseinen
(Huuda Huuda; 2010)

Dois livros de autores finlandeses de banda desenhada que em comum têm a participação na Glömp X - antologia e exposião que esteve patente na Feira Laica / Bedeteca de Lisboa (2009) - e terem livros cujo o tema central é a vergonha. No caso de Moisseinen é mais do que assumido, pediu estórias reais de situações embaraçosas de pessoas nos seus quotidianos finlandeses - como o episódio na sauna, por exemplo, em que uma tipa apalpa, na brincadeira, as nádegas de outra pensando que era uma amiga... Esta autora é bem relembrada por ter feito uma bd com bordados (que estavam dentro de uma tenda), aqui ela volta a esta técnica mas só num episódio ou noutro. O resto é pintura que lembra de alguma forma "ilustração para a infância" que tem um travo naíf para além de ser meio "free" meio desleixado. Desilude para quem esperava aventuras gráficas tecidas a agulha e linha...
Já o novo livro do Jarno também desilude porque não é um livro de material novo como foi o excelente Tunteiden Maisteri, mas sim uma compilação de bd's curtas, complementado por alguns desenhos. Mas as mágoas ficam por aqui porque é um abuso de páginas e páginas, estórias e mais estórias de episódios autobiográficos manhosos como este (em que participei), auto-ficções e parvoíces mundanas misturadas com fantasia épica da aldeia. As desgraças das personagens são sentidas mas invés de seguirem um caminho emocional linear, a dada altura tudo descamba para o rídiculo. Rimos do melodrama, do engodo e da miséria, tal como Lars von Trier, Jarno obriga as suas personagens a serem plásticas para manipularem os leitores. Há também "migalhas de Crumb" em algumas bd's, diria mais do início da carreira de Jarno mas infelizmente por falta de créditos não sabemos datas nem onde foram publicadas estas bd's para chegar a essa conclusão. Perkele!
Ah! Sim os livros estão redigidos em finlandês mas há as sempre úteis legendas em inglês no final das páginas.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

A sul, a centro e a norte...

Recolha de resenhas rápidas de zines e livros adquiridos nos últimos tempos...


- Espanha: Entroñable (2012) - zine de BD de El Rucio que faz juz à estética satânica do selo da Petit Comité del Terror. Em 36 páginas A5 há espaço para serial-killers, mass-murderers, onanismo inter-dimensional, artsy-fartsies, metaleiros, zombies, barcelona bashing... O que é preciso mais? Nada! É mesmo isto!


- Itália: Mais duas experiências de "remix narrativo": Bio Edificio 421 (Lök; 2012) e o número 3 de Giuda : Geographical Institute of unconvencional Drawings Arts (Mirada; 2011). A primeira é um jogo narrativo composto por três tiras por página que podem ser folheadas cada uma à sua vez, criando várias hipóteses de ler histórias. Interessante. A segunda é uma revista de psico-geografia por onde passa o futuro da BD, em que Milwaukee é nova paisagem escolhida para recolher material gráfico e narrativo para criar um só texto. Quem está por detrás disto são alguns conhecidos nossos: Gianluca Costantini (Mutate & Survive), Elettra Stamboulis e cia. A seguir com muita atenção!!!
Ruggero passou por Lisboa e dedicou-lhe uma serigrafia impressa no Atelier Mike Goes West... Além de ilustrador também edita uns mini-zines, na essência uma colecção de A3 dobrados de forma a criar graphzines ou pequenas narrativas com imagens. Participa gente que cola, desenha e pinta. Giro! Nada de novo até o Geral & Derradé fizeram isso nos anos 90! Ah! o projecto chama-se Muservola Edizioni é de contactar ou fazer igual!

Passamos agora para a Europa Central:



Bélgica: Da parte flamenga, com uma actividade singular nos últimos anos, surge um jornal de desenho dirigido por Ward Zwart (que participou no esgotadíssimo MASSIVE). A preto e branco talvez porque se intitula Sans Soleil, este primeiro número é dedicado a desenhadores belgas / flamengos por causa do convite da Bélgica para o Festival de BD de Helsínquia... Era bom que os jornais fossem assim! OFERTA de exemplar a quem adquirir algo "belga" da nossa loja virtual - dicas: Mesinha de Cabeceira Popular #200!, Lointain, Rotkop,...




- Holanda: Já não é segredo nenhum que a MMMNNNRRRG irá editar um livro de Marcel Ruijters... Mas não será o Sine Qua Non (Forlaens; 2011) nem Colare Humanum Est (Le Garage L; 2011) será melhor... claro! O primeiro livro é uma edição dinamarquesa do livro que mudou o estilo de BD a Ruijters - alguns devem-se lembrar de alguns livros editados em Portugal pela Polvo, não? - originalmente editada pela prestigiada francesa L'An 2, apresenta-nos Marcel fascinado pelo imaginário medieval cheio d emonstros mitológicos e freiras borregas - como aliás, são todas as freiras... O segundo livro é um livro de colorir desse novo estilo gráfico de Marcel. Quem tiver preguiça para riscar livros que espere pelas serigrafias que serão impressas no atelier Mike Goes West (para sairem em Dezembro na próxima Laica e exposição do autor na Mundo Fantasma) que estas terão muita cor!


- Alemanha: A Bon Gout (para quem não se apercebeu mas era uma atelier de serigrafia, editora e galeria bastante reconhecida) mudou de nome e agora é chama-se Re:Surgo! e já começou a mostrar o que vale com o novo livro de Atak intitulado de Targets for the modern home. Trata-se de uma catálogo das centenas de desenhos de placas de alvos que Atak fez. Primeiro Atak fez uma pesquisa à iconografia destes objectos (algo que pode ser absurdo mas só o atak para descobrir uma grande história sobre estes objectos mundanos) e depois começou a produzir os seus próprios alvos que são certeiros à decadência do mundo moderno. Simples. Danke Lars Henkel

Por fim, o norte da Europa:



- Dinamarca ainda, Regression (Cult Pump; 2012) é um livro em serigrafia de Zven Balslev - autor já publicado em Portugal via Opuntia Books. Inclue BDs cuja ausência de figuras humanas lembra Kai Pfeiffer ou uma experiência oubapiana de Ilan Manouach - uma BD do Petzi-sem-o-Petzi... Um graphzine cheio de ectoplasma!



- Noruega: Embora Martin Ernstsen seja norueguês vive em Berlim mas acho que não há problemas em colocá-lo aqui, até porque o rapaz não pára quieto e viaja para montes de sítios. Este zine, You're talking with the wrong person #3 (2012), é uma compilação de BDs autobiográficas de Martin, nelas podemos encontrar episódios fabulosos como uma tipa que lhe compra uma t-shirt durante a SPX de Estocolmo, despe a velha (não tem soutien!) e veste a nova t-shirt em frente dele e no meio do evento... Só por isso vale o zine! HRMF! (2010) e Pfft! (2012) ambos pela Dongery com BDs de Sindre Goksøyr são mini-zines que o universo Disney é abusado para contar histórias mal-humoradas de caminho à andropausa, como se o Tio Patinhas invés de ser um porco capitalista fosse apenas um mitra de classe média. A miséria humana antropomorfizada em patos é linda!



- Suécia : Novo volume de Piracy Is Liberation : Book 011 : Demockracy (Wormgod; 2012) de Mattias Elftorp - que deve voltar à Feira Laica este ano! - começa um novo ciclo desta série anarco-cyberpunk, desta vez fazendo um raíde à Democracia numa altura que em Portugal as chamas já chegaram à Assembleia... Oportuna leitura! Dois novos zines impressos em risografia do novo e activo colectivo Peow!: Nava de Mikael Lopez (a) e Olle Forsslöf (d) é o ínício de uma série com laivos místicos, parece mais um preview que outra coisa... e Sex Frog de Patrick Crotty apresenta duas histórias de terror - o título da publicação ajuda a lubrificar a líbido, não? - que consegue ter uns contornos de Ero Guro não tão selvagens como os do Suehiro Maruo ou do Aaron $hunga mas com uma abordagem própria - como se a treta da escola sueca autobiográfica went wrong! 



- Finlândia: Finalmente um livro de Jyrki Heikkinen com legendas em inglês para percebermos alguma coisa! Leijonan Veri Velvoittaa (Asema; 2012) é um pequeno livro que Jyrki sempre em forma. Escultor e Poeta por formação, faz BD por desvio mas os três "mediuns" fundem-se sem problemas para contar percursos de arrependidos, anjos e milagres. Essêncial para quem perdeu esperança na poesia e na BD! Outro ponto alto das novidades finlandesas é Offices & Humans : Road to Customex (Huuda Huuda; 2012) de Roope Eronen, que inverte os papeis no jogo de personagem (RPG) Dungeons & Dragons... Invés de de "nerds" a jogarem em mundo de fantasia, são os dragões que encarnam as personagens dos humanos em escritórios com toda a decadência mundana que tal implica: fotocopiar CVs às escondidas na empresa, ver pornografia na 'net, etc... Mais do que hilariante é mesmo preocupante! Thingie (Daada Books; 2012) de Marko Turunen (entretanto com originais patentes na exposição da "autobiografia" na BD Amadora) e Tea Tauriainen (entretanto publicada no recém lançado Mesinha de Cabeceira #23) é a continuação estética das "Tijuanas Bibles" ou dos Air Pirates que gozam com as personagens da Disney pondo-os a foder como uns animais - espera, as personagens Disney já são animais... -  a cagarem-se todos e toda a escalologia que os porcos capitalistas da empresa nunca nos deixarão ver oficialmente. Por isso, é aqui que se pode concretizar muitos sonhos de criança e de "nerd"...